Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Dimas Guedes: a fotografia como escolha

Dimas GuedesDimas Guedes, 69 anos, é mineiro de Guaraciaba. Veio para Ouro Preto em 1962. Estudou na Escola Técnica (atual IFMG) e depois fez geologia na Escola de Minas, onde lecionou até 1995. Durante 10 anos (1979-1989) trabalhou no Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan). Dedica-se hoje à fotografia, com especial interesse pelas áreas de ensino e fotografia documental. Realizou 8 exposições individuais. Publicou os seguintes livros: Ouro Preto-Contemplações (2004); Mãos de Mariana (2006) e Homem Trabalho (2008). É casado com Cláudia Dumans Guedes há 41 anos. Dessa relação nasceram André, Pedro e Joao. Dimas nos conta nesta entrevista, como foi sua chegada a Ouro Preto e à República Necrotério, sua passagem pelo Iphan e a paixão pela fotografia.

Dimas, você veio para Ouro Preto para estudar. Como foi esse processo?

Vim para Ouro Preto com 18 anos. Fiz Escola Técnica e em seguida entrei na Escola de Minas. Na época, a Escola de Minas era essencialmente masculina: haviam 500 homens e apenas 5 mulheres. Fui para a República Necrotério, onde moravam pessoas de interesses bem diversificados. Gente que gostava de música, teatro, cinema. Foi uma experiência muito rica. Não existia televisão nem telefone. A única coisa que havia de um interesse comunitário era uma vitrola. Penso que por essa falta de opção de lazer é que comecei a me interessar por Fotografia. Era um pouco difícil na época crescer dentro de qualquer coisa que não fosse disciplinas ligadas à Engenharia. Mas aconteceu um fato curioso que trouxe um vento novo a república.

Por volta de 1969, 1970, depois de uma prova bem difícil no curso, eu e um colega, muito cansados dessa prova, resolvemos sair de Ouro Preto para tomar uma cerveja, mas de carona. Combinamos que ele ficaria na saída de Ouro Preto para Belo Horizonte e eu, na saída para Mariana.

Do lado onde eu estava, parou uma Brasília, placa do Rio de Janeiro. Um casal simpático perguntando para onde eu iria e se queria carona. Respondi que iria para qualquer lugar, eu e meu colega, e que a gente queria sair de Ouro Preto. Eles disseram para chamá-lo. Entramos no carro e começamos a conversar. Quando vimos, era o Fernando Gabeira com a namorada. Ele era redator do Jornal do Brasil e um militante de esquerda. E na república sempre tinha esse jornal. Fomos conversando até Mariana, paramos lá para beber e eu confesso que nem sei como essa história terminou porque foi uma bebedeira enorme.

Acontece que ele anotou o endereço da nossa república. A partir daí, ele começou a indicar a Necrotério para pessoas do convívio dele e que trabalhavam no Jornal do Brasil, que vinham a Ouro Preto, para se hospedar conosco. Eram rapazes, moças, jornalistas. Gente muito talentosa. Eles sabiam do interesse da gente em música, fotografia, entre outras coisas. E começaram a trazer material desse tipo para gente. Uma das jornalistas que se hospedava lá, sugeriu que eu preparasse uma caixa de fotografias variadas de Ouro Preto, com uma pequena legenda. Ela tentaria vender na agência JB, que repassava o material para outros jornais. E foi o que aconteceu. De repente, eu iniciando em fotografia, abria o Correio da Manhã ou o Estado de São Paulo e tinha lá fotos minhas com os devidos créditos.

E a passagem pelo Iphan?

O setor de Patrimônio Histórico de Ouro Preto tinha muito conhecimento em como preservar uma edificação histórica, mas tinha pouca experiência em como tratar um sítio histórico. No final da década de 60, o patrimônio pediu a ajuda da Unesco para realizar esse trabalho, e recebeu a indicação de um arquiteto português, que tinha muita experiência em preservação de sítios históricos. Em um jantar no Pouso do Chico Rei, em que estavam Ivan Marquetti¹, Carlos Scliar² e eu, ainda estudantes na época, ficamos conhecendo esse arquiteto, o Viana de Lima³. Ele estava muito decepcionado com o governo porque tinha solicitado uma série de documentos sobre Ouro Preto e quando chegou aqui não encontrou absolutamente nada. Durante a conversa, nós já um pouco bêbados, ele diz que nós faríamos esse trabalho para ele, que ele acreditava na gente.

