Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Gabriel Tropia: apaixonado por Ouro Preto e há cinco décadas agradando os paladares de ouro-pretanos e turistas no restaurante Casa do Ouvidor

Gabriel Nahim Tropia, 70 anos, nasceu em Ouro Preto. Há 50 anos, sua família está ligada ao comércio na cidade. Seu pai, Vicente Tropia, era professor da Escola de Farmácia. Estudou no Colégio Arquidiocesano e, posteriormente, na Escola Técnica de Máquinas e Motores, em Belo Horizonte, já que sempre foi um apaixonado por automóveis e motores. Mas, com descendência árabe, a vontade de empreender sempre esteve na veia da família. Participou do Rotary por 40 anos. Atualmente, é coordenador do Núcleo de Parceiros da ADOP e dono do restaurante Casa do Ouvidor, fundado em Ouro Preto, em 1972, em um casarão no Lajes e em 1984 passa a funcionar na Rua Direita, onde permanece até hoje e que completa, neste mês de junho, 50 anos de fundação.

O restaurante Casa do Ouvidor completa 50 anos neste mês. Como surgiu a ideia de criá-lo?

Meu pai sentiu a necessidade de abrir um negócio para melhorar a renda da família, já que éramos seis filhos. Em 1968, ele comprou, em sociedade com outro comerciante da cidade, uma loja de joias, que chamava Grupiara Pedras, onde eram vendidas pedra sabão e pedras preciosas. Gostamos do ramo e aumentamos a empresa. Chegamos a ter uma carpintaria, que fez muitos móveis para clientes da cidade, inclusive os que são usados aqui no restaurante ainda hoje. Mas a família tinha um dom para a gastronomia. Havia um restaurante, onde hoje funciona o Hotel Solar das Lages. As proprietárias foram embora da cidade e nos ofereceram o local. A partir daí eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos, passamos a comandar o Restaurante Casa das Lages. O lugar era pequeno, tinha apenas oito mesas. Após três anos, sentimos necessidades de ir para o Centro, já que nesse lugar o estacionamento era pequeno, e o movimento estava aumentando. Conseguimos alugar um imóvel na rua do Ouvidor, onde também funcionava um restaurante. Vendemos o imóvel das Lages e o Grupiara Joias para comprar esse restaurante Casa do Ouvidor, que tinha esse nome por causa da rua em que estava localizado, a Rua do Ouvidor. Ficamos lá por dez anos. A decoração quem fez foi a dona do Pouso Chico Rei na época, a dinamarquesa Lili Ebba Henriette Correia de Araújo. Ela produziu as nossas luminárias e escolheu a cor das paredes e também das toalhas. Ela nos ajudou muito. Acontece que o prédio não era nosso e o dono na época quis vende-lo e, e pelo preço que ele pediu, não tínhamos condições de comprá-lo, mas não queríamos sair do centro histórico. Mas havia um imóvel que estava à venda na rua Direita, era a nossa única opção. Conseguimos compra-la em 1980, levamos dois anos para restaurá-la. Transferimos todo imobiliário para esse novo local. Após algum tempo, a casa ficou muito famosa. O restaurante sempre estava cheio e filas se formavam do lado de fora. Como nessa época, o andar de baixo não estava alugado, resolvemos abrir ali um bar, o Booze, onde os clientes esperavam por alguma mesa quando o restaurante estivesse cheio e, à noite, funcionava como uma casa de bebidas. Mas trabalhar durante a noite e durante o dia era cansativo. Minha irmã ficou à frente do Booze por alguns anos, mas entregou o ponto e hoje funciona uma joalheria no local. Gostamos muito do que fazemos e fazemos com carinho. Neste mês de junho, o restaurante completa 50 anos. Hoje eu e meu irmão somos sócios e meu filho também nos auxilia. O movimento maior no nosso restaurante se dá na época da Semana Santa, Corpus Christi e Festival de Inverno. Percebemos que o fluxo de pessoas que frequentam o Casa do Ouvidor diminuiu um pouco, mas é devido ao aumento do número de restaurantes. Quando começamos, só havia três deles.

Seu avô, Salvador Tropia, teve um importante papel para a cultura em Ouro Preto. Como sua família chegou na cidade?

