Coluna do
Neste local será possível mostrar textos e vídeos de maior amplitude com certos ângulos, detalhes ou eventos e equipamentos históricos relevantes da cidade, que merecem um pouco de aprofundamento pela sua importância cultural. O primeiro será uma apresentação da história do Zé Pereira Club dos Lacaios, oriunda de uma dissertação de mestrado que teve esse tema como foco. Na sequência, fragmentos do livro Ouro Preto – Olhar Poético, escrito e ilustrado pelo artista Carlos Bracher. Além disso, publicaremos documentários e séries produzidos pela TV UFOP. Este também será um espaço para publicação dos vídeos da Orquestra Ouro Preto.

Vila das Lembranças

O curta “Vila das Lembranças” foi realizado com objetivo de promover as práticas de educação e patrimônio por meio do cinema. Traz ao público infanto-juvenil uma releitura sobre personagens que protagonizaram a história brasileira na região de Ouro Preto e Mariana.

Sinopse: Após resolver ir embora da cidade de Ouro Preto, a escritora americana Elisabeth Bishop, para se despedir do Brasil, escreve um livro sobre personagens que a cativaram e fizeram parte do passado desta misteriosa cidade. Sua narrativa se passa em um belo encontro entre a contadora de histórias Sinhá Olímpia, e a escritora Cecilia Meireles. Vamos passeando pelas Vilas cheias de Lembranças, num encontro entre as paisagens barrocas e as historias de personagens que estão na memória das cidades de Mariana e Ouro Preto como Henri Gorceix; Itulu, a filha de Chico Rei; Barbara Heliodora; Alvarenga Peixoto; Tiradentes; Tomaz Antônio Gonzaga; Maria Doroteia; Antônio Frasncisco Lisboa (o Aleijadinho); o compositor e organista Padre João de Deus de Castro Lobo e o Pintor Francisco Xavier Carneiro.

O projeto foi realizado pela Associação Memória Arte Comunicação e Cultura (AmacCult) na formatura do segundo período dos alunos/atores em uma parceria entre o Museu da Música de Mariana e o Centro Educacional de Ouro Preto (CEOP). Os participantes passaram pelas mediações historicamente informadas realizadas pelos próprios pais, e vivenciaram várias etapas da produção do filme como a construção dos personagens, do figurino, das filmagens e da montagem.

O filme tem direção, montagem e música original de Vítor Gomes; pesquisa, roteiro e produção executiva de Gislaine Padula.

307 anos de Ouro Preto 

Em cada esquina, uma lembrança, uma emoção, uma história sendo criada por moradores e visitantes! Vídeo produzido pela Prefeitura Municipal de Ouro Preto em comemoração ao aniversário da cidade.

Nos Passos do Aleijadinho – Teaser

O making off do trabalho de pintura de Carlos Bracher nas cidades que visitou deu origem ao documentário Nos Passos do Aleijadinho. São mostrados os trabalhos do Aleijadinho bem como o contexto destas cidades na atualidade, com a intenção de registrar o sentimento das pessoas em relação à obra do Aleijadinho.
Duração: 24min
Classificação: Livre – Produzido em 2014
Este DVD pode ser adquirido na nossa Loja de Ouro.

Mais que doce

A TV UFOP, em parceria com a Secretaria de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto, lançou na sexta-feira, dia 13 de abril, “Mais que doce”. Esse documentário apresenta as relações afetivas por trás da produção dessas delícias: sustento, trabalho, negócio, tradição, desafios e laço social. Esses são os componentes fundamentais para o processo de revalidação do registro da produção de Doces Artesanais de São Bartolomeu (2008-2018) que completa 10 anos como primeiro bem do patrimônio imaterial registrado no distrito.
Produção: TV UFOP

Orquestra Ouro Preto

Buscando reviver a histórica vocação musical da cidade de Ouro Preto (Minas Gerais), Rufo Herrera e Ronaldo Toffolo, associados a um grupo de instrumentistas que integravam o grupo Trilos e o Quarteto Ouro Preto, criaram, no ano de 2000, a Orquestra Experimental da UFOP, hoje Orquestra Ouro Preto. É formada por cerca de 20 músicos, aos quais se associam músicos convidados, em função do repertório a ser executado. Tem como Diretor Artístico e Regente Titular o Maestro Rodrigo Toffolo.

Ao longo de 17 anos de trabalhos ininterruptos, a Orquestra Ouro Preto reúne projetos de grande relevância. E a partir desta semana, iremos publicar vídeos das apresentações da Orquestra, para mostrar um pouco destes projetos.

Latinidade: Música para as Américas

Desafio – Capiba

Direção Artística e Regência Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo Navalha Produtora Audiovisual

Direção Geral/Produção Executiva Marco Aurélio Ribeiro

Produção de Gravação, Edição, Mixagem e Masterização Ulrich Schneider (USC Brasil)

Latinidade: Música para as Américas

Desafio – Capiba

Direção Artística e Regência Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo Navalha Produtora Audiovisual

Direção Geral/Produção Executiva Marco Aurélio Ribeiro

Produção de Gravação, Edição, Mixagem e Masterização Ulrich Schneider (USC Brasil)

Orquestra Ouro Preto – The Beatles

Help

Direção Artística e Regência Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo Navalha Produtora Audiovisual

Direção Geral/Produção Executiva Marco Aurélio Ribeiro

Produção de Gravação, Edição, Mixagem e Masterização Ulrich Schneider (USC Brasil)

Gravado ao vivo no Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

Orquestra Ouro Preto e Alceu Valença – Valencianas

Anunciação

Direção Artística e Regência: Maestro Rodrigo Toffolo

Gravado ao vivo no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. 

Orquestra Ouro Preto – Música para Cinema

Gravado integralmente no Largo do Rosário, em Ouro Preto, o DVD Música para Cinema é uma viagem pelas trilhas dos grandes clássicos internacionais e nacionais do cinema, passando pela música para games e chegando a inusitada composição imortalizada por Jerry Lewis, onde uma máquina de escrever é utilizada como instrumento.

Orquestra Ouro Preto

Latinidade: Música para as Américas

Tempo de Maracatu – Quatro Momentos Nº3 – Ernani Aguiar

Direção Artística e Regência Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo Navalha Produtora Audiovisual

Direção Geral/Produção Executiva Marco Aurélio Ribeiro

Produção de Gravação, Edição, Mixagem e Masterização Ulrich Schneider (USC Brasil)

Orquestra Ouro Preto e Alceu Valença

Junho – Valencianas

Gravado no Palácio das Artes – Belo Horizonte

Orquestra Ouro Preto

Ricardo Amado – Violino

Mo. Rodrigo Toffolo

Produção Executiva/Concepção Artística: Marco Aurélio Ribeiro

Direção: Diogo Louzada

Produção: Navalha Produtora Audiovisual e Hemisfério Criativo

Orquestra Ouro Preto – The Beatles

Something

Direção Artística e Regência: Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo: Navalha Produtora Audiovisual

Direção Geral/Produção Executiva: Marco Aurélio Ribeiro

Produção de Gravação, Edição, Mixagem e Masterização: Ulrich Schneider (USC Brasil)

Gravado ao vivo no Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

Orquestra Ouro Preto – Temporada 2017

Um pequeno resumo da Temporada 2017 da Orquestra Ouro Preto, abrangendo as ações da Orquestra Ouro Preto no estado de Minas Gerais.

Orquestra Ouro Preto e Alceu Valença- Valencianas

Coração Bobo

Direção Artística e Regência: Maestro Rodrigo Toffolo

Gravado ao vivo no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

 

Orquestra Ouro Preto – The Beatles

Whit a little Help From My Friends

Direção Artística e Regência: Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo: Navalha Produtora Audiovisual

Gravado ao vivo no Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

 

Orquestra Ouro Preto 

Latinidade: Música para as Américas

Amazing Grace

Direção Artística e Regência: Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo: Navalha Produtora Audiovisual

Gravado na Comunidade da Chapada de Lavras Novas, município de Ouro Preto

 

Valencianas – Orquestra Ouro Preto e Alceu Valença 

La Belle de Jour – Girassol

Gravadora: Deck Disc

Gravado em 2012 no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte

 

Orquestra Ouro Preto

Latinidade: Música para as Américas

Marcha Fúnebre Virgínia

Direção Artística e Regência: Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo: Navalha Produtora Audiovisual

Gravado em Ouro Preto e em Mariana, Minas Gerais, Brasil.

 

Orquestra Ouro Preto

Latinidade: Música para as Américas

Toada – Capiba

Direção Artística e Regência Maestro Rodrigo Toffolo

Produção de Vídeo Navalha Produtora Audiovisual

Gravado em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil.

Vila Rica – Brasil

Ouro Preto como você nunca viu. Essa foi a ideia da Hawk Films ao capturar essas belas imagens da nossa querida Ouro Preto, a verdadeira joia de Minas Gerais.

Produção: Hawk Films – Localizada em Belo Horizonte, a Hawk Films é especializada em vídeo produções e filmagens aéreas profissionais com drones.

Eu também sou Patrimônio 

A partir desta semana, o ouropretocultural passa a publicar a série Eu também sou Patrimônio, produzida pela TV UFOP. O patrimônio de uma cidade vai além de sua arquitetura e cultura, pois ambos são construídos também pelo seu patrimônio humano e imaterial. Nosso Patrimônio é um programa da TV UFOP que retrata a trajetória de vida de moradores de Ouro Preto, ligando suas histórias com o contexto arquitetônico da cidade. O programa colabora com a valorização do patrimônio histórico e mostra a dinâmica cultural local ao revelar o envolvimento das pessoas na manutenção da história da antiga Vila Rica.

Este programa foi financiado pelo Fundo Estadual de Cultura.

Eu também Sou Patrimônio 

Eduardo Evangelista – Mina Du Veloso

Neste episódio você conhece a trajetória de Eduardo Evangelista e sua história com a Mina Du Veloso. Este programa foi financiado pelo Fundo Estadual de Cultura.

Eu também Sou Patrimônio 

Dom Barroso – Igreja de São Francisco de Assis

Neste episódio você conhece a trajetória de Dom Barroso e sua história com a Igreja São Francisco. Este programa foi financiado pelo Fundo Estadual de Cultura.

