Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Gabriel Gobbi – Legítimo e competente

ouro-pretano

Gabriel Gobbi é natural de Ouro Preto. De família tradicional e religiosa, é sobrinho do saudoso Padre Simões. Possui currículo extenso, já que atuou em diversos cargos públicos em Ouro Preto, contribuindo para o crescimento e manutenção do patrimônio histórico da cidade. Técnico em Mineração pela Escola Técnica Federal de Ouro Preto (ETFOP), formou-se engenheiro Civil na UFMG e advogado pela Faculdade de Direito Milton Campos. Pós-graduado em Avaliações e Perícias de Engenharia (IBAPE/MG) e Administração Financeira (UNACPRM/BH). Foi chefe do Departamento de Obras, Assessor de Planejamento e Coordenação e Presidente das Comissões Especiais de Elaboração do 1° Plano Diretor, Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo e Planta de Valores na Prefeitura Municipal de Nova Lima (1978 a 1981); chefe do Patrimônio Imobiliário na Mineração Morro Velho (atual AngloGold Ashanti), de 1982 a 1993; membro fundador e primeiro Vice-Presidente da Comissão OAB Jovem de Minas Gerais, em 1997; coordenador do Programa MONUMENTA/MinC de Ouro Preto em 2001 e 2005). Atuou ainda como secretário Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano, Presidente do COMPATRI (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural de Ouro Preto) em 2006 e 2007 e Presidente do COMPURB (Conselho Municipal de Política Urbana) na Prefeitura Municipal de Ouro Preto/MG de 2005 a 2012. Foi secretário Municipal de Planejamento e Gestão, Presidente do Conselho da Cidade de Nova Lima (CONCIDADE), Membro Efetivo da Junta de Controle Orçamentário e Financeiro (JUCOF) e Conselheiro titular nos Conselhos do Patrimônio Histórico (COMPAH), de Desenvolvimento Ambiental (CODEMA) e de Turismo (COMTUR) na Prefeitura Municipal de Nova Lima de 2013 a 2014. Presidente e Diretor do Clube das Quintas e Vice-Presidente do Villa Nova A.C. de Nova Lima, em vários mandatos. Em 2011, pela Prefeitura de Ouro Preto, recebeu do IPHAN os prêmios estadual e nacional “Rodrigo Melo Franco de Andrade”. Agraciado pela Câmara Municipal de Ouro Preto com a Medalha de Mérito “João Batista Ferreira Velloso”; pela Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira com a Medalha de Mérito “Tomaz Antônio Gonzaga”, e pela Câmara Municipal de Nova Lima com o título de “Cidadão Honorário de Nova Lima”, em razão dos relevantes serviços prestados aos municípios. Aposentado, atualmente é Auditor no Tribunal de Justiça Desportiva da FMFS de Minas Gerais e Conselheiro Efetivo do Villa Nova Atlético Clube de Nova Lima. Advogado, Empresário, Palestrante, Perito Avaliador de Engenharia Civil e Consultor de Planejamento Urbano.

Como foi sua infância em Ouro Preto?