Meu avô paterno, Salvador Tropia, veio com a família da Itália em 1896. Ele tinha o sonho de ter um cinema e em 1926 comprou uma pequena sala onde exibia filmes mudos, que funcionou provisoriamente no Teatro Municipal (Casa da Ópera). Mais tarde, na década de 30, construiu o Cine Central na rua São José, onde funciona atualmente o Banco Itaú. Praticamente todos os seus filhos eram músicos. Nessa época, como os filmes eram mudos, meus tios é que tocavam as melodias durante as sessões. Meu avô materno, José Nahim, possuía uma mecânica que fabricava gasômetro, usado na Mina de Passagem, em Passagem de Mariana.

Atualmente, você é o coordenador do Núcleo de Parceiros da ADOP. Como a agência foi criada?

As pessoas vêm do mundo inteiro para conhecer Ouro Preto e poderíamos dar muito mais atenção para esses turistas. Por isso, cerca de seis empresários começaram a reunir, uma vez por semana, na Associação Comercial para perceber as carências que Ouro Preto tinha em relação ao turismo. No início era difícil reuni-los, mas não desistimos. Junto ao Sebrae, que sempre esteve com a gente, tivemos a ideia de criar a Agência de Desenvolvimento de Ouro Preto, já que acreditávamos que seria bom para a cidade. Com dificuldade, em 2004, conseguimos montar a Agência e me indicaram como presidente. É um cargo que não se ganha nada, mas não me importo porque faço por amor, para prestar um serviço para a cidade. Reunimos vários empresários de Ouro Preto e quatro mineradoras, que são as ancoras da Adop, Vale, Samarco, Novelis, Gerdau. Elas foram os nossos alicerces durante todos esses anos. A Novelis fechou, mas as outras três continuaram.

Já realizamos muito projetos. Fomos escolhidos para administrar a obra do Paço da Misericórdia. Uma das dificuldades que enfrentamos foi a dependência do dinheiro público. Mas apesar de tudo, com muita dedicação, entregamos a obra para a Prefeitura. E agora ela fará o plano de gestão do local. Em 2013, fizemos a restauração do centenário Conjunto de Pontes Ana de Sá¹, no distrito de Glaura, em Ouro Preto. Ela estava caindo, ali passavam carros escolares todos os dias, era perigoso. A Novelis nos procurou e disse que queria restaurar a ponte e fizemos a obra. Ficou boa e segura. Também fizemos o livro – Cidade em Três séculos – Bicentenário de Ouro Preto – Memória histórica. Executamos o projeto de implantação de Esgotamento Sanitário por meio de Biodigestores, Sistema Individual em 100% no distrito de Miguel Burnier. Um sistema que atende cerca de 90 residências, para uma população em torno de 230 habitantes. O projeto e uma parceria da Gerdau, ADOP, Prefeitura de Ouro Preto, SEMAE e UFOP, que foi realizado de julho de 2017 a dezembro de 2017. Administramos o Vale dos Contos, mas como a Vale é quem patrocinava, com a crise no minério, ela não pode mais ajudar. O contrato acabou e não surgiu ninguém para fazer uma parceria. O Vale dos Contos hoje está abandonado. São coisas que não precisavam ser perdidas.

Hoje administramos o Centro de Convenções em parceria com a UFOP. Uma parceria que funciona muito bem. Temos reuniões mensais e hoje contamos 30 parceiros. Agora estamos tentando abrir uma filial com Cachoeira do Campo. Um pequeno escritório que funcione duas vezes por semana para criação do MEI (Microempreendedor Individual), e ainda levar cursos do Sebrae para o distrito. Vários empresários de Cachoeira estão interessados que a ADOP vá para lá, já que o local está crescendo. A preocupação da ADOP é fortalecer Ouro Preto, trazer emprego e renda para a cidade. Fortalecer o comércio. Temos feito muita coisa, mas acho que ainda podemos fazer mais por Ouro Preto. É um desafio, mas gosto disso. E a nossa equipe veste a camisa, é nota dez.

Como foi sua experiência como rotariano, já que o Rotary Club tem uma forte atuação em Ouro Preto?