Eu também Sou Patrimônio 

Margareth Monteiro – Museu da Inconfidência

Neste episódio você conhece a trajetória de Margareth Monteiro e sua história com o Museu da Inconfidência. Este programa foi financiado pelo Fundo Estadual de Cultura.

Eu também Sou Patrimônio 

Ângela Maria Ferreira – Casa dos Contos

Neste episódio você conhece a trajetória de Ângela Maria Ferreira e sua história com a Casa dos Contos. Este programa foi financiado pelo Fundo Estadual de Cultura.

Roteiro turístico e poético de Ouro Preto

Carlos Bracher é um pintor e artista apaixonado por Ouro Preto e uma de suas inúmeras obras é justamente “Ouro Preto-Olhar Poético”, onde os principais pontos da cidade são revisitados  com texto e imagem preparados para nos encantar. Com a sensibilidade dos grandes artistas Carlos Bracher nos convida por uma passeio especial pela cidade tricentenária que ele escolheu para viver, amar, pintar e descrever. Agora a Revista Ouro Preto Cultural vai presentear seus leitores, quinzenalmente, com  este belíssimo trabalho pelos recantos de Ouro Preto.

Capa do livro Olhar Poético do Carlos Bracher 3

Casa de Santos Dumont – Rua Alvarenga, número 4

Nos tempos de Vila Rica, essa era a rua de entrada e saída da cidade (e nela encontra-se a “primeira ponte” dos versos de Gonzaga), por onde chegavam as pessoas e os tropeiros. Os séculos se misturam. Depois do fausto do dezoito, a falência do dezenove. Entre raríssimos fatos do dezenove, a construção da ferrovia foi dos mais relevantes.

Segundo Ricardo Pereira, proprietário dessa casa, ela foi construída por Henrique Dumont em 1853, no estilo alsaciano, conhecido como “chalé”, de influência francesa, sendo a primeira construção não colonial em Ouro Preto, donde se empregou alvenaria de tijolo pela primeira vez. Além desse chalé, Henrique Dumont construí ouros, como o da Chácara dos Queiroz, na encosta das Lages, adquirido por Ivan Marquetti e Scliar na década de 1960.

A vida de Alberto Santos Dumont passa por Ouro Preto. Seu pai, Henrique Dumont (1832-1892), de ascendência francesa, nasceu em Guinda, pequena localidade perto de Diamantina. Ele foi estudar o ginásio em Sèvres, França, e engenharia na École Centralle de Paris. Voltando ao Brasil, Henrique veio morar em Ouro Preto, onde se casou com a ouro-pretana Francisca Santos, filha de Rosalina Francisca Oliveira Catapreta Santos e do comendador Francisco de Paula Santos, também ouro-pretano, rico minerador e proprietário da famosa Mina do Gongo-Soco.

O casamento efetuou-se na Matriz do Pilar em 1856, sendo a recepção nesse chalé da Rua Alvarenga.
Henrique e Francisca tiveram oito filhos. Alberto, o penúltimo, nasceu em 20 de julho de 1873, na Fazenda da Cabangu (localizada na cidade mineira de Palmira, hoje Santos Dumont), que seu pai alugara, para nela instalar a família enquanto construía a ferrovia entre Santos Dumont e Barbacena.

Havia muita afeição entre pai e filho, mas Alberto tinha verdadeira veneração pela mãe, mulher religiosa e deprimida, que veio a suicidar-se no Porto, Portugal, onde moravam suas duas filhas.
Era desejo de Alberto Santos Dumont estudar engenharia na Escola de Minas de Ouro Preto, chegando a se matricular em fevereiro de 1890 no curso fundamental, espécie de cursinho preparatório, período em que residiu nesse chalé com seus avós maternos.
Nessa época seu pai tornara-se um grande fazendeiro no interior de São Paulo.

Em outubro daquele ano o pai acidenta-se, decidindo tratar-se na França. Para essa viagem de tratamento, ele leva o filho Alberto, que se estabelece em definitivo em Paris, onde vai estudar e desenvolver suas pesquisas sobre aviação, dando vazão aos sonhos do homem de voar, fixação que o perseguia desde criança, influenciado por Júlio Verne. Sentindo o talento e a vocação inata do filho, dizia-lhe seu pai, apoiando-o: “Alberto, não quero te ver doutor. Siga teus sonhos…”

Sonhos que em verdade se realizaram. Na sucessão de muitos projetos e inúmeras quedas, aperfeiçoando a tal máquina finalmente o 14 Bis alçou-se aos ares de Paris, às 15 horas e 47 minutos do dia 23 de outubro de 1906, contornando a Torre Eiffel e realizando, enfim, o maior de todos os sonhos humanos.

Matriz de Nossa Senhora do Pilar

De Paulo Mendes Campos, “Reza”:

Nossa Senhora do Pilar,

Fazei de Vila Rica vosso altar.

Construída sem um grande adro, o Pilar esconde-se meio de esgueio atrás de casas, não se deixando ver por completo. Essa igreja expressa o jesuítico ideário da pobreza e da riqueza. Como os homens, a linguagem da arquitetura deveria ser idêntica na revelação: de roupagem externa simples, contrastando com o interno.

Pilar, a pompa. Total pompa do interior, exaustão absoluta da talha suprindo as paredes de santos, colunas, entablamentos, atlantes, baldaquins, dosséis e lambrequins, superpondo-se na profusão dos retábulos do altar-mor e das laterais, onde branco não há, só ouro recobrindo anjos desnudos e vestidos.

Mestres ilustres da pintura e escultura respectivamente, José Carvalhais e Xavier de Brito forraram tetos e púlpitos para fazer nascer a obra barroca por excelência. E o terceiro mestre, Pombal, tio de Aleijadinho, cria obra-prima de carpintaria, que de tão esfuziantemente repleta se possa dizer — “milagre do Pombal”. Por dentro, a nave converte-se em navio, neste percurso resoluto de paredes de propósito inclinadas, parafraseando os polígonos uníssonos do teto, fazendo girar o olho estarrecido de quem contempla, crispando-nos as frontes assombradas de um algo que jamais se verá.

Tudo para glorificar o Santíssimo que a adentraria na histórica festa do Triunfo Eucarístico, de 1733, quando a Sagrada Eucaristia viria percorrer em romaria, do Rosário ao Pilar, o maior de todos os símbolos litúrgicos — a eucaristia.

Por nove dias seguidos badalaram sinos, as ruas e casas luxuosamente se enfeitaram, bordaram-se estandartes com fio de ouro, cavalos e fiéis paramentaram-se no apoteótico caminhar da procissão, no desejo de guardar o emblema maior do Senhor. Ouro Preto conquistava a glória da máxima exuberância, e tanto a festa quanto o Pilar significaram a entrada da cidade, definitivamente, nos anais do esplendor. Participante do acontecimento, o cronista Simão Ferreira Machado descreveu-o: “mais que esfera da opulência, Vila Rica é teatro da religião (…)”.

Em 1993, ao se comemorarem os 260 anos da festa, ela foi reeditada no mesmo percurso, aos cuidados de Jota Dangelo e Raul Belém Machado, sob coordenação geral do jornalista e intelectual Mauro Werkema, à época secretário de Cultura e Turismo da Prefeitura. A festa foi reencenada em 2006.

Igreja do Rosário

Rosário é um cântico às curvas no colóquio do pensamento curvilíneo, quando se mesclam, circulares, maiores e menores, as sempre curvas sucedendo-se concêntricas, limas dentro das outras, na orgia do escultor que as quer voluptuosas, propulsivas no espaço.

A pedra comunga o contraponto operístico, estabelecendo lúdico espetáculo de pirotecnia, donde frontões, gárgulas e resplendores projetam-se insinuantes. De tanta graça rendilhada, as pedras parecem sem peso algum, finalizando-se nas grimpas, num recital filigranado de pináculos, torres e cruzes.

Obra de carpintaria e engenharia complexas, o telhado continua o diálogo explícito, elíptico de sinuosidades, acentuando a leitura parabólica de todo o conjunto. A própria estrutura do Rosário já é, em si, arquitetura, no conceito borromínico19 de compor. Entende-se por arquitetura não apenas a grandiosidade dos corpos volumétricos gigantescos, mas o discurso das minudências e riquezas contidas nos detalhes, encaixes, recortes e entalhes.

Certamente, um dos mais lindos instantes de beleza de Ouro Preto esteja no interior desse templo, exatamente no seu arco cruzeiro, quando o encontro das duas naves nos propõe momento de musical delicadeza, pelo toque sinfônico das duas amplas paredes arredondadas entrelaçando-se no transepto das alturas. Nossa Senhora do Rosário era irmandade dos negros, de igual forma Santa Efigênia.

Em “Noturno de Belo Horizonte“, Mário de Andrade refere-se à Igreja do Rosário:

Lumeiro festival… Gritos… Tocheiros…

O Triunfo Eucarístico abala chispeando…

Os planetas comparecem em pessoa!

Só as magnólias — que banzo dolorido!

As carapinhas fogos polvilhadas

Com a prata da Via Láctea

Seguem prá igreja do Rosário

E pro jongo de Chico-Rei…

Passos da Paixão

Quase ermas, várias pequenas capelinhas espalham-se pela cidade, abertas unicamente na Semana Santa — os chamados Passos da Paixão de Cristo, só vistos uma vez por ano. Eles se localizam no trajeto por onde passará a procissão, entre as duas matrizes, e são: Passo de Antônio Dias, Praça Tiradentes, Rua São José, Getúlio Vargas e Ponte Seca.

Segundo a história e tradição, no momento da subida de Cristo ao Calvário, uma piedosa mulher, de nome Verônica, enxugou-lhe a face com um véu, no qual permaneceram marcados os traços do Senhor.

Na Procissão do Enterro, diante desses Passos, todos param. As irmandades e os homens se aquietam. Nenhum suspiro. Nenhuma voz. Faz-se sepulcral silêncio na multidão. No esquife, sob o pálio, o Cristo se ausenta de seu corpo e se transfere à voz da mulher que o acolhe, e seu rosto vira efígie do seu sangue impresso, enquanto Verônica faz transparecer o vermelho escorrido da dor, entoando em latim o cântico à morte do Salvador: “O vos Omnes…”, desenrolando vagarosamente o véu:

O vos omnes

Qui transistes per viam

Atendite et videte

Si est dolor similis

Sicut dolor meus!

