Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Mauro Werkema

MAURO WERKEMA é jornalista profissional desde 1968. Começou como repórter no Diário de Minas (1963/65) e trabalhou na Rádio Inconfidência (1966/76), TV Globo (1969/74) e Estado de Minas (1969/98). No Estado de Minas, onde trabalhou 28 anos, exerceu as funções de repórter, noticiarista, redator, editorialista, editorial setorial e editor-chefe. Foi diretor do Sindicato e da Casa do Jornalista de MG. Foi Diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) de Ouro Preto (1987) e do Estado de Minas Gerais (1987/88). Secretário Municipal de Cultura e Turismo de Ouro Preto (1993/97). Presidente da Belotur (empresa de turismo da Prefeitura de Belo Horizonte) na gestão do prefeito Célio de Castro (1997/98). Instalou e presidiu o Conselho Municipal de Turismo (1997 e 1998). Foi presidente da Fundação Clóvis Salgado (FCS). Trabalha com elaboração de textos, pesquisas e montagem de projetos nas área de Cultura, Turismo e Marketing. É autor do livro “História, arte e sonho na formação de Minas Gerais”, lançado em junho de 2010, que trata das interrelações entre Cultura e Turismo em Minas. Foi presidente da Belotur até novembro de 2015.


BENÉ DA FLAUTA

Bené da Flauta
Bené da Flauta no Museu do Inferno em Ouro Preto. Fotografia: Dimas Guedes
Assim sim, assim também não”. A frase de Bené da Flauta, figura popular de Ouro Preto e que hoje dá nome ao restaurante do Felipe Passos, nos deixa pensando. Afinal, o que quer dizer? No primeiro momento, pensamos: é uma recomendação ao comedimento. Quer dizer que é possível, mas com limites. Num segundo tempo, começamos a achar que tudo dá para fazer mas cuidado pois  também  pode não dar. Ou, simplesmente, na cabeça do nosso Bené, já confusa, ora uma coisa podia ora não podia e esta dança lhe recomendava a prudência do sim e do não, simultâneos. De qualquer maneira,  a frase é bem mineira, revela traço de caracterização da personalidade do mineiro que, concordam os eruditos, é  centrista, equilibrista,  comedido, que pesa os dois lados, é cauteloso,   deixa  como está  para ver como é que fica.
Os arquétipos do mineiro já mereceram ensaios eruditos. Contra e a favor. Ora como meritórios, sábios, espertos, ora como velhacaria, oportunismo. Mas continua um desafio decifrar o mineiro, revelar o seu enigma, como diziam Guimarães Rosa, Carlos Drummond  e muitos outros.
Sílvio de Vasconcelos, no seu “Mineiridade”,  fez análise detalhada. Apontou vários traços do caráter mineiro. Bicho sabido, desconfiado, falando pouco mas prestando atenção, traços do minerador. Mas também audacioso, aventureiro, político, cuidadoso como deve ser o homem da montanha. Libertário e político, conspirador, heranças do jugo colonial português. Avarento, austero, esconde o ouro e o veio, falsamente humilde, despista a grande vaidade. É centrista, até porque Minas é central e mediterrânea no mapa brasileiro. E por aí vai. Já  Tristão de Ataíde, no seu “Voz de Minas”, faz análise sociológica, identifica os traços herdados do municipalismo, do ruralismo, da intensa religiosidade setecentista,  no pragmatismo político, a vocação para as artes, tudo isto originário do início da civilização mineira, nas cidades históricas, no princípio do Século XVIII.
Já Maria Arminda Arruda, no seu “Mitologia da Mineiridade”, numa outra vertente, mais paulista, diz que a pretensa “mineiridade” não passa de uma criação  da elite ilustrada do Século XX, historiadores, sociólogos, políticos mineiros, na tentativa bem sucedida de exaltar a terra mineira e sua gente. Não nega certas singularidades da personalidade mineira, identificadas em vários episódios da formação da nacionalidade brasileira, mas não as vê como propaga “o imaginário” construído pelos próprios mineiros. A contestação aos mineiros e,   sobretudo, aos ícones de Minas, como Aleijadinho, Tiradentes e o Barroco Mineiro, têm em certa intelectualidade paulista um ostensivo grupo de adeptos. Chegaram a negar  a existência de Aleijadinho (com apoio de dois historiadores mineiros, Augusto de Lima Júnior e Waldemar de Almeida Barbosa), que consideram uma invenção do grupo de  modernistas mineiros agrupados no IPHAN,  criado em 1937, liderados pelo mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade e pelo também mineiro ministro da Educação e da Cultura de Getúlio, Gustavo Capanema. O valor humano e heróico de Tiradentes é minimizado,  reduzido a produto  da “propaganda republicana” no momento em que o Brasil precisa de um herói (basta ver “Tiradentes; o corpo do herói”, de Maria Alice Milliet). E o Barroco Mineiro seria mero artesanato sem maior valor. Cabe aqui a saberia de Bené: “Assim também não”.
