Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Conservação também é vivência

Entrevista com Rodrigo Meninconi

Rodrigo Otavio De Marco Meniconi é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Escola de Arquitetura da UFMG (1980), especialista em Restauração pela Scuola di Perfezionamento per lo Studio ed il Restauro dei Monumenti pela Università di Roma (1984), e mestre em Arquitetura pela Escola de Arquitetura da UFMG (1999). Além da experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Conservação e Restauração de Monumentos, foi professor de graduação em Arquitetura e Urbanismo da PUC Minas, de Gestão do Patrimônio Cultural, no curso de Especialização em Planejamento Ambiental Urbano da PUC Minas, e de História da Arquitetura e do Urbanismo e de Projeto no Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Hoje, Rodrigo Meniconi atua como professor do curso superior de Tecnologia de Conservação e Restauro do Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Ouro Preto.

Rodrigo, como surgiu o interesse pela arquitetura e por vir morar em Ouro Preto?

Em Belo Horizonte, cidade em que nasci, morava perto de um casal e os dois eram arquitetos e, quando criança, gostava de desenhar, fazia casinha com palitos de picolé, gostava muito disso. Talvez por esses motivos, desde cedo tinha interesse na área. Mas quando fui tentar o vestibular, ainda não sabia o que queria fazer, então foi por eliminação. As áreas puramente de exatas nunca me interessaram, e a puramente artística também não. Queria fazer algo que fosse construído. Assim decidi fazer Arquitetura. Formei-me, estudei na Itália e, em seguida, fui para o Rio me especializar em restauração. De lá, vim para Ouro Preto, para assumir a direção do escritório técnico do Iphan em 1994. Durante muito tempo morei aqui, trabalhava no Iphan e dava aulas em Belo Horizonte, na PUC e Isabela Hendrix, sempre na área de restauro e história da arquitetura. Em 2008, o IFMG criou um curso superior de Tecnologia de Conservação e Restauro, o único que existe no Brasil. Prestei o concurso, consegui a vaga, e dou aulas lá até hoje. Eu gosto muito de Ouro Preto, do ambiente, das pessoas, gosto da vida aqui.

Como foi sua passagem pelo Iphan?

Foi muito rica em termos de conhecimento, vivencia e de entender a gestão da cidade com essas características arquitetônicas. Difícil também, já que eram poucos recursos, pouca ajuda e pouca compreensão. Mas fiquei pouco tempo por lá, apenas três anos. Antes disso, já tinha trabalhado em projeto de restauro, mas trabalhar diretamente na gestão e na conservação da cidade foi muito bom para mim, aprendi muito. Mas tenho sequelas. Inclusive, eu tinha uma hérnia de disco que chamava Iphan porque ficava tudo nas nossas costas (risos).

Rodrigo, você fez uma pesquisa sobre intitulada “Construção de uma Cidade-Monumento – O caso Ouro Preto”. O que foi estudado nesse projeto?

Esse projeto era um desejo em unir a vivência que tive no Iphan, a história da arquitetura e de Ouro Preto, e consolidar nessa dissertação. Por um lado, era mais fácil, porque já tinha acesso a textos, mas serviu para, de certa forma, assentar para mim mesmo alguns questionamentos. Esse projeto conta um pouco do caráter histórico de Ouro Preto e de como a cidade foi sendo criada. São três grandes argumentos: um é a conservação. Uma compilação da própria restauração, como surgiu, como deve ser feito, o que se usa. A outra parte é a própria cidade, como ela surge, como surgem os lugares, como a arquitetura foi feita, os princípios de composição, os temas dominantes, o que deve ser conservado e o que pode mudar, quais são as exigências. E o terceiro, a concessão do monumento. Em que momento essa cidade passa a ser considerada algo a ser conservado. Além das criações de ordem de proteção antes da criação do Iphan e depois.

Em sua opinião, quais são os desafios de conservação atualmente?

Mobilidade, conservação ambiental e a questão social. Tem muita coisa ainda que possa ser feita e acredito que aqui é mais de realizar, não só pela dimensão, mas pela qualidade da cidade. Quando você pensa em uma cidade como Ouro Preto, ela é interessante não só porque é histórica ou bonita, mas porque ela permite uma forma de vida que já desapareceu. Como na Rua São José, hoje quase ninguém mais mora lá. Fora toda a vida que permeia esse lugar, as procissões, as histórias, a reação às pessoas. Eu entendo a conservação não só como a parte edificada, que confere identidade, qualidade e estética, mas também vivência no lugar.

Falando em mobilidade, o que você acha que poderia ser feito para Ouro Preto ser uma cidade mais acessível?

Há estudos nessa área, como um mapeamento de declividade, que apontam os trechos da cidade em que é possível caminhar, ou usar uma cadeira de rodas sem problemas. Isso poderia ser interligado com elevadores, escada rolante. Raramente não conseguimos adaptar um prédio antigo as necessidades novas. Isso acontece em muitas cidades, até medievais, onde é até mais complicado fazer esse tipo de alteração, mas foi feito. Ouro Preto é cheio de estudos, agora é colocar em prática. Fora isso, tirar um pouco desses carros da rua.

O que você acha da conservação da cidade atualmente?

Se você pensar em termos de arquitetura, não tem nada grave. Mas tem algumas pequenas coisas que devem ser enfrentadas. Um córrego que vem da água Limpa. Chamava-se água Limpa, quer dizer que a água era limpa. Hoje é um esgoto naquele estado, é revoltante. Da mesma maneira, a quantidade de carro que circula no Centro de Ouro Preto. Veneza, por exemplo, você não consegue entrar de carro. Da mesma forma, no Centro de Roma. Veneza tem controle de pessoas. Como a questão da expansão das cidades, acredito que a cidade não pode ficar congelada, mas ela é uma cidade só. Essa expansão, se não tiver cuidado, impacto pode causar problemas.

Você possui um acervo de trocadilhos de termos arquitetônicos. Como isso começou?

Isso é muito engraçado. Durante o período em que trabalhei atendendo o público, surgiam frases ditas pelos moradores para falar sobre os materiais usados na construção de suas casas que eram curiosas. Juntei várias e hoje tenho praticamente “uma casa pronta”. Por exemplo, já ouvi muito, “Casa germinada” em vez de geminada. “Esquadrilha de alumínio”, no lugar de esquadrias. Alguns não falavam pilastras, e sim “pilantras”. Com todos esses termos, fui construindo uma casinha em que você tem uma varanda com “pilantras de madeira”, o “piso de sexo rolado”, o banheiro com “iluminação genital”, “azulejo deflorado”, “tábua escorrida”. São muitos trocadilhos. Ainda tenho que terminar de construir essa “casa”.

Além do trabalho como professor, você também desenvolve um projeto na comunidade. Como surgiu essa ideia?

Devo me aposentar no próximo ano, mas não vou parar de trabalhar. Tenho vizinhos no Morro São Sebastião que são professores na UFOP. Eles criaram um grupo de estudos sobre questão ambiental e tratamento de esgotos em Ouro Preto e eu também estou participando. Esse projeto tem o objetivo de contribuir com a cidade. Existe maneiras de cuidar das micros-bacias, recuperar o ambiente. Minha ideia é começar a trabalhar nesse tipo de projeto porque para mim, é importante cuidar da cidade e das pessoas.

 Repórter: Patrícia Botaro