Tive uma infância muito feliz. Brincadeiras de rua, participação nas cerimônias religiosas (fui coroinha na Igreja do Pilar e apóstolo na Semana Santa), nas datas festivas (carnaval, festas juninas) e nos feriados nacionais, principalmente nos desfiles (paradas) de 21 de abril e de 7 de setembro (era obrigatório desfilar nessas paradas). Tirar “peladas” de futebol nos adros das igrejas, escorregar pelas ladeiras sentado em tábuas com sebo embaixo, jogar “bente-altas” e soltar “papagaios” e “sapas” era muito bom. Meu pai cuidava do “Zé Pereira dos Meninos” e eu o ajudava a fazer as lanternas de papel celofane, a colocar couro nos “taróis e bumbos” (hoje chamadas de caixas de percussão) e nos dias de carnaval, sair tocando ou fantasiado de “cariá” (que era uma fantasia de capeta com uma lança na mão). São lembranças de um tempo em que a vida das crianças nas cidades era alegre, participativa e saudável, muito diferente dos tempos atuais em que as crianças ficam mais em casa na internet em telefones celulares e outros brinquedos eletrônicos. Meu pai, Pedro Gobbi, trabalhou na fábrica de alumínio de Saramenha por muitos anos e depois que se aposentou, juntamente com minha mãe, a professora D. Lúcia Mª da Costa Simões Gobbi (irmã do Pe. Simões e que havia se aposentado como diretora da Escola Monsenhor João Castilho Barbosa no bairro das Cabeças), abriu uma loja na parte de baixo da nossa casa na Rua Getúlio Vargas. Então, eu passei a ajudar meu pai e minha mãe na papelaria, até mesmo nas férias depois que fui fazer faculdade em Belo Horizonte, principalmente nas épocas de início das aulas e no Natal, quando o movimento do comércio era muito grande.

Você era sobrinho de Padre Simões, uma personalidade marcante na história da cidade. Como era o convívio com ele?

Meu tio era um grande amigo e conselheiro, e sempre foi uma referência na minha vida, embora eu às vezes discordasse da sua “franqueza mal-educada”, quando expressava suas opiniões sem se preocupar com as consequências causadas nas pessoas. Muitas vezes suas falas eram mal interpretadas e ofendiam as pessoas, pois o Pe. Simões não tinha “papas na língua” e nem nos microfones das igrejas expressando suas opiniões, inclusive políticas, de uma forma clara e direta, com essas atitudes gerando alguns desafetos. Porém, meu tio foi a pessoa mais bondosa e caridosa que já conheci em toda a minha vida, embora sempre fizesse isso em segredo. Não me esqueço como ajudava as pessoas pobres e necessitadas. Um exemplo disso, é que dava banho, alimentava e cuidava do João “Pé de Rodo” uma pessoa folclórica da cidade, sem família, que vivia nas ruas e que era muito maltratado pela vida e zombado por algumas crianças e adultos não só pela feiura do seu rosto, mas principalmente pela deformidade dos seus pés, que originaram seu apelido. Poucos sabem, mas meu tio dava todas as roupas novas que ganhava no seu aniversário e no Natal para os pobres, principalmente para o João “Pé de Rodo”, continuando a usar suas roupas velhas e gastas, apesar dos protestos da família.

Pouco antes de falecer ele me fez três pedidos: 1° – Que informasse a toda a família que nada tinha e nada deixava; 2° – Que sempre eu honrasse e defendesse o nome seu e da família e protegesse o patrimônio cultural da cidade, principalmente o religioso; 3° – Que queria ser enterrado na sepultura onde estava João “Pé de Rodo”, seu maior e melhor amigo e não no jazigo da família no cemitério da Igreja de São José (e se verificarem, isso foi feito). Ainda sigo, guardo e menciono nas minhas palestras os seus ensinamentos, seus ditados e frases, valendo a pena destacar algumas, tais como: “Quem tem que agradar a todo mundo é palhaço”; “Não adianta pintar o urubu de branco, pois ele nunca será uma garça”; “Não se esqueça meu sobrinho, ninguém, chuta cachorro bravo!” e “Pobre Ouro Preto, tão rica e tão pobre!”  (se referindo a alguns políticos do município). Independente das suas atitudes polêmicas, Pe. Simões foi e sempre será lembrado como um dos maiores guardiões e conhecedores do patrimônio cultural brasileiro e arte sacra de Ouro Preto e do Brasil. Foi um dos vencedores do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade e além disso, foi condecorado com uma série de medalhas e prêmios: Aleijadinho, Santos Dumont, Bernardo Pereira de Vasconcellos, João Veloso, Grande Medalha da Inconfidência e Prêmio Nacional de Cultura. O cônego foi homenageado ainda por várias instituições e, em 1988, recebeu em audiência particular com o Papa João Paulo II, a Cruz Pontifícia de Prata pela defesa da arte cristã em Minas Gerais e no Brasil.