Meu pai, Vicente Tropia, foi um dos fundadores do Rotary Club Ouro Preto, em 1954. Fui rotariano por 4 décadas. Quando fui presidente do Rotary, no período de 2012 a 2013, Jarbas Avellar me cedeu um espaço no Grande Hotel. Transformei esse espaço na secretaria do Rotary, pois não existia desde sua criação. Colocamos histórias, projetos, prêmios e o nome de todos os presidentes do Clube, desde 1954. Devo a Jarbas a gratidão por ter me cedido este espaço muito importante para a história do Rotary. [O Rotary sempre promove ações sociais na cidade, com diversas atividades voltadas para saúde, lazer e entretenimento da população, dessa forma, gera uma boa relação entre empresários e comunidade].

Quais são os desafios de empreender no ramo da gastronomia?

É trabalhoso porque não é fácil ser empresário atualmente, ter um restaurante tradicional, já que muitas coisas mudaram. Mas tenho para mim que é minha missão para melhorar Ouro Preto e sempre gostei muito disso. Fazemos a nossa parte, recebemos bem os clientes, não é comum para nós alguém reclamar do nosso serviço. Da nossa cozinha não sai nenhum prato mal feito. E olha que sempre estou por lá porque não é preciso ser um grande cozinheiro para ver se o prato está bem feito ou não. Aqui nós gostamos de cuidar bem das pessoas, de recebe-las bem. Essa é uma casa que vai fazer 50 anos, tenho muito orgulho disso. Temos um funcionário aqui que está conosco desde o começo, o José Preto, ou Zezinho. Ele foi homenageado com a Medalha da Inconfidência na cerimônia do 21 de abril deste ano por este motivo. Isso nos dá muito orgulho.

Ouro Preto sempre recebe turistas famosos, eles já passaram pelo restaurante?

Temos um livro de anotações, onde muitas pessoas que passam por aqui, deixam alguma mensagem. E, por aqui já estiveram diversas pessoas ilustres, como: Fernanda Montenegro, Amyr Klink, Letícia Sabatella, Fernando Gabeira, Thiago Lacerda, Fernanda Abreu, Ziraldo, Fafá de Belém, Lenine, Jair Rodrigues, Paulo Autran, Roberto D’Ávila, Zélia Duncan, João Bosco, Tunai, Joãozinho Trinta, Maria Bethânia, Paula Toller, Carlos Vereza, Pelé, Sandy e Júnior, Luciano Huck, Sônia Braga, Elke Maravilha, Patu Fu, Milton Nascimento, entre outros. Um fato interessante, também, é que em 1987, gravam um filme em Ouro Preto, chamado Luar Sobre Parador. Era um filme americano, com o ator Richard Devies e a atriz Sônia Braga. Muitos americanos vieram para nossa cidade. Durante os dois meses de gravação, muitos deles frequentaram nosso restaurante e muito dinheiro circulou na cidade.

Com tantos anos à frente do Casa do Ouvidor e tantas pessoas que passaram por aqui, você já deve ter visto situações inusitadas acontecerem. Tem alguma para compartilhar?

São muitas histórias. Por exemplo, havia um freguês que vinha sempre com a esposa pelo menos duas vezes por mês, aos domingos. Eles eram de Belo Horizonte. Um senhor que já era “mais de idade”. Sempre comiam Tutu à Mineira. A mulher dele era um pouco brava, e ele gostava de tomar uma cachacinha. Para ela não perceber, o garçom levava um copinho para ele no banheiro. Ele voltava de lá todo feliz e a esposa nem percebia. Era muito engraçado.

Repórter: Patrícia Botaro

 

Notas do Editor

Conjunto de Pontes Ana de Sá – Construídas com estruturas metálicas e tabuleiro em madeira sobre o Rio das Velhas e um córrego afluente do mesmo, as pontes tiveram papel estratégico à época da mineração de ouro. Por este caminho, segundo relatos dos próprios viajantes, passaram Dom Pedro I, Dom Pedro II e vários exploradores, como Richard Burton, que por ali transitou em 1868. Em 2007, o Conjunto foi tombado pelo Município devido à sua importância histórico-cultural-paisagística, diferenciando-se das demais pontes de Ouro Preto, geralmente de pedra e em abóbada, pelo seu arranjo estrutural, aspecto e material empregado.

Alguns recados de visitantes ilustres do restaurante Casa do Ouvidor