Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Annamélia Lopes
A artista da cartografia afetiva de Ouro Preto

Annamélia Lopes, Ouro PretoA artista-plástica e professora Anna Amélia Lopes de Oliveira nasceu em Nova Lima em 1936. Annamélia, como assina suas produções, mudou-se para Ouro Preto em 1964, com o marido, o pintor Nello Nuno, e os filhos, onde mora e trabalha até hoje. Graduou-se na primeira turma da Escola de Belas Artes da UFMG. Na área de gravura em metal estudou com o professor José Assunção Souza, no Festival de Inverno da UFMG em Ouro Preto e com o professor Glébio Maduro na Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP). Outros professores que participaram de sua formação: Álvaro Apocalipse, Haroldo Matos, Yara Tupinambá, Jefferson Lodi, Herculano Campos e Amílcar de Castro. Criou em 1970, juntamente com Nello Nuno, a Escola de Arte Rodrigo Mello Franco de Andrade incorporada pela FAOP. Em 1998 ganhou o título de “Cidadã Honorária de Ouro Preto”.

Nesta entrevista ela conta sobre o começo da carreira, a vinda para Ouro Preto, sua paixão pela cidade, a convivência com Nello Nuno e outras personalidades como Murilo Rubião.

Quais são suas origens e influências?

Tenho várias influências no meu trabalho. Quando era criança, já gostava muito de desenhar. Nasci em Nova Lima, saí de lá com seis anos e fui para Belo Horizonte. Já no Colégio onde estudei, no Sion, lembro que desenhava muito. Na época, existiam aqueles cadernos de recordações que os alunos faziam e minhas amigas pediam para fazer desenhos nesses cadernos. Minha mãe, que nasceu em 1914, me incentivou muito.

Ela havia estudado no Colégio Santa Maria, de freiras, em Belo Horizonte, que equivalia ao científico da minha época. Chamavam de curso Ménage, preparava a aluna para a “vida de mulher”, como se ela não fosse trabalhar fora. Lá se aprendia artesanato, pintura, bordado, tecelagem, além das artes domésticas. Ela fez trabalhos muito lindos nesse curso. Quando ela viu que eu gostava muito de desenhar, me deu muito incentivo. Interessante que no tempo dela, faziam pinturas copiando cartões postais e como eu já tinha tendências modernas, já desprezava cópias de cartão postal. Com 17 anos, ela me matriculou em um curso particular de pintura com um francês. Comecei a fazer o curso e gostei muito. Mas de repente ele voltou para França. Então minha mãe me matriculou para fazer o concurso de Belas Artes na Escola de Arquitetura, em Belo Horizonte.

Achei interessante porque ela mesma que me matriculou. Ainda falei: “Ah, mãe. Não vou passar. Imagina, fazer vestibular”. E ela disse: “Tenta sim”. Fiz o vestibular e passei. Passaram 30 pessoas. Comecei a fazer o curso, mas o pessoal da Arquitetura pediu a extinção do curso porque falava que a Arquitetura não era arte, Arquitetura era ciência e se o curso de Belas Artes ficasse lá, eles seriam confundidos com artistas. Começaram a impedir as aulas. Foi uma luta. Rifamos um rádio de pilha e impetramos um Mandado de Segurança. As aulas já tinham começado e o diretor simplesmente extinguiu o curso. Conseguimos colocar mais uma turma para fazer o vestibular, mas a extinção caminhava atrás. Saímos do prédio da arquitetura, alugaram um andar inteiro na Rua Tupis e ainda haviam vários professores da arquitetura. Ficamos preocupados.

