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Rodrigo Toffolo e a Orquestra Ouro Preto

Entrevista com Rodrigo ToffoloDoutorando em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa, Mestre em Musicologia pelo Departamento de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rodrigo Toffolo estudou regência com o Maestro e Compositor Ernani Aguiar – um dos principais compositores brasileiros em atuação e também um dos grandes pesquisadores de música brasileira. Rodrigo Toffolo é ouro-pretano, com família, em sua grande maioria, de engenheiros e professores. Seu avô, que era um grande amante de ópera, levou para dentro da sua casa uma vivência musical. O que fez de seu pai, Ronaldo Toffolo, uma figura também ligada a música. Dessa forma, ele e seus irmãos, cresceram em uma casa onde o assunto “música” era sempre corriqueiro, um ambiente extremamente rico, vários músicos frequentavam sua casa. E, segundo o maestro, essa vivência os levou a ter a carreira que têm hoje.

Quais eram os desafios durante sua formação, já que Ouro Preto não possuía o curso de música na década de 80?

Comecei meu curso com o professor Moises Guimarães, em 1989 que, na época, ficou uma temporada dando aulas de violino em Ouro Preto. Mas, infelizmente, o curso veio a acabar e ele voltou para Belo Horizonte. A partir daí eu e meus irmãos, Ronaldo, Rodolfo, e as gêmeas Mara e Marina, começamos a nos deslocar para Belo Horizonte para estudar com ele e a tocar na Orquestra Jovem, no SESI Minas. Frequentávamos Festivais de Inverno, como em Juiz de Fora e Curitiba. Fizemos isso para tentar uma formação e uma solidez na música.  Vale lembrar que, sem a presença dos meus pais nessa história, nada disso teria sido possível para gente. A vontade deles foi muito importante. Além dos meus irmãos, que estão comigo desde a primeira nota que eu fiz. Voltei para a UFOP, me graduei em Engenharia Geológica, mas continuei fazendo curso de música. Assim que me formei na Escola de Minas, segui para o Rio de Janeiro para estudar Regência na UFRJ, com Hernani Aguiar. Dentro da universidade, prestei concurso para o mestrado em Etnomusicologia, com Regina Meireles e fui aprovado. Atualmente, estou em processo de defender o doutorado em Lisboa, em Musicologia.

Quando e como surgiu a ideia de criar a Orquestra Ouro Preto? Houve financiamento?

A orquestra veio de uma coisa muito natural porque éramos violinistas, sendo assim, foi muito fácil nos organizarmos para tocar em festividades. Foi quando, em um encontro com alguns músicos em Ouro Preto, com Rufo Herrera¹ e meu pai, Ronaldo Toffolo², há 18 anos atrás, surgiu a ideia de criar a Orquestra. A ideia inicial era que houvesse uma orquestra da cidade, que se apresentasse no auditório do GLTA e que pudesse atender a pessoas e turistas que por aqui passavam. A partir daí a orquestra foi crescendo, se desenvolvendo e hoje ela já é, praticamente, uma empresa, que se apresenta em muitos concertos pelo país.

Quando iniciamos nossa história, a primeira grande dificuldade foi conseguir o apoio de quem financiasse a Orquestra. Você tem que fazer com que acreditarem na ideia. E deu certo porque acreditam na gente. No início, a Orquestra esteve ligada a pró-reitoria de extensão da UFOP. O primeiro nome da orquestra foi Orquestra Experimental UFOP Ouro Preto. Conseguimos o apoio da universidade, que durou três meses. Nesses três meses, tínhamos que conseguir um financiamento externo e, para que a orquestra pudesse receber esse apoio, ela tinha que estar ligada a UFOP. O Rufo, que era professor na universidade, e meu pai, que também era professor, conseguiram esse apoio. É sempre bom destacar que a universidade tem um papel importante como incubadora destes grandes projetos. Então somos muito agradecidos à UFOP. As dificuldades elas existem sempre, a grande questão é quem te apoia. Essa dificuldade inicial da orquestra foi vencida porque encontramos na época uma pró-reitoria com professores que queriam nos ajudar. A partir daí fomos nos organizando para que as empresas pudessem patrocinar a Orquestra. A primeira que nos patrocinou foi a Alcan³, em seguida, a antiga Belgo Mineira4.

Como é feito o processo de seleção para fazer parte da Orquestra?