Sua primeira graduação foi em Engenharia Civil. Como surgiu o interesse pelo Direito?

Sempre fui muito agitado e ansioso, principalmente por novos conhecimentos. Em razão disso, fiz variados cursos desde Avaliações e Perícias de Engenharia, até Arrais Amador (para pilotar embarcações náuticas) e ADESG (vinculado a Escola Superior de Guerra), dentre outros.   Em 1980, quando ocupava o cargo de Assessor de Planejamento e Coordenação da Prefeitura de Nova Lima, a pedido do então prefeito Vitor Penido, intermediei a doação do terreno onde hoje está implantada a Faculdade de Direito Milton Campos, para que a mesma se instalasse em Nova Lima. Como sempre trabalhei com assuntos relacionados com leis e normas na área de Engenharia, Planejamento e Desenvolvimento Urbano, e como a faculdade, em razão de um acordo feito em contrapartida a doação da área feita pelo município, dava um desconto muito significativo nas mensalidades para os moradores de Nova Lima, despretensiosamente resolvi prestar vestibular e passei no concurso. Assim como já havia feito pouco tempo antes o curso de Administração Financeira na UNA, achei que os conhecimentos jurídicos ampliariam e contribuiriam para melhorar o meu desempenho profissional. Em verdade ainda acho que todos os profissionais da área técnica ou da saúde deveriam ter mais conhecimentos nas áreas de Direito e Administração, pois convivem o tempo todo com leis, normas e procedimentos e muitas vezes pelo pouco conhecimento ministrado nas faculdades a respeito dessas matérias, não avaliam as consequências do que estão fazendo.

O que destaca na sua atuação como Coordenador do Programa MONUMENTA/MinC de Ouro Preto?

Uma das coisas que me dá maior satisfação e das quais mais me orgulho foi de ter tido a oportunidade não só como Coordenador do Programa Monumenta, mas também como Secretário de Patrimônio e Desenvolvimento na Prefeitura de Ouro Preto, de ter participado de uma grande reestruturação política e administrativa do município (através da elaboração do Plano Diretor), e da restauração e reurbanização do Centro Histórico de Ouro Preto, (além de outras muitas obras executadas em todo o município), pois em Nova Lima eu já havia participado de obras muito significativas (tais como a construção do Paço Municipal, da Rodoviária Municipal, reforma da Câmara, entre outros) e na minha cidade natal ainda não havia tido essa oportunidade. Porém, tenho que observar e destacar que sem a ajuda, o apoio e a confiança do prefeito Angelo Oswaldo (uma das pessoas mais cultas, educadas e um dos políticos mais honestos e corretos que já conheci), do Governo Federal (através do MinC e do IPHAN), e da fantástica e competente equipe de técnicos da Secretaria de Patrimônio, nada disso seria possível. Na verdade, eu atuei apenas como um coordenador das atividades, devendo o mérito desses resultados ser creditado aos citados órgãos e técnicos, e também a preciosa colaboração e apoio dos Ministérios Públicos Estadual e Federal aos quais agradeço na pessoa da Drª Zani Cajueiro, promotora Federal e profunda conhecedora da área cultural.

Realizamos diversas obras e serviços no município na gestão 2005/2012. Como consequência e reconhecimento desse grande esforço, a Comissão Estadual de Avaliação da Superintendência do IPHAN de MG, no dia 04 de agosto de 2011, de forma inédita para um trabalho de gestão pública, elegeu o projeto “OURO PRETO: UM NOVO MODELO DE GESTÃO PARA CIDADES HISTÓRICAS”, da PMOP, como um dos vencedores da etapa estadual na categoria de Preservação de Bens Imóveis e o mesmo projeto foi também eleito pela Comissão Nacional como um dos sete vencedores da etapa nacional do prêmio, recebendo o troféu no dia 19 de outubro de 2011 no Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília.