Qual professor ficaria num curso que seria extinto? Estavam implantando a Universidade na Pampulha e a reitoria já estava pronta. Procuramos o Reitor por que das outras escolas, nenhuma quis receber Belas Artes e pedimos para que levasse o curso para o prédio da reitoria. Ele aceitou. Fomos para esse prédio, mas não nos sentimos a vontade para as aulas práticas, mexendo com escultura, argila e modelagem. Mas lá havia vários galpões para construção do campus. Pedimos a ele para transferir o curso para esses galpões. Ele disse “Imagina, aqueles galpões horrorosos, como vocês vão ficar lá? ”. Mas precisávamos ter um local onde pudéssemos fazer as aulas práticas com mais liberdade porque esse prédio não estava de acordo com o que íamos mexer. Ele concordou e o curso foi transferido para onde havia esses galpões e onde é o local que funciona até hoje a Escola de Belas Artes do UFMG.

Como se deu a sua vinda para Ouro Preto e a criação da Escola de Arte da FAOP?

Casei com Nello Nuno no último ano do curso. Na época ele já fazia pintura. Foi praticamente um autodidata. Ele lia muito e ia visitar os colegas pintores, então conviveu com todos os pintores da época que moravam em Belo Horizonte. Uma turma boa. Casamos e nos mudamos para Lagoa Santa. Lá fomos sobreviver com o lucro de uma granja e, ao lado, montamos um atelier. Vivemos mais ou menos um ano assim. Mas houve um problema com a criação. Tivemos um prejuízo grande, mas o Nello já estava vendendo quadros, na Livraria Itatiaia, em Belo Horizonte. Então passamos a viver da venda de quadros. Especializei-me em gravura e já tinha vendido algumas quando ainda era estudante. Lembro que era tão raro naquela época vender obra de arte que saiu até no jornal. Nem meus professores tinham vendido ainda. Foi uma sensação. Em 1964, três casais, eu e Nello, o Álvaro Apocalipse, que tinha o teatro de bonecos Giramundo e sua esposa, Teresa Apocalipse, Aroldo Marques e Tita, a mulher dele, resolvemos alugar uma casa em Ouro Preto para abrir um atelier só nos fins de Semana, na Vila Peret. Viemos passar o primeiro fim de semana, montamos o atelier, mas eu e o Nello ficamos apaixonados pela cidade. Os outros casais voltaram para Belo Horizonte e nós ficamos porque a gente não conseguia voltar. Foi difícil a mudança. Viemos com quase nada, sem dinheiro. Minha mãe mandou alguns móveis. A gente tinha fogareiro. Era quase um acampamento. Mas éramos jovens e com muita disposição. Passamos apertos, mas foi muito bom. E era uma época em Ouro Preto interessante porque a gente saía na rua para desenhar e juntava gente, queriam saber como era. As pessoas iam lá em casa, queriam que a gente ensinasse a eles. Havia uma curiosidade enorme a respeito. A gente tinha uma proposta diferente, um trabalho mais moderno para a época. Por isso as pessoas ficavam curiosas e surgiam propostas engraçadas. Queriam que a gente consertasse bonecas, imagem de santos. Falei para o Nello: “As pessoas estavam tão curiosas quanto à arte, quem sabe a gente cria um curso? ”. Havia na cidade um historiador, o Orlandino Seixas, que foi diretor do Museu da Inconfidência antes do Rui Mourão, que poderia dar aulas de História da Arte. O Jair Afonso Inácio, que era um grande restaurador, podia dar aulas de restauração. Nello daria aulas de pintura e eu, aulas de desenho e gravura. Depois conseguiríamos outras pessoas. Nello achou fantástico e fizemos um cartaz em xilogravura, anunciando o curso inicialmente de desenho e pintura. Abrimos a inscrição, 40 pessoas se inscreveram, mas somente uma pessoa pagou. A gente não tinha onde funcionar porque em casa não tinha como colocar tanta gente para estudar. Soube que havia um casarão no Rosário, o qual seria reformado, mas que estava parado. Ele iria pertencer a Fundação de Arte de Ouro Preto que estava sendo criada. Fui até ao presidente da Fundação na época, o escritor Murilo Rubião, que inclusive é padrinho de batismo da minha filha, e disse que eu e o Nello queríamos criar uma escola de arte, já estávamos com 40 inscrições, se ele poderia emprestar uma sala até começar a restauração. Ele concordou. Fui até o prefeito pedir três mesas grandes e 30 banquinhos e conseguimos. Assim começamos: ninguém pagava, levávamos o material de casa, mas a gente amava. No Festival de Inverno daquele ano, sobrou material usado do curso infantil. Conversei com todas as pessoas que eu conhecia da UFMG, e pedi para que eles cedessem esse material para a escolinha. Assim o curso deu continuidade. No fim do ano, fizemos uma exposição no porão do Hotel Pilão, onde hoje é a FIEMG, e onde existia uma galeria de arte. A exposição foi um sucesso. Na época, estava visitando Ouro Preto, o criador da escolinha de arte do Brasil, Augusto Rodrigues. Ele foi conhecer a exposição e a escolinha. Ficou encantado e até levou a exposição para o Rio de Janeiro.