Ó vós todos

Que passais pelo caminho

Olhai e vede

Se há dor

Semelhante à minha dor!

Rua São José

Inicia-se essa rua da na Casa e Ponte dos Contos, seguindo uma só reta para desaguar no Largo da Alegria. Na Ponte dos Contos (outrora chamada “dos Suspiros”), á noite, os passantes são recebidos pelo perfume encanado de plantas vindo do Horto Botânico. Plana na topografia, a Rua São José tem uns 300 m de sobrados unidos entre si, persistentes na quase mesma altura das cimalhas, que se ligam contínuas no telhado, na beleza de seus portais enfileirados exibindo lado a lado sacadas e janelas coloridas, contrastando com as paredes alvas, ligeiramente ébrias na prumada. Logo à direita, no número 72, encontra-se o sobrado do tradicional Toffolo, com o hotel em cima e o bar embaixo, há muito comandados pela graciosa Dona Gracinha, cujo local se tornou célebre ponto de intelectuais e artistas, entre eles Niemeyer (que projetou o Grande Hotel), Pedro Nava, Drummond, Guignard e Marcier, hoje revigorado com suas agradáveis mesas .na calçada anexa para um bom bate-papo.

Tiradentes morava no número 132. Após seu enforcamento, a casa foi derrubada, salgada a terra, e seus descendentes considerados infames por três gerações. Pouco após, quase na sua face, a casa docemente inclinada onde nasceu o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, nos números 165/167, hoje Restaurante Chafariz.

A morte prematura da namorada e prima, Constança, filha do romancista Bernardo Guimarães, atinge seu âmago sensível, provocando sentimentos definitivos de dor, perda, angústia e saudade, impregnando-lhe a mística poesia de toda sua vida. Alphonsus evoca sua Constança:

Foi pelo meado de setembro,

no Jubileu, que vim a amá-la.

Ainda com lágrimas relembro

aqueles olhos cor de opala.

Na lápide de seu túmulo, no cemitério de Sant’Ana de Mariana, esta frase bem expressa sua trajetória: “Minh’alma é uma cruz enterrada no céu”. Da mesma forma que aos 25 anos Alphonsus foi conhecer Cruz e Souza, no Rio de Janeiro (1895), Mário de Andrade, aos 26, deslocou-se de São Paulo especialmente para visitar Alphonsus, em Mariana, no dia 10 de julho de 1919, à Rua Frei Durão, número 84.

Escreve Mário: “Em Mariana fui encontra-lo na escuridão da sua casa de trabalho, sozinho e grande’ (.,.) e foi uma hora de inesquecível sensação a que vivi com ele. Na tristura cinza do aposento, pude dizei lhe pausadamente, em calma, as lindas coisas que eu sentia sobre a sua arte desamparada e incompreendida (…) foi uma hora de êxtase em que eu não disse nem um bocadinho que era poeta (…)”. Sobre o impacto do encontro entre Mário e Alphonsus, Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “A Visita”. Manuel Bandeira lamenta a não entrada de Alphonsus para a Academia Brasileira de Letras: “(…) e o movimento simbolista passou sem deixar numa poltrona da casa de Machado de Assis um grande nome, e no simbolismo só houve dois — Cruz e Souza e Alphonsus”. Na morte de Alphonsus, escreve Oswald de Andrade, no/orna/ do Commercio, em 24 de julho de 1921: “(…) Alphonsus valia, sem dúvida, todos os poetas juntos da Academia Brasileira. Faleceu em Mariana, pobremente, onde vivia fazendo há vinte anos os melhores versos do seu país (…) poetas como ele honram não só uma geração como uma pátria”.

Casa dos Contos

Há de se ver em Ouro Preto o que era um palácio. Nas fachadas apedra margeia os cantos em cantaria plena com florões assinalados. Vigorosos ferros recurvados compõem as sacadas. Amplas portas abrem-se no térreo, a fazerem entrar carruagens e cavalos, donzelas e mucamas.

Raramente se verá mansão tão solene, generosa nos espaços, quartos, salões, corredores, escadas. Não são tantos os cômodos, mas cada um tem o tamanho de uma casa.

Ao rés da rua, penetra-se o salão majestático da amplidão e somos colhidos, de imediato, pelo arranco da esplêndida escadaria à direita, convidando-nos a subi-la. Fica-se no impasse: se subimos ou se avançamos direto ao pátio interno, à frente, guardado por arcadas romanas imensas a levar-nos ao forno de fundição, onde se transformava o ouro em barra, retirando-se antes a quinta parte da Coroa.

A Casa dos Contos foi edificada pelo banqueiro e contratador João Rodrigues de Macedo, ao fazê-la para comércio e moradia, contudo pouco dela se aproveitou. Na ânsia de requinte estético em demasia, endividou-se por completo, vindo a perdê-la para o real erário. Não importa. Ficou na história não pelo dinheiro possuído, mas pela obra construída, certamente dos mais imponentes exemplares da construção civil de todo o Brasil Colônia.

Nos porões, a crueza do que era a senzala hostil, gelada do córrego lateral a recender-lhe umidade, com os escravos aí vivendo quase nus e enrijecidos de frio, uns sobre os outros na terrível masmorra.

Foi prisão de Álvares Maciel, padre Rolim, cônego Vieira da Silva e Cláudio Manuel. Sob a escada do saguão de entrada, está o quarto onde se findou tragicamente Cláudio Manuel, aí se suicidando (ou não) em 1789, na madrugada de 3 para 4 de julho. Murilo Mendes se estarrece com o episódio:

O espectro de Cláudio Manuel

contorna a Casa dos Contos;

presa a um cadarço vermelho

traz a cabeça na mão,

rogando uma ave-maria

para obter perdão

Chafariz dos Contos

“Is quae potatum cole gens pleno ore senatum securit utisitis nam facit ille sitis”, diz a inscrição sobre o itacolomito, que em português é mais ou menos assim: “quem bebe louva os dirigentes da cidade, de boca cheia, pois está sedento e tem sua sede aplacada”.

Não só pelo enunciado em latim, mas este, dos Contos (também à época chamado de São José), decisivamente é o mais belo dos chafarizes, com suas imensas volutas em pedra laçando ao centro a exultante concha, donde cristalina, do seio da terra, a mesma água por séculos escorre.

Não havia água encanada nas casas e as pessoas se salvavam exclusivamente pelos chafarizes, indo com seus potes, panelas e latas no de Águas Férreas, Alto da Cruz, Antônio Dias, Rosário, Praça Tiradentes, Rua da Glória, Rua das Flores. No local onde hoje se encontra o Cine Vila Rica, bem em frente ao Chafariz dos Contos, funcionou até 1950 o Liceu de Artes e Ofícios.

Após a recente reforma do Cine Vila Rica, foi deixado amplo espaço entre a tela/palco e as primeiras cadeiras, disponibilizando-se a outras funções, para shows, palestras, espetáculos múltiplos e até aulas de teatro, como a de José Celso Martinez, interagindo praticamente toda a plateia, que desceu e se acoplou num delírio coletivo de abraços, bem ao estilo do diretor. Também no Cine Vila Rica se realiza o festival de cinema “Mistura dos Povos”. Em “Pequeno Poema de Ouro Preto”, Cecília se enternece:

Enquanto as fontes

contam histórias

belas e tristes

mas já muito antigas

O rio, a ponte,

os bancos de pedra

a cruz, os santos,

sobem de outras vidas.

Rua Direita (ou Conde Bobadela)

Reminiscência portuguesa, “Rua Direita” era o nome dado à via que levava à igreja matriz. Ouro Preto tinha duas, por causa das paróquias do Pilar e do Antônio Dias. A do bairro do Ouro Preto, hoje chamada conde de Bobadela, nasce na Praça Tiradentes, descendo em direção à Matriz do Pilar. Nela pousam telhados e paredes de inúmeros sobrados, numa sucessão rítmica decrescente, compondo o cenário em que a imperial Capela de São José se levanta ao fundo, deixando livres as nuvens entre sua torre vazada.

Na rua habitava o inconfidente tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, em cuja casa (número 59) se realizaram secretas reuniões, principalmente a decisiva, de 26 de dezembro de 1788, para a tomada do poder.

Pouco abaixo, do mesmo lado, à esquerda, se vê a única casa de pedra de cantaria na fachada (número 85), que pertence à família do Dr. Rodrigo Mello Franco de Andrade, que a reconstruiu na década de 1940 segundo projeto de Lúcio Costa. Entre os amigos de Dr. Rodrigo e D. Graciema, estava Guignard, que pintou diretamente na parede o imenso painel de “Marília”. Quase em frente (número 110), Guignard povoa em seus quadros, no museu a ele dedicado. Ali estão obras absolutas no conceito do que seja a grande arte de pintar: os retratos da escritora Lúcia Machado de Almeida e o de um jovem anônimo atestam a definitividade universal do mestre. As cartas desenhadas nos anos 1930, de platônica paixão à amada Amalita, jamais enviadas à destinatária, perfazem o semblante lírico do gênio das transparências.

O Museu Casa Guignard se encontra defronte ao Beco do Arieira, que exibe suas pedras no chão e nos muros da casa de esquina, donde flores coloridas pendem delicadamente sobre as pedras.

O museu lançou o “Mapa dos Passos de Guignard em Ouro Preto”, organizado pelo diretor e artista Gélcio Fortes. A Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais está organizando o “Projeto Guignard”, ao catalogar toda sua obra.

Na Rua Direita, um show se reserva nas chuvas, quando as águas descem profusas dos elevados condutores, vindo bruscas sobre as calçadas e os transeuntes. Quantas meninas, quantas Marílias passaram por pontes, subiram e desceram essa rua em suas cadeirinhas de arruar! As moças não podiam andar pelas ruas e eram levadas em liteiras até dentro das igrejas. Affonso Arinos sobe a rua, lentamente:

Vou subindo, devagar, a ladeira

Ouro Preto, derramada entre os seus morros,

Recebe como uma benção,

O sol da Aleluia.