Qual a importância de se ter o escritório do IPHAN em Ouro Preto e como se dava a parceria entre a Secretaria de Patrimônio e o IPHAN em sua gestão?

O motivo de recebermos o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade foi justamente o fato de Ouro Preto na gestão de 2005/2012 ser a primeira cidade brasileira, histórica e Patrimônio da Humanidade, a criar e implantar uma Secretaria como solução para resolver o conflito que era de se conciliar o desenvolvimento urbano com a preservação do patrimônio histórico. Dedicada ao ordenamento urbano do município e à preservação de seu patrimônio cultural, a Secretaria possibilitou uma harmonia até então impensável, que foi a de desenvolver e inovar preservando o seu rico patrimônio cultural. Em razão disso, Ouro Preto se tornou um exemplo no Brasil: a convite do Governo Federal e de vários órgãos nacionais e internacionais de proteção cultural, proferi palestras em muitas cidades e Estados brasileiros mostrando os resultados da experiência de Ouro Preto. Para ter sucesso nesse objetivo era fundamental que a Secretaria (Prefeitura) e IPHAN (Governo Federal) agissem em perfeita sintonia. Essa parceria permitiu que os projetos de arquitetura e urbanismo localizados dentro dos perímetros tombados pelo governo federal fossem analisados e aprovados ao mesmo tempo pelo IPHAN e pela Prefeitura de Ouro Preto. Os nossos arquitetos trabalhavam juntamente com os do IPHAN na análise dos projetos e, com isso, foi possível acabar com as divergências das visões municipal e federal, agilizando e objetivando as aprovações. A manifestação do prefeito Angelo numa das minhas palestras ilustra muito bem isso. Na ocasião, ele disse:

“O Município de Ouro Preto adotou, desde 2005, um programa amplo e abrangente de valorização do patrimônio cultural. Inovou, em termos de gestão pública, buscando a compatibilização do desafio da preservação com as demandas do desenvolvimento. Implantou um modelo próprio, a partir da soma de experiências e das lições da realidade local. Para tanto, integrou e conjugou as atividades dos eixos principais do programa: educação patrimonial, dinâmica dos bens imateriais, conservação de imóveis privados, tombamento e registro municipais, conselhos pertinentes, legislação e regulação urbanas, zoneamento, carta geológica e geotécnica, programa de habitação, descentralização no sentido dos distritos municipais, serviço de fiscalização, recursos humanos especializados, políticas públicas de meio ambiente e de cultura, parceria com instituições e empresas, captação de verbas e alinhamento com o trabalho do IPHAN, Ministério Público Federal e Estadual e demais organismos do setor.

A salvaguarda do acervo patrimonial de Ouro Preto alcançou índices elevados de aprovação pelos especialistas que analisam hoje a situação da cidade tombada, superada a grave apreensão que, até 2005, rondava os efeitos negativos da ausência de uma política pública eficaz de patrimônio cultural. A UNESCO chegara a enviar uma missão, em 2003, para diagnosticar o quadro crítico em que declinava o primeiro patrimônio mundial brasileiro. O resultado positivo e exemplar transparece em numerosas realizações, em termos de obras físicas, e no sucesso do modelo político-administrativo adotado. Estabeleceram-se a base firme e os instrumentos indispensáveis a uma gestão pública empreendedora e eficiente, no campo da cidadania, da cultura e dos acervos históricos. Envolver sempre mais a sociedade e os cidadãos nessa prática é a meta das tarefas cotidianas da Prefeitura Municipal de Ouro Preto, com ênfase na coordenação exercida pela Secretaria Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano, cujo nome já traduz o propósito de compatibilizar a preservação do monumento do século XVIII com a vitalidade urbana e social do século XXI”.

