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Jarbas Avellar, o Grande Hotel e Ouro Preto

Entrevista com Jarbas AvellarJarbas Eustáquio Avellar nasceu em Santo Antônio do Amparo (MG), morou durante sua adolescência em Lagoa Formosa que, na época, era o município de Patos de Minas. Seu pai era agricultor e sua família era toda ligada à fazenda. Até que veio para Ouro Preto cursar Metalurgia na Escola Técnica, atual IFMG. Ainda como aluno, foi convidado para ser professor de Matemática, pelo professor José Benedito Neves, na mesma escola. Ainda na ETFOP, criou o curso pré-técnico que preparava alunos para ingressar na instituição. Posteriormente, entrou para Escola de Minas para cursar Engenharia Civil, mas continuou dando aulas na Escola Técnica. Em 1969 adquiriu, ainda como estudante da Escola de Minas, uma empresa de ônibus, a Coletivos Cristo Rei e deixou o cargo de professor para se dedicar a essa empresa. Depois de formado, a Coletivos Cristo Rei acabou sendo sua principal atividade até 2000, ano em que transferiu o remanescente da empresa para os dois filhos, Danilo e Fabiano. Passou a atuar no ramo de hotelaria, quando adquiriu o Grande Hotel, por meio de uma licitação. Jarbas se formou como engenheiro civil, mas poucas vezes exerceu a profissão. Esteve à frente de cargos na administração pública de Ouro Preto, como Secretário de Turismo, Cultura e Patrimônio, por exemplo. Paralelo a essas atividades, também atua como empresário do ramo agropecuário, já que é proprietário da empresa Joá Empreendimentos Agropecuários, localizada em Patos de Minas, que explora as atividades de agricultura e pecuária, além de uma fazenda em Tocantins.

Como você se tornou gestor do Grande Hotel?

Foto do Grande Hotel

Tínhamos o costume de sair para jantar fora, todas as sextas-feiras, com alguns casais de amigos.  Em uma sexta-feira, viemos jantar no restaurante do Grande Hotel a convite do meu amigo, José Alberto Pinheiro. Em algum momento do jantar, ele me disse que o Hotel seria licitado, mas que essa licitação já estaria dirigida para que ganhasse uma determinada pessoa, que trabalhava no Governo do Estado de Minas. Disse a ele que gostaria de participar porque enxergava o local como empreendimento. Acontece que, depois alguns dias, a licitação foi cancelada, já que surgiram comentários de que a licitação estaria direcionada, como o José Alberto havia dito. Sendo assim, o estado cancelou e abriu uma nova licitação. Conversei com o então gerente do Hotel e fiz uma proposta. Ninguém considerava aqui como algo valioso na época porque era um prédio mal-acabado, em estado precário, mal falado, mas enxerguei algo diferente. Então ofereci um valor maior do que os outros concorrentes e passei a administrar o Grande Hotel. A partir do momento em que começamos a operar, percebi certas incongruências. Como, por exemplo, o prédio possuir quatro andares e somente um andar destinado a apartamentos. Foi quando comecei a elaborar um anteprojeto para introduzir mais apartamentos em um dos andares. Nesse momento, surgiram pessoas para me dizer que não deveria fazer aquilo porque essa era a primeira obra modernista de Oscar Niemeyer e na época ele já estava sendo cotado como maior arquiteto do mundo. Que a construção então deveria ser conservada. Passei a estudar a construção e também a estudar Oscar Niemeyer. Recebi uma visita dele e posso dizer que me apaixonei por aquela figura pequena, mas que guardava dentro de si uma competência e uma inteligência que era a maior do mundo no século XX. Ele voltou aqui outras vezes. Eu também o visitei no Rio de Janeiro. Sempre que ele ia a Brasília, passava por Ouro Preto porque ele só viajava de carro. Ficamos amigos e me comprometi com ele a manter essa obra intacta. Ele me ofereceu um projeto de revitalização do hotel, em 1995, em que não cobrou nada. Passei e desenvolver esse projeto que, na verdade, estamos desenvolvendo até hoje. Atualmente, não sou mais o proprietário do Hotel porque ele agora pertence aos meus filhos. Tenho feito apenas uma gestão de manutenção e desenvolvimento do Hotel. Mas sou um grande admirador dessa obra

Como você avalia sua experiência na administração pública?

