Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Rui Mourão e o Museu da Inconfidência

por Mauro Werkema


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Conhecido e respeitado por todo o setor cultural mineiro, o escritor Rui Mourão acaba de aposentar-se após dirigir, por 43 anos, o Museu da Inconfidência de Ouro Preto. Nesta entrevista, Rui fala de sua experiência e as dificuldades iniciais de sua gestão para recuperação e adequação do imponente prédio de Câmara e Cadeia de Ouro Preto e transformá-lo na importante instituição museológica que é nos nossos dias, recebendo público superior a 150 mil pessoas por ano.

Revela as iniciativas destinadas, ao longo do tempo, a dar ao Museu concepção e organização museográficas compatíveis com sua missão e importância, a aquisição e expansão de acervos, biblioteca e oficinas de restauro e o desenvolvimento de setores essenciais às iniciativas de promoção e difusão cultural e educacional, que considera inerentes à missão da instituição museológica, como também a pesquisa e a Comunicação.

Rui Mourão conviveu por todos estes anos com todos os dirigentes, técnicos, historiadores, arquitetos, pesquisadores do Ministério da Cultura e do IPHAN e acompanhou a vida ouro-pretana, as gestões municipais, as atividades culturais, como também as dificuldades de toda ordem, que observou e estudou, com a responsabilidade de gestor público, mas também como escritor e cronista. Nesta entrevista opina sobre Ouro Preto, sua preservação e seu futuro e diz que se dedicará à literatura, que considera sua verdadeira vocação.

Rui, quais os principais fatos, conquistas e evoluções da instituição sob a sua gestão:

Rui Mourão: O acontecimento maior, sem dúvida nenhuma, foi a última arrumação da exposição permanente, inaugurada em 2006. Foi uma transformação completa do Museu, uma nova filosofia. O museu tinha sido organizado da seguinte forma:  Getúlio Vargas mandou buscar do exterior, os restos mortais dos inconfidentes e inaugurou aquele panteão que lá está até hoje. Inaugurado o panteão, em 1942, ele mandou que o IPHAN organizasse o resto, que o completaria. Então o Museu viraria um grande panteão. Na verdade o destino do Museu foi esse, de ser um grande panteão da Inconfidência Mineira. Acontece que o IPHAN teve grande dificuldade inicial de arranjar acervo para montar o Museu. A Inconfidência foi muito reprimida, ninguém que tinha qualquer coisa da Inconfidência quis manter consigo. Passou  para frente. Desapareceu com o tempo. Então, não se conseguiu quase nada, o IPHAN reuniu alguma coisa.

O Getúlio Vargas mandou para cá duas peças fundamentais, que eram restos da forca de Tiradentes, do Rio de Janeiro,  e o 7º volume dos Autos da Devassa da Inconfidência,  onde está a sentença condenatória de Tiradentes. O IPHAN só pôde organizar uma sala, que chamava Sala das Relíquias da Inconfidência. O Museu ficou com o Panteão dos Inconfidentes  e essa sala. O resto do prédio, que é muito grande, com aqueles salões imensos de dois andares, eles preencheram organizando uma História de Minas Gerais, muito superficial e ligeira. Orlandino Seixas, que foi o segundo diretor, que escreveu sobre sobre o Museu, disse que a orientação foi a seguinte: organizou-se uma História de Minas Gerais, que foi o Estado que deu origem à Inconfidência.

Ora, a verdade não é essa porque a Inconfidência não foi consequência realmente de Minas Gerais, foi consequência de Ouro Preto. Naquela época não existia Minas Gerais, ela estava nascendo em torno de Ouro Preto e outras cidades mineradoras, como Mariana,  Diamantina, Sabará, Itaverava, São João Del Rei e Tiradentes. Ele nasceu em função das coisas que aconteciam em ouro Preto. Então nós tínhamos que mudar isso completamente. Não estudar o Museu em função de Minas Gerais, mas estudar o Museu em torno de Ouro Preto. Eu organizei a exposição dessa forma: embaixo, a evolução econômica, social e política de Ouro Preto. Começa com a sala das origens, vai passando para a sala da construção civil. Não havia nem uma sala da mineração. Então fiz até chegar até na época do Império, quando o país já estava independente e Ouro Preto já estava perfeitamente concluída. Embaixo, fiz a infraestrutura, Em cima eu fiz a superestrutura: desenvolvimento artístico e social da cidade, a influência da igreja na evolução de Ouro Preto. Tem três salas sobre a Inconfidência, sobre a religião, sala dos oratórios, sala do imobiliário e assim por diante. Foi essa a organização que nós fizemos.