Nunca fizemos um processo de seleção. Normalmente, quando saímos em turnê, convidamos os músicos para estarem com a gente. Alguns nos escrevem, mandam currículos, vídeos. Mas temos uma pegada diferente das orquestras tradicionais. Sendo assim, o músico tem que ter uma formação diferenciada. Como trabalhamos essa mistura da música erudita com popular, para que o músico trabalhe conosco, ele deve ter flexibilidade. E não é questão de melhor ou pior, mas sim, de experiência de vida. Isso tira um pouco dessa questão muito vertical que é o concurso. Temos uma orquestra em que a grande maioria dos músicos estão há mais de 10 anos com a gente. E é sempre bom ter gente que comunga da ideia da Orquestra. Por isso que não realizamos concurso para seleção de músicos. Porque escolher pessoas apenas tecnicamente não basta. A parte humana também tem que ser avaliada, e isso é no dia a dia.

A versatilidade da Orquestra, que toca da música clássica à popular, era um objetivo desde o início da sua criação?

Sim. Isso foi um conceito que o Rufo Herrera trouxe para gente, de experimentalismo. Até hoje nossos projetos são assim. Ele sempre nos ensinou que a erudição está por trás do fazer. Não importa se o produto final é uma sinfonia de quatro movimentos, ou se é um xote ou um baião pé de serra. Tem que ser muito bem tocado, bem pensamento, muito bem escrito.

Como são escolhidos os projetos que a Orquestra desenvolve?

Cada um aconteceu de uma forma. Valencianas veio por indicação do nosso amigo e depois produtor do show, Paulo Rogério, que acreditava que devíamos fazer uma versão da música de Alceu Valença. The Beatles veio da UFOP, uma sugestão do então reitor, João Luís Martins, que gostaria que os estudantes saíssem das repúblicas e fossem ao teatro. Dessa forma, quando surgem sugestões, trazemos para a orquestra e analisamos. Mas também fazemos trabalhos que depois vimos que não era uma boa ideia. Há projetos que apostamos, achamos que seria uma coisa legal, e acabou não sendo. Isso é muito comum. Mas essas propostas surgem de tudo quanto é lugar. Mas claro, sempre há um grau de coragem da nossa parte porque pode haver erros também. A vida é assim, fazemos escolhas e torcemos para dar certo.

Como é o processo de preparação para apresentar o produto e quais projetos a Orquestra tem atualmente?

Temos um cuidado enorme com o produto final. Até pela expectativa que a Orquestra trás. A responsabilidade é maior. Os ensaios são feitos com muita calma, é um processo demorado, mas acho que é um processo ao qual nos acostumamos e é ele quem dá a nossa assinatura. E isso fez com que a Orquestra fosse diferindo no mercado. Há coisas que só nós fazemos aqui. Nossos CDs, DVDs, as peças infantis, isso só a Orquestra Ouro Preto faz, não adianta procurar em outro lugar.

Nossos projetos atuais são divididos em três pilares. A série nacional, com concertos fora de Minas Gerais: Natal, Recife, João Pessoa, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Sorocaba. A serie estadual: Mariana, Congonhas, Itabirito, São Gonçalo do Rio Abaixo, Nova Lima, Santa Barbara, Caeté, Sabará. E a série em Belo Horizonte, no Sesc Paladium: onde nos apresentamos todo segundo domingo do mês. Uma novidade é que a partir de agora, a Orquestra passa a ser residente do Paladium. Estou muito orgulhoso e feliz. O óbvio, seria que fossemos residentes do Teatro Municipal de Ouro Preto, mas como não conseguimos com que as pessoas enxerguem o óbvio…

Há projetos em vista?

Estamos com um projeto infantil para ser gravado ainda este ano, que está sendo conversado com uma figura importantíssima da dramaturgia brasileira. Vamos estrear o The Beatles vol. 2, com dez obras novas, devido à enorme procura. As apresentações do Valencianas continuam. Estamos “costurando” uma parceria para um fim do ano, um projeto com um grande artista brasileiro.

Falando em Valencianas, você acredita que esse projeto ajudou a Orquestra a ganhar mais visibilidade?

Ele foi o grande responsável por isso. Os vídeos de Valencianas no youtube chegam a ter 12 milhões de visualizações, isso é muito para uma Orquestra. Ganhamos um público enorme no Brasil todo, que assiste, compra, manda presente. Além disso, o livro do Ziraldo também deu uma grande visibilidade para a Orquestra.

Qual a relação da Orquestra com os ouro-pretanos e como se dá o acesso da comunidade a Orquestra?

