Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

José Alberto Pinheiro: engenheiro

Foto de José Alberto PinheiroNatural de Ouro Preto, José Alberto Pinheiro nasceu em 1941, mas tem raízes nordestinas, já que a família do seu pai era do Ceará e da mãe, oriunda de Pernambuco. Formou-se em Engenharia de Minas, Metalurgia e Civil na Escola de Minas, além de fazer cursos de especialização, principalmente na área de restauração e conservação de monumentos. O interesse pela área pode ter alguma influência familiar: o pai, avô, e vários tios também eram engenheiros. Inclusive, seu pai, Antônio Pinheiro Filho, criou a primeira Escola de Engenharia do Ceará, em 1956 e ainda foi o primeiro reitor da UFOP. José Alberto trabalhou no Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e ao mesmo tempo, iniciou como professor de desenho arquitetônico na Escola de Minas. Viajou pelo Brasil e fez inúmeras restaurações, como o Banco do Brasil, em Diamantina. No início da década de 70, participou da restauração da Casa dos Contos. Na mesma época, fez também a primeira restauração da Casa de Gonzaga, ambos em Ouro Preto. Paralelamente a esses trabalhos, continuou dando aulas. Passou pelo Patrimônio Histórico Artístico Municipal, pela reitoria da UFOP, e pela Secretaria de Obras de Itabirito. Atuou ainda como secretário de Cultura e Patrimônio de Ouro Preto. Como empresário, teve uma série de empreendimentos, como uma construtora, que prestou muitos serviços na região, inclusive para Alcan. Em Antônio Pereira, juntamente com alguns sócios, gerenciava uma mina que extraía topázio imperial, em Antônio Pereira. Construiu um condomínio na região do Passa Dez, em Ouro Preto, que atualmente está com as obras paradas, além de restaurantes. Hoje, aposentado, passou a gerência dos restaurantes para os filhos, mas ainda atua como empresário. Parte de sua casa (três apartamentos), viraram pousada, e é ele quem administra junto com a esposa, Eunice Tropia, e aguarda liberação do Iphan do condomínio para retomar as obras.

José Alberto, você já esteve à frente da Secretaria de Cultura e Patrimônio. O que você destaca do seu trabalho como gestor da Pasta durante esse período?

Foi importante esse período e destaco alguns projetos. Fizemos uma reunião com a Fundação Gorceix para montarmos um escritório piloto que funcionaria da seguinte maneira: ela daria espaço físico e equipamento, já a UFOP, cederia alunos para atuarem como estagiários no projeto. Faríamos um levantamento das construções que sem encontravam irregulares em Ouro Preto para tentar regulariza-las da forma mais lógica possível, e que a execução do trabalho não orçasse muito no bolso do indivíduo. Ele não precisaria pagar por um arquiteto, já que o projeto iria oferecer. Seria feito um estudo e o que fosse possível, encaminharíamos para algumas instituições para conseguir financiamento. Sendo assim, o morador teria a oportunidade de regularizar sua situação com um custo baixo e ainda sob a supervisão do IPHAN. Na época, todos gostaram do projeto, mas saí da gestão antes dele ser realizado e, infelizmente, a ideia morreu. Ia dar muito certo, uma pena não ter acontecido.

Outro projeto foi o túnel de Ouro Preto. Fizemos um levantamento da região entre a antiga Santa Casa, até o Corpo de Bombeiros. A distância entre esses dois pontos dá apenas 270 metros de acordo com a planta. Como sou engenheiro de Minas e tenho um certo conhecimento, sabia que a maioria do terreno ali é composto por rocha itabirito¹, um terreno compacto, com muito minério de ferro, onde antigamente se cavavam minas, que estão abertas até hoje, algumas ainda em funcionamento. Mostrei o projeto para o prefeito na época, José Leandro, e mostrei que cerca de 70% dos carros deixariam de passar no cruzamento da Praça Tiradentes, que sempre foi muito intenso. Ele ficou convencido, fizemos a licitação e convidamos para participar da visitação do projeto, o Dr. Geraldo Fonseca, que hoje está com 93 anos, e ainda atuante, o homem que mais entende de tuneis no Brasil, e que é ex-aluno da Escola de Minas. Fizemos sondagens, serviços de topografia, já que passaria por baixo de casas, cálculo do material, tudo especificado, um projeto primoroso. O custo do túnel ficou em torno de 18 milhões. Mas esse era o valor base, poderia baixar na hora da licitação para executar a obra. Estive na Câmara Municipal para explicar como seria a execução do projeto, mas a população não aceitou bem e, na época, a prefeitura também não ficou interessada. Era uma obra viável, mas que infelizmente não foi realizada. Teria ainda um mirante, mais um ponto turístico para a cidade, que seria construído próximo ao Corpo de Bombeiros.

Outro projeto é o Espetáculo Som e Luz de Ouro Preto. Esse projeto está pronto na Secretaria. Durante uma conversa com Paulo Rogério, dono da Cerâmica Saramenha, que já trabalhou com o grupo Corpo em BH, falamos sobre esse espetáculo que viu em Portugal. Disse a ele que tinha visto o de Petrópolis e achei maravilhoso. Conversei então com o J D’Ângelo, que já havia feito esse espetáculo aqui, em um 21 de abril, juntamente com o Raul Belém Machado, sobre essa possibilidade. Ele disse que tinha sim interesse. O Paulo Rogério então aceitou fazer. Seria um espetáculo que iria envolver, som, luz, teatro, vídeo mapping². A encenação, seria realizada pelos alunos do curso de Artes Cênicas da UFOP. Seria contada a história de Ouro Preto nos três períodos: do ouro, institucional, industrial. O espetáculo seria feito em frente à Pousada do Mondego, no Largo do Coimbra, chegamos a fazer alguns testes. E aconteceria nos meses que não tem chuva, às quintas, sextas e sábados. Imagina a quantidade de turistas que iria trazer? Mas infelizmente também não foi realizado, não era prioridade da administração municipal. Enfim, esses projetos não foram realizados, mas destaco porque deixei uma sementinha.