Procurei o conselho da FAOP, já que tudo passava por ele, e pedi para que fosse conhecer a escolinha e ver se tinham interesse em assumi-la para fazer parte da instituição já que dentro do seu estatuto estava prevista a criação de um festival de arte na cidade. Quando foi feito esse estatuto, não existia a Secretaria de Cultura e Turismo ainda. Eles tinham interesse em criar um Festival de Inverno em Ouro Preto, mas já existia o de Arte da UFMG. Acontece que, depois que o festival terminava  quem queria continuar fazendo os cursos, não podia. Como a FAOP disse que criaria cursos de música, arte, teatro, assumiram a escola, primeiramente como curso, depois como Escola de Arte Rodrigo Melo Franco de Andrade. Havia curso para crianças e adolescentes, curso de desenho, pintura, gravura, história da arte, escultura, pintura e restauração para adultos. Depois foram sendo acrescentados outros cursos existentes até hoje, o que a gente sonhava, como o Curso de Ofícios.

Em paralelo, tinha meu trabalho pessoal. Por muitos anos fiz desenhos, gravura em metal, xilogravura e atualmente faço pintura. Foi muito bom isso ter acontecido em Ouro Preto. Quando Nello faleceu, muita gente pensou que eu voltaria para Belo Horizonte. Mas Ouro Preto foi uma escolha não só dele, mas de nós dois. Não ia largar o que comecei aqui.

 

Como era a convivência com Nello Nuno?

Ficamos casados por 14 anos e tivemos cinco filhos. Nello era uma figura muito carismática, especial. Difícil ter uma figura assim: alegre, generosa, com muito humor. Nello fazia poemas também. Nos poemas “Amor à Vida” e “Poema para Anna Amélia”, dá para ver a ligação dele com Ouro Preto e comigo. Qualquer coisa inspirava o Nello. Mas ele fez algumas poesias em uma fase que ele estava deprimido, época em que estávamos com dificuldade financeira. Quando as gêmeas nasceram, passei muito aperto, até parei de desenhar por um tempo. Nessa época, um filho meu estava com dificuldade na fala. Procuramos um foniatra em Belo Horizonte, que nos indicou uma clínica onde era realizada a Ludoterapia com crianças juntamente com a Foniatria. Lá havia, também, terapias de casal. O que era muito discutido na época porque se tratava de uma coisa nova no Brasil. Em uma das consultas, a fonoaudióloga disse que era para gente fazer essa terapia, pois estava me achando muito cansada e  dava para negociar com o médico, já que éramos artistas. Nello mesmo marcou um horário. Foi fantástico. Nossos colegas artistas disseram que iriam fazer lavagem cerebral, que isso iria nos atrapalhar como artistas. Nello disse: “Vou assinar meus quadros como ‘Nello Nuno Rangel’ para eles saberem se eu piorei ou melhorei”. E foi a melhor fase dele, ele deslanchou.

