Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Mauro Werkema e sua ligação com Ouro Preto

Ouro Preto: 300 anos de imagemMauro Werkema é belo-horizontino e cidadão honorário de Ouro Preto. Jornalista, psicólogo e administrador. Como jornalista, trabalhou em vários veículos de comunicação, entre eles a TV Globo e Estado de Minas, onde foi editor-chefe. Na área de Comunicação Empresarial, trabalhou no Instituto de Desenvolvimento Industrial de MG, BDMG e COPASA. Integrou a equipe fundadora da Secretaria de Estado da Cultura, foi diretor em Ouro Preto e em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Foi secretário de Cultura e Turismo de Ouro Preto, duas vezes presidente da Belotur e, por três vezes, presidente da Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes). Coordenou a elaboração do Plano Diretor de Turismo de Minas Gerais. Presidiu a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Publicou o livro História, arte e sonho na formação de Minas Gerais e participou  de várias publicações como Celio de Castro-Trajetória, Ouro Preto – Olhar Poético, Aleijadinho-200 Anos, Ouro Preto Museus, Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais-70 Anos, A História da Escola de Minas, Igrejas e Capelas entre outros. Atualmente está trabalhando em um livro sobre os protagonistas de Ouro Preto.

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Mauro, você tem uma longa vida de contato com Ouro Preto. Como se iniciou esse contato com a cidade?

Mauro – Sou um velho jornalista, que também militou muito na área cultural. Na década de 70, passei a frequentar Ouro Preto nos Festivais de Inverno e me habituei com a cidade. Comprei uma propriedade em Glaura, distrito de Ouro Preto, que me deu também uma mais vivência com a cidade. Em 1986, fui diretor do escritório do IPHAN, na Casa da Baronesa, convidado pelo então presidente do IPHAN, Angelo Oswaldo, e pelo Ministro da Cultura, José Aparecido de Oliveira. Tinha trabalhado com Zé Aparecido a partir de 1983, na Secretaria de Estado da Cultura no início do governo do Tancredo Neves, como chefe da assessoria de planejamento técnico para desenvolver e implantar a Secretaria.  Em 1993 fui ser presidente da Fundação Clóvis Salgado, Palácio das Artes, o que me amarrou muito com a área cultural e obviamente com Ouro Preto. Em 1992 vim ser Secretário Municipal de Cultura e Turismo de Ouro Preto, a convite do prefeito à época, Angelo Oswaldo, e fiquei aqui quase quatro anos. Montamos uma boa equipe na Casa de Gonzaga e fizemos vários projetos e iniciativas. Fui Diretor Estadual do IPHAN em Minas Gerais, o que também estreitou esse contato. Mas sempre estive em ação em Ouro Preto, seja no Jornalismo, escrevi alguns artigos em jornais daqui, dos quais alguns eu até me arrependo. Ouro Preto tem uma deficiência extraordinária de comunicação. Sempre militei em várias iniciativas e projetos. Durante algum tempo fiz dois módulos no curso de Turismo da UFOP. Em 1998 fui presidente da Belotur. Recentemente voltei para o cargo. Fui presidente também da Fundação Municipal de Cultura, a Secretaria de Cultura de Belo Horizonte, o que também estreitou as relações com Ouro Preto. Estudei muito Ouro Preto, tenho uma boa  biblioteca mineiriana e publiquei bastante sobre a cidade, seja em livros ou em jornais.

Quais os principais trabalhos você destaca quando esteve à frente da Secretaria de Cultura e Turismo de Ouro Preto?

Fizemos um calendário das festas de Ouro Preto. A orientação que trazíamos do Angelo Oswaldo era retomar as festividades tradicionais de Ouro Preto, sejam carnavalescas, religiosas ou cívicas e a cidade as tem em grande quantidade e com muito fervor. Fizemos grandes Semanas Santas e grandes Carnavais. Propusemos inclusive, a retomada de alguns trajetos das procissões. Fizemos uma cartela com 20 projetos para buscar patrocínio. Desses 20, 16 viabilizaram. Um desses foi o Centro de Convenções de Ouro Preto. Verificamos que a cidade precisava qualificar melhor, do ponto de vista aquisitivo, da qualidade intelectual, o fluxo turístico que chegava à cidade e tinha que ser pelo turismo de eventos e negócios. Identificamos esse Parque Metalúrgico da UFOP, onde era o antigo Parque Ferroviário da Estação de Ferro Central do Brasil e que tinha sido incorporado por Getúlio Vargas em 1942 à UFOP. Em 1993 ele estava parado, era uma ferramentaria da Escola de Minas. Conseguimos com que a Escola participasse. O reitor era o Renato Godinho e depois o Dirceu Nascimento, que ajudou muito. Conseguimos fazer um projeto do Centro de Convenções com Jorge Norman e contratamos uma equipe do melhor time de planejamento de Minas Gerais. Fizemos um projeto que julgava muito importante. A iluminação das igrejas, que hoje eu vejo que não tem mais. Todo um planejamento turístico inclusive nos horários porque as igrejas de Ouro Preto não tinham hora para abrir. Começou a se cobrar a visitação e hoje, a igreja do São Francisco de Assis, por exemplo, ganha muito dinheiro. Passamos a captar eventos. Acho que a saída do turismo de Ouro Preto é o turismo de eventos e negócios. Ele é limpo, vence a sazonalidade porque é possível em qualquer época do ano, é o perfil do turismo de maior qualidade. Fizemos, também, vários restauros de igrejas. Lembro da igreja de São Francisco de Paula, que estava há 14 anos fechada. Conseguimos a chave que estava com uma equipe de obras da UFOP e restauramos com dinheiro da MBR, eu e Sérgio Queiroz. Restauramos o Teatro Municipal, que depois deteriorou.

