Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

PAULO LEITOR é escritor e editor, publicará aqui uma série de contos tendo Ouro Preto sempre como cenário extraordinário.

A árvore eletrônica

Ouro Preto é uma cidade extraordinariamente bonita,  e muito misteriosa, principalmente se você morar por mais de dez anos aqui. Existem muitos segredos desnecessários mas mantidos por pessoas desconfiadas. Todos acreditam que sejam histórias que podem desmerecer pessoas e famílias inteiras  e que por isso permanecem veladas. Por isso, a custa de muito sofrimento, as pessoas vão criando uma couraça de indiferença e de antolhos, para tudo que é externo, e só se permite ver o que está imediatamente à frente, o resto não interessa, não é daqui, e seguem vivendo.

Mas o mais interessante é que existem muitos  pequenos grupos, ocultos ou não, com os mais variados fins e até com rivalidades, que só seus membros sabem a razão— Por exemplo, os aficionados da banda de música Santa Cecília não querem nem saber dos músicos da Banda do morro de São João; os devotos de São José não se interessam pela irmandade de Santo Antonio, e todos tocam a vida considerando estas questões como da maior importância.

Existem também Sociedades secretas de poucos membros e que permanecem assim, secretas, por décadas e se desfazem e se reagrupam de outras formas para discutir de tudo, mas secretamente. Para se ter uma ideia, uma cidade com pouco mais de 40 000 habitantes(na sede) existem 3 lojas da Maçonaria, quase secretas.

Outro dia fui convidado para participar de uma destas sociedades. O amigo que me convidou me explicou que havia uma razão especial para eu ser convidado. Ele disse que me daria algumas informações gerais e, se eu me interessasse, todos os membros ficariam felizes com minha participação, já que teria havido uma proposta anterior, uma votação, e meu nome foi aceito como convidado. Eu quis saber, com muito tato para não magoar meu amigo, que tipo de sociedade era, pois não estava interessado em entrar para mais nada complicado nesta vida.

Ele compreendeu meu ponto de vista e me disse que o grupo era composto por professores da Universidade local, todos eles  engenheiros, mestres e com doutorado, e alguns com pós-doutorado, nas principais Universidades  da Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos, Itália e Canadá. “Só engenheiros?”, sim, ele respondeu, e todos interessados em pesquisa avançada. E acrescentou rápido, nada de ativismo político e zero de religião. “É , assim dá para arriscar”, pensei, mas resolvi me assegurar mais. “Tenho que frequentar sempre? E tenho que contribuir com alguma quantia?”. Meu amigo riu e disse que não, eu seria um convidado, mesmo porque, nem engenheiro eu sou e aquela era uma sociedade secreta só de graduados em qualquer das engenharias. Assegurado, aceitei ir, marcamos dia, hora e local.

A curiosidade estava me provocando, assim, cheguei bem na hora. O local é até conhecido, é a sede de outra entidade pública e conhecida na cidade, o que me deixou mais tranquilo. E, surpresa! Logo que entrei vi que conhecia quase todos os presentes, todos me cumprimentavam sorrindo  e já me levaram para uma ampla cozinha onde  um conhecido  já estava preparando alguma coisa para se comer, e cheirava bem. Ofereceram cerveja, vinho e uma “cachacinha”. Agradeci. Não queria ficar alterado num lugar desses logo no primeiro dia. Falava-se de tudo e até reatei conversas anteriores com alguns dos participantes, pois já nos conhecíamos de longa data e outros assuntos. E ninguém falava nada da sociedade e nem a razão de eu estar ali, agoniado.

Passadas quase 2 horas, de conversas paralelas, comidas e bebidas, por fim nos reunimos todos, naturalmente, na  grande sala. E sem mais nem menos um dos convivas tocou a borda do copo chamando a atenção, todas as conversas cessaram e todos se sentaram. Eram 13 pessoas da sociedade e eu.