Minha vida toda foi permeada por participações no município de Ouro Preto. Quando ainda era aluno da Escola Técnica, em 1965, adquiri uma empresa de ônibus, a Coletivos Cristo Rei e passei a efetuar todo o transporte coletivo da cidade. Passei a participar dessa faceta na vida do município. Logo após minha formatura na Escola de Minas, na década de 70, fui nomeado engenheiro da Prefeitura, posteriormente, secretário de Administração, e mais tarde, secretário de Obras. Depois me afastei. Em 2000, fui eleito vereador, exerci o mandato por dois anos. Fui eleito presidente da Câmara, e permaneci no cargo também por dois anos. Me candidatei prefeito de Ouro Preto, mas não tive êxito. Acredito que não consegui me eleger porque sempre entendi que Ouro Preto deve ser absolutamente preservado e que deve ser o mote de um grande desenvolvimento regional, mas que ele não poderia acontecer na área física da cidade, já que iria detonar a preservação. Sempre insisti que Ouro Preto tivesse um novo núcleo urbano, contemporâneo, próximo a cidade. Mas essa ideia não foi aceita, nem mesmo pelos ouro-pretanos e nem pelas lideranças. Mas eu entendo que a plena preservação de Ouro Preto tem que passar por aí. O ouro-pretano necessita estar fixado aqui, mas somente a área territorial da cidade não comporta o crescimento da população. Essa ideia não foi bem aceita, motivo pelo qual não me elegi como prefeito de Ouro Preto.

Como foi sua gestão na Secretaria de Turismo de Ouro Preto?

Em 2013, fui nomeado Secretário de Turismo e exerci até o início de 2015. Como secretário, entendia que Ouro Preto, sendo considerado o principal conjunto barroco homogêneo do Brasil, teria que ser conhecida pelos brasileiros e estrangeiros que visitam o país, e que, para que isso acontecesse, era necessária uma divulgação maior da cidade. Até mesmo o ouro-pretano peca na dimensão do valor da cidade, porque somos detentores de uma patrimônio histórico-cultural, que o mundo todo tem vontade de conhecer. A própria Unesco, quando elevou Ouro Preto a condição de Patrimônio Mundial da Humanidade, primeiro sítio histórico a ser elevado a essa condição, descreveu a cidade como única. Sendo assim, a cidade deveria ser melhor preparada para receber os turistas. Hoje, temos uma média de 40 mil turistas visitando Ouro Preto por mês, mas essa média deveria ser de 80 mil visitantes. O norte do Brasil não conhece Ouro Preto. Quase todas as cidades do Brasil têm uma rua com o nome Rua Ouro Preto, mas ninguém sabe o porquê. Deveria ser dado o conhecimento do valor histórico daqui e a importância na formação do país. Em todas as fases do desenvolvimento do Brasil, Ouro Preto esteve presente. Desde a colonização, às grandes riquezas que saíram daqui os fatos históricos, culminando com a Inconfidência Mineira. Até mesmo a criação da Escola de Minas, já que todas as grandes empresas brasileiras, que fomentaram o desenvolvimento do pais, a partir de 1930, foram formadas por ex-alunos da Escola de Minas de Ouro Preto.

Na sua opinião, quais medidas devem ser tomadas para ampliar o turismo em Ouro Preto?