Havia um distanciamento na época entre Prefeitura e IPHAN. Um conflito mesmo, que se estendia à população de Ouro Preto porque o IPHAN sempre teve uma atitude mais policial do que educativa. Criamos o GAT, um grupo de ação com a Prefeitura, a UFOP, IEPHA, IEF para analisar os projetos. O Renato Godinho, que era reitor na época, participava disso. Janice Nascimento, engenheira e arquiteta, chefe do escritório do (??). Jurema Machado diretora da UNESCO, que foi presidente do IPHAN e do IEPHA. Trouxemos a arquiteta Deise Lustosa, que hoje é diretora do Museu da Inconfidência, para ser diretora da Secretaria. Esse grupo foi extremamente importante para conseguir um maior diálogo com a Prefeitura, que tem autoridade na concessão de obras, com o IPHAN, que também tem autoridade na área de concessão, restauro e intervenções.

Realizamos o Encontro Nacional do IPHAN com a presença de pessoas importantes para discutir uma questão que era vital para a instituição e que representou uma mudança. O IPHAN implantou aqui o Estilo Patrimônio. Ouro Preto só aprovava projetos que tivessem algumas características arquitetônicas, como janelas e portas com vãos coloniais, beiral com cachorrada. Ouro Preto foi ficando com a cara do Estilo Patrimônio. Por outro lado, também tínhamos que fazer um entrosamento melhor com a comunidade. Evoluir em dois sentidos: o IPHAN até 1960, época de Dr Rodrigo, se preocupava com o que se chamava de “pedra e cal”, teve que salvar edificações que estavam em ruínas com risco de perda, e só cuidava disto. Não cuidava do entorno, do conjunto urbano, nem de programas educativos e culturais. O fundamental é educar a comunidade para ela mesma se preservar. Se ela não preservar o seu imóvel, não vai ser o IPHAN, policialmente, que vai intervir. Trouxemos aqui uma equipe boa para discutir essa mudança. Envolver a comunidade na conservação e preservação patrimonial. Baixar uma legislação dizendo que o entorno tem que ser tombado junto com monumento. A visão do conjunto urbano. Hoje a melhor concepção disso, não só aqui, mas no mundo, é que se tenha um zoneamento. O plano diretor que nós deixamos aqui prevê um zoneamento: uma área setecentista que deve ter imutabilidade arquitetônica. Dever ser preservada radicalmente, como a Praça Tiradentes. Mas tem hoje áreas de menor qualidade, que não se pode exigir uma preservação estilo patrimônio total. Esse conceito de núcleo histórico é perigoso. Por isso que se deve fazer um zoneamento: zona de preservação total, zona de menor preservação, zona de edificações com tais características, ocupação do lote.

E a sua passagem pelo Palácio das Artes?

Fui presidente do Palácio das Artes em três governos. O primeiro deles foi quando deixei a Secretaria de Estado da Cultura, em 1983. O José Aparecido de Oliveira era o Secretário, principal articulador na época, no governo de Tancredo Neves, disse que precisava de alguém no Palácio das Artes, já que era uma grande vitrine de Belo Horizonte, como é até hoje. Fiquei até 1987 e vim para o IPHAN, em Ouro Preto. Em 1998, o Itamar Franco, que era muito meu amigo, assim como de Angelo Oswaldo, me telefonou para ir até seu apartamento, chegando lá o Angelo também estava e ele o convidou para ser Secretário de Estado da Cultura e a mim, para voltar para o Palácio das Artes. Fiquei lá mais 4 anos.  Logo no início Itamar decretou uma moratória, passei aperto para conseguir dinheiro, mas depois equilibramos. Quando Roberto Nascimento Silva foi Secretário da Cultura disse que precisava que eu voltasse. Fiquei mais dois anos.  Fizemos projetos importantes, como a musealização do Palácio das Artes. Fizemos também muitas óperas., sempre fui encantado por óperas. Quando cheguei em 1983 não sabia nada. Comprei livros, estudava escondido, e fiquei apaixonado. Trouxemos grandes títulos do mundo todo. Mexemos na arquitetura do Palácio e na valorização dos corpos artísticos. Criamos um centro de formação artística com cursos de teatro, música e dança que estão lá até hoje.

Como se deu o seu envolvimento com o novo carnaval de Belo Horizonte enquanto esteve na Belotur? 