Ouro Preto está se expandindo, principalmente próximo ao bairro Bauxita. Essa expansão também pode ser atribuída ao Reuni, que trouxe para UFOP novos cursos e, consequentemente, mais estudantes/moradores. Como aliar esse desenvolvimento urbano em Ouro Preto e a preservação do patrimônio?

Esse é será sempre um grande desafio para a cidade e seus habitantes, sejam eles moradores temporários (como é o caso dos estudantes universitários) ou os moradores permanentes. Em primeiro lugar é fundamental que seja sempre desenvolvido, principalmente pela UFOP e também pelo IFMG um trabalho de educação patrimonial junto aos estudantes e aos cidadãos (especialmente os jovens) para criar um sentimento de pertencimento, cidadania e patriotismo em todos, ao entender o grande valor histórico/cultural da cidade para o nosso país e para o mundo. Não devemos nunca nos esquecer que Ouro Preto foi a primeira cidade histórica no Brasil que, em 02 de setembro de 1980, foi agraciada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, e que temos ainda a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, em Ouro Preto, eleita uma das sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, em concurso realizado pela “New 7 Wonders Portugal”. A paisagem urbana é parte integrante desse valor cultural. Assim, não se pode permitir que o conjunto arquitetônico barroco, como numa bela pintura, fique emoldurada por um ambiente totalmente discrepante em seu entorno. Pensemos numa foto do nosso rosto, para um documento, tendo ao fundo, em vez de um painel branco, tenha inúmeros outras imagens no seu entorno. A imagem fica seriamente prejudicada, não permitindo que as nossas feições sejam realçadas e identificadas com clareza. Da mesma forma ocorre com a paisagem urbana da cidade. Não podemos também nos esquecer que o valor cultural mundial é o conjunto arquitetônico barroco e assim a moldura tem que ser preservada. Estimular o desenvolvimento urbano nos distritos e expandir os bairros fora da paisagem urbana da cidade de Ouro Preto é muito importante isso deve ser monitorado e controlado permanentemente pela prefeitura e enfatizado no Plano Diretor do Município.

É notório o crescimento, também, do distrito de Cachoeira do Campo. Tal crescimento pode ser atribuído ao fato de que a sede não consegue mais se expandir?

Sem dúvida e essa tendência de descentralização deve e tem que ser cada vez mais estimulada e apoiada pela prefeitura. A localização geográfica, a topografia e acessibilidade tornam Cachoeira do Campo o local mais adequado para atender a necessidade do crescimento urbano da cidade de Ouro Preto, de forma ordenada e adequada, pois é conhecida a manifestação dos geólogos que alertam sobre os riscos das construções nas encostas do entorno do Centro Histórico da sede. Importante que o Plano Diretor do município e principalmente a Lei de Parcelamento e Uso do Solo nele contida seja rigorosamente observada para que o distrito possa desempenhar bem o seu papel com boa qualidade de vida urbana, propiciando aos seus habitantes atrativa qualidade de vida. Temos ainda que lembrar que o clima do distrito de Cachoeira do Campo é famoso e considerado, em razão da sua altitude e localização geográfica, como um dos mais saudáveis do Brasil, tornando o distrito ainda mais atrativo para as futuras ocupações e para desestimular a ocupação do entorno da cidade sede do município.

O Colégio Dom Bosco encontra-se hoje desativado. Quais medidas devem ser tomadas para que situações como essas não aconteçam?

