Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Aluísio Drummond
Mãos que abrem sorrisos em Ouro Preto

Aluísio Drummond, Ouro Preto“Aluísio Drummond é uma figura humana rara e incomum. Possui acurado ‘sentimento do mundo’, das grandezas e mazelas humanas e suas instituições. Alma generosa, aguçada pela consciência de que é possível mudar o mundo e a vida, tem na solidariedade sua maneira de expressar sua indignação para com as injustiças e desigualdades”. Foi assim que o jornalista Mauro Werkema definiu com belas palavras, o dentista Aluísio Drummond no livro Fundação Sorria 25 anos, lançado em 2015. Nesta entrevista, ele conta como foi o início deste sonho, as dificuldades, e o que planeja para o seu futuro.

 

Dr. Aluísio Drummond, como se deu a criação da Fundação Sorria e o contato inicial com os parceiros da Fundação?

Tudo começou a partir do momento em que passei a lecionar na PUC Minas em Belo Horizonte em 1978, onde adquiri os conhecimentos para a elaboração de um projeto que devolvesse à criança de Ouro Preto, um sorriso compatível com a dignidade dela. Sabemos que o país é extremamente desigual e a saúde pública vem se deteriorando através dos anos. As pessoas tem pouca assistência odontológica na área pública. Isso me incomodava muito. Primeiro porque via no sorriso das crianças mais pobres, a mutilação e no conjunto da face o dente é um elemento importantíssimo, já que através do sorriso saudável você demonstra a alegria e a autoestima. Não adianta nada você ter componentes maravilhosos na face, um olhar bonito, um nariz bem delineado, se ao sorrir você não demonstra uma trajetória saudável de vida.

Tenho uma base socialista muito densa. Nasci em berço privilegiado, sou a 5ª geração de dentistas na minha família, mas sempre acreditei que é possível minimizar as desigualdades. Por ter feito minha formação acadêmica em escola pública, achei, por um dever de consciência, que deveria devolver àquelas pessoas que custearam os meus estudos através dos impostos pagos, alguma coisa que eu aprendi. E também deixar um legado que pudesse dignificar a minha existência. Não adianta nada acumular riquezas se vivo à margem do processo, se não estou inserido nas necessidades e carências sociais.

Comecei então a colocar em prática essa vontade, com uma unidade simples, com crianças muito pobres, na creche Casulo Noêmia Veloso, no bairro de Santa Efigênia, em Ouro Preto. Eram 143 crianças com uma baixíssima condição socioeconômica. Fizemos lá um trabalho preventivo, pedagógico, que ensinava a mudar os hábitos com relação à higiene bucal e, ao mesmo tempo, fizemos com que os adultos que cuidavam delas (muitas vezes avós, tias, madrinhas já que muitas não tinham mãe ou pai) mudassem o padrão de comportamento em relação à profilaxia dos dentes. Percebemos em pouco tempo que não adiantava somente atuarmos na prevenção. Teríamos que introduzir uma ação curativa para restaurar os avanços e as agressões mutiladoras da cárie dos dentes daquelas crianças. Era uma demanda muito grande de restaurações que teríamos que executar. Precisávamos introduzir no local uma unidade clínica de atendimento.

Foi a partir daí que saímos em busca de parcerias com a iniciativa privada para montar um consultório e atender aquelas crianças. Pedimos à Vale, Alcan, Samarco para que contribuíssem financeiramente com o nosso propósito. Como conhecia os presidentes dessas grandes não foi difícil angariar fundos. Eles acreditavam que eu daria a eles uma resposta a essa ajuda empresarial. Viajei bastante em busca de recurso e edificamos a unidade clínica. Ouro Preto não proporcionava nenhum tipo de assistência nem preventiva e nem curativa para as crianças. O serviço público só oferecia extração de dentes, mesmo em crianças com idade precoce. Não tinham a menor preocupação com a manutenção de dentes de leite e o desenvolvimento esqueletal da face da criança. Por esse motivo, quando começamos a trabalhar nessa unidade, houve uma mudança de paradigma na assistência odontológica e, na comunicação do “boca a boca”, um grande número de crianças começou a frequentar a clínica. Crianças da Piedade, por exemplo, desciam em busca de atendimento. Entusiasmados com o resultado a curto prazo e com a preocupação de deslocamento deles, tivemos a ideia de fazer uma unidade na Piedade. A diretora da creche nos deu muita força junto a paróquia. A Irene do Sacramento que é muito comprometida com as causas sociais aqui em Ouro Preto também foi uma grande parceira. Fui com ela à Vale do Rio Doce, em Itabira, e conseguimos recursos. Inclusive, demos o nome da mãe dela, Celeste do Sacramento, à Unidade. Tivemos um envolvimento grande com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e com o Conselho Municipal da Saúde. Com isso, a Dona Dazinha, do bairro Saramenha de Cima, pediu para construíssemos uma unidade no local. E no nosso entusiasmo, conseguindo recursos, montamos também essa unidade. O cantor João Bosco¹ nos ajudou bastante fazendo shows beneficentes para arrecadarmos dinheiro para construir outra unidade no bairro São Cristóvão, que tem o nome do cantor. É a única unidade cuja propriedade é nossa, as outras todas são em regime de comodato com as associações de bairro. E assim foram surgindo as outras unidades.