A Orquestra cresceu aqui. Nos apresentamos nos distritos por 10 anos e nos bairros por seis. As pessoas viram a Orquestra acontecer. Só uma pena que não conseguimos manter isso. Eu moro em Ouro Preto, busco minha filha no colégio, tomo café na rua, frequento restaurante. Dessa forma, temos uma relação muito aberta com os ouro-pretanos. Os concertos estão sempre cheios, as pessoas têm um carinho enorme por nós. Só fico triste por frustrar um pouco eles, mas eles entendem que precisamos mais do que o elogio do poder público, precisamos é da participação deles.

Além disso, dentro do Instituto Orquestra Ouro Preto, temos o núcleo de apoio a bandas e orquestras. Um trabalho nosso junto as bandas da cidade. Desde o ano passado, fazemos workshops, aulas, interagimos com as bandas daqui, trocamos experiências. Afora vamos realizar o mesmo trabalho em Juiz de Fora, Montes Claros, Aimorés, Uberlândia. Esse ano vamos criar o Prêmio Orquestra Ouro Preto, em que iremos selecionar dois músicos de Ouro Preto que irão comigo para Tatuí (SP), maior conservatório de música do pais, permanecer lá por uma semana, estudando e tocando na orquestra principal. O Instituto Ouro Preto está entrando de uma maneira decisiva na vida cultural de Ouro Preto, já que, além das oficinas com as bandas, que acontecem no GLTA, agora iremos premiar dois músicos da cidade para ter uma experiência enriquecedora.

Com a atual situação da cidade, você acha que a cultura pode ser um diferencial?

Sim, eu acredito muito nisso. E se deixar de acreditar algum dia, posso mudar de profissão. Acontece que sempre haverá uma crise, sempre vai ter uma baixa de minério, um problema econômico. Não vai existir uma época de grandeza que vá permanecer por muito tempo. Por isso, temos que saber que a cultura é um investimento e não um gasto. Somos uma orquestra hoje com mais de 30 pessoas envolvidas no dia a dia. Criamos emprego. Envolve muita gente. A cultura é uma indústria que gera renda e prosperidade em uma cidade. O terceiro setor é muito rico, mas empreender no terceiro setor é difícil. Falta um gestor público que entenda que a cultura em uma cidade como Ouro Preto pode ser uma mola para levantá-la. Ouro Preto tem que buscar uma saída urgentemente. Temos uma cidade imponente, as pessoas consomem, então ela tem que se colocar para ser a grande cidade que é. E Ouro Preto não tem só Orquestra, temos outros grupos muito bons aqui. Movimentos de dança e teatros, sem falar nas bandas que são uma tradição na cidade. O Zé Pereira, que as pessoas não dão o devido valor. Uma cidade que tem oito galerias. Temos tudo aqui dentro, a solução está aí, o que falta são pessoas para organizar isso e fazer acontecer.

Ouro Preto comporta uma atividade orquestral e é uma pena a falta de apoio do poder público que acaba tirando a Orquestra da cidade. Muita gente pergunta porque não tocamos aqui e é porque não temos mais o apoio para tocar aqui. Temos esse apoio de várias empresas e de outras prefeituras para tocar fora e a vida continua, não podemos ficar parados. Mas ainda sonho com um dia em que alguém entenda que a Orquestra tinha que ter uma série fixa na cidade, para as pessoas virem para cá, assistir a Orquestra no teatro, passarem a noite em um hotel, e depois passear na cidade. A orquestra pode ser também não só o facilitador, mas também um motor para a economia de Ouro Preto. Temos o teatro mais antigo das américas e é decepcionante saber que não temos uma serie dentro desse teatro. Para ter uma ideia, já temos em 2018 quase 60 concertos agendados, vamos passar por tantos lugares, tocando para tanta gente, e ficamos tristes em ver que Ouro Preto fica para trás, por falta de consciência, por falta de visão.

Repórter: Patrícia Botaro

 

Notas do editor:

1 – Rufo Herrera: compositor, bandoneonista e educador musical argentino radicado no Brasil desde 1963.

2 – Ronaldo Toffolo (pai): músico, fez parte do grupo de instrumentistas Trilos e o Quarteto Ouro Preto, engenheiro metalúrgico, professor na Universidade Federal de Ouro Preto. Atualmente leciona no Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Ouro Preto.

3 – Alcan: empresa especializado em Chapas e Perfis de Alumínio, que esteve instalada em Ouro Preto até 2005, sendo sucedida pela Novelis.

4 – Belgo Mineira: companhia siderúrgica mineira que passou a se chamar Arcelor Brasil.