Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

O Museu da Inconfidência e o início
de Deise Lustosa

Deise Lustosa, Museu da Inconfidência, Ouro PretoNatural do Rio de Janeiro e residente em Ouro Preto, a arquiteta e urbanista Deise Lustosa tomou posse na direção do Museu da Inconfidência no dia 18 de setembro de 2017. Com um currículo extenso, Deise sempre esteve envolvida em trabalhos relacionados a conservação do patrimônio histórico. Para ter uma ideia, ela é arquiteta pela Faculdade Metodista Izabela Hendrix, especialista em Cultura e Arte Barroca pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e em Conservação e Restauração de Monumentos e Conjuntos Históricos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Foi sócio-proprietária da MD Arquitetura e Consultoria Ltda. e atuou em inúmeros projetos de conservação e restauração, com destaque para bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/MINC) – dentro do Programa PAC das Cidades Históricas em Mariana (MG). Foi diretora administrativa do Museu do Oratório por 10 anos. Também participou da criação e implantação do Sistema de Museus de Ouro Preto e foi presidente e diretora da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) e diretora de Conservação e Restauração do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA).
De acordo com a arquiteta, no plano de trabalho, alguns projetos são imediatos, como o fortalecimento do Sistema de Museus, a qualificação e valorização da exposição permanente e a disponibilização dos acervos para que estejam acessíveis de todas as formas possíveis.

“Temos que manter e ter uma vinculação cada vez maior do Sistema de Museus. Ter o Museu da Inconfidência como uma referência para todos os outros museus da cidade. Esse é momento de fortalecer esse Sistema que, de algum jeito ou de outro, foi enfraquecendo. Os fôlegos vão se acabando, as dificuldades às vezes não se ampliam, não são trocadas. Além disso, temos uma exposição permanente, de qualidade que foi montada ainda com o Dr. Rui Mourão, juntamente com Pierre Cartel, museólogo francês que veio para dar apoio. Essa exposição precisa de alguns pequenos ajustes para que avance na direção das novas linguagens. Uma modernização, sem perder o que já se tem.

Segundo Deise, ter trabalhado por dez anos no Museu do Oratório, no Instituto Cultural Flávio Gutierrez, foi uma das questões que facilitou sua entrada na seleção, realizada por meio de uma chamada pública, que permitia qualquer pessoa da área que já tivesse alguma experiência relacionada a museus, e na administração pública. “Essa oportunidade de estar à frente do Museu da Inconfidência é como se eu tivesse coroando todos esses trabalhos que eu fiz ao longo do tempo. Estou sempre estudando e conhecendo mais. Já tive a oportunidade de estar com outras instituições museais, em exposições itinerantes, exposições internacionais, grandes exposições também. Tudo isso meu deu condição para estar agora no Museu da Inconfidência”, disse.

Na verdade, uma complementação do que existe. Pretendemos ainda, fazer um trabalho de divulgação da nossa biblioteca, que tem um acervo muito importante e rico. Fazer uma integração com as bibliotecas do IFMG, UFOP, UFV, UFMG, além da Casa dos Contos, onde tem acervos de arquivos e bibliotecas que podem se falar. Hoje nosso arquivo está ‘meio mudo’ porque ter hoje qualquer acervo que não está disponível na internet é estar em silêncio. A ideia é ter avanço nessa direção”, destaca.

Para Deise, o Museu deve abrir suas portas para a comunidade e entender que ela também é receptora desses visitantes. “Trazer o ouro-pretano para dentro do Museu. Quando falo ouro-pretano, digo também daquele de coração e de escolha. Os que nasceram e os que vieram para cá. A cidade recebe muito bem esse grande palácio na frente da Praça Tiradentes. Mas, mais do que isso, gostaria que essa fosse a sala de visitas de quem vive aqui. Ter orgulho de ter o Museu, de ter visitado e ter intimidade com ele. Quando somos de fora e chegamos a Ouro Preto, escutamos com muita frequência ‘Isso é para os de fora, para turista’. Temos que quebrar esse estigma. Esse Museu é nosso, fala da nossa história. Pequenas intervenções podem ser feitas dentro da própria exposição permanente e as pessoas podem ser convidadas. Temos que tirar partido disso. Trabalhei em um museu bem menor, do Oratório, e realizei coisas dentro do próprio prédio, que ampliavam as questões da exposição permanente ou de longa duração. Como esse mês, que é celebrado o Novembro Negro, valorização da cultura afro, gostaria de fazer uma pequena intervenção dentro da área que fala da religiosidade, das manifestações culturais, sobre o trabalho da colaboração na construção da cidade por essas mãos. Todas essas questões podemos tratar dentro da exposição já existente no Museu”, afirma.