O caso do Colégio Dom Bosco é emblemático de como tratamos mal o planejamento e desenvolvimento urbano e não atentamos para a normatização e as perspectivas mais óbvias que os espaços urbanos nos apresentam. No nosso trabalho de aprovação do Plano Diretor do Município tomamos o cuidado de criar novos zoneamentos urbanos, dentre os quais destacamos dois: a ZIM – Zona de Interesse Mineral e a ZDE – Zona de Desenvolvimento Educacional (criada através da Lei 60/2009). A ZDE foi criada pensando exatamente em preservar áreas destinadas a implantação de instituições de ensino, tais como, “campi” universitários. A DEZ foi pensada em especial para disciplinar o uso dos “campi” da UFOP e IFMG e, em especial, preservar a área do Colégio Dom Bosco como área destinada a fins educacionais. Quando então Secretário participei de uma reunião com empresários que haviam adquirido a área do Colégio nos apresentaram um projeto de parcelamento com lotes, hotel e haras. Queriam saber a nossa opinião e eu na ocasião alertei que, embora fosse um belo projeto, antes de qualquer iniciativa essa ideia e o projeto deveriam ser apresentados a comunidade do Distrito e submetida aos Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (COMPATRI) e Conselho Municipal de Política Urbana (COMPURB). Não me deram ouvidos e a história é bem conhecida. A população de Cachoeira do campo se mobilizou e o empreendimento foi abortado, dando-se início a uma grande discussão sobre o destino da propriedade e o seu retorno ao Estado. Desde 2011, uma ação civil pública movida pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pede que tudo seja devolvido ao Estado, pois consta que só poderia ser utilizado para fins educacionais (que já havíamos cuidado de preservar e de normatizar com a criação da ZDE no Plano Diretor do Município). O prédio e o terreno do colégio Dom Bosco, uma das edificações mais importantes para o movimento da Inconfidência Mineira, com 577 hectares, localizado no distrito de Cachoeira do Campo, foi doado pelo governo mineiro à Inspetoria São João Bosco, em 1893, onde funcionou o primeiro quartel da Polícia Militar (PM) de Minas e onde serviu Tiradentes, são disputados hoje pela corporação e a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), sem que haja uma decisão sensata e harmônica do Estado, o que demonstra que ainda estamos longe de pensar num país para o futuro, pois a base disso seria priorizar a educação. Para isso não acontecer, deveria ter sido observada a lei, simples assim.

Ouro Preto vive hoje um novo momento, em que não pode mais contar com o repasse financeiro das mineradoras. Essa condição gerou um grande impacto na economia local. O que pode ser feito para melhorar essa situação?

Como Secretário eu sempre dizia que “Ouro Preto tem que explorar o turismo e não os turistas”. A expansão do turismo tem sido contínua nas últimas décadas, e a diversidade é a palavra de ordem. É o setor que regista maior crescimento em todo o mundo, e estima-se que seja o 3º maior empregador do planeta, logo a seguir aos setores do retalho e da agricultura. Temos que ter sensibilidade e perceber as reais vocações de cada região e seus potenciais. Não há como negar a importância da mineração para o nosso município, estado e país. Porém, explorar nossos recursos minerais sem planejar suas consequências, principalmente ao meio ambiente, sem projetar novas indústrias e sem desenvolver tecnologias para que, em vez de exportarmos a matéria base, transformarmos nossa matéria prima em produtos finais, é projetar um país sem futuro e sem desenvolvimento sustentável. Ouro Preto possui 13 distritos (incluindo a sede) e 52 sub-distritos ou povoados, o mais próximo a 11,5 km (Catarina Mendes) e os mais distantes a 58 km da sede (Motta e Crockett de Sá). A maioria dos distritos de Ouro Preto possui importante patrimônio cultural e natural, alguns com tombamento federal, hoje preservados pelas ZPE’s (Zonas de Proteção Especial). Saber explorar e divulgar esse turismo com criatividade e competência é fundamental, mas para isso é necessário um grande projeto para o país, pois sem educação, segurança, transporte, acessibilidade, entre outros, não há como promover turismo sustentável. Mesmo assim, o grande potencial do município na minha opinião, além da mineração, é o turismo. Então cuidar da cidade e proporcionar aos visitantes atividades e eventos que possibilitem e que possam passar mais tempo no município, conhecendo atrativos e assistindo apresentações do Zé Pereira, bandas tradicionais, festivais de arte e cultura, aliados a uma atenciosa e cuidadosa recepção com preços atrativos de hospedagem, alimentação e produtos artesanais, poderão recolocar Ouro Preto na rota das cidades mais procuradas no turismo mundial.

