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Leonardo Lopes | O gestor à frente do Museu Casa dos Contos

Foto de Leonardo Lopes, o gestor do Museu Casa dos Contos em Ouro PretoLeonardo Francisco Martins Lopes nasceu no Rio de Janeiro e veio para Ouro Preto aos 11 anos. Estudou no Colégio Arquidiocesano, no Cefet, atual IFMG e na Escola Estadual Dom Pedro II. Cursou Direito na UFOP e, depois de formado, trabalhou como Auditor Fiscal na Prefeitura de Ouro Preto. Prestou concurso para o Ministério da Fazenda e desde 2010 trabalha na Samf (Superintendência de Administração do Ministério da Fazenda), em Belo Horizonte, órgão responsável pela gestão da Casa dos Contos. Em 2012, foi convidado para ser gestor do Museu Casa dos Contos, em Ouro Preto.

Qual a importância do Museu Casa dos Contos para a cidade como um equipamento turístico e cultural?

A Casa dos Contos tem uma história que remete a Inconfidência. A construção foi concluída cinco anos antes da implosão do movimento, por um ator que, estudos apontam, foi considerado até um integrante da Inconfidência, o João Rodrigues de Macedo, uma eminência oculta. Por isso e pelas ocorrências subsequentes, a morte de Claudio Manoel na Casa, a prisão de alguns Inconfidentes neste local, onde também a guarda do vice-rei, que veio para reprimir o movimento ficou aquartelada. Consideramos um imóvel tombado isoladamente, no coração de Ouro Preto, símbolo do Barroco. Um edifício considerado um dos mais suntuosos da arquitetura civil do período. Por diversos prismas que olharmos, vemos a importância da Casa dos Contos. Considerando a missão institucional da Casa dos Contos, formulada de uma forma muito feliz, para preservar a memória econômica fiscal do ciclo do ouro e arquitetura barroca e promover as artes e a cultura nacional, percebemos que esses elementos “casaram” muito bem. A historicidade com a possibilidade de extrair o potencial cultural e emanar isso para a comunidade e turistas. Dessa forma, a Casa dos Contos é muito importante como um aparelho histórico-cultural para cidade. Só no ano passado, recebemos cerca de 150 mil visitas, gente de todo o mundo e principalmente do Brasil, que identifica e que conhece um pouco da sua própria história. Isso acaba propiciando a geração de um sentimento de pertencimento, de apropriação.

Quais os desafios em ser gestor de um museu tão importante em Ouro Preto?

Foi um grande desafio. Mas tão grande quanto o desafio, foram as pessoas que encontrei que me apoiaram. Sempre fui cercado de pessoas muito boas e competentes, tanto aqui, como em Belo Horizonte, no Ministério da Fazenda.

Os ouro-pretanos percebem essa importância que a Casa dos Contos tem? Eles visitam o Museu?

Percebemos que o público local, embora tenha havido um crescimento na visitação, fica aquém do que se espera. Precisamos nos aproximar mais da comunidade, ir até ela, até as escolas, os bairros distantes, subir os morros. Há um movimento neste sentindo, notamos isso, mas é ainda um pouco tímido. Isso se deve a uma série de fatores, que acaba dificultando um pouco o nosso trabalho. Se consideramos que estamos em uma crise, que nos levou a enxugar o quadro de funcionários e diminuir o nosso potencial de conseguir atuar nesse sentido. É um ponto importante que sempre é debatido no âmbito do Sistema de Museus de Ouro Preto, é uma preocupação de todos os gestores. Acredito que as coisas tendem a melhorar neste sentido porque precisamos atrair a comunidade, que é a primeira a conhecer o Museu porque é a que vive aqui.

 

Como funciona o Sistema de Museus e a interação entre eles?

O Sistema de Museus é uma rede em que se articulam os Museus instituídos em Ouro Preto. Além de propiciar que a gente conheça diferentes realidades de aparelhos que trabalham com cultura e história e assim podermos pensar coisas novas e trabalhar em conjunto, tem uma importância política, no sentido de que é uma instituição já consolidada, e que tem um espaço nesse cenário. Ele acaba sendo uma reunião que fortalece a cada um. Temos projetos permanentes. Um deles, está previsto para sair em setembro, o Jornal Olhar Museu, em que serão abordadas temáticas propostas pela própria equipe que compõe o sistema, que sempre se relaciona com a comunidade. Além disso, realizamos eventos conjuntos, como a Semana Nacional de Museus. Este ano, infelizmente, tivemos algumas dificuldades por falta de apoio, mas cada instituição conseguiu realizar alguma atividade para o público.