Em relação à visitação, não houve alterações nos preços e horários. “Possivelmente, a gente consiga facilitar a visita do morador, que hoje é feita uma vez por mês, aos domingos. Ampliar isso para que os moradores possam visitar o Museu gratuitamente por mais vezes. A novidade é que o café e a loja do Museu hoje estão abertos para qualquer visitante sem que ele precise entrar pela porta principal. Antes, a pessoa passava um dia inteiro visitando a cidade, e a tarde tinha vontade de comprar algo, mas não queria entrar de novo no Museu porque passaria pela portaria novamente”, ressalta.

Até meados de 2013, o Sistema de Museus de Ouro Preto realizava diversas atividades, como publicação de informativos e folders. Hoje, a frente do Museu da Inconfidência, Deise pretender refortalecer esse Sistema. “Uma das pretensões é fazer uma reunião, brevemente, com o Sistema, verificar como ele está neste momento e ver o que podemos fazer rem relação a novas propostas. Uma delas é que o Museu se aproxime dos outros museus de Minas Gerais. Aqui já foi a sede do Museu e Casas Históricas de Minas Gerais. O Museu da Inconfidência fazia o apoio a todos os pequenos museus, como o Museu Nacional de São João Del Rei, o Museu do Ouro, em Sabará, de Caeté, de Diamantina e o do Serro. Todos eles têm estrutura, funcionam, mas estão ligados hoje, a parte administrativa, a uma regional de Belo Horizonte. Na semana passada foi realizada uma reunião aqui para criar um sistema educativo dos museus de Minas e eles mandaram seus representantes. Queremos fazer essa aproximação. Não que não houvesse, mas era um outro tipo de relação, para dar condição para falar não só do Museu da Inconfidência, mas dos outros museus também. Tratar disso como um conjunto ou um percurso de museus. Queremos valorizar isso”, acrescenta.

Ainda segundo Deise, há uma ideia de utilizar as peças da reserva técnica na exposição permanente. “Hoje o que a gente tem na exposição permanente, até o ano de 2006 e 2009, ficava na reserva técnica. Foi feito um grande trabalho de curadoria que verificou o que estava na reserva técnica e veio para a exposição permanente. Temos uma sala de exposições temporárias que utiliza parte dessa reserva técnica e agora uma das intenções é que essa reserva técnica percorra outros lugares para não ficar apenas aqui, parada, para que se use cada vez mais esse acervo que é maravilhoso e que grande parte dele está sim, armazenado na reserva”, conta.

A nova diretora está sempre em contato com Rui Mourão, que permaneceu no cargo por 43 anos. “A minha relação com Dr. Rui sempre foi muito amistosa. Quando soube da sua saída, absolutamente não me passou pela cabeça ‘Vou tomar esse lugar’. Claro que não! É muito respeitoso todo o trabalho que foi feito. Ele deixou a Casa muito bem organizada para qualquer pessoa que chegasse aqui dar continuidade. A equipe existente é aderida, tem um trabalho muito bacana. Dos projetos que ele tinha, temos algumas coisas em andamento. Uma delas é trazer o quadro da sentença que está na Câmara Municipal, que está sendo cedido como comodato para o Museu para fazer parte da exposição permanente. Isso é um bem que fala dessa Inconfidência”, finaliza.

O Museu pode ser visitado de terça a domingo, das 10h às 18h, sendo que às 17h é a última venda de ingressos. Mais informações http://www.museudainconfidencia.gov.br.

Repórter: Patrícia Botaro