O meu amigo, aquele que me convidou, começou então a falar, dirigindo-se a mim: “Acho que você deve conhecer todas as pessoas desta sala e todos já sabem quem é você, agora vamos lhe explicar porque o convidamos aqui hoje. Somos todos engenheiros interessados em pesquisa. Além do fato de darmos aulas, e os afazeres da Universidade, nos interessamos por estudar e conhecer além do que somos  contratados para fazer e esse interesse nos reuniu. A mais de 8 anos, acabamos por nos organizar  como uma sociedade para apoiarmos  uns aos outros e trocar informações. Encontramo-nos aqui regularmente  para discutir nossas descobertas   e nos ajudar com informações e contatos de todos os níveis. São  várias as linhas de pesquisas que perseguimos e todos participam de tudo como podem. Uma das nossas pesquisas está num momento muito interessante, precisamos discutir  e decidir se está na hora de divulgarmos o que descobrimos ou se devemos esperar um pouco mais. No meio de nossas discussões surgiu a ideia de mostrarmos esta pesquisa em particular para um leigo, bem intencionado e bem informado, para que a partir da reação dele e suas considerações possamos melhor decidir o que fazer a seguir. Discutimos alguns nomes e o seu acabou por ser um consenso. Queremos pedir-lhe  que ouça com atenção e faça as perguntas desejadas, a única coisa que lhe pedimos é  não comentar nada do apresentado  aqui hoje até  todos estarmos de acordo para divulgar. Podemos contar com sua discrição?”

“sim, podem contar com isso”. Foi minha resposta imediata. E o meu amigo continuou: “então vou passar a palavra ao nosso irmão Herman que vai lhe explicar do que se trata.”

O Engenheiro Herman começou por dizer-me que falaria na linguagem mais simples e da maneira mais coloquial e sucinta possível, sem entrar em detalhes técnicos, pois considerava que estava, ele mesmo, fazendo um treinamento para explicar o  trabalho para leigos, posteriormente. Se eu tivesse alguma duvida deveria interromper  e perguntar sem hesitação.  E prosseguiu:

“Há 7 anos”, fazendo  meu doutorado na Alemanha, eu  soube de pesquisa, desenvolvida naquela universidade, envolvendo a análise do solo por eletrodos inseridos na terra, os dados obtidos eram compilados e enviados para um computador que de posse de um software lia e informava a composição daquele solo.

Logo que eu voltei para o Brasil fiquei imaginando, por meses, o quanto aquilo poderia ser interessante e fui montando uma ideia. Hoje aquelas primeiras especulações iniciais estão extremamente avançadas, com a ajuda dos mais importantes centros de alta tecnologia do mundo, cada um dando uma pequena contribuição. Naquele momento montei um projeto modular e fui desenvolvendo cada parte com um centro de pesquisa independente de tal forma que só eu, e a nossa sociedade, temos toda a pesquisa completa. O dinheiro para o desenvolvimento também veio de diferentes fontes e cada uma cooperou com uma parte dos gastos até aqui. E recebeu dados de pesquisa em troca.

O que temos hoje em protótipo é o seguinte:

Um equipamento  que consiste numa haste retangular de 1,68 metros de altura, com uma base de 1 metro quadrado. No topo da haste existem 4 hastes, oblongas, uma em cada face do retângulo, cada uma com 33,6 centímetros de comprimento, todo o comprimento destas hastes está coberto por minúsculas células fotovoltaicas que captam a luz solar, dentre estas células existem poros que captam água da chuva,  sereno noturno e umidade do ar. O formato oblongo serve para facilitar estas captações.

Na parte inferior da base existe uma centena de minúsculos tubos, dotados de sensores, que tem a função de captar os elementos químicos existentes naquele solo. Os dados coletados são levados até um micro computador existente dento do corpo da haste. Este computador é abastecido de energia por baterias especiais que são carregadas pelas células fotovoltaicas. Ele possui também um avançado software que recebendo os dados dos sensores armazena a informação dos elementos contidos no solo e a sua probabilidade de ocorrência.

Até aqui você deve perceber que se parece com uma configuração conhecida. Todos os colegas aqui resolveram chamar a haste, a contra gosto meu, de “Árvore Eletrônica”.  Ou Eletronic Tree, ou ET. Porque ela capta os elementos do solo e os processa em seu corpo, para produzir um fruto, semelhante a uma árvore.

Mas ficamos insatisfeitos com o resultado até este ponto e resolvemos  ir mais em frente. Eu soube que na Inglaterra alguns colegas estavam levantando o genoma de várias plantas, dentre elas a do rabanete. Interessou-me porque  é uma planta simples, com altíssima quantidade de água  em sua composição que, em se plantando em boa terra, uma semente germina rapidamente e em 25 dias já se tem um produto para consumo.