Teatro Municipal Casa da Ópera

Foto_Olhar_poético_bracher_teatro_municipal_casa_da_operaConstruído em 1770, é o mais antigo teatro em funcionamento das Américas. Implantado no Morro de Santa Quitéria, foi erguido por desejo pessoal do português João Souza Lisboa para si e a comunidade, no estilo elisabetano. Visto em planta-baixa, tem o desenho de uma lira.

Possui quatro níveis de galerias, excepcional acústica e 300 lugares, edificado aproveitando o caimento natural do terreno. Por fora, lembra uma mera casa, tamanha simplicidade. Por dentro, surpreende pela grandiosidade do espaço, a facilidade de subir as escadas, a perfeita visão dos espectadores e a largura e profundidade do palco. Com o de Sabará, são dois primores do período colonial. Há uma particularidade histórica referente a esse teatro. Até o século XVIII as mulheres não podiam atuar. Os papéis femininos eram feitos por homens. Cabe ao Teatro Casa da Ópera o privilégio de ter sido o lugar onde as mulheres pisaram pela primeira vez um palco em todas as Américas.

Cláudio Manuel produziu peças aí encenadas, como “Parnaso Obsequioso”, enquanto Alvarenga e Gonzaga recitaram poemas. No período áureo da ópe-ra, muitas foram apresentadas, sobretudo de Rossini e Mozart. Rui Barbosa nele discursou há exatos 100 anos (2/2/1910), durante a Campanha Civilista para Presidente da República, e muita gente importante esteve em tão histórico palco.

Vinícius, Toquinho, Clara Nunes, João Bosco e Tunai nele se apresentaram. Inesquecíveis peças de teatro, com atores daqui e de fora, foram ali aplaudidas, entre elas: “A Rua da Amargura”, direção de Gabriel Vilela, pelo Grupo Galpão; “Cobra Norato”, de Raul Bopp, pelo grupo Giramundo; “Ópera dos Três Vinténs”, de Berthold Brecht, direção de Wilson Oliveira; “Aurora de Minha Vida”, de Naum Alves de Souza, direção de Wilson Oliveira; e “A Dama da Madrugada”, de Alejandro Casona, direção de Helvécio Guimarães.

Nelson Freire, Arthur Moreira Lima, Berenice Mene-gale e Eduardo Hazan fizeram remarcáveis concertos de piano, igualmente a apresentação do espetáculo “Mistura dos Tempos”.

Ao lado do teatro situa-se o Pouso Chico Rei, residência do marquês do Paraná no século XIX. Em frente, ergue-se o imponente “arranha-céu” em es-tilo “chalé” (provavelmente construído por Henrique Dumont), onde hoje se encontram o Hotel Casa da Ópera e o Restaurante Deguste (do Eduardo e Vanísia), exatamente a casa que Vinicius de Moraes queria comprar. Ele me pediu para conversar com os proprietários. Era uma teia complicadíssima de descendentes que Vinicius acabou por desanimar. Uma pena. Recentemente o prédio passou por preciosa restauração.

Museu do Oratório

Imagem do Carlos Bracher do Museu do OratórioDe Imah Théres, “Semana Santa em Ouro Preto”:

Minas pena, com seus ritos,

com suas naves desnudas,

suas cambraias tão níveas,

suas igrejas barrocas,

seus santos nos áureos nichos,

suas ladeiras amaras.

Instalado na antiga Casa do Noviciado do Carmo (onde Aleijadinho morou quando trabalhava na construção da igreja), o Museu do Oratório, extremamente original em sua natureza, guarda as relíquias resguardadas da fé.

Dentro e fora de si, o homem necessita de seus códigos de admissão. Admitir-se na sustentabilidade espiritual torna-se inevitável, para se infundir da certeza dos seus débeis passos.

O inesperado da vida ocorre a qualquer momento. Temos, cada um, nossas dores, dúvidas e angústias. E não se sabe do amanhã. A fé registra os devotos na convicção da crença e nela se socorrem, pela devoção, lançando suas preces como espécie de chamamento ao além. Tradição provinda dos gregos e dos romanos, são inúmeros os tipos de oratórios: os para ficarem em casa, fixos; os para viagens, portáteis. Aonde vai, o fiel vale-se desses objetos carregados de misticismos, lágrimas doídas de tristezas pelas perdas. Também, das alegrias da gratidão. As portas dos oratórios existem para que ninguém ali penetre, preservando-se a inviolabilidade do sagrado.

Com referência às imagens de Cristo, há uma conceituação: os Cristos mortos são chamados de “Senhor do Bonfim” e os vivos são conhecidos por “Senhor da Agonia”. Graças à sensibilidade da colecionadora Ângela Gutierrez, podemos permear o precioso universo da intimidade mineira. Além do acervo em si, destaca-se o altíssimo nível da proposta museológica, assinada por Pierre Catei. Fundado em 1998, o museu possui 162 oratórios e 300 imagens.

Sob curadoria de Ângelo Oswaldo, foi realizada grandiosa exposição das obras desse museu no Petit Palais de Paris, e várias peças de seu acervo foram exibidas no BID de Washington.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Ouro Preto Olhar Poético - Igreja de Nossa Senhora do CarmoTratava-se de um projeto a quatro mãos, talvez a obra que Aleijadinho mais desejasse, pela fraterna parceria com seu pai. Morre-lhe o pai em 1767, um ano após entregar à Ordem Terceira do Carmo o risco (nome dado aos projetos arquitetônicos) da igreja. Logo a seguir, Aleijadinho introduz-lhe alterações substantivas, emprestando maior graça ao templo.

Vê-se claramente o que ainda é do pai e quais intervenções do filho. São duas gerações, duas visões. Se não o Manuel Francisco, talvez não existisse o Antônio Francisco. Pai e filho reaproximam interlocuções de oceânicas espécies: o de além-mar e o de aquém. A substância ultramarina do pai propicia ao filho certa universalidade, uma grandiosidade que ainda não tínhamos. Havemos de entender que Manuel foi dos mais notáveis homens de seu tempo. Portanto, Aleijadinho tinha lado de si o que havia de melhor, como mestre e instrutor. Evidentemente, isso não é tudo. Seu próprio irmão, Félix, padre e igualmente escultor, nem por isso trilhou êxito idêntico. Faltava-lhe o principal: talento.

Na fachada da igreja, um algo inédito, quando Aleijadinho interrompe as duas colunas, deixando-as não explícitas, apenas citando-as por capitéis soltos, presos à cimalha. Novamente, a pedra-sabão é tramitada, propondo à Virgem do Carmo que seja enlevada por anjos, tendo acima o original óculo trilobado a ampará-la em sua assunção, na mais feminina de todas as fachadas de Aleijadinho.

As paredes laterais da igreja revelam a sempre ousadia do mestre. Provavelmente, nenhum outro arquiteto à época fizesse o que ele ali fez. Trata-se de brilhante aula de arquitetura, do que seja a arte de pensar espaços dentro de refinada estética. Nessas laterais, na relação dos quatro panos brancos demarcados por cinco colunas, vê-se a progressão de sacadas, janelas, portas e óculos, que se superpõem e se assentam sobre a parede, onde o mestre há de criar. Aqui, Aleijadinho nos propõe o dinamismo inesperado, não a modulação renascentista geométrica e previsível, mas a proposta assimétrica, assindética da fantasia, interrompendo a digressão lógica do pensamento. Essa parede nos infunde a beleza de ver e fruir, não de falar, conduzindo-nos à sensação de puro prazer.

Aleijadinho nasceu para criar, jamais para repetir. O mesmo pode-se dizer do arquiteto maior da atualidade, Niemeyer, donde se percebe idêntica ousadia, justamente vindo buscar significantes elementos no Barroco, inspirando-se nas obras imortais do passado. Os mais lindos crepúsculos são vistos do adro do Carmo. Por que o entardecer cor de ferro? Resultante das terras refletindo nas nuvens, o céu se impregna das essências ferruginosas rebatendo os fortes cromatismos, na despedida de cada dia.

O cemitério guarda os irmãos da ordem e para ali levamos amigos queridos a nos deixarem, como o compadre Nelson Queiroz, D. Elisa, Dr. Caram, e no momento que escrevo as últimas palavras deste livro, interrompo-o, deixo minha casa, subo a ladeira do Carmo e ali estou, hoje, 8 de outubro de 2010, para levar, junto a seus parentes, Ângelo Oswaldo e Ina Caram, as cinzas mortais do grande ouro-pretano Cássio Damásio.

No poema “Carmo”, o cemitério a céu aberto inspirou Drummond:

Não calques o jardim

nem assustes o pássaro,

um e outro pertencem

aos mortos do Carmo.

Capela do Padre Faria

Foto da Capela do Padre FariaO antigo povoado de padre Faria viu nascer uma das primeiras capelas, a do padre Faria, em homenagem ao padre João de Faria Fialho, acompanhante de Antônio Dias em sua bandeira vitoriosa.

A atual capela, de 1710, corresponde à primeira fase do barroco mineiro, quando as torres eram separadas do corpo da igreja, que se juntariam em estágios posteriores. Possui riquíssima talha e pinturas sinalizando clara influência chinesa. No adro da Capela do Padre Faria encontra-se a única cruz papal da cidade, simbolizando os três poderes da Igreja: temporal, eclesiástico e espiritual.

Também filho de cidade histórica, o diamantinense presidente Juscelino adorava Ouro Preto, aqui vindo com frequência. Na inauguração de Brasília, quis homenagear a Inconfidência, inaugurando a nova capital exatamente no dia 21 de abril de 1960. Além da data comemorativa, escolheu um “símbolo” material que pudesse enfatizar o momento histórico, ao levar o sino do padre Faria para ecoar pelos ares do Planalto Central, sagrando a cidade.

Antes, a capela era primazia e reinava solene o seu garbo. Hoje, encontra-se desamparada, como se não mais pertencesse àquele local, encravada num ambiente que não é o seu. O acúmulo de casas de tijolos e lajes superpostas retirou da capela todo o brilho anterior, num processo aviltante de gravíssima irresponsabilidade. Um sinal de como, em tão pouco tempo, as coisas podem se perder para sempre.

Em “Ouro Preto”, Emílio Moura nos dá o tom:

Que frio!