Continuamos com outros papos e esquecemos disso. Às 7h da manhã ele estava na porta da república, como bom europeu, para uma primeira reunião. Ele explicou queria uma planta arquitetônica de todas as casas de Ouro Preto. Uma ficha que deveria conter dados, como a quantidade de camadas de tintas, de degraus, fotografias, de todas as casas. Ficamos assustados. Como fazer isso? Ele disse para procurar o Scliar e outras pessoas para ver uma forma de como conseguir dinheiro para isso.

Aceitamos o desafio, mas sabíamos que afetaria o curso. Fomos buscar ajuda para realizar o trabalho, e ela veio de todos os lados. Pressionamos o prefeito na época, Dr. Jorge Caran, que deu algum recurso. O Vinicius de Moraes fez um show no Rio de Janeiro para arrecadar dinheiro. O Scliar fez uma rifa de um dos seus quadros. Com isso, formamos uma equipe com cerca de 90 alunos. Durante um ano, montamos um escritório na Casa da Baronesa onde atualmente funciona o IPHAN. Não fizemos levantamentos na parte periférica de Ouro Preto, somente no centro histórico. O trabalho foi grande. E entregamos o trabalho para o Dr. Viana quando ele retornou depois de 1 ano.

Mais tarde, em 78, o diretor do Patrimônio Histórico de Minas me procurou, sabendo desse trabalho que tinha feito para o Dr. Viana. Queria saber se eu poderia permanecer algumas horas na Casa da Baronesa para receber alguns projetos. Depois de formado, recebi ainda um convite do Secretário de Cultura na época, para coordenar o escritório do IPHAN em Ouro Preto. Fiquei lá por três anos e, quando estava retornando para UFOP, agora para dar aula, ele me convidou para assumir a diretoria do Patrimônio em Minas. Com isso, fiquei por 10 anos trabalhando no IPHAN, foi uma experiência muito rica.

E a paixão pela fotografia e porque o interesse em fotografar Ouro Preto?

A fotografia sempre me acompanhou muito mais como um lazer, como uma atividade não profissional, mas amadorística, do amador que ama o que faz. Minha primeira câmera era russa, uma Zeniti, com uma lente muito boa, mas uma mecânica muito ruim. Cheguei a montar um laboratório na república. Mas o aprendizado foi lento, difícil e custoso. Não existia recursos digitais como hoje, era rolo de filme mesmo. Às vezes ocorria de ganhar algum dinheiro com esse trabalho, mas gastava logo com equipamento. No início, procurava professores dentro da Escola de Minas que tinham certa experiência com fotografia. Além disso, como tinha muita relação com pessoas ligadas a arte, como Nello Nuno£, Ivan Marquetti¹ e Scliar², pedia a opinião deles sobre as fotos que eu fazia. Foi um processo de autodidatismo, e me ajudava o suporte de material que recebia dos amigos do Fernando Gabeira, que vinham do Rio de Janeiro e se hospedavam na nossa república. Organizava também encontros de fotografia em Ouro Preto. Comecei muito cedo a fazer exposições, hoje penso na ousadia que foi.

O interesse em fotografar Ouro Preto não é somente por morar aqui, mas porque ela é uma cidade encantadora, do ponto de vista fotográfico. A arquitetura, os muros antigos, os telhados, as pessoas. Sempre me interessei muito por fotografar a ligação do povo mais humilde com a cidade. E por essa possibilidade que a fotografia traz, de você não ser apenas um espectador. Se aproximar, conversar, criar uma empatia. Eu ainda levava a foto para pessoa que foi fotografada. Muitas vezes era a primeira vez que ela tirava foto dentro da própria casa, por exemplo. Isso criou um vínculo bom com a população daqui. Em Ouro Preto todo mundo fotografa o tempo todo. O povo daqui sempre aceitou muito isso porque apesar de ser uma cidade do interior, a presença do turismo sempre foi grande. As pessoas sempre estiveram acostumadas com isso. Mas antigamente, a gente conhecia mais essas pessoas, já que era uma cidade menor e havia uma interação maior dos estudantes com a população. Não havia dificuldades em abordar as pessoas para fotografá-las.