A ideia que tive foi juntar os dois bancos de dados: de um lado todos os principais elementos químicos existentes no solo e de outro a sequência de proteínas necessárias para se compor um produto. O desafio foi criar softwares que juntasse, através de Inteligência Artificial, os dois conjuntos de dados e depois um terceiro software executivo que  pudesse construir o produto desejado. Para isso criamos uma bolsa de produto gelatinoso que através de um pedúnculo recebe as proteínas, água e sais minerais nas quantidades e na sequência certa.

O resultado,  depois de 3 anos, foi conseguirmos pela primeira vez na história da Humanidade criar artificialmente um produto que só a natureza poderia fazer. E na nossa última experiência o equipamento levou 63 horas e dezessete minutos para fazer um rabanete perfeito, com 5 cm de diâmetro e pesando 123 g.”

Quando ele acabou de falar eu estava de olhos arregalados, com o coração disparado e percebi os 13 pares de olhos fixamente colocados em mim. Houve um silêncio longo. Eu não sabia o que dizer!

O amigo que havia me convidado para aquela reunião percebeu meu embaraço e quis fazer piada, dizendo “ veja só, companheiro, daqui a pouco não será mais necessário planta, nem mato para nada”, basta colocar uma ET no chão”, e riu às gargalhadas. Logo outro comentou “é mesmo, também não será necessário minhoca”!  outro acrescentou “nem inseto, bichos”, “será uma plantação limpa, perfeita e rápida”…

Despedi-me deles e fui embora. Atordoado. Não parava de pensar… Que mundo estranho, não precisaria mais de abelhas… passarinhos. Acho que tem certas coisas é melhor não ficar sabendo! Devem permanecer secretas. Será que eu ouvi mesmo aquilo?

Ao chegar em casa encontrei minha mulher e minha filha e lhes contei tudo de uma vez. Ao terminar, as observações  de minha mulher: “Que coisa fantástica! Você já pensou que no futuro ninguém morrerá de fome, como será fácil produzir alimentos limpos, puros”… Minha filha interrompeu-a com veemência: Pai, isso é um absurdo, estas pessoas tem que ser detidas agora. Você não vê? Árvore eletrônica?!Elas ultrapassaram todos os limites!

 


 

Escravo Voluntário

Anúncio publicado em jornal de  circulação na região de Ouro Preto:

“OFEREÇO-ME COMO ESCRAVO”

“Homem, 41 anos, saudável, solteiro, sem filhos, sem parentes próximos, com grau de instrução secundário, oferece-se como escravo em troca de comida e casa. Abro mão de documentos pessoais e assino qualquer termo de isenção de responsabilidade do meu provável senhor. Sem qualquer tipo de pendência judicial, serei obediente e não reclamarei de nada, farei tudo que o meu dono mandar. Não sou louco e não se trata de nenhum tipo de perversão sexual. Sou heterossexual, mas não usarei desta ou de qualquer prerrogativa sem autorização de meu dono. Não me interesso mais por supostos direitos de cidadão que, embora possam existir, nunca foram capazes de socorrer-me em minhas necessidades básicas, sem me causar grandes humilhações. Prefiro ser escravo de alguém honesto e humano, a pedir esmola todos os dias, de maneira degradante. Ou ter que implorar por um emprego, meses a fio, sem que haja qualquer interesse de empresas e pessoas que fingem não me ver, nem perceber minhas necessidades enquanto passo as maiores agruras.

A razão de meu gesto é que, apesar de trabalhar por mais de trinta anos, nos mais variados tipos de trabalhos, até hoje não consegui ter qualquer bem, ou reconhecimento, e nenhuma liberdade, pois, com fome, sempre atendi aos interesses dos outros para comer. Não posso ser livre com fome. Além do que, quando perco emprego, passo por dificuldades horríveis; quando fico doente não sei o que é pior: ficar com dor e mal-estar ou ser desprezado por médicos, atendentes, e funcionários públicos, em geral, na hora em que estou mais necessitado de ajuda.

Acho melhor entregar meu destino a alguém a quem posso ser útil e que cuidará de mim melhor do que tenho sido capaz.

