Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

O Turismo como fonte de recursos

Felipe Guerra - Secretário de Turismo de Ouro PretoO Secretário de Turismo, Indústria e Comércio de Ouro Preto, Felipe Vecchia Guerra, de 35 anos, nasceu em Ouro Preto e sempre esteve envolvido com a atividade turística. É formado na segunda turma de Turismo pela Universidade Federal de Ouro Preto. Dentro da UFOP, foi presidente do DCE. Assim teve início sua trajetória política, mas ele imaginava que terminaria no meio acadêmico. Após formado, abriu empresas no ramo turístico. Além disso, assumiu a presidência do Conselho Municipal de Turismo. Latente o desejo de mudanças, recebeu, em 2015, um convite para assumir a Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio. Nunca havia se filiado a partido político. Motivado pelo pedido do trade turístico de Ouro Preto e por acreditar que a cidade precisava de mais cargos técnicos em áreas importantes da Prefeitura, aceitou o convite. Felipe foi o primeiro turismólogo a estar à frente da Pasta. Ficou no cargo por um curto período. Devido a conjuntura política na época, preferiu se afastar.  Filiou-se ao Partido Verde em 2016, e por meio do atual prefeito de Ouro Preto, Júlio Pimenta, recebeu um novo convite para assumir a Secretaria em 2017. Acreditando numa nova proposta de governo e por achar que o turismo tem que ser cada vez mais profissionalizado em Ouro Preto, Felipe assumiu novamente a Pasta. Nesta entrevista, o Secretário avalia suas ações em 2017, as conquistas para o Turismo em Ouro Preto, o destino do Paço da Misericórdia e as projeções futuras para a cidade.

Felipe, qual a sua avaliação após seu primeiro ano de gestão?

Avançamos muito em termos de Políticas Públicas de Turismo. Pela primeira vez Ouro Preto consegue o ICMS Turístico, o que é para ser comemorado, mas também para nos sentir envergonhados de sermos um destino indutor que não tinha uma política pública municipal, uma lei que regularizava a atividade turística. Iniciei esse processo em 2015, junto ao Conselho Municipal de Turismo, com o professor Dr. Marcos Knup, que hoje é pró-reitor de extensão da UFOP. Na época, convocamos o Sebrae, que nos atendeu prontamente. No mesmo ano, iniciamos a construção de um Plano Municipal de Turismo em Ouro Preto, em que há ações de curto, médio e longo prazo, para serem realizadas por 25 anos. Foi muito bem construído. Durante 2016 ele ficou parado e retomamos este ano.

Conselho ativo, a criação desta lei municipal, o Fundo Municipal de Turismo, todas essas ações fizeram com que Ouro Preto entrasse no ICMS Turístico para receber um recurso que será gasto pelo Conselho, com um fundo específico. O Ministério do Turismo faz um estudo para aplicar uma nota para as cidades turísticas no Brasil. E conseguimos a nota máxima. Ouro Preto conseguiu se consolidar e os nossos projetos que chegarem até o Minc, serão analisados da melhor maneira possível.  Isso é uma grande conquista. A partir de agora, o Conselho faz o chamamento dos projetos, que serão avaliados e seguirão para o Fundo Municipal de Turismo. Lá ele é chancelado e a partir daí, começam os processos. Esse recurso deve chegar em janeiro ou fevereiro deste ano.

Dessa forma, avalio como positivo esse primeiro ano, apesar das dificuldades. Com a dívida herdada do governo anterior, o prefeito teve que dar prioridade às áreas essenciais do município. Sendo assim, o turismo entra como apoio do empresariado para fomentar não só a economia da cidade, mas para que o prefeito, deixando dinheiro no município, consiga investir em outras áreas. Essa é a função do turismo. As pessoas às vezes pensam no turismo só como uma atividade de lazer, que também é importante para o ser humano. Mas não é somente uma atividade de lazer, mas é, principalmente, uma atividade econômica, e tem que ser trabalhada para ser um desenvolvimento social da população. Essa é uma das metas do Plano Municipal de Turismo. Que o ouro-pretano aprenda a ganhar dinheiro com turismo, empreenda, gere emprego e renda. Além disso, temos que comemorar porque as taxas de turismo desse ano de ocupação são as maiores dos últimos anos, mesmo em momento de crise, do brasileiro estar sem dinheiro para viajar. Ouro Preto conseguiu aumentar o número de turistas, mas a gente sabe que ainda está abaixo do que a cidade pode conseguir e o tempo de permanência deste turista aqui tem que aumentar, já que ele fica em média dois dias.

Outro ponto que contribuiu foram os eventos via lei de incentivo e novos eventos que foram realizados aqui, principalmente eventos esportivos. E que deram muito certo. O Desafio Brow de Mountain Bike, por exemplo, que aconteceu em um fim de semana que seria considerado “morto” para o trade turístico. Houve uma movimentação econômica de 2 milhões e uma taxa de ocupação de 85% durante a realização do evento.