O Horto dos Contos é um equipamento de mobilidade e acessibilidade urbana e um atrativo turístico da cidade, que abrange uma parte da natureza dentro do centro histórico. Um espaço amplo, contemplativo e de lazer. Mas no momento ele se encontra fechado. Qual sua visão em relação a isso, já que hoje ele é um local que não está sendo bem aproveitado?

Como disse na resposta anterior, temos que cuidar do turismo como prioridade para alavancar o desenvolvimento da cidade. O exemplo do descuido com o Parque do Horto dos Contos é exemplo de como em vez de ampliarmos as nossas ofertas aos turistas, cada vez mais nós nos distanciamos dessa meta. O projeto de paisagismo desenvolvido nesse espaço foi motivo de aplauso, inveja e até mesmo cópia por muitos outros municípios do Brasil por onde divulgamos esse nosso projeto. Se pensarmos na relação custo x benefício que esse espaço poderia estar proporcionando, não só aos turistas, mas também à população, veremos que o mais difícil seria conseguir o grande investimento para realizá-lo, mas isso já foi feito. Se o espaço não for reaberto para servir pelo menos como local para passeio, caminhada e alternativa de acessibilidade ao Centro Histórico, ele servirá apenas como mais um monumento exemplar do descaso e da incompetência dos gestores públicos do nosso país.

O Largo do Coimbra é espaço público que passou por diversos usos ao longo dos anos. Hoje, ele abriga a Feirinha de Pedra-Sabão. Uma ação judicial tenta hoje regularizar o espaço. Qual a sua opinião sobre essa situação, já que hoje os feirantes não pagam aluguel do local?

Eu sempre defendi a ideia de que qualquer espaço público é direito de todos e não somente de alguns. A Feirinha de Pedra-Sabão acabou se tornando um atrativo turístico, mas para se ter um país justo a lei tem que ser respeitada. Todos sabemos dos “negócios” que hoje envolvem a feira, como a compra e venda de espaços por pessoas inescrupulosas, mas que são locais públicos e, portanto, direito de todos. A questão não é de pagar ou não aluguel de um espaço público. A questão é de se planejar o local e licitar os espaços destinados para exposições de artesanato em pedra sabão (não indústrias) de uma forma legal, ordenada e limpa que possa proporcionar aos turistas e cidadãos ouro-pretanos um local bonito e acessível, sem comprometer a paisagem do seu entorno. No meu entendimento o que falta é a vontade política e o empenho de todos os envolvidos nesse conflito social e legal para resolver a questão.

Ouro Preto, por ser uma cidade de economia ativa do turismo, também tenta trabalhar a sazonalidade com grandes eventos, como Carnaval, Festival de Inverso, CineOP, entre outros. Porém, há o impacto no conjunto paisagístico. Até onde esses grandes eventos são benéficos para a cidade?