Mas houve momentos interessantes, de muitas dificuldades. O Museu só existia naquele prédio principal. Ali estava essa exposição que foi organizada. E no anexo, que era a Casa dos Carcereiros, o primeiro contingente de construção tinha dois andares. Quando o IPHAN organizou o museu, ele destruiu o andar de cima  e ficou só um andar. Essa casa estava mais ou menos vazia, não havia nada nela. Eles construíram uma parede de mais ou menos  um metro de altura no centro, ela era ladrilhada, não tinha forro, entrava poeira e fuligem de trânsito pelo teto. Uma das paredes até minava uma água grossa porque ali foi cozinha da prisão de mulheres. Quando era cozinha, encostaram sacos de sal, a parede era contaminada por isso. Ali estava tudo que não ficava exposto no museu. Quando eu cheguei, o Museu da Inconfidência estava da seguinte forma: em cima, o andar tinha sido todo desmontado, as divisórias que havia apodreceram, sumiram, não tinha mais nada, o acervo não tinha onde ficar, deixaram tudo no chão, empoeirados, ninguém fazia limpeza. Aquele andar não existia. Existia o andar de baixo, que funcionava para uns sete guardas e a parte administrativa, que contava dois funcionários burocráticos. Não tinha mais nada. Os guardas vinham pela manhã para fazer a limpeza e depois vestiam o uniforme para atender os clientes que chegavam à tarde. Isso era o Museu. As peças que não estavam expostas, que deveriam estar em uma reserva técnica que não existia, estavam nessa casa do carcereiro, junto a essa parede minando a sal, entrando fuligem pelo telhado. As peças estavam completamente prejudicadas ali. Foi dessa maneira que encontrei o Museu. Aquela cortina do panteão, que representa a bandeira de Minas Gerais estava rasgada. Uma das estátuas do telhado estava arrebentada, com um braço quebrado. Então tudo isso teve que ser restaurado. O prédio é muito sólido, mas portas e janelas tinham problemas com ferragem, pinturas e fechavam com dificuldades.

O que nós fizemos: eu já estava trabalhando na Fundação de Arte de Ouro preto, como diretor executivo. Trouxe de lá uma restauradora,  Maria José Cunha, para começarmos a trabalhar e vermos o que iríamos fazer com o acervo e com o imóvel. Ela não tinha nem onde ficar. Numa daquelas janelas da frente, do segundo andar, tem uma varanda, colocamos uma mesa e ela começou a trabalhar ali, na sacada. Depois levei outra pessoa da FAOP, a Beth Salgado, que era uma educadora, que tinha dado curso de artes para a população, trabalhou nos primeiros festivais de inverno, para começar um setor educativo. Porque as pessoas de Ouro Preto, por exemplo, gostavam muito do museu, a instituição que recebia gente de fora, mas a população mesmo não ia lá. Elas já tinham conhecimento do que havia dentro e depois nunca mais iam. Tínhamos que relacionar essa população com o museu outra vez. Então estes cursos tiveram que ser montados, depois começamos um trabalho com a comunidade no setor de difusão cultural na sala de exposição temporária. Aos poucos foi se formando o corpo técnico. Não existia nenhum setor técnico dentro do museu. Aos poucos fomos construindo os anexos. Naquela casa do carcereiro, montei um auditório, fizemos um banheiro  e depois um do lado de fora. Fizemos também um vestíbulo na entrada. Construí outro lance, um L. Aquilo é tudo novo. Na frente as paredes são de pedra, no outro, de alvenaria. Fizemos ali a sala de exposição temporária e a reserva técnica. Finalmente, construí, mais recentemente, o outro anexo onde está a diretoria do museu, a difusão cultural, arquivos de peças museológicas e a assessoria de imprensa e o laboratório de restauração. Uma casa na Rua do Pilar, que estava sendo reformada pelo IPHAN há 20 anos, toda cercada por andaimes, o IPHAN com dificuldades financeiras, estava com a obra paralisada. Logo que eu entrei no Museu, foi criado o Grupo de Museus e Casas Históricas de Minas Gerais e  todos os museus federais de  Minas passaram a ser dependentes do Museu da Inconfidência. A Casa da Baronesa e a Casa do Pilar estiveram comigo e tratei imediatamente de fazer a continuidade da restauração, finalizar e abrir a Casa. Ficamos com três anexos, que é o que temos até hoje. Precisamos ampliar isso. A Casa do Pilar já está cheia. Lá funciona,  em cima, a parte administrativa, embaixo, o almoxarifado, o setor de pesquisa, a biblioteca e o arquivo histórico. A casa está superlotada. O setor do almoxarifado não pode ficar sem uma outra casa, está muito acumulado, está até difícil entrar na Casa porque estão ocupando toda entrada para fazer depósito. Precisa de outra unidade. Eu já quis comprar uma casa em frente, mas acabou não tendo recurso, mas precisa comprar. Lá poderia funcionar o almoxarifado e talvez os cursos. Essa construção toda foi necessária para abrigar o setor técnico que foi surgindo. Ele conseguiu se expandir quando eu fui coordenador do Programa Nacional de Museus. Lá eu pude arranjar mais recursos para o Museu e fazer mais contratações. Organizei o setor administrativo