Conseguimos, também, integrar o turismo com algumas instituições essenciais para a cidade e que estavam distantes, como a UFOP, o IFMG, Associação Comercial, ADOP. Um exemplo, foi o Festival de Inverno deste ano que pela primeira vez, depois de 50 anos, foi realizado de forma conjunta entre a UFOP e a Prefeitura, inclusive englobando o aniversário da cidade. Outra ação é o Pró-Município, um grande programa de gestão participativa, junto aos empresários ouro-pretanos para a regularização do comércio. Como no Natal, que mesmo sem dinheiro, fizemos uma programação extensa, com atividades durante duas semanas e iluminamos o centro histórico, tudo com apoio dos empresários. Gastamos apenas 5 mil reais do Fundo Municipal de Turismo. Todos os outros recursos vieram da iniciativa privada: restaurantes cederam refeição, hotéis cederam hospedagem. O IFMG que ajudou com transporte dos grupos.

Desse modo, avaliamos como positivo porque conseguirmos estar com as políticas públicas em dia pela primeira vez em Ouro Preto e aumentamos as taxas de turismo na cidade. Para ter uma ideia, somente no mês de julho, foram gastos em Ouro Preto, pelos turistas, 35 milhões de reais. Mesmo com as dificuldades econômicas e com pouco recurso disponibilizado para o setor, acredito que conseguimos fazer nosso dever de casa neste primeiro ano.

Como foi realizado o projeto para colocação das placas de sinalização?

É um projeto realizado junto ao Ministério do Turismo. O chefe do Departamento de Estatísticas, Samuel Sabino, que está nessa demanda há muito tempo, percebeu as principais reclamações do turista: o trânsito, estacionamento na cidade, que deve ser regularizado, e a sinalização turística. Quando ao estacionamento, estamos com um projeto para que seja criado na entrada da cidade, para que os ônibus não entrem mais em Ouro Preto. Como em Paraty, que com estacionamento próprio da Prefeitura, arrecada mais de um milhão por ano. É autossustentável e ainda reverte algum recurso para o turismo de lá. Temos o estacionamento do Centro de Convenções, que por meio de uma parceria entre a Prefeitura, ADOP e UFOP, já está sendo aberto durante grandes eventos, nos fins de semana e feriados, tanto para ouro-pretanos, quanto ao turista.

Sobre a falta de sinalização turística, foi realizado um trabalho junto ao Ministério do Turismo, em que conseguimos captar um recurso de 550 mil reais em 2015, para fazer esse trabalho e ele está sendo finalizado agora. Esse projeto não contou com recurso da Prefeitura, foi pago pelo Ministério do Turismo. Uma ação importante que vai dando infraestrutura turística para a cidade. Vale ressaltar que é uma sinalização para pedestre. Fomentamos que o turista chegue na cidade deixe o carro no hotel e conheça Ouro Preto a pé. 

Você foi nomeado presidente do Circuito do Ouro. O que essa titulação agrega ao turismo de Ouro Preto?

Com os números e com a gestão que vem sendo feita no município, as cidades nos convidaram para fazer parte do Circuito do Ouro. Depois de 20 anos Ouro Preto tem um presidente do Circuito. Esse é um projeto de regionalização da Secretaria de Estado de Minas Gerais, junto ao Ministério do Turismo. 15 cidades fazem parte do Circuito do Ouro, como Mariana, Congonhas, Catas Altas, Santa Bárbara. A função da nossa cidade nesse Circuito é ser um destino indutor, trazer o turista para cá e em seguida conseguir espalhar esse turista para as outras cidades que fazem parte. As cidades integrantes pagam uma mensalidade para que aconteçam projetos conjuntos. Há, também, investimento direto do Ministério da Cultura em algumas ocasiões específicas e da Secretaria de Estado e Turismo. O Circuito está iniciando a sinalização dessas 15 cidades, como agora já adotamos essa medida na sede, a ação será feita agora nos distritos, um complemento. Temos vários projetos a serem discutidos nesses próximos dois anos porque Ouro Preto agora é âncora do Circuito, com o objetivo de somar.

Há previsão para o início do funcionamento do Paço da Misericórdia?