Deveria existir um programa eficiente, não somente de divulgação, mas também receptivo e de acomodação. Quando as pessoas tiram férias, de um modo geral, elas querem visitar algum lugar. As pessoas que visitam determinado lugar, programam essa visita durante o ano. Sendo assim, elas devem ter um número de nomes de localidades para escolha e deve ser dado conhecimento desses lugares. Mas se ninguém sabe o que é Ouro Preto e o que ele oferece, ele não participa dessa escolha.  E para que isso a cidade seja conhecida por todos, ela deve ser mais divulgada. Quando Secretário de Turismo, fiz isso no Brasil e fora daqui e conseguimos um aumento de 25% do número de turistas. Isso foi relatado pelo secretário de Turismo que me sucedeu na época, o Felipe Guerra. No meu entendimento, Ouro Preto vive do Turismo. Mas segundo a Prefeitura, o turismo não representa nada na arrecadação municipal, isso é um engano. A prefeitura não criou competência para arrecadar. Hoje, com a atual situação da cidade, sem as empresas que existiam antes para suportar a economia local, como Alcan, Samarco, a população está trabalhando com turismo, nos hotéis, pousadas, lojas. As fontes de renda em Ouro Preto hoje são: UFOP, IFMG, e o turismo e não é dada à Secretaria de Turismo a importância que ela tem. Ela deveria ser o órgão carregador de Ouro Preto, a cidade deveria ser administrada sempre com foco nesta Secretaria para que ela possa fomentar o desenvolvimento econômico da cidade. Ouro Preto já tem um plano de desenvolvimento para daqui alguns anos. Dessa forma, deveria ser elaborado um projeto, junto às pessoas que tem condições de participar deste desenvolvimento, que passe a abranger essa possibilidade, que ao meu ver, passa pelo turismo.

A questão da mobilidade urbana na cidade pode ser melhorada?

Falta condições políticas a Ouro Preto para resolver esse problema. O país tem verbas e formas de financiar, sem custo para as cidades que tem pouca mobilidade, para gerar recursos para que criem isso. Claro que Ouro Preto é um caso ímpar, em que não é possível que tenha aqui passeios adequados ao transito de cadeirantes, porque para isso, teria que modificar todos eles. Mas é possível um projeto que possa fazer com que as pessoas com pouca mobilidade tenham condições de uma melhor locomoção. Por exemplo, um amigo diz que em Ouro Preto só se pode andar de cabeça baixa porque as pedras dos passeios são desniveladas. Se andarmos sem olhar para o chão, vamos tropeçar e cair. Isso pode ser resolvido, algumas ruas podem ter os passeios alargados, assim como foi feito na rua São José, no centro da cidade. Basta que se faça um bom projeto de mobilidade em Ouro Preto e que se alcance condições políticas para buscar recursos, porque eles existem. O próprio Governo Federal entende que Ouro Preto é uma das principais cidades do país. Até então os administradores não estão sabendo alavancar essa condição, buscar junto ao governo federal condições para resolver isso.

Como conscientizar os ouro-pretanos da importância da cidade?

Levei cerca de 50 anos para descobrir um fato: o ouro-pretano não aceita mudanças na cidade. Ele tem um ciúme tamanho de Ouro Preto, que está ligado a condição escravagista, já que todos os ouro-pretanos, de um modo geral, tiveram tetravô, e outros antepassados, que foram escravos, que participou de um sofrimento enorme pelo qual o povo de Ouro Preto passou. E isso está enraizado no cidadão daqui. E estou me referindo aqui especialmente àquelas pessoas que tem essa raiz histórica. Quando você diz que Ouro Preto está sendo admirado por um determinado turista, essas pessoas a qual me referi, ficam enciumados. Eles entendem que aquele alemão, aquele inglês, aquele francês, que está visitando a cidade não tinha direito de estar aqui porque quem sofreu para construir a cidade foi um antepassado dele. Isso acontece com uma boa parte da população. É um sentimento incrustrado, em que a população não admite a mudança, ela quer que continue assim. E essa mentalidade só vai mudar talvez daqui três ou quatro gerações, quando as pessoas perderem esse sentimento.

Repórter: Patrícia Botaro

Oscar Niemeyer visitando o Grande Hotel em 1994

Na ocasião, ele foi recebido pelo proprietário, Jarbas Avellar,

e pelo então prefeito, Angelo Oswaldo.

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