Na segunda vez que fui presidente da Belotur foi a convite do então prefeito Márcio Lacerda. Uma das coisas que investimos muito foi no carnaval de Belo Horizonte, que nunca teve tradição de carnaval. O carnaval tinha sido desterrado para a via Arão Reis. Trouxemos em 2012 para a Praça da Estação e chamamos de Estação do Samba. O carnaval cresceu muito com movimento de blocos de ruas e escolas de samba e verificamos que tínhamos que voltar para o trajeto inaugural, a avenida Afonso Pena. Incentivamos também, aproveitando um fenômeno, sobretudo com a internet, os blocos de rua, que é um verdadeiro carnaval. Começamos com 40, depois foi para 70 blocos. Fiquei até novembro de 2015 e já deixamos o carnaval de 2016 planejado, já com 220 blocos de rua. O de 2017 apareceram entre 280 e 300 blocos. Teve bloco, como o Baianas Ozadas, com 100 mil pessoas e vários com 40, 50 mil. Foi um fenômeno. Gerou um planejamento extraordinário. Em partes, saí da Prefeitura por causa disso, estava muito cansado. Amanheci duas vezes na Praça da Savassi às 6 da manhã. Ainda fui um dos coordenadores da Copa do Mundo, Copa das Confederações e parte das Olimpíadas. Não tinha horários, era muito demanda, viagens. Almoçava em pé no Maleta. Comecei a sentir mal e pedi demissão. Mas o Carnaval marcou muito. Tiramos uns 25% do público de Ouro Preto. O segredo desse carnaval de rua primeiro foi a internet porque hoje você se comunica com centenas de pessoas em 10 minutos. Segundo, o bloco de rua é barato e em geral é tribal, familiar, mais seguro. Desfilar em escola de samba tem que ir a ensaios, fazer fantasias, só fica ali dentro. Bloco é explosão de alegria e dá para acompanhar vários ao mesmo tempo. Fiquei marcado por isso e olha que nem sou carnavalesco.

Participei também do título de Patrimônio Cultural da Humanidade da Pampulha. Fizemos todo o planejamento turístico junto com a área da Cultura e o IPHAN e conseguimos que a Pampulha fosse enquadrada na lista da UNESCO.

Como você vê Ouro Preto atualmente e que perspectivas você tem para o futuro da cidade?

Ouro Preto tem que investir em vários itens. Modernizar a Prefeitura. Ter um sistema de planejamento rigoroso e avançado, inclusive para captar patrocínio para recursos e eventos. A cidade pode arrumar dinheiro fácil, desde que tenha projeto. Ouro Preto não tem, então quem vai dar dinheiro para quem não tem projeto? Investir em sistemas de educação, cultura e turismo. Deixamos um planejamento turístico, mas já está ultrapassado. Acho que Ouro Preto tem hoje três grandes vocações. Primeiro educacional, ela tem a UFOP e o IFMG. A UFOP precisa olhar mais para Ouro Preto porque ela tem aqui o seu status, ela usa a cidade. Não sei de nenhum grande investimento que a UFOP tenha trazido para Ouro Preto. Como a Alcan que apareceu aqui em 1952, foi embora agora e deixou o que aqui? Alguma escola, hospital, sistema de saneamento básico? Que eu saiba, não. A Prefeitura tinha que incentivar isso. Um Polo Educacional Universitário. Hoje a UFOP é uma potência. Podia contribuir mais com Ouro Preto. Segundo, um Polo Turístico. Ouro Preto é um Patrimônio Cultural da Humanidade. Esse Centro de Convenções que nós fizemos com muito sacrifício virou hoje auditório da UFOP. Casamentos, aniversários acontecem lá. Não tem ninguém captando eventos. Deveriam ser feitos acordos com a hotelaria, restaurantes. Foi criado para isso. Em terceiro, um centro de saúde. Tem uma escola de Medicina aqui e um Hospital novo. Ouro Preto poderia ser melhor nisso.

O que você já publicou e o que está programando publicar?

Sou um jornalista antigo, comecei com a área política. Fui editor chefe do Estado de Minas e da TV Globo entre outros veículos. Escrevi muitos textos, artigos e livros. Com a Editora Graphar fizemos um livro sobre a Escola de Minas, que foi muito importante. Sobre os 200 anos de Aleijadinho, em que existia uma dúvida quanto ao ano que ele nasceu, chegou a se falar 1930, 1938 e agora descobriu-se que é 1937. São novidades históricas que estão neste livro. Sobre as Igrejas de Ouro Preto. Um livro do Bracher, entre vários outros. Atualmente estou escrevendo um livro sobre o século XVIII mineiro, centrado em Ouro Preto, que foi muito importante no ponto de vista histórico, artístico, cultural e cívico. Mas não se trata de fazer mais um livro sobre a história da cidade. É uma coisa que acredito que faz falta em Ouro Preto. Uma análise historiográfica mais profunda sobre os protagonismos da cidade em seus diversos campos e paradigmas que ela apresenta na sua história, na sua exemplaridade, na sua singularidade.

Repórter: Patrícia Botaro