História de Ouro Preto, Recortes e Detalhes, Alex Bohrer

O TEATRO OUROPRETANO

por Alex Bohrer

Caros leitores, foi com alegria que recebi o convite para assinar essa coluna. De início, apresentarei trechos selecionados e editados do meu livro “Ouro Preto – um novo olhar”, depois, gradualmente, partes de outras publicações e pesquisas. Começarei pelo histórico de um símbolo arquitetônico e cultural da antiga Vila Rica: seu célebre teatro.

Teatro de Ouro Preto, Casa da Ópera

Vem de longa data o gosto lusitano pelo teatro. Nas Minas Gerais, os mais antigos registros sobre atividades lúdicas datam de 1726, quando, em Vila Rica, se apresentaram comédias por ocasião do casamento dos príncipes portugueses. Em 1733, nos pomposos festejos do Triunfo Eucarístico, foi montado um tablado junto à nova Matriz do Pilar para encenação de três peças de Calderón de la Barca. Contudo, estes dois exemplos (como tantos outros), não passaram de acontecimentos esporádicos, organizados sobre armações efêmeras, improvisadas. Afonso Ávila supõe que entre 1737 e 1740 existiu uma primitiva casa de espetáculos em Vila Rica – mas dela não restaram vestígios.

A atual Casa da Ópera de Ouro Preto é fruto do empreendedorismo do Contratador dos Reais Quintos e Entradas, o Coronel João de Sousa Lobo, sob os auspícios de quem foi inaugurada a 6 de junho de 1770, aniversário de Dom José I, El Rei. Foram entusiásticos apoiadores do projeto o poeta Cláudio Manuel da Costa e o governador – Conde de Valadares – para quem Cláudio dedicou um drama musicado: o Parnaso Obsequioso. Escolheu-se como local da edificação, terreno íngreme que, ao feitio de anfiteatro natural, bem à moda dos gregos, serviu para instalação do palco e camarotes. Este fato proporcionou, essencialmente, a aparência que sua fachada conserva até hoje: pavimento único, com frontão triangular simples, de dimensões mirradas perto da sua vizinha Igreja do Carmo.

Há uma interessante relação de contribuintes/assinantes datada de 1772, onde se registram nomes de vulto, pessoas de altas patentes militares, magistrados, intendentes e letrados (entre os quais, o mesmo Cláudio Manoel da Costa). Entre 1772 e 1775, Sousa Lobo dedicou incansável serviço ao seu teatro, agenciando vários atores em Sabará e no Tejuco, encomendando peças em Lisboa e mandando compor outras. Homem de visão, se jactou certa vez por ter inserido na sua Casa da Ópera atrizes, em vez de homens travestidos, que, via de regra, representavam papéis femininos. Depois da morte de seu fundador, em 1778, o teatro vilarriquenho passou por períodos turbulentos, alternando momentos de glória e malogro.

Somente pela segunda década do século XIX, a Casa da Ópera recuperaria seu fausto inicial, conforme se depreende das várias verbas repassadas pelo Poder Público. Por esta época, pelo menos uma peça era encenada por semana, sendo assistida, então, por alguns ilustres viajantes estrangeiros (como Saint-Hilaire, Luccock, Freyress, Mawe, Johann Pohl, Spix e Martius etc). Durante o século XIX o hábito de assistir encenações lúdicas tomou força entre os ouro-pretanos, tanto que a Lei n° 668, de 18 de maio de 1854, previu a construção de outro teatro, em lugar mais condigno. Como a obra exigia grandes despesas, o governo provincial decidiu-se por subsidiar a Sociedade Dramática local – que havia tomado para si a árdua tarefa de reformar a já quase centenária Casa da Ópera. A obra, concluída no ano de 1862, alterou bastante a estrutura física do teatro (data desta época, por exemplo, as colunas de ferro que servem de sustentáculo aos camarotes).

Poucos anos antes da mudança da capital, ainda se ventilaria a ideia de se construir um novo e espaçoso teatro, ideia, todavia, que nunca se concluiu, e que, por isso, conservou para a posteridade o velho teatro ouro-pretano, tido como o mais antigo do gênero existente na América do Sul.


Alex Fernandes Bohrer é historiador e escritor


Publicado no ouropretocultural em outubro de 2017

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