Creio ser mais livre escolhendo eu mesmo meu opressor do que viver esfolado em nome de uma falsa idéia de cidadania que se utiliza do meu esforço sem devolver o mínimo para me considerar gente. Não tenho qualquer aspiração, a não ser, comer, beber, dormir e ser curado. Meus pensamentos e minhas fantasias são melhores que este mundo no qual tenho vivido; estar vivo é o melhor prêmio. Não preciso de mais. Email para envio de propostas: escravoluntario@gmail.com

Este anúncio foi redigido, por solicitação do interessado, pelos alunos do curso de Filosofia que, pelo inusitado, se cotizaram e pagaram pela sua publicação.

O número de respostas foi surpreendente, escolhemos alguns e-mails para ilustrar e procuramos manter a grafia dos autores.

 Emails escolhidos do 1º dia:

Meu filho, como você tem coragem de dizer essas coisas. Deus pode castigá-lo, pois todos nascemos livres e devemos suportar a nossa carga, assim como Jesus suportou a dele para nos salvar. Trabalhe que Deus vai ajudá-lo…

-Aeh maluco! Me amarrei nesse lance de ser escravo. É que eu não tô podendo, saca, senão eu te comprava só pra zoar com a tua cara. Vai nessa mano, dou mor força… kkkk.

-Meu senhor, fiquei muito chocada com o anuncio que li. Fiquei me perguntando se isso é possível. Como alguém pode se rebaixar tanto?…

-… Tú é memo muito preguiçoso, sem vergonha. Tú num tem dignidade, ô porco. Tomara que você encontre um cara bem doidão que lhe ensine a ser homem, seu merda!….

-… Excluindo a hipótese de ser uma brincadeira, juridicamente isso não será possível. A justiça embargará qualquer tentativa de uma pessoa exercer poder sobre outra que caracterize a possibilidade de escravidão. Assim, meu caro, solicite seus amigos do curso de Filosofia que estudem mais para depois proporem algo que não seja ilegal.

-Bela jogada de marketing. Até eu fiquei curioso para saber mais. É possível acompanhar o andamento desse “case”? Com quem posso falar a respeito?

– … Burro!

-… Você é mesmo um animal e merece mesmo que alguém lhe coloque uma coleira e o faça andar de quatro, seu energúmeno.

-Meu amigo, já fui pobre, passei fome, mas nunca tive que me rebaixar tanto. Se for verdade o que eu li no seu anúncio, saiba que lhe ofereço um emprego decente. Se você for realmente um cara honesto e sem passagem pela polícia, eu ajudo. Mande seus detalhes para meu email, que eu vou investigar, e depois lhe mando meu endereço.

-Tenho filhos já adultos e não suporto a ideia de que uma mãe possa aceitar uma coisa dessas. Mesmo que ela já tenha morrido pense nela, no sofrimento dela. Pense na vergonha e desgosto dela. Não faça isso, pelo amor de Deus!

-Olha, acho que este papo está muito gay. Mande foto, se eu gostar… Não seria mal ter um escravo, mesmo que seja já meio rodado. Rsrs!

-… Eu e meu grupo discutimos a questão colocada por você e que reflete bem as questões que temos discutido aqui. O sistema tem esmagado as minorias e todas as pessoas que pensam diferente dele. Os burgueses estão destruindo o mundo com sua ganância desenfreada e somente a sociedade civil organizada pode dar um basta nesta situação caótica em que vivemos. As pessoas não têm emprego, nem educação, nem nada que seja bom para os mais pobres e oprimidos. Conclamamos a todos a prestar solidariedade para com um companheiro que no desespero encontrou uma forma de protestar contra tudo que aí está.

-Um homem, mesmo na pior situação, deve reagir e lutar. Tenho certeza que existem pessoas boas no mundo que o ajudariam de verdade. Quantas mulheres não estão neste momento sozinhas e que gostariam de ter um companheiro para se livrar da solidão. Eu mesma tenho vivido uma vida solitária e nem sei o porquê. Nada fiz para ficar assim e não sei como arranjar alguém, até pensei em você, não como escravo, claro, mas como alguém com quem eu possa, talvez, repartir o meu modo de vida. Tenho receio, contudo. Gostaria que você entrasse em contato comigo neste endereço de email para nos conhecermos melhor, quem sabe você não precise ser escravo, mas apenas companheiro de alguém. Mande uma foto!

-Caso seja de seu interesse entre em contato com o Serviço de Apoio ao cidadão de X, neste email, onde você poderá encontrar ajuda para se inserir socialmente de forma digna. Será necessário CPF, RG e carta de apresentação.