Sempre defendi a ideia de que os eventos em Ouro Preto devem ser harmônicos e compatíveis com o valor cultural, a qualidade cênica e a preservação dos monumentos e casarões históricos que os espaços da cidade oferecem. Promover e estimular as apresentações de orquestras, cantores líricos, blocos históricos (como Zé Pereira e congados), bandas de músicas tradicionais, e outras atividades culturais naturais da cidade me parece muito mais apropriado, pois, além de atrair turistas, valoriza e divulga a imagem da cidade Patrimônio Histórico Cultural, com seu belíssimo conjunto arquitetônico barroco. Vejam o exemplo da apresentação da orquestra sinfônica com o bater dos sinos das igrejas que foi realizado certa vez no Largo de Coimbra. Foi sensacional. Veja o exemplo de Diamantina, que promove a “Vesperata”, conhecida nacionalmente. Por que não fazer o mesmo em Ouro Preto? O que considero extremamente inapropriado (embora seja defendido pelos políticos alegando atender a todos os gostos) é, por exemplo, inserir apresentações de grupos musicais de Rap, Axé, Funk, etc., principalmente nas festividades carnavalescas. Esses gêneros musicais não fazem parte da história nem da cultura ouro-pretana e atraem pessoas que não querem curtir nem valorizar o carnaval e nem o valor histórico da cidade, muitas vezes depredando a cidade, gerando desordem e afastando os turistas. Os eventos devem ser pensados sempre priorizando as apresentações de gêneros que valorizem e divulguem a cultura local e a história mineira. Isso atrai e motiva os turistas brasileiros de outras regiões e do mundo inteiro e contribui para manter a cidade limpa e organizada, pois os participantes em sua maioria são pessoas que têm uma melhor formação e educação. Os outros gêneros devem ser deixados somente para seus locais de origem, como já fazem muitos estados com sucesso.  Assim, o Axé deve ser apresentado na Bahia, o samba no Rio, o Frevo em Pernambuco e assim por diante…. Com todo respeito, como ouro-pretano, essa é a minha opinião…

Algumas capitais estão pensando em uma cidade com menos carro. Ouro Preto tem um centro histórico vivo de um relevo acidentado. Como melhorar o trânsito da cidade e diminuir a quantidade de carros que circulam pelo Centro?

A primeira ideia de melhorar a acessibilidade e restringir ao máximo o estacionamento e a circulação no Centro Histórico de Ouro Preto foi minha, juntamente com minha equipe da SMPDU, aproveitando uma intervenção da Secretaria de Obras na Rua São José, que tinha o objetivo de separar a rede de águas pluviais da rede de esgotamento sanitário. Como a rua foi totalmente interditada e o calçamento todo retirado, aproveitamos para fazer um projeto aumentando a largura dos passeios (já descaracterizados, modificados e danificados pelas intervenções da Cemig, Telemig, etc. e que não possibilitava nem a passagem de um cadeirante). Consequentemente reduzindo a largura da via e para criar acessibilidade a idosos e portadores de necessidades especiais, instalar redes de fibra ótica e de combate a incêndios, medidas há muito solicitadas pelo Ministério Público, mas difíceis de serem realizadas sem um projeto discutido e aprovado nos Conselhos Municipais e pelos órgãos superiores de proteção do patrimônio histórico, em especial o IPHAN. Isso foi feito, o projeto aprovado por unanimidade pelos Conselhos e pelo IPHAN. Cabe lembrar que nos Centros Históricos das cidades mais importantes do primeiro mundo, o trânsito de veículos é impedido a partir da 9h da manhã, sendo permitido em situações específicas ou de emergências. Em Ouro Preto não deveria ser diferente. Tenho a convicção de que precisamos humanizar mais as cidades, priorizando as pessoas e não os automóveis, principalmente nas cidades turísticas. Mais praças, mais jardins, mais passeios e melhor acessibilidade. Quando tenho oportunidade, sempre digo: “Ouro Preto para os pessimistas só tem subidas; para os otimistas, só descidas; mas, para os realistas… tem subidas e descidas! ” Para melhorar o trânsito, temos que restringir a circulação de veículos automotores e priorizar o transporte a pé ou em veículos de transporte coletivo em tamanho, forma e modelo compatíveis com as vias da cidade (por que não com jardineiras, aqueles pequenos e antigos veículos de transporte coletivo?). Estacionamentos no entorno do Centro Histórico devem ser estimulados para que os veículos fiquem guardados e as pessoas possam se locomoverem a pé, o que faz o comércio e serviços locais serem mais visitados e prosperarem, ajudando a economia do município.

Repórter: Patrícia Botaro