Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

A arte não tem aposentadoria

Entrevista Carlos BracherPintor, desenhista, escultor, gravador e escritor. Carlos Bernardo Bracher, de 77 anos, nasceu em Juiz de Fora, onde frequentou a Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras. Em Belo Horizonte, estudou na Universidade Federal de Minas Gerais, em que foi aluno da artista plástica Fayga Ostrower. Aprendeu técnicas de mural e de mosaico na Escola Municipal de Belas Artes. Recebeu o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Belas Artes (SNBA) do Rio de Janeiro e foi morar na Europa por dois anos, estudando pintura e expondo em galerias de artes. Assim que voltou para o Brasil, veio morar em Ouro Preto, no carnaval de 1971. Está há 46 anos na cidade que, segundo ele, foi fundamental para sua existência, onde realizou cerca de 80% do seu trabalho. É casado com Fanni Bracher, que também é artista, há 49 anos. Tem duas filhas, a jornalista Blima Bracher, e a atriz, Larissa Bracher.
Entre seus diversos trabalhos, destaca-se a exposição Pintura Sempre, uma retrospectiva dos seus 30 anos de trabalho, que percorreu as principais capitais do país: São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Fez também uma série de quadros em homenagem ao centenário de morte de Van Gogh, que foram expostas no Brasil e no exterior. Ilustrou, com uma série especial com aproximadamente 80 trabalhos, entre pinturas, aquarelas e desenhos, nas principais cidades por onde Aleijadinho passou – Ouro Preto, Congonhas, São João del-Rei, Tiradentes e Sabará – o livro Aleijadinho: 200 anos, como forma de homenagear o mestre no aniversário de 200 anos de sua morte. Além disso, escreveu e ilustrou o livro Ouro Preto – Olhar Poético. Foi tema de livros, como Bracher, do crítico Olívio Tavares de Araújo e Bracher: do Ouro ao Aço.
Bracher, você esteve em Ouro Preto antes de vir morar definitivamente na cidade. O que te fez escolher Ouro Preto?
Quando cheguei em Ouro Preto foi uma emoção imensa. Vim para cá, pela primeira vez, em 1964, junto com minha irmã, Nívia Bracher, que também era pintora, para pintar a cidade. Já havíamos feito o mesmo em São João del Rei e Tiradentes. Chegando aqui, parecia que tinha entrado em um mundo mágico, totalmente distinto, diferente de tudo que já tinha visto antes. Fiquei impactado. Nívea estava 24 anos e eu com 23. Ela foi a minha mestra, um dos seres mais sensíveis artisticamente que já conheci. Pintávamos o dia todo, nas ruas, cada um com seu cavalete. À noite, estudávamos artes, lendo muitos livros, um estudo profundo. Queríamos entender cada coisa, os mistérios. Porque a arte é um mundo dos enigmas, obscuro e abstrato. A grandiosidade está nisso. Uma expressão da obscuridade de cada ser. Por isso ela é tão linda, é sempre um descobrir do homem, onde ele estiver, em casa instante, em cada século. A arte é uma coisa curiosa: é o entendimento do desconhecimento. Isso é muito mágico.
Três anos depois, em 1967, ganhei um prêmio de viagem, do Salão Nacional Belas Artes, e fui morar por dois anos na Europa. Após essa viagem, em 1971, voltei para Ouro Preto definitivamente. Esse impacto em 1964 me marcou tanto que disse que tinha que voltar para morar nessa cidade. Vir para cá mudou meus sentimentos, o modo de ver e perceber as coisas, de amar, de vislumbrar, me contatar, me dispor a pintar, a trabalhar, a criar. Ouro Preto se estabeleceu como uma nova bússola, um novo norte para mim.
Além da sua irmã, há muitos artistas. A partir de que idade você começou a brincar com os pinceis?
A minha família tem um clã artístico. São várias gerações envolvidas, principalmente, com música e pintura. Dessa forma, a arte esteve próximo a mim desde que nasci. Esse mundo foi se afigurando, até que aos 14 anos decidi me dedicar à pintura. Mas só após ganhar o prêmio de viagem e voltar para Ouro Preto, é que comecei a vender os meus quadros. Tinha que virar um meio de ganhar dinheiro. Já estava casado com a Fanni nessa época. Não possuía curso superior e não sabia fazer mais nada além de pintar. Sendo assim, se tornou um meio de vida para mim. Mas nunca havia pensado que se tornaria uma profissão.
O que te inspira?
Sou aleatório. Vivo das emoções do momento. Uma cor, uma casa, um céu, uma árvore, uma pessoa, tudo me inspira. Institivamente as coisas vão acontecendo. Raramente eu pré-estabeleço algo. Minhas obras são fruto do impacto com a própria vida, com as vibrações, com as energias. Uma forma de tentar transfigurar as coisas e a mim próprio. E isso vai mudando a cada instante, é uma equação mutante. E quanto mais mutante, melhor é. Eu não sou uma pessoa que gosta de certezas, elas não me encantam, acho que elas me contradizem. Gosto mais das incertezas.
Bracher, o que te chama atenção em Ouro Preto?