Sabemos da feição que os ouro-pretanos tem pelo Paço, que era a antiga Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto. Temos até o dia 28 de fevereiro para entregar um Plano de Negócios, para sabermos de fato quais atividade estarão lá. Já sabemos que o artesanato estará lá, mas pode   junto ao artesanato, ter outras atividades, como gastronômicas. Esse é um outro problema de Ouro Preto, o turista fica sem opção para sair à noite. Nas palavras do Secretário de Cultura de Minas Gerais, Angelo Oswaldo, e da presidente do IPHAN Nacional, é o maior caso de sucesso de turismo e artesanato em um prédio histórico restaurado. Dessa forma, temos muito cuidado com esse projeto, não podemos errar. É um grande equipamento turístico cultural. Estamos em contato com o Sebrae para fazer esse plano de negócios e ele já se colocou à disposição para trabalhar em conjunto. Mas há uma dívida feita em 2013 com o Sebrae, em relação à criação da marca de Ouro Preto. O Sebrae quer participar, mas enquanto a dívida não for paga, está impossibilitado de fazer. A Fundação Dom Cabral também se colocou à disposição. Assim que esse plano de negócios estiver pronto, saberemos o que pode ser feito no local, como será feita a gestão, se será a Prefeitura, ou uma associação. Já temos um conselho criado, que até já passou pela Câmara, onde participam sociedade civil e poder público. As obras já terminaram, agora já está no processo da prefeitura, junto a secretaria de obras, fazer as vistorias técnicas, com a secretaria de patrimônio. Assim que a prefeitura assinar, começamos a realizar esse plano de negócios.

E a Feirinha de Pedra-Sabão?

Ela ir ou não para o Paço da Misericórdia é uma ação judicial. Quando esse projeto foi iniciado há dez anos, uma das colocações para captação de recurso do BNDS, era a transferência da feirinha para o Paço. A Feirinha luta agora para ser reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Ouro Preto, tentando se manter no Largo do Coimbra, em frente à Igreja de São Francisco de Assis. Essa é uma disputa judicial. Nós estamos trabalhando com duas hipóteses de administração do Paço, ela estando ou não no local. Mas tenho certeza de que será um sucesso, com a presença deles que será bem-vinda, ou também com a presença de outros artesãos, se a Feirinha de fato permanecer no mesmo local.

Como será o Carnaval 2018?

Chamamos uma comissão para rediscutir o Carnaval de Ouro Preto porque hoje temos uma realidade que não existia há três anos atrás: 3 milhões de pessoas no Carnaval de Belo Horizonte. Brinco que quando queria sossego, ia para BH algumas vezes. Lá não havia ninguém na rua, shopping vazio. Hoje está lotado. Perdemos o turista que vinha de Belo Horizonte e agora fica na sua cidade e os turistas de outras localidades que optam por ir pra BH.  Como lidar com esse novo cenário? Chamamos essa comissão onde fazem parte a Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio, Secretaria de Cultura, Secretaria de Governo, além das Associações, Liga dos Blocos das Repúblicas, Zé Pereira, Conselho Municipal de Turismo, Conselho Municipal de Cultura e Escolas de Samba. Reunimos diversas pessoas que representam o carnaval ouro-pretano. Vamos focar na venda de um destino único, o que não acontecia em Ouro Preto. Tinha-se o carnaval universitário, e do centro histórico. Os estudantes, muito bem organizados, fazem o carnaval deles, que funciona muito bem e o do centro histórico veio diminuindo a força. A partir dessa realidade, vamos trabalhar dois enfoques diferentes: o carnaval universitário, que acontece em local fechado e que é pago e o carnaval de rua, para os ouro-pretanos, um público familiar, as crianças nas ruas, incentivando os blocos caricatos. Além disso, trazer de volta os ouro-pretanos que não ficam mais na cidade para o carnaval. Trabalhar essas duas realidades, mas de forma unificada, respeitando as duas atividades.

Qual o planejamento do Turismo para os próximos anos?

Temos duas boas notícias. As cidades mineradoras aumentaram a taxa de impostos da mineração. Dessa forma, vai aumentar o recurso em Ouro Preto. Além disso, adotamos uma nova medida. O turista que vinha para Ouro Preto, quando utilizava o cartão de crédito, o imposto gerado ia para uma cidade específica de São Paulo. Não ficava em Ouro Preto. A partir de agora, esse recurso vai ficar na cidade, isso vai aumentar a taxa de arrecadação do turismo nos cofres públicos. A arrecadação do turismo de fato é pequena, e ações como essa têm o objetivo de aumentar essa arrecadação. Por exemplo, em julho deste ano, tivemos uma movimentação econômica (dinheiro de turista) na cidade em torno de 36 milhões, que movimentou comércio, rede hoteleira, gerou emprego temporário, mas que não alterava em nada os cofres públicos, já que esses recursos do cartão de crédito iam para outro lugar. Já enviamos essa lei para a Câmara, que já sancionou. A partir desse sistema, teremos mais recursos para a cidade.

Sobre o planejamento dos próximos anos, independentemente de quem estiver à frente da Secretaria, terá que seguir o Plano Municipal de Turismo porque agora ele é lei. Nele há ações focadas em infraestrutura turística, mobilidade urbana, ecoturismo, capacitação da população para o turismo e de fomento de grandes eventos na cidade. Tanto evento de negócios, quanto evento cultural. Turismo esportivo, como esses grandes eventos que vem acontecendo na cidade. Esse é o planejamento, estamos seguindo esse plano.

Repórter: Patrícia Botaro