Após 28 anos de criação da Fundação, você acredita que todos os objetivos que você tinha para este projeto, antes de torna-lo realidade, foram alcançados?

Esses dias estava fazendo uma reflexão com uma amiga, que também é dentista. Ela me perguntou se não achava que havia crescido demais esse projeto, já que hoje tenho 55 funcionários e um custo operacional de R$150 mil por mês. Disse a ela que realmente havia crescido demais embalado pelo sonho, mas ao mesmo tempo, se não fosse a Fundação Sorria, essas crianças carentes de Ouro Preto não teriam nenhuma assistência odontológica pois infelizmente, o programa municipal de saúde bucal não se solidificou. Não estou querendo ser antiético, nada disso! Mas hoje, se uma pessoa faz um tratamento de canal no serviço público, tem que esperar dois anos para colocar uma restauração. Só que, quando ele consegue esse atendimento após dois anos, geralmente já perdeu o dente. A Fundação cresceu mesmo, e exige muito trabalho. O meu planejamento inicial era de seis unidades e hoje temos onze. Estamos também na Santa Casa, onde montamos um consultório para atendimento de crianças especiais (odontofóbicas², sindrômicas, autistas, com paralisia cerebral etc.). Além disso, montamos uma unidade dentro da APAE³.

Como surgiu a ideia de abrir a Fábrica de Sabonetes Pérolas?

Já fiz diversas coisas para angariar fundos para a Fundação, como teatro, monólogo, com muitos poemas de Paulo Lemos, leilões de quadros doados por artistas plásticos, rifas e carnês. Para não depender mais dessa busca incessante por recursos com a iniciativa privada e Prefeitura e buscar sustentabilidade para a Fundação, surgiu a ideia de abrir a fábrica de cosméticos, para que a gente tivesse uma própria indústria que nos fornecesse os recursos necessários. A ideia veio do Paulo Lemos, que fez uma pesquisa para saber que tipo de produto poderia ser explorado na cidade para conseguir esse retorno financeiro. Ele optou pelos cosméticos e nos deu uma contribuição enorme. Conheci o pessoal da ONG holandesa Wilde Ganzen, que financiou o projeto. Mas essa independência financeira ainda é um sonho, nós não conseguimos chegar lá, mas devagar vamos tentando.

 

Como foi a aceitação da comunidade?

Temos uma credibilidade grande. Mas o meio empresarial e a rede hoteleira poderiam comprar mais dos nossos produtos Pérola. Muitos hotéis em Ouro Preto ainda compram fora da cidade. A difusão da responsabilidade social empresarial ainda é incipiente por aqui. As empresas poderiam, em vez de buscar sabonetes em São Paulo, comprar com a gente. Elas estariam contribuindo com o projeto e adquirindo um produto de excelente padrão de qualidade. Recebi uma carta de um hoteleiro de Ouro Preto fazendo esse questionamento e perguntando o porquê de os hoteleiros daqui não adquirirem os produtos da fábrica, já que estariam ajudando uma entidade que presta tantos serviços para comunidade.

 

Dr. Aluísio Drummond, algum projeto em vista?

Estou fazendo pós-graduação em Odontopediatria na PUC. Assim que terminar o curso, no próximo ano, quero diminuir minha carga horária na minha clínica e realizar um trabalho de peregrinação pelos morros de Ouro Preto levando minha contribuição verbal para que as pessoas intensifiquem mais os cuidados com as crianças em relação à saúde bucal. O monólogo que eu produzi, o qual apresentei no Festival de Inverno, na Faculdade de Medicina de BH, Teatro de Sabará, entre outros lugares, “O Despertar da Consciência, o peregrino da solidariedade”, fala sobre o que eu acredito que seja o mais importante hoje com essa desigualdade, que é o espírito de solidariedade. Ele deve ser difundido. As pessoas devem se doar mais pelas outras. Não é para renunciar aos prazeres da matéria, mas não é preciso ficar nesse desejo incessante em adquirir coisas, enriquecer, aumentar o patrimônio porque ninguém vai levar nada deste mundo que habitamos.

Repórter: Patrícia Botaro

 

Notas do editor:

1 – O cantor João Bosco foi estudante da Escola de Minas antes de se tornar famoso. Ainda assim, ele nunca se esqueceu de Ouro Preto.

2 – Casos em que se necessita de anestesia geral com assistência de médico anestesiologista e aparato de sala de cirurgia para se conseguir realizar o trabalho do dentista.

3 – A Fundação Sorria entendeu que o seu desafio não se limitava aos atendidos nas unidades da cidade e dos distritos. Há crianças e adolescentes especiais portadores de síndromes e outras doenças que demandam cuidados específicos, alguns vinculados à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Em função disto, a Fundação montou uma unidade na sede da APAE, em Ouro Preto.