Ouro Preto é um conjunto maravilhoso. Não só a cidade em si, fisicamente, os prédios, as paredes de pau a pique, as pedras, os portais, as cantarias, as ruas, as telhas, as janelas, as igrejas, as praças e as montanhas. Essa configuração geográfica. Mas também historicamente, tudo o que ocorreu aqui. São duas coisas fantásticas, o físico e o imaterial. Essa conjunção do real e do passado: aí é que se dá Ouro Preto. As cidades históricas, coloniais, todas elas têm essas características, mas acho que aqui, principalmente, onde a história foi a maior de todas elas, aqui foi o epicentro da Inconfidência Mineira. É absolutamente único e extraordinário o que se estabeleceu nessa cidade.
Falando ainda em Ouro Preto, suas obras ilustram o livro Aleijadinho: 200 anos. Como foi participar deste trabalho?
Essa foi uma das grandes coisas que fiz na vida porque foi a primeira vez que me detive mais, acentuadamente, sobre a obra do mestre Aleijadinho. Foi um convite importante e realmente foi algo histórico. Entrar no mundo de Aleijadinho, saber mais da vida e obra. E não só em Ouro Preto, mas também em São João Del Rei, Tiradentes, Congonhas, Mariana, Sabará. Andamos muito para ver in loco suas obras. Isso redundou num livro e texto maravilhosos. Aleijadinho foi um grande homem, um grande artista. Mesmo conhecendo sua história, até então, nunca tinha me dado conta da grandiosidade da sua obra e da coerência dela. Sempre muito ousado, mas sempre coerente.
Bracher, você também é um poeta. Como é navegar no universo das palavras?
Para mim, pintar e escrever são coisas tão parecidas. Não diria que sou poeta, mas eu gosto de escrever. Escrevo desde menino, mas assim como a pintura, é uma coisa aleatória. Dentro desse clima de incertezas que já citei, é que vem as grandes perguntas. O que nos move são as dúvidas, elas que vão nos alentar a avanços. Se você pré-estabelece as coisas como definitivas, para que viver. Esse é o encanto de viver. Cada dia uma coisa diferente. Nada é igual. A arte é a busca do indeterminismo. Cada artista com seu jeito e isso é fantástico. E para mim, pintar e escrever: são o mesmo ato de ser, só que um voltado para a cor e o outro, para a palavra. Mas a função emocional é exatamente a mesma.  E essa dualidade é uma riqueza. E no fundo é tudo a mesma coisa: se expressar.
Para terminar, como você define seu estilo?
Meu estilo varia, aproximadamente, caminho entre o impressionismo¹ e o expressionismo². O impressionismo, movimento que aconteceu na França e que teve sua primeira exposição em 1874, de artistas como Claudet Monet, Paul Cézanne, Van Gogh. A partir dessa maneira de pintar, eles começam a estabelecer coisas mais particulares. O Van Gogh, por exemplo, que ao fim da vida, começou a fazer uma pintura mais forte, mais dramática. O que se chamou de Expressionismo, a expressão dos sentimentos. Na sequência, Cézanne, com uma pintura mais mental, cerebral, que se chamou de cubismo³, e que também teve artistas, como Pablo Picasso e Sebastian Bach. Já o Paul Gauguin fazia uma pintura mais chapada, com grandes espaços, usando vermelho, amarelo, que vem a ser o fauvismo4. Dessa forma, meu percurso se deu entre esses movimentos. A questão das cores que uso varia também. Depende do dia, do trabalho. A arte é essa inconstância de que já falamos e enquanto eu estiver vivo, vou continuar pintando e escrevendo porque a arte não tem aposentadoria, é para sempre. É eterna.
 Repórter: Patrícia Botaro
Notas do editor:
1 – Impressionismo: Movimento que se manifestou, especialmente nas artes plásticas no fim do século XIX na França. Os impressionistas rejeitavam as convenções da arte acadêmica vigente na época. As pinturas do Impressionismo captavam as impressões perceptivas de luminosidade, cor e sombra das paisagens, por isso pintavam o mesmo quadro em diferentes horários do dia.
2 – Expressionismo: termo aplicado as diferentes linguagens da arte no início de século XX. Pode-se classificar o Expressionismo como um movimento heterogêneo, pois abarcou artistas de diferentes nacionalidades, épocas e formação. Os expressionistas usavam cores fortes e vibrantes, figuras destorcidas e por vezes se utilizava da abstração para tratar temas como a alienação, bem como, faziam uso emocional e simbólico da cor e da linha.
3 – Cubismo: movimento artístico que teve como seus principais expoentes e pioneiros Pablo Picasso e Georges Braque por volta de 1907, muito embora Cézanne tenha usado, já em 1901, múltiplos pontos de vista numa única pintura. Fundado no início do século XX, o Cubismo é considerado um dos movimentos mais influentes desse período. Suas obras tratavam de maneira geométrica as formas da natureza, assim a representação do universo visual passou a não ter nenhuma obrigação com suas reais formas, no entanto não chegavam à abstração, pois as imagens representadas ainda permaneciam figurativas, ou seja, ainda eram reconhecíveis.
4 – Fauvismo: tendência estética da pintura, surgida no final do século XIX e desenvolvida no início do século XX, que tinha por características principais o uso exacerbado de cores fortes e o teor dramático nas obras. O movimento foi tipicamente francês, iniciou-se por parte dos artistas da época que se opunham a seguir a regra da estética impressionista, em vigor na época. A tendência foi considerada movimento artístico apenas em 1905. O Fauvismo, ou Fovismo, tinha temática leve, baseada na alegria de viver e nas emoções, e não tinha fundamentação ou intenção crítica nem política.