A neblina rói a paisagem.

Sinto o tempo parado em cada pedra que piso.

O passado me envolve, paira sobre as igrejas

E assisto a ressurreição dos mortos.

Sou apenas memória.

Chico Rei e a Igreja de Santa Efigênia

Foto do livro Olhar Poético - Chico Rei e a Igreja de Santa EfigêniaOs negros eram tantos, a maioria. Qual Zumbi dos Palmares, Ouro Preto também teve seu líder negro: Chico Rei, o jovem rei africano colhido no Congo e feito escravo qualquer. Só que não era “qualquer” — era rei. E rei continuou, na premissa das mais nobres estirpes. De escravo que era, trabalhou duro na mina, alforriou-se, projetou o sonho de si e de toda a nação negra, voltando a ser o grande rei que nunca deixou de ser.

Segundo lenda, Chico Rei construiu em promessa a Igreja de Santa Efigênia, onde negras traziam na carapinha dos cabelos o ouro em pó, depositando-o na pia, assim sedimentando fundos para a construção do templo.

Movidos a música, os africanos têm festa no sangue. Guerreiro da paz, Chico Rei restabelece entre nós a alegria, incorporando aos ritos religiosos inúmeros elementos afros na cultura ibero-cristã, introduzindo congados e reisados às tradições mineiras. Os negros elevaram os sons dos atabaques às culminâncias do órgão. O adro da Igreja de Santa Efigênia era o palco, das principais festividades e o ponto de congraçamento dos negros.

Um povo se evidencia pela força coletiva de suas festas. Hoje no Brasil, as grandes festas de Minas são as da Semana Santa; do Rio e da Bahia, o Carnaval; e cio Nordeste, as festas juninas.

Em “Acalanto de Ouro Preto”, Murilo Mendes evoca Chico Rei:

Dormi, dormi embuçados,

marginais, envergonhados

leprosos, fora-da-lei,

vagabundos, revoltados,

órfãos, párias, renegados,

libertos por Chico Rei

que forrou tribos inteiras

africanas, brasileiras,

ei!

Encobre, Ouro Preto, encobre

no alto de Santa Ifigênia

o espectro de Chico Rei

 

Casa e Ponte de Marília

Foto Casa e Ponte de MaríliaSe a Arcádia reverenciava o lirismo e o romantismo, a cidade haveria de despertar mágicos romances e o mais belo terá sido, sem dúvida, o de Marília e Dirceu. O cenário não poderia ser melhor —da Vila Rica dos enlevos exultantes, das paixões que sobrevoam pássaros e homens nos encontros idílicos. Quais Romeu e Julieta, Pedro e Inez de Castro, nesta terra dois seres se amaram e juraram amor perene: o Gonzaga de meia-idade e a quase ninfa, Doroteia, unindo seus corações por olhares distantes, quando ele, do alto, e ela, dos baixos de Antônio Dias, se entreolhavam de ardores. Lá a amada ficava, quedando-se em sua “rasgada janela”, e ele a vendo em suspiros, vislumbrando-a em liras, “a minha Marília bela”…

A casa não mais está, mas a “terceira ponte”, sim, esta mesma onde tem, sobranceira e galharda, a “árvore que chove flor de madrugada” (no dizer da Larissa) sobre os bancos arredondados de pedra ou sobre os notívagos passantes em busca de seus próprios romances.

Na Lira IX, Versos XVI e XVII, canta Gonzaga:

Ornam seu peito

As sãs virtudes,

Que nos namoram;

No seu semblante

As graças moram.

Assim vivia;

Hoje em suspiros

O canto mudo:

Assim, Marilia,

Se acaba tudo!

Ledo Ivo dedica o poema “Lira”a Marília:

Mas verás no silêncio de astros mudos,

luzir ao sol a estrela dos amantes

e a corola de vozes nos pomares

e a lira dos instantes

Mina do Chico Rei

Olhar Poético - Mina do Chico ReiEntrar nos porões da terra, passar por túneis estreitos onde mal cabe um corpo, sentir o terrível drama de trabalhar sem ar e de ter o oxigênio mínimo da resistência humana, respirando só poeira e, ainda assim, enfrentando bichos peçonhentos, eis a duríssima realidade de uma mina, sobretudo daquela época. Lá por infindáveis canais do útero do mundo, uma só cor existe: nenhuma, só breu resvalando a hipótese da imediata morte, o que se viu recentemente com os 33 mineiros do Chile. Mesmo assim, o minerador tem com o ofício ambígua relação de paixão e fascínio. Paixão por tocar com as mãos as entranhas do subsolo e nele poder permear o âmago da origem. E fascínio pela possibilidade de repentino enriquecimento, quando descobre um veio frutuoso.

Conheci um velho minerador de Diamantina e ele vidrava os olhos ao pegar uma pedra preciosa. A Mina do Chico Rei, também chamada “Encardideira”, é visitável e dela se encarrega Dona Mariazinha, a sinhá dos encantamentos e lendas da mais célebre mina. Antes de tudo, ser minerador é ser um forte, desses que afrontam as leis decisivas do sobreviver. Forte como era Chico Rei, nessa mina trabalhando e sofrendo forte, desses buracos colhendo o suado metal dourado que lhe daria proeminência, liberdade, liderança, riqueza.

Manuel Bandeira o descreve: “Francisco, rei africano, foi aprisionado e vendido para escravo com toda a sua tribo. A mulher e todos os filhos, menos um, morreram na travessia do Atlântico. Os sobreviventes foram encaminhados às minas de Ouro Preto. Homem inteligente e enérgico, Chico Rei trabalhou e alforriou o filho, em seguida os dois trabalharam para forrar um patrício e assim sucessivamente se forrou toda tribo, que passou a forrar outros vizinhos da mesma nação”.

“Navio Negreiro”, de Castro Alves:

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo,

O trilho que Colombo abriu na vaga,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! da eterna plaga,

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Última morada de Guignard

Foto_olhar_poético_bracher_última-morada-guignardMajestoso sobrado onde residiu o marianense Pedro Aleixo, brilhante advogado, deputado federal e vice-presidente da República. Amigo de Guignard, emprestou-o ao artista, e nele existem, atualmente, no quarto em que dormia o pintor, fotos e objetos seus. Na casa funciona a Fundação de Arte de Ouro Preto, que possui outra sede, à Rua Getúlio Vargas. Na Casa de Bernardo Guimarães foi inaugurada outra ainda para os cursos de ofícios da FAOP.

Guignard vinha a Ouro Preto somente por temporadas. Hospedava-se no Hotel Toffolo ou no Grande Hotel, porém jamais residiu na cidade, à exceção do último ano de sua vida, de 1961 a 1962, nessa casa. O bairro de Antônio Dias era uma de suas temáticas preferidas. Adorava crianças e, quando instalava seu cavalete nas redondezas de Antônio Dias ou quaisquer outros lugares, seus bolsos estavam sempre cheios de balas para presenteá-las à meninada. Sentava-se nos bancos da ponte de Marília, observando, desenhando, fruindo a paisagem e as pessoas. Era homem de modos simples e a autenticidade era sua marca invulnerável.

Intitulava Ouro Preto de “cidade amor inspiração”. Outras vezes, quedando-se sobre pontos elevados e descortinando céus e montanhas ao longe, chamava-os de “paisagens imagiantes ou imaginárias…”. Ferreira Gullar compreendeu a indissociável junção: “Guignard e Ouro Preto terminaram por tornar-se imagem um do outro”. As emocionantes fotos em preto e branco dele subindo a ladeira da Rua Cláudio Manuel, já ao final da vida, com seu surrado paletó escuro e sua pequenina caixa de pintura à mão, ou o vendo pintar diante da São Francisco, repleto de alunos e espectadores à sua volta, ou aquela em que observa ao longe sua amada Ouro Preto, ou aquela ainda dele pintando, remonta-nos à delicadeza do poema de Cecília Meirelles, de 1949:

E ali na rua das Flores

na varandinha do bar

tem a figura risonha

do grande pintor Guignard

que Deus botou neste mundo

para Ouro Preto pintar.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição

Foto Olhar Poético - Nossa Senhora da ConceiçãoHá controvérsias sobre o projeto da matriz: se de autoria de Manuel Francisco Lisboa ou não. No local, havia outrora pequena capela erigida por Antônio Dias em 1699. A construção da atual igreja inicia-se em 1727, estendendo-se até 1770. Importantes essas datas. As discussões sobre o nascimento de Aleijadinho persistem até hoje: se 1730 ou 38. Portanto, essa igreja corresponde à sua infância, ao presenciar na pele o gigantismo de algo fabuloso acontecendo. Ele morava a poucos palmos dali, e praticamente a igreja se edificava no quintal de seus olhos, vendo diante de si o bater pregos, o serrar toras, o quebrar pedras, observando em menino a vertigem das alturas, as taipas subindo, as naves se ampliando, o roteiro de um fato fascinante desenvolvendo-se frente à sua perplexidade sensível.

A Matriz de Nossa Senhora da Conceição funcionou-lhe como laboratório do ofício, brincando por ali, pegando pedaços de madeira, apalpando martelos e formões, sentindo os tamanhos dos cravos, o perfume das tintas, a consistência da cal, ouvindo as conversas, os sons, o saber vindo dos inúmeros oficiais e principalmente de seu pai — o arauto e timoneiro a liderar todo o templo.

A importância do pai não foi apenas no sentido técnico do aprendizado, mas da mão que corria sobre os encaracolados cabelos da criança, recebendo carinho do grande pai. Manuel Francisco Lisboa torna-se desde então o ídolo do filho, e muito da grandeza do filho provém do pai, o português vindo com seu mano, o também carpinteiro Antônio Francisco Pom-bal, para descobrirem seus incógnitos destinos no infinito Brasil.

Quantas vezes brincaste neste pequeno solo que te abrigas, no Altar da Boa-Morte! Mal sabias que ali te instalarias um dia. Não! Ali não estás! Teus poros e células mortas, o que de ti restou, ali não estão. Tu repousas noutras terras, noutros altares sem terra, nos umbrais alçados às magnitudes celestiais. Como um santo, aquele mesmo de Assis, o povero Francisco — a quem devotaste suor e sangue de teu labor —, o mesmo se dirá de ti, Antônio, que tens também Francisco no nome e que recebeste também as chagas — não apenas aquelas cinco do Monte Alverne —, mas as iluminações telúricas, não de apenas um, mas dos infindos montes das amadas terras mineiras.