Mas voltemos a Bené e Ouro Preto: bastante adaptados, circulam pelas ruas de Ouro Preto muitos doidos. Pobres, ricos, doutores, professores. Alguns realmente dementes, diagnosticados, mas sempre mansos. Simpáticos, figuras públicas, até exaltadas e respeitadas, como o próprio Bené, Dona Olímpia, Pé de Rodo ou o Angu. Outros, a absoluta maioria, são esquizóides, limítrofes, de vez em quando rateiam, perdem o curso do pensamento, desviam-se. Há os que, nem tanto doidos, esforçam-se por serem personagens de si mesmos.  Nesta mescla,  não há  raiz social  que poderia explicar a excepcionalidade comportamental: no rol dos doidos estão também  gente da melhor posição social, profissionais liberais, empresários, políticos, artistas, donos de restaurantes e religiosos. Nativos ou ouropretanos adotivos. Misturam-se na  rica diversidade humana, até certo ponto comum no tecido social de cidades turísticas. E estão adaptados, de maneira ora  trágica ora pitoresca, aos turistas, estudantes, brasileiros e estrangeiros, boêmios, artistas, tudo muito festivo. Estão todos em cena, no teatro da vida,  num palco em que o casario conurbado é o cenário real. O fotógrafo Dimas Guedes possui,  em parede de sua casa, raras fotos de todos estes personagens, em  exótica e expressiva galeria da loucura ouropretana.
Às vezes complica. Loucuras excessivas e persistentes.  Mas é também a riqueza da cidade. Permite vivências e intimismos. E até a criatividade.  É democrático mesmo quando o monólogo é geral. E as causas? Seria a herança do barroquismo, que  se manifesta muito cedo em Vila Rica, como mostra o Triunfo Eucarístico de 1733? Ou uma característica comum às cidades históricas, com seu traçado medieval,  que permite a proximidade humana, estreita o choque entre o moderno e o antigo? E que naturalmente atrai os doidos, abundantes nos fazeres artísticos e nos estados alterados de consciência. Ou, a loucura seria proveniente de perda de identidade, com seqüelas antropológicas capazes de dançar  cabeças por falta de localização histórica,  cultural e humana? Existem exemplos de loucuras coletivas de sociedades e até nações, gerando extremismos, condutas exóticas, perda de rumo.
Mas há também quem defenda a idéia de que são muitos os espíritos a povoar as ruas de Ouro Preto. Muitos fantasmas, alguns tricentenários,  almas ainda penando, vítimas de muitos traumas e  sofrimentos, alguns famosos, outros escravos sem nome, perturbando a cabeça dos sensitivos. E existem os vivos também, presentes em momentos e lugares furtivos, nos becos e porões, nas sombras, cruzando esquinas, fugindo das luzes dos lampiões, e busca de refúgio e consolo. E o barroco dos altares e retábulos? Estilo da profusão de ornatos, assimétrico, teatral, lúdico, confuso premeditadamente, para recapturar a mente atormentada do homem cada vez mais  descrente das coisas do céu? E os traumas? A Inconfidência, por exemplo, espalhou o terror, medo de denúncia por simples palavras. Até hoje, alguns falam no pé do ouvido, conversam só por inferência e acham que reunião de mais de três é perigosa.
Não se sabe se Bené da Flauta estava avisado de tudo isto. Mas certamente aprendeu na dura luta pela sobrevivência, nas ruas de Ouro Preto, esta sabedoria. Tudo é possível mas nem sempre. Há limites e jeitos. Afinal, viver é uma arte, composta de sucessivos momentos e configurações. É bom mas nem tudo. Pode ser triste e alegre, até nas “pequenas inutilidades” capazes de nos deixar “deverazmente apreciados”, se efetivamente soubermos medir onde começa o sim e até onde ele vai para então começar o não.