-Não sei como tem trouxa que tenta esses golpes pela internet! Arranje uma ocupação melhor do que fazer os outros perderem tempo lendo suas bobagens… Tarado!

E mais 647 com teor muito semelhante.

Pelo inusitado e a quantidade, resolvemos mostrar os e-mails recebidos no segundo dia:

-… Faz isso não cara, junte-se a nós do grupo “Jovens em Jesus para a paz”. Somos voluntários de uma causa maior, onde cada um dá o melhor de si em prol de um mundo melhor. Venha trabalhar conosco, oferecemos comida e um teto em alojamento para nossos irmãos necessitados que aceitem trabalhar por amor ao próximo. Escreva para o nosso endereço que lhe mandamos as diretrizes para se iniciar.

-Ô Mané, te cuida que vais achar um doido pra te comprar e vai te foder inteirinho. Tem nego mau nesse mundo, num facilita não. Kkkkk.

-Favor entrar em contato no email X que temos a solução para o seu problema. Você já fez exame para detectar alguma DST?…

-Encaminhamos nosso formulário para atendimento de pessoas em necessidades especiais. Preencha-o em todos os seus campos e envie para o email de nossa igreja que entraremos em contato em até 90 dias.

-Escravo, hein!!! Que legal, se  pudesse eu te comprava. Rsrsrs

-Favor informar que coisas você sabe fazer. Conforme for, me interessa.

-Você é bom de cama? Se for, estou pegando, envie fotos de corpo inteiro. kkkk

-Oba! Eu estou precisando de um escravo, pode vir que eu tenho um monte de coisas para você fazer. Vou ter que te comprar? 

-Pedi a minha mãe para pegar você como escravo, assim você podia ir comigo para todo lugar, mas minha mãe disse que isso era pecado e deve ser maluquice, então não vai dar.

3º dia: 73 712 e-mails

4º dia: 1 612 414 e-mails.

Viralizou.