Casa de Cláudio Manuel da Costa

Foto da Casa de Claudio Manoel da Costa do livro Olhar PoéticoNessa esquina de descidas fortes a caminho de Antônio Dias morou o mais brilhante dos literatos da época, o poeta, advogado e líder da Inconfidência, Cláudio Manuel, que, certamente prevendo o que viria após sua prisão, se suicidou (ou foi morto) na Casa dos Contos.

Considerado um dos maiores intelectuais de todo o período colonial brasileiro, Cláudio Manuel, nascido no distrito de Mariana, Minas, estudou no Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro e na Universidade de Coimbra. Foi nomeado juiz das demarcações de sesmarias de Vila Rica. Publicou em Coimbra, em 1768, Obras. Escreveu o célebre poema “Vila Rica”, só publicado postumamente, em 1813.

Mais que propriamente árcade, trata-se de um poeta classicista, influenciado por Camões. Seus temas não são bucólicos, mas enfocam, antes, as questões humanas: o sofrimento causado pelo amor, o desencanto da vida e a ausência de sua Nise, uma paixão não resolvida. A trajetória de sua poesia percorre desde a celebração da terra, trilhando a exaltação patriótica, desaguando no sentido das angústias sociais.

Em 1875, Bernardo Guimarães aborda o trágico fim de Cláudio:

Ali do velho Cláudio nos encara

A sombra veneranda,

Excelso vate, vítima preclara

De atrocidade infanda.

Dirceu finou-se em mísero degredo

de Cláudio a morte é tétrico segredo.

Com a morte de Cláudio Manuel, sua casa foi adquirida por Diogo Pereira de Vasconcellos, um dos primeiros cronistas e historiadores de Minas, que nos lega precioso perfil da sociedade da época no seu Breve Descrição Geográfica, Física e Política da Capitania de Minas Gerais. Diogo vem a ser pai do ilustre brasileiro e estadista do Império, Bernardo Pereira de Vasconcellos, que nasceu nessa casa em 1795. Bernardo era homem de prodigiosa cultura e se projetou pela excepcional oratória, elegendo-se deputado e senador, posicionando-se como líder liberal do país.

Tornou-se monarquista, ocupando os mais elevados cargos: os de ministro da Fazenda, da Justiça e do Império. Foi o primeiro a propor a unificação do Estado Brasileiro. Criou o Colégio D. Pedro II, para a formação das elites dirigentes, o Instituto Histórico e Geográfico e o Arquivo Público Nacional.

Apesar de monarquista, não concordou com a “maioridade” de D. Pedro II, afirmando: “quem dorme com criança amanhece mijado”.

Igreja de São Francisco de Assis

Olhar Poético - São Francisco de AssisNa São Francisco, mestre Aleijadinho excedeu-se. Torceu a pedra, abriu arcadas, rompeu paredes, afrontou mesmo a física, concebendo o templo de maior inventividade do Brasil. Estamos diante da obra-prima do Barroco mundial, segundo Germain Bazin. No auge de sua criatividade, Aleijadinho aqui mostrou seu total talento. Não estava ainda doente quando a projetou (1764), tendo apenas 26 ou 34 anos, dependendo da data do seu nascimento.

Como Baudelaire, Aleijadinho sabia que “arte é espanto”. Não mais igrejas retas, sisudas e frias, para isso não servia. Via longe e sabia que a arte é fantasia, sabor, espécie, ventania. O caminho mais curto entre dois pontos, para ele, não era a pobre reta – mas a riquíssima curva. E nela apostou, nos cheios e vazios, não no árido e lógico quadrado, mas nos círculos, nas vestes rebeldes e espiraladas, curvilíneas da concha.

Nessa igreja desloca a fachada das torres, avançando-a fortemente para receber o espectador, propondo-lhe surpreendente dinamização do seu olhar, que se verá dramatizado ao adentrar o templo, que o acolhe na teatralidade.

O óculo sobre a porta de entrada, geralmente vazado, seguindo secular tradição arquitetônica, Aleijadinho o fecha sumariamente, colocando aí seu São Francisco em pedra-sabão, a receber de joelhos as cinco chagas no Monte Alverne. Nas paredes laterais, faz exatamente o contrário: em todos os templos, daqui e alhures eles são fechados, com mínimas janelas superiores. Aleijadinho, não.

Não quis saber de reles janelas – mas rasgadas arcadas para o sol entrai, até mesmo as águas e as chuvas, privilegiando o mirante triunfal a descortinar-se a partir daí, a paisagem amplificada de montanhas e céus, a ladeira de Santa Efigênia ao longe, e sua tão amada Igreja de Nossa Senhora da Conceição logo abaixo. Do interior da igreja, que dizer? Nele imprimiu sua força. O retábulo do altar-mor não mais será fixo, parado, em prumo. Subverte a ordem, suspendendo-o, investindo o sobre a capela-mor, trazendo-o para frente até atingir o arco cruzeiro, criando a espacialidade de um palco em andamento num movimento dinâmico entre a parede e o teto, entre o homem e a imagem. Em engenharia, trata-se o arco cruzeiro de uma peça meramente estrutural de sustentação, a partir de onde toneladas de cargas se concentram: pedras, cimalhas, as grossas toras do telhado, telhas, traves, tudo se assentando nesse derradeiro arco, que deverá ser necessariamente compacto e espesso, forte para resistir. Aleijadinho, jamais! Não quer saber de coisas grossas, pesadas e rígidas. Ao contrário, quer leveza, ar, sintonia da arte com as infinitudes da delicadeza, como um pássaro pousando sem peso, sem volume nem estática. Arriscando até mesmo o desabamento do templo, naquele decisivo ponto nevrálgico do arco cruzeiro, desbasta suas paredes internas, afinando-as gravemente, colocando aí exatamente seus púlpitos, o da direita e o da esquerda, num vazamento de irresponsabilidade técnica, privilegiando a mais pura estética. Silencioso interlúdio das combinações rarefeitas se restabelece, onde os púlpitos se entreolham, emudecidos, meditando parábolas de Aleijadinho e Ataíde.

Porém, ele não é só o projetista. Quem quiser saber do Aleijadinho escultor que entre nessa igreja e nela veja o altar-mor, a talha, o cinzel ágil, a reflexão sensível da maestria daquele que sabia das altitudes ilimitadas. No lavabo da sacristia, o pega. Nesse instante, a doença manifesta-se: as três datas nele inscritas, 1776/77/78, fazem o percurso do antes, da hora, do depois. 1777, este o fatídico ano, quando para sempre teria de se acostumar com o mal que lhe roubaria o corpo. Não a alma. Esta, jamais. Mais que Barroco, Aleijadinho definitivamente é o Rococó, o homem a anunciar às nações que uma arte nova e transgressora aqui se fazia. Foi potente o suficiente não só para anunciá-la, como para concretizá-la, professá-la nas lástimas dos seus mutilados dias, nas pedras e cedros, nas imaginações intermináveis de sua inextinguível capacidade criativa. Feio, doído, arredio, talvez tudo tenha sido ingrediente do lancetar-se aos abismos da introspecção, do projetar-se aos fundos de si, abrindo-se aos mundos de um outro mundo. Nele, a dor é busca, afeto, faces de um Cristo que se aproxima, ao qual toca nas lágrimas de sua verdade. O “Cristo Flagelado” e as obras derradeiras dos “Passos da Paixão”, de Congonhas, introjetam a percepção de quem já alumbrava não mais a vida terrena. Num ato de comovente pungência, Aleijadinho desnuda-se diante de nós, deixando-se flagrar em sua intimidade de trabalho. As inscrições gráficas por ele deixadas na parede interna do corredor da sacristia, à esquerda, tocam-nos às raias da emoção. Com suas próprias mãos, quais aquelas dos homens das cavernas, imprime direto na cal o risco do frontispício da portada, em verdadeira grandeza, como se ele tivesse se ausentado há bem pouco dali, para vermos o “processo” de trabalho na busca milimétrica da perfeição. Cada pedra era ali medida, na parede, talhada e transportada, sendo colocada em seguida no destino final onde se encontra definitiva aos nossos olhos, na fachada.

A beleza dessas inscrições remete-nos a outro pujai] te momento da história da arte, quando Michelangelo deixava de propósito intacto o próprio mármore, para permearmos a insubstituível força de eternidade contida no “inacabado”, disponibilizando-nos o frescor, o processo do fazer. E o teto? E essa nave flutuante? Quando dois gênios se unem, outro não poderia ser o resultado. Em 1800, aos 38 anos, Ataíde já detinha os segredos do ofício, rompendo os forros da madeira, propondo o céu à Virgem que nele se alça por anjos e guirlandas celestiais nesse delírio ilusionista de colunas azuis e vermelhas em perspectiva. Para que os crentes, ao se verem abaixo nos bancos, tão ínfimos e distantes, pudessem sentir, enfim, a grandiosidade da transubstanciação divina. Se Michelangelo, pintor, nos deu no Vaticano a Capela Sistina, Ataíde nos dá, na São Francisco, a nossa Sistina. Guignard queria ser enterrado nos túmulos internos da São Francisco para ficar contemplando o teto de Ataíde. Ele ali não está, mas no cemitério ao lado. Bem ao seu lado fronteiriço, descansa para sempre a merecida glória de sua vida, esse outro mestre do esplendor e iridescência das cores, o nosso Ivan Marquetti querido, que repousa junto a outro querido amigo e pintor, o Estevão, a franquear o solo de seu próprio ateliê a mim, há tantos anos.

Casa de Gonzaga

Foto_olhar_poético_bracher_casa_de_gonzagaNa Rua Cláudio Manuel ou do Ouvidor, no número 61, residiu (de 1782 a 1788) um dos homens mais proeminentes de Vila Rica, o ouvidor e poeta da maior expressão, Tomás Antônio Gonzaga, em cuja casa reunia-se a fina flor da intelectualidade da época. Inconfidente da primeira hora, torna-se um dos principais articuladores do movimento e viria a ser o primeiro governante caso desse certo a Inconfidência. Foi preso uma semana antes do seu casamento com a amada Marília.