Estórias de Mauro Werkema

Ciro Gomes em Ouro Preto – A oportunidade fez o Centro de Convenções

No início de 1994, eu era o Secretário Municipal de Cultura e Turismo de Ouro Preto e o Angelo Oswaldo era o prefeito da cidade. Verificamos que precisávamos ter um Centro de Convenções em Ouro Preto, já que não tinha como fazer um congresso acima de 500 pessoas, não tinha auditório direito para isso. Era um momento no turismo brasileiro com ênfase no turismo de eventos e negócios. Além disso, o turismo aqui é passageiro. As pessoas chegam de manhã e vão embora a tarde. Andamos por aí e descobrimos o Parque Metalúrgico da Escola de Minas, que na verdade era a oficina mecânica da ferrovia. Aquelas duas casas da reitoria eram do engenheiro chefe residente da Estrada de Ferro Pedro II. Dom Pedro II veio a Ouro Preto por duas vezes, 1881 e 1889 para inaugura a estrada de ferro que saia de Miguel Burnier, passava aqui em Ouro Preto, Mariana e Ponte Nova. Por volta de 1944, quando Getúlio Vargas esteve aqui para inaugurar o Museu da Inconfidência, ele recebeu um grande número de professores da Escola de Minas que queriam se mudar para Belo Horizonte, “Os Mudancistas”, porque não tinham condições de se fazer nada aqui na área de mineração e metalurgia. Ele então deu aquelas oficinas com o forno experimental para eles. Como estava tudo desativado, negociamos com a Escola de Minas, com grave resistência. O reitor era o Renato Godinho na época, em seguida o Dirceu Nascimento, que nos ajudou muito, mas não tínhamos dinheiro. Conseguimos um pouco com o presidente do Sebrae, contratamos o Jorge Norman para fazer o projeto. Em dezembro de 1994, aconteceu em Ouro Preto o encontro de Mercosul, com a presença dos presidentes latino-americanos. Estava aqui o Ciro Gomes, que era ministro da Fazenda do Itamar Franco. Soubemos que depois do evento ele não tinha ido embora, que havia ficado aqui na república Penitenciária, namorando escondido uma geóloga muito bonita, americana, que estava fazendo pós-graduação. Fomos até lá com um grupo grande e ele nos recebeu muito bem e conseguimos R$2 milhões para iniciarmos a obra. Hoje o Centro de Convenções é um belíssimo lugar com auditórios, salas moduladas. Mas temo que tenha virado um auditório ruim da UFOP.

Os “Bundas de Fora”- A irreverência dos estudantes de Ouro Preto

Em 1992, quando fui Secretário de Cultura e Turismo de Ouro Preto trazia o compromisso de restaurar culturalmente a cidade e uma das coisas fundamentais era ter um calendário religioso, litúrgico. Verificamos que padre Simões era brigado com padre Zé das Mercês. E padre Simões nos contou que, quando passava a procissão com o Jesus morto, a banda em ritmo fúnebre, os botecos não fechavam as portas e, além disso, tinha as repúblicas e os estudantes que não respeitavam a liturgia. Era o ano da paróquia do Antônio Dias realizar a procissão. Reuni a Irmandade na Casa de Gonzaga. Falei que precisávamos reestabelecer a liturgia, as procissões, a troca de santos, pois era uma coisa que Ouro Preto sempre realizava e sempre ficava maravilhosa. Um sujeito da ordem, depois que fiz o discurso, perguntou: “E o problema do bundão? ”. Achei uma conversa esquisita. E ele contou que os estudantes da Rua Direita, onde havia duas repúblicas, faziam os calouros colocar a bunda de fora, na janela, enquanto a procissão passava. Falei com o Angelo e ele chamou Sérgio Queiroz, que era Secretário de Obras, e o capitão Guimarães, comandante da Polícia Militar e falou assim: “Você arruma um soldado e coloca um cabo de vassoura na mão dele, a primeira bunda que aparecer você desce o porrete. E falem com as repúblicas que se eles fizerem isso nós vamos cortar a água deles.” No primeiro e segundo ano nós conseguimos, depois acho que esculhambou tudo novamente.