PALAVRAS COMO REMÉDIO

Outro dia um amigo me trouxe uma novidade. Ele gosta destas coisas novas. Surpresas, achados incríveis e descobertas sensacionais. Acredito que, quando ele está procurando algo assim, esteja se realizando na descoberta. Ao descobrir algo de projeção ele também se projeta, cresce e irradia bem-estar.
Mas o que ele me trouxe desta vez foi, digamos, intrigante, para dizer pouco. Era um artigo de jornal, antigo demais, de cidade do interior, mais precisamente de Ouro Preto. Daqueles jornais feitos no prelo, letra a letra, e com as notícias inventadas, pois ficam melhores as aventadas do que as reais, muito raras.
Devo contar o caso do meu jeito, agora pois já o contei tantas vezes e, modestamente, devo confessar pequenas alterações, coisa assim de três ou quatro palavrinhas a mais podem ter surgido no assunto. Nada que mude o fundamento do artigo contido no pequeno jornal.
 O caso se referia a um tal farmacêutico chamado Carlos. Conta o artigo que um certo dia, chega à farmácia desse Carlos, uma senhora com questões de saúde, segundo ela, de grande importância. É bom lembrar nas pequenas cidades, onde há pouco médico ou chega com muito pouca frequência, ou não chega, o Farmacêutico é quem receita de um tudo. Certo é, naquela época, como acontece na vida, alguns pacientes morriam, mas outros, pela graça de Deus, melhoravam. Quando morriam era Deus que os levava e quando ficavam rijos eram os remédios do Farmacêutico a dar jeito, junto com as orações e a ajuda de Deus a valer mais.
Mas voltando à senhora idosa, o caso parecia mesmo grave, e suspeito que só parecesse grave, dado que, ao aviar a receita, o dono da farmácia teve um comportamento estranho. Aliás, esse comportamento extraordinário foi que originou o mote para o artigo do jornal. Dizem que o boticário, o qual, aliás, odiava trabalhar em farmácia, ouviu calado todas as lamúrias da mulher e só então se soube que a doente era outra. Era a filha daquela senhora. Sofria a moça de uns achaques complicados. Doía-lhe a cabeça e a dor descia pelos quartos e parava perto das partes de baixo, aí formigava e rebatia nas costas, e assim ia aquela dor itinerante. Ás vezes vinha uma vontade de chorar sem motivo e uma tristeza parecida com aquelas de cachorro na chuva. Nestas ocasiões a doente ficava de cama por vários dias. Por isso não trabalhava, é claro, e complicava a vida da velha. Ás vezes não podia andar, entrevava, como a senhora dizia. E aí, não tinha jeito senão pedir ajuda do primo, que morava vizinho. O moço, forte, vistoso, vinha e ajudava a carregar a doente no colo para onde precisasse. O lugar escolhido, quando de dia, era debaixo da frondosa mangueira. E depois de levá-la o primo ficava conversando um pouco para alegrar a pobre enferma. Se acontecia de doer no princípio da noite a garota gostava mais de ficar na varanda. A mesma conversinha acontecia e parece que até melhorava um pouco, pois sorria. Esses dissabores vinham ocorrendo há uns seis meses e já tinham usado todas as mezinhas conhecidas, inclusive benzeduras e simpatias, e nada deu jeito, por isso, ela, a mãe, vinha agora pedir ajuda ao velho Farmacêutico.
Até esse ponto da história tudo caminhava como em qualquer lugar, mas daqui em diante coisas mais diferentes aconteceram. Dizem que o tal Farmacêutico Carlos, ficou pensativo, com os olhos voltados para o vazio, ajeitou os óculos de aro redondo, e de repente, com um raro e tímido sorriso, embarafustou-se (palavra do jornal) para dentro da farmácia e por lá ficou um tempo. Quando voltou entregou um papel dobrado para a velha senhora dizendo-lhe, com ênfase nos olhos e no tom de voz, que tudo que ele podia fazer estava escrito naquele papel, mas… só a doente podia ler o escrito. Se outra pessoa lesse não só a doente ficaria mais doente, como a pessoa que lesse poderia começar a ter problemas, especialmente a mãe.
Aqui o jornalista começou a fazer considerações desfavoráveis ao Farmacêutico: como já se viu dar um escrito em vez de uns remédios de pílulas ou de xaropes. Esse boticário estava “variando”, estava passando dos limites. Tinha era que dar remédio para a doente, não um papel com escritos misteriosos. E nessa linha de desancar, o articulista foi longe. Inda mais quando se soube que a doente, sorrira e ficara boa de suas doenças, bem no prazo de um dia. Tudo de ruim que sentia desapareceu depois que leu o tal papel. Sabe-se que mostrou para o moço vizinho, depois guardou no seio onde ninguém podia tascar.
O jornalista queria saber que coisas eram aquelas que podiam curar só com palavras. Quem tem esse dom? Esse farmacêutico Carlos era gente boa, de grande serventia, mas será que podia curar com palavras, seria ele um novo milagreiro? A falta de notícia fez o resto.
Sabe-se que acendeu a curiosidade da comunidade sobre o farmacêutico, e sobre o que estava escrito que fora capaz de curar enfermidade das mais custosas. Todos queriam saber o conteúdo. Mas calavam a doente e o Carlos. Iniciou-se uma pesquisa não mais sobre a doença ou sobre a doente, não, agora se queria saber quem era esse Farmacêutico que curava com palavras. De onde viera, quem era a família dele? Descobriu-se em pouco, era um tal de CARLOS DRUMMOD DE ANDRADE, que de farmácia não gostava nada. Nascido em Itabira do Mato Dentro, nos idos de 1902, estudou em Nova Friburgo, Belo Horizonte e acabou formado na afamada Escola de Farmácia de Ouro Preto -imprecisão do jornal-. Dado à escrever versos, dizem até que fora expulso de uma escola por “insubordinação mental”. Discutira com o professor de português, diziam. Depois disso, o escândalo das palavras como remédio, o homem largou a profissão de Farmacêutico, escreveu muitos livros, todos bonitos demais, e foi morrer poeta no Rio de Janeiro. Dizem que tem até estátua dele por lá.
Perdoamos os pequenos grandes jornais do interior, e seus intrépidos jornalistas que, quando não tem notícia, inventam umas boas, que é para vida correr mais lisa. Mentem muito, como os que surrupiam verdades para amolecer o coração da gente e estão sempre às voltas com poetas desgarrados, os quais não deixam de sonhar.
Descobriu-se mais tarde um pequeno trecho do escrito, guardado pelo moço vizinho, que depois de decorado, dizia lembrar só um pedacinho que dizia:
Tenho apenas duas mãos
E o sentimento do mundo,
Mas estou cheio de escravos,
Minhas lembranças escorrem
E o corpo transige
Na confluência do amor.