Em 1975 compramos essa casa no Centro, onde moro até hoje, já que Nello estava vendendo muito bem. Ele teve uma encomenda grande de um pessoal na Pampulha que deixou ele preocupado, não só com essas encomendas, mas também com a compra da casa, que ainda estava em reforma. No início do Festival de Inverno, ele pediu a casa de Lagoa Santa emprestada para minha mãe para descansar porque havia “dado um branco”. Como se ele já tivesse feito tudo que ele tinha que fazer nessa vida. Chamou um amigo, o Rodrigo Toffolo, que já morreu, e o escritor Amílcar de Castro, passaram em Belo Horizonte, compraram vinhos, queijos, patê francês, e foram para Lagoa Santa. No primeiro dia, ele começou a passar mal. Ligou para o pai, que era médico, e ele foi buscá-lo. Como ele era professor na Escola de Medicina, em Belo Horizonte, o levou para lá. Ele teve toda assistência. Eu estava dando aula no Festival de Inverno e me chamaram. Consegui alguém para ficar com meus filhos, aluguei um táxi, e fui para BH. Enquanto estava a caminho, ele morreu. A causa foi Botulismo, causado pelo patê. O antídoto tinha que ser buscado na França, não dava tempo. Foi muito duro. Sei que aquela terapia de casal que me ajudou a conseguir aceitar a morte dele.

Em que você tem trabalhado atualmente?

Sempre gostei de mapas. Há cinco anos, comecei a usar mapas de Ouro Preto para fazer perspectiva de rebatimento, como criança faz. Uma Cartografia Ingênua de Ouro Preto. Meu filho disse que gostava muito do meu trabalho, mas que eu poderia trocar para Cartografia Afetiva de Ouro Preto. Também achei melhor e nos meus últimos quadros estou fazendo desse jeito. É baseada em Ouro Preto, mas pode ser qualquer vila porque agora o trabalho está “mais solto”. Quando vou para o atelier digo que é meu templo sagrado. Posso não ganhar dinheiro com isso. É ótimo quando vende, mas mesmo se não vender, eu continuo fazendo. Porque a arte sempre ajuda a gente.

Vinicius de Moraes teve uma participação na ideia da criação da FAOP, como era o contato com ele naquela época?

Vinicius de Moraes, Nello Nuno e Annamélia Lopes, no Calabouço, em Ouro Preto
Vinicius de Moraes, Nello Nuno e Annamélia Lopes, no Calabouço, em Ouro Preto

Tive uma convivência pequena com ele. Nello Nuno conviveu mais. Vinícius era muito boêmio e o Nello também. Eu era mais sossegada e como estava com cinco filhos, não tinha como acompanha-los. Era até convidada para ir com eles, mas tinha que ficar com as crianças. Então saia pouco. Há uma foto-veja do lado- no Calabouço em que estamos em uma mesa eu, Nello, Vinícius, João Bosco, Samuel Koogan, Carlos Scliar e o José Alberto Nemer que está tocando violão. Uma turma boa! Fiz algumas gravuras sobre as músicas do Vinícius.

E o  escritor Murilo Rubião?

Pessoa impressionante, tranquila. Se agora os políticos tivessem o gênio dele não tinha roubalheira. No primeiro ano como presidente da FAOP, ele economizou tanto a verba que, no ano seguinte, o Estado não queria dar a mesma quantia porque achou que a Fundação não precisava. Era uma pessoa muito interessante. Um grande escritor. Nello fez vários quadros e eu gravuras baseadas em livros deles. Ele falava que era parente do Nello, gostava demais dele. Quando fizeram uma homenagem a ele, disseram que ele achava Ouro Preto triste. Mas eu disse que isso não existia. Foi uma moça que ele namorou por um tempo, a Amélia, que tinha problema com a cidade. Quando vinha para minha casa, sentava na conversadeira da sala de costas para janela. Dizia a ela que  para mim, aqui em Ouro Preto era eterno feriado, eu é que trabalho muito. Mas o Murilo não tinha problema nenhum. Ele gostava de  Ouro Preto  e
vinha muito aqui.

Repórter: Patrícia Botaro