Você teve apoio da família quando assumiu esses cargos públicos?

Nós temos o costume na minha família em que esses assuntos e a tomada de decisão são muito discutidas entre a gente. Por exemplo, a primeira vez que me convidaram para assumir um cargo público foi para ser candidato a vice-prefeito, discutimos aqui e acabei não aceitando porque estava muito ocupado, no início da minha firma. Chefe de gabinete, secretário de Obras em Itabirito, secretário de Cultura em Ouro Preto, todos esses convites foram discutidos com minha esposa e meus filhos.

Como você enxerga Ouro Preto daqui alguns anos?

Acho que Ouro Preto é mais que um gato, tem mais de sete vidas. Então tem muita coisa ainda pela frente. É uma cidade muito importante, Patrimônio da Humanidade. A gente vê isso quando viaja. Quem vem do exterior, por exemplo, eles vêm visitar Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador, Amazônia e Ouro Preto. Nós recebemos muitos turistas. Nós temos que ter aqui dois tipos de turismo: o do conhecimento, é o aluno que vem para conhecer a história e o outro é o turista que tem que deixar seu dinheiro. Então devemos melhorar o serviço oferecido. Fico feliz em contribuir com isso com a nossa pousada, Guignard, que tem pouco tempo, quase dois anos, mas que já recebeu, em 2016, o prêmio da Booking.com³, com média 9.7.

 

Qual sua ocupação atualmente?

Me aposentei da Escola de Minas em 1993. Depois que saí da Secretaria de Cultura, dediquei aos meus negócios. Tenho aqui o Café Gerais, que hoje arrendei para o meu filho. Mas, para não ficar atoa, resolvemos montar a pousada que já citei anteriormente. Além disso, aguardo a liberação do Iphan para continuar as obras do condomínio localizado no antigo Clube Campestre, na região do Passa Dez. Eu e o Rogério Peret tentamos levantar esse clube, mas não deu muito certo, então compramos as cotas dos sócios e o local ficou sendo nosso. Depois o Chico Bastos também entrou na sociedade. No fim das contas, Rogério e Chico desistiram e me venderam a parte deles. Fiz lá um condomínio. Um terreno bom, afastado um pouco do Centro. Entrei com pedido na Prefeitura e IPHAN, que me deram as diretrizes. Fiz algumas casas e vendi, mas posteriormente, surgiu uma portaria do IPHAN, que incluía a região do condomínio no mapa, que antes não fazia parte e as obras tiveram que parar. Atualmente estou aguardando e dialogando com o IPHAN. É um processo lento, algumas coisas não “andam”. Mas acredito que agora vá dá certo.

Como empreendedor na cidade, o que você sugere para o futuro de Ouro Preto, já que estamos vivendo um outro cenário, que era inesperado antes da paralisação das atividades na Samarco?

Acho que temos que nos adaptar. O orçamento da nossa casa funciona do mesmo jeito que o orçamento da Prefeitura, não se pode gastar mais do que ganha. Se você tem uma casa que perdeu renda, você dispensa o empregado, para de comprar filé, troca seu carro por um mais barato, anda a pé, você começa a fazer economias. Acredito que seja o caso de Ouro Preto, tem que dar uma “enxugada” na casa. Mas o sistema que temos hoje é complicado, o candidato vende a alma para se eleger. Soube há pouco que saíram 500 cargos de confiança da Prefeitura, mas se entrar 600, vai gastar mais do mesmo jeito. Mas é aquela história: devo obrigação para “fulano” porque votou em mim, devo obrigação a “ciclano” porque é amigo do vereador. E isso nada mais é do que o reflexo do país.

Além disso, investir no turismo, criar mais oportunidades de emprego para os ouro-pretanos, dar condições para empresas se instalarem aqui e gerarem empregos. Em 2010 Ouro Preto perdeu duas oportunidades assim. A Biobrás, que pertence a um grupo norueguês, que fabrica insulina, ia retomar a as atividades em Minas Gerais e precisava de 70 hectares à margem de uma rodovia federal. Escolheram Ouro Preto, queriam se instalar aqui. Tentaram, mas não conseguiram a terra e foram para o Alphaville, região de Nova Lima. A empresa injetou cerca de 400 milhões de dólares e contratou 100 técnicos, além de PhD’s na área. Uma outra empresa que tinha o desejo de se instalar fabricava de chips de computador. Eles queriam se associar à UFOP para futuramente realizar pesquisas. Mas a Prefeitura não liberou o alvará. Dessa forma, deve-se desburocratizar a cidade. A própria Prefeitura se engessou demais, criou muita regra, como diz um amigo meu “fazendo nozinhos para própria forca”.  Para abrir uma firma hoje, você gasta no mínimo seis meses. Em qualquer lugar civilizado no mundo, em uma semana você consegue. Aqui vai um conselho para o Brasil todo: o país precisa simplificar.

Repórter: Patrícia Botaro

 

Notas do editor:

1 – Rocha itabirito – rocha metamórfica química ou vulcanoquímica finamente estratificada que é um importante minério de ferro.

2 – Video mapping ou mapeamento de vídeo – técnica que consiste na projeção de vídeo em objetos ou superfícies irregulares, tais como estruturas de grandes dimensões, fachadas de edifícios e estátuas (cuja projeção pode ser feita a 360º).

3 – Booking.com – empresa de e-commerce de viagens que funciona no mundo todo.