O que a Casa dos Contos oferece para quem vem visita-la?

O Museu oferece um espaço singular onde você se desloca do tempo atual e se coloca no século XVIII, quando aconteceram fatos importantes na nossa história. Digo que a própria Casa em si, o seu espaço de fruição, é o principal atrativo da Casa, mais do que seu acervo exposto. Porque aqui ocorreram fatos relevantes dos quais não temos um objeto que remeta a essa ocorrência, mas que o próprio local conta um pouco disso. É um Museu de sensação, estar no lugar onde aconteceram fatos importantes, a meu ver, é o principal atrativo. Mas o Museu oferece também um centro de estudos muito importante, do Ciclo do Ouro. Um depositário de documentos importantíssimos, que remetem ao século XVIII e XIX, e que ajudam a contar a história de Minas e dessa época. Um espaço acessível ao visitante onde se encontram documentos originais microfilmados, que podem ser vistos por meio de leitoras de microfilmes, instaladas no próprio centro de estudos. Temos um salão de exposições, uma galeria importante na cidade, muito demandada, que recebe artistas de muita qualidade. Além de um acervo de imobiliário antigo, exposições de Numismática importantíssimas, que tem a curadoria do Banco Central e da Casa da Moeda. E ainda a Senzala, um espaço muito comentado pelo visitante e que apresenta uma exposição do antiquário Edison Toledo, com peças de tortura da época e do cotidiano dos escravos.

 

Qual o processo para expor um trabalho no Museu?

Neste ano, estamos elaborando um primeiro edital, que está em fase final, para ocupação do próximo ano. Atualmente, recebemos as propostas e analisamos internamente, procurando atender, de uma maneira geral, a todas solicitações. Mas como tem havido uma demanda grande, e considerando que na equipe da Casa dos Contos e da Samf não há técnicos e pessoas com conhecimento do meio que possam fazer essa escolha, e para conferir transparência e qualificar o processo, optamos por lançar esse edital, que será composto por uma comissão. Pessoas convidadas que trabalham com arte e que possam nos ajudar a fazer essa seleção.

Em relação ao Turismo, o que pode ser feito para que ele se torne mais forte em Ouro Preto?

Acredito que é necessária a qualificação de profissionais para trabalhar com o turismo, a articulação entre os diversos agentes, tanto do trade quanto dos aparelhos turísticos. A melhoria da infraestrutura de apoio e receptivo dos aparelhos turísticos. Não tem uma receita, mas uma série de atividades que podem ser feitas e que no âmbito do Conselho Municipal de Turismo, cuja organização o Sistema de Museu tem uma cadeira, isso é sempre tratado. Procuramos formas de poder atuar neste sentido. A Casa dos Contos é uma instituição que apresenta um aspecto singular, na medida em que é um Museu que está no coração da cidade, de grande relevância e que não cobra ingresso. Tenho observado que muitos dos Museus apresentaram nos primeiros meses deste ano, números baixos de visitação e na Casa dos Contos o número tem crescido. Atribuímos isso ao fato da não cobrança de ingresso. Mas no Museu da Inconfidência, a visitação cresceu. O que vislumbramos e que acredito que seja um fato importante em como fazer do turismo um meio de geração de renda alternativo â mineração, é trabalhar com dados. Executar pesquisas junto ao trade, aos turistas. Se o Museu da Inconfidência é um Museu pago e a visitação cresceu, precisamos ter esses números e buscar conclusões. Embora tenhamos uma certa dificuldade, mas que seria uma possibilidade palpável, é trabalhar com um bilhete único, para que desonere o turista e que ele possa visitar todos os outros aparelhos turísticos. Há muita coisa a se fazer, mas a Secretaria de Turismo está trabalhando neste sentido e buscando melhorias. Realmente não é fácil, mas acredito que em síntese, a capacitação e a articulação no meio são peças-chaves para que possamos buscar alternativas e assim, ampliando o leque para fortalecer o turismo na cidade.