Porque você continuou morando em Ouro Preto?

Gostei muito da cidade no tempo de estudante e logo que formei, como gostava muito de mineralogia, recebi um convite da Universidade para dar aulas. Em 75 conheci a Cláudia. Ela é do Rio, fazia pós-graduação em engenharia química. Nos casamos e na época, a Escola de Minas, precisava de alguém nessa área dela. Ela gostou muito de Ouro Preto. Mas temos o compromisso de ir pelo menos 2 vezes ao ano à praia.

Quais são seus projetos?

Durante algum tempo trabalhei com projeto Vale Registrar, na tenda da Vale, na Estação de Ouro Preto e Mariana. Era todo semestre, com uma série de oficinas. Participavam pessoas mais humildes. Chegamos até a publicar um livro com a fotografia dos alunos. Faço esse tipo de trabalho com gosto. É uma forma de deixar um legado. Mas me considero hoje bem desatualizado, não tenho paciência para photoshop, não gosto muito. Trabalho com um programa de edição de imagens muito simples, só para pequenos ajustes. Eu acredito que o ensino da fotografia deve ser focado mais como ensino de arte, de visão, de leitura. Há um certo analfabetismo visual. A gente é educado na audição, no paladar, mas há pouca educação visual. Nessas oficinas, tenho procurado me envolver mais com isso do que com equipamentos em si. Com a câmera de filme, cada vez que você tirava uma foto, tinha que prestar bastante atenção para não perdê-la. Fazia uma leitura de luz e enquadramentos mais apurados porque custava dinheiro. Se a gente for olhar o custo de hoje, seriam 2 ou 3 reais cada vez que apertasse o botão da câmera. Então o cuidado era maior. Com a câmera digital, isso se perdeu. Perdendo essa atenção, você passa a ter um volume grande de material com muito erro que nem sempre dá para corrigir no computador. As pessoas não prestam atenção no fundo, se tem algo perturbando a foto. Tenho preocupação em trabalhar esses conceitos. A partir do momento que a pessoa percebe isso, que ela pode melhorar a qualidade da fotografia, ela muda a maneira de fazer. Reduzir um pouco a ansiedade e focar naquilo que realmente tem interesse.

Hoje tenho interesse em fazer outra publicação das fotos que faço em viagens, mas hoje é difícil patrocínio. Estou retomando pouco a pouco o resgate dessas fotografias. Nesses últimos anos fizemos eu e minha mulher, duas viagens por ano para locais bem longos. China, Vietnã, Alasca, Camboja, Polinésia Francesa. Tenho vontade de separar uma ou duas fotos de cada local desses para fazer uma publicação. Além disso, estamos sempre com a cabeça aberta para alguns projetos. Mas a fotografia continua me interessando sempre. Sair por Ouro Preto para fotografar é sempre bom para cabeça e para o corpo.

Repórter: Patrícia Botaro

 

Notas do editor:

1- Ivan Marquetti: Pintor, desenhista e gravador. Nasceu em 1941, no Rio de Janeiro (RJ), e faleceu em 2004, em Ouro Preto (MG).

2 – Carlos Scliar: Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo, roteirista e designer gráfico. Nasceu em Santa Maria (RS), em 1920, e faleceu no Rio de Janeiro (MG), em 2001.

3 – Alfredo Evangelista Viana de Lima, foi um arquiteto português. Ocupa uma posição de destaque na segunda geração arquitetos modernistas portugueses, tal como Keil do Amaral, Arménio Losa ou Januário Godinho. A sua atividade e intervenção cívica foram cruciais para a redefinição do pensamento e da prática arquitetônica nacional no período do pós-guerra.

4 – Nello Nuno de Moura Rangel: pintor, desenhista e professor. Nasceu em Viçosa, em 1939, e faleceu em Lagoa Santa, em 1975.