Ao lado de sua residência morava o tenente Luis Antônio Velasco Saião, casado com Antônia Cláudia Cassimira de Seixas, tios de Marília, em casa de quem Gonzaga veio a conhecê-la. Após o episódio da Inconfidência, o poeta foi degredado para Moçambique, África, vindo morrer em 1810, há exatos 200 anos. No rico solar de generosos jardins internos, funciona atualmente a Secretaria de Cultura da Prefeitura. A casa é o local de onde Gonzaga descortinava deslumbrante cenário: à esquerda, a casa de sua Marília ao longe; à frente, o Pico do Itacolomi, a Igreja de São Francisco e o prédio construído em 1747 (hoje Hotel Mondego), antiga sede do Colégio Assunção, onde se instalou a primeira Escola de Farmácia do Brasil, em 1839.

Subindo seu olhar à direita, Gonzaga se defrontava com a torre em construção da Casa de Câmara e Cadeia. Em 1786, escreve as sigilosas Cartas Chilenas, atacando violentamente o governador Luiz da Cunha Meneses (“O Fanfarrão Minésio”), por abusos e desumanidades durante a construção do prédio da cadeia. Aqueles seres, como habitavam essas casas, como povoavam esses quartos, com que sentimentos, sonhos, reservas, desejos? Nessas paredes tardias persistem murmúrios, vozes silenciosas de outrora. Tais moradas são feitas de vultos, mistérios insondáveis de um relevo intangível. Às vezes vemos ou pressentimos espectros, nesses chãos habitados por ecos. Na Lira XXI, Verso I, lamenta-se Gonzaga:

Que diversas que são, Marília, as horas,

Que passo na masmorra imunda e feia,

Dessas horas felizes, já passadas

Na tua pátria aldeia!

Museu da Inconfidência 

Antiga Casa de Câmara e Cadeia

Foto do Museu da Inconfidência do livro Olhar PoéticoSão tantas pedras, largas e altas, róseas e fundas, formando um só bloco monolítico, parecendo-se, de tão certas, um só pedaço desbastado, de tanto apuro. Os operários de cantaria que as fizeram eram exímios, como ourives. Quanto suor, quanta ciência! Subir essas escadas, tatear as mãos na rugosidade granítica remonta-nos não só aos que as fizeram, quanto aos presos que nelas sangraram seus dias, devastados, dilacerados na solidão das graves grades, apunhalados na sensação de habitar lugar inexpugnável. Acima, os legisladores, livres e soltos, subindo a escada interna, larga da majestade. É sempre assim, a eterna luta humana, as diferenças, desigualdades.

Hoje, o museu não mais guarda homens, mas objetos, peças, móveis, armários, candeeiros, aldravas, tramelas, luminárias, mesas, cadeiras, liteiras, telhas, telhados, canos, encanamentos, espingardas, pistolas, trabucos, quadros, projetos, desenhos, formas, formas tantas de tudo, quase tudo. Mas, sobretudo, o espaço não material, imaterial das células nacionais neste solo de pedras frias, chão guardando o calor dos sonhos – o Panteão da Inconfidência. Tiradentes reverte-se no tronco gélido, inerte, abaixo da bandeira vermelha e branca, a dizer como antes: “Adeus, minha Pátria, vou trabalhar para todos” –, carregando os restos dos que ali estão ao lado seu, os companheiros de lutas, também inertes na campa, os restos africanos dos degredados, feridos por deixarem o torrão dos sonhos. Mas voltaram, todos voltaram, no silêncio obscuro dos ossos, para o sepulcro da eternidade.

Em metal, Tiradentes lá está, na praça, na visagem imemorial quando os tempos restabelecem os grandes círculos, os grandes símbolos, sobretudo é o principal deles – a liberdade. Maciel trouxe a centelha republicana e tantos outros a entenderam, supliciando a si próprios, o próprio ser, a própria vida.

Antigo Palácio dos Governadores

Foto Olhar Poético Antigo Palácio dos GovernadoresOs brancos espaços gloriosos se lançam sobre a praça, guardando os governadores no Palácio, isolando-os acintosamente da plebe. Implantando nas faldas da serra, se escorre imponente da rampa e dos altos muros inclinados, dando-lhe feição algo militar, acentuada por quatro guaritas cilíndricas equidistantes.

O Palácio fica a sobranceiro, observando os dois vales laterais e as serras à sua frente. Os governadores espiavam os povos e as gentes de cima para baixo, com o devido distanciamento. Maestro das ideias, o brigadeiro, arquiteto e engenheiro militar, José Fernandes Alpoim, o projeta em 1741 e o bom governador Gomes Freire de Andrade o constrói. Manuel Francisco Lisboa arremata a contratação da obra, para fazê-la em pedra e cal. O próprio Alpoim descreveu os detalhes ao arrematante:

“As paredes desta obra até o vigamento serão de quatro palmos de grosso cujo pé direito começando a contar da porta principal terá vinte dois palmos craveiros e incluindo nessa altura levará um cordão de cantaria com um palmo de alto, outro de sacada como o das fortificações que cercará em roda toda a obra de cortinas flancos e faces. Nos ângulos flanqueados dos quatro baluartes haverá em cada um uma guarita redonda, fundada sobre seu pião”.

Por aqui passaram governadores diversificados e contraditórios: rudes, cruéis, injustos e apenas um justo, Gomes Freire, conhecido como conde de Bobadela, torna-se o melhor e o mais eficiente. De 1733 a 1763 faz pontes para transpor; chafarizes não apenas para compor, mas para jorrar água sem fim das fontes; também os arruamentos necessários, embelezamentos gerais e as benfeitorias públicas vigentes até hoje.

Depois da mudança da capital para Belo Horizonte (1897), o Palácio recebe, por mais de 100 anos a Escola de Minas, exercendo no prédio a glória de sua história. Nele encontram-se bela biblioteca de livros raros e o Museu de Mineralogia, riquíssimo acervo de pedras colhidas em todos os cantos da terra e considerado o segundo maior do mundo, após o de Amsterdam. A visita ao museu é absolutamente imperdível para quem aprecia gemas e minerais, no delírio de cores e formas prismáticas gestadas pela imbatível estética da natureza.

Praça Tiradentes

 

Foto do livro Olhar Poético

Da praça, a perspectiva do olhar lança-nos ao Pico do Itacolomi, entrecortado por sobrados, o museu, a torre, as quatro estátuas encimando os cantos laterais e o Carmo emprestando suas duas torres, acentuando-se a altiva conjugação de elementos verticalizados, com a presença triunfal do Tiradentes dando costas ao palácio.

Tênue fio de horizontalidade invisível une os dois Tiradentes, olhando-se entre si: o do bloco pétreo de mártir, no interior do panteão, e o do obelisco na praça. Miram-se e se veem, firmes, na intactilidade inviolável de quem jamais renegou os ideais.

Cívico e lírico, o cenário revivifica-se na intrepidez do homem que retorna para onde esteve um dia sua cabeça. Retorna em bronze para ficar, pelos tempos e tempestades, contemplando ao longe as montanhas visíveis e ocultas que lhe invadiram o peito de tanta coragem.

Tiradentes vê por sobre tudo e todos, deixando-se solopar não mais pelos homens, senão pelas chuvas, os choques e ventos, relentos insondáveis das intempéries noturnas. Fato raro numa praça de tal imponência é a não inclusão direta de igrejas, quando o Carmo não participa gloriosamente da cena, intervindo apenas com sua lateral, ainda assim num canto.

De quem entre na praça, à direita está o correr de casas geminadas do grande arquiteto Alpoim, desenvolvendo uma sequência ritmada de sacadas, portas e janelas, algumas destas de propósito “cegas”, num sobe e desce de alturas e proporções, mantendo o nivelamento continuado do telhado, contrastando-se com o caimento da praça.

Vendo-se de frente, o Conjunto Alpoim é um quadro de artística composição entre vazados e não vazados, que certamente Modrian assim o compusesse. Demais sobrados compõem a praça: Casa da Baronesa, no número 35 (do barão de Camargos, hoje sede do Iphan); a Câmara Municipal, no número 41 (onde Niemeyer se inspirou para a colunata); o casarão do antigo Hotel Pilão, no número 4, ora construído pela FIEMG, onde são feitas exposições e se encontra um café com agradáveis mesas e a Livraria Cultural do Paulo Lemos. No prédio funciona um ponto de guias de turismo. Quem quiser ser bem atendido, que solicite os préstimos de um deles, prontos a explicar, inclusive em diversas línguas, as histórias e lendas de Ouro Preto.

Terminando o circuito dos casarões da praça, no número 52/54 encontra-se a casa do último governados de Minas colonial, D. Manoel de Portugal e Castro, no posto entre 1814 e 1822. Na sacada, se lê a inscrição: “Para eterna memória do benefício imortal, teu nome fica neste metal”.

Zé Pereira do Club dos Lacaios

O Bloco Zé Pereira do Club dos Lacaios completa, em 2017, 150 anos de existência. A agremiação carnavalesca surgiu da ideia de um português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes, que desfilou pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro com foliões e músicos da época no carnaval. Quando José Nogueira foi transferido para trabalhar no Palácio do Governo em Ouro Preto, criou, em 1867, o bloco que é símbolo do carnaval da cidade, formado na época por empregados do palácio. Produziram bonecos em gesso, papel machê e taquara, com roupas parecidas com as que os lacaios (mordomos) vestiam: fraque e cartola. Hoje o bloco mais tradicional de Ouro Preto conta com cerca de 70 membros, além de baterias e bonecos gigantes, como o Catitão, a Baiana e o Benedito.

Apresentamos aqui, por hora, um artigo do turismólogo e estudante de museologia Marco Antonio Leite Brandão e outro feito por Jefferson Rocha, integrante e tocador de Clarim do Zé Pereira dos Lacaios.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

ZÉ PEREIRA DO CLUB DOS LACAIOS: Do carnaval DE Ouro Preto ao Carnaval EM Ouro Preto

por Marco Antonio Leite Brandão

No dia 01/01/2017 os ouro-pretanos puderam conferir desfile do Zé Pereira do Club dos Lacaios (ZPCL) com um condimento especial: celebração oficial de 150 anos (1867-2017) de existência.

Embora o ZPCL,  agremiação folclórico-carnavalesca,  seja uma página singular da história cultural e social de Ouro Preto (Minas Gerais), até o presente não havia qualquer pesquisa, acadêmica ou não, que apresentasse uma leitura integral de sua longa trajetória. O trabalho realizado permitiu uma leitura panorâmica sobre o Carnaval DE & EM Ouro Preto e em particular sobre o ZPCL. No contexto do século XIX verificou-se também a questão do Entrudo.

Particularmente entre 1857, ano do primeiro carnaval em Ouro Preto (fato documentado no Correio Official de Minas (Ano I, n.10, 09; 02; n. 19, 12/03/1857) e meados do século XX são franciscanas as informações levantadas e sistematizadas sobre os folguedos de Momo e, especificamente, a digital do ZPCL).  A origem da versão carioca do folguedo Zé Pereira, adaptação de festejo português, ainda encontra-se em questão aberta entre os especialistas: 1846? 1850? 1852, mas até pelo menos 1873 não localizamos  na imprensa mineira, menção de sua existência entre os foliões locais, apenas Entrudo e Carnaval.

Na pesquisa procuramos corrigir e elucidar algumas versões correntes  sobre as origens da tradicional agremiação e fundamentar/legitimar, documentalmente, as raízes do ZPCL nO Zé Pereira Carnavalesco, espetáculo produzido por Francisco Correia Vasques (1839-1892), apresentado em 03/07/1869 no Teatro  Phoenix Dramático (RJ),  paródia do musical de Les Pompiers de Nanterre (Os bombeiros de Nanterre), produzido  por Louis-Claude Desormes (1840-1898). Em 08/11/1873 amadores ouro-pretanos encenaram O Zé Pereira Carnavalesco no Teatro Municipal. Na versão do espetáculo  montada em 1878.  Deste fato têm raízes o tema musical  do Zé Pereira e que se consolidou como ícone do carnaval no Brasil e  se tornou marca registrada do Zé Pereira do Club dos Lacaios. Ou seja, documentalmente confirmado, tem-se que de 1873 a 1898 o Zé Pereira já se consolidara como expressão dos festejos de Momo em Ouro Preto. Em 1898 é que, pela primeira vez, aparece na impressa Zé Pereira do Club dos Lacaios. Todo o processo foi esmiuçado ao longo da pesquisa. Para nossa fortuna entre 1857 e 1900 todos os carnavais estão registrados nos inúmeros periódicos da antiga capital mineira e assim foi possível investigar ano a ano a versão publicada na imprensa do Entrudo e Carnaval no século XIX.

Sobre o carnaval ouro-pretano  e a comunidade estudantil nas últimas duas décadas, tem-se expressiva produção de estudos sob cânones acadêmicos que apresentam panorama e análise sobre o  câmbio do complexo que definimos como Carnaval DE Ouro Preto (organizado por e para a comunidade nativa) ao Carnaval EM Ouro Preto (para fruição do consumidor turista). No contexto desse trânsito avaliamos o protesto protagonizado pelo ZPCL em 2013, episódio que julgamos seminal em sua história e do carnaval ouro-pretano: após ingressar na Praça Tiradentes postou-se em silêncio, virou de costas para o imenso palco  e em seguida manifestou seu descontentamento. No dia anterior o ZPCL não conseguiu adentrar a Praça Tiradentes para oficialmente abrir o Carnaval. Mais que mera falha da organização do evento, o episódio explicita e espelha, a nosso ver,  a hegemonização do Carnaval EM Ouro Preto, que os nativos apelidaram como Carnaval DAS Repúblicas ou Carnaval DA Cerveja.

Inicialmente procuramos conferir capilaridade e interação entre o que denominamos Ouro Preto Cidade Acadêmica / Festa do 12 / Casa de Gorceix  &  Carnaval DE Ouro Preto em correlação com  sua interação com a comunidade local;  e o câmbio para a Ouro Preto Cidade Universitária / Festa do 12 da UFOP & Carnaval EM Ouro Preto / Carnaval DAS Repúblicas / Carnaval DA Cerveja / interação com o consumidor turista. Casa de Gorceix é como carinhosamente os acadêmicos referiam-se à instituição Escola de Minas. O fato que identificamos como referência que marca o descolamento entre esses dois contextos paradigmáticos deu-se em 1976: o Bloco do Caixão (cortejo criado em 1966) da República Necrotério (1958) deixou de desfilar após o baile da Festa do 12 Casa de Gorceix e passou a integrar os festejos de Carnaval; e ano do centenário da Escola de Minas. Em seguida avaliamos leitura panorâmica do tríduo de Momo em Ouro Preto de 1857 aos dias atuais tendo como perspectiva apreender a emergência e evolução do ZPCL. Para o período 1857-1902 os registros compilados da imprensa mineira foram as principais fontes de referência; na primeira metade do século destacamos os registros memorialísticos (livros de memórias, crônicas, entrevistas de antigos moradores já publicadas) e na segunda pautou-se fundamentalmente no levantamento e exegese de registros de memória oral, sobretudo com membros que identificamos com orgânicos do ZPCL e da comunidade cultural ouro-pretana.

Essencialmente, a nosso ver, o ano de 1997 é o que, cronologicamente, marca o câmbio para o que a população ouro-pretana passou a denominar como Carnaval Das Repúblicas e Carnaval da Cerveja. Trata-se do trânsito do Carnaval DE Ouro Preto ao Carnaval EM Ouro Preto.  E basta ao leitor conferir o fato de que o Carnaval de 2017 teve efetivamente  como patrocinadores os recursos mobilizados pelas Repúblicas, cerca de 1/3 do investimento e por duas empresas. A imagem do ZPCL, mais uma vez usada, como valor de troca para a venda do tradicional carnaval DE Ouro Preto…

Concluímos o trabalho com sugestões com perspectiva de que possam contribuir para que a comunidade do  ZPCL possa melhor perceber-se no contexto do Carnaval EM Ouro Preto.

Resgaste: A volta dos Clarins e das Lanternas no Zé Pereira

por Jefferson Rocha

No aniversário da cidade de Ouro Preto, a Agremiação Folclórica Club Zé Pereira dos Lacaios saiu pelas ruas da cidade com os três bonecos mais antigos – “Catitão”, “Baiana” e “Benedito”. Foram levadas ao som de suas caixas e bombosas lanternas e os clarins, além dos bonecos.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

No dia da comemoração dos 319 anos da cidade, os clarins fizeram soar novamente as antigas clarinadas que anunciavam a saída e a chegada do Zé Pereira nas ruas.

Sendo assim, proponho escrever sobre a volta das lanternas e dos clarins no Zé Pereira a partir de julho deste ano (2017), em especial, na data do aniversário dessa cidade.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Há alguns anos os trompetes substituíram os clarins no Zé Pereira, inclusive no carnaval deste ano, ainda sim, tocaram-se os trompetes. Já os clarins são instrumentos mais agudos que os trompetes. Os clarins militares são menores e os “medievais” são até maiores que os trompetes, porém de espessura fina com sons bem agudos (sons finos/altos). Os clarins do Zé Pereira são réplicas dos “militares”, portanto menores. E ao mesmo tempo, réplica das cornetas das fanfarras.

O idealizador desse resgate foi o atual presidente Arthur Carneiro – um jovem sonhador e apaixonado por essa agremiação que caminha para o bicentenário.

Um ponto que também me levou a compor essas palavras diz respeito à tradição e como essa palavra, assim como o lendário Club dos Lacaios, passeia por essa cidade. Tradição conforme uma linha de movimento, não se conserva no tempo. Ela anda, caminha, contorna, retorna, desliza, sobe e desce no campo semântico do termo. Deste modo, tradição é dinâmica.

Há 150 anos essa agremiação era muito diferente de hoje. A população ouro-pretana era outra, as ruas eram outras, a cultura no geral era outra. E o único jeito de se manter a tradição, não no sentido estático do termo, é caminhando sob essas mudanças. Mudanças que se fazem necessárias no dia-a-dia, tanto no campo geográfico, no turístico, no político, no econômico e no cultural. Mudanças essas que são inevitáveis, mas que, com muita luta tentaram no mínimo reinventar o já inventado, conservando em novos acordes os sons antigos. Reinterpretando velhos costumes na tonalidade do agora. Ressignificando suas práticas dentro de algumas limitações e entendimentos. E assim, essa agremiação que é Club, bloco e tradição, continua por passear sonoramente e esteticamente pela cidade tricentenária.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Eu como clarinetista do Zé Pereira sinto uma mistura de carnaval e procissão, sobretudo, com as saídas das lanternas. Durante a composição deste texto, tocando com o Zé Pereira, cheguei a comentar essa minha sensação, mistura de carnaval com procissão, com uma pessoa (Chiquinho de Assis) e ela me disse que representava o barroco. Conflito entre sagrado e profano. Logo fez sentido, primeiro porque sou ouro-pretano e admirador da cidade que traz uma forte sensação barroca. E segundo, porque estudo um filósofo romeno de nome Mircea Eliade, que escrevera obras sobre o relativo sagrado e profano em suas pesquisas sobre símbolos religiosos. O que se aplica muito nesta minha cidade.

Enfim, os clarins que trazem à tona a era medieval e a anunciação sob os cavalos. As lanternas que clareavam uma cidade que ainda não conhecia os postes e que aludiam ao sagrado são, de sobremodo, um toque diferencial nesse “Bloco” gigante. É mais do que carnavalesco, é mais do que lúdico. É tradição barroca, ressignificada, que, quiçá perdurará por mais séculos por essa Ouro Preto.

Zé Pereira foi minha primeira escola de música. Antes mesmo de sair nele, já o batucava nas latas na rua de minha casa com outros amigos. Fazíamos os bonecos com vassouras velhas. O Zé Pereira, os sinos/torres desta cidade, e os atabaques dos terreiros e capoeiras me levaram ao estudo formal da música. Hoje sou músico da Banda do Rosário, ainda sineiro, clarinetista no Zé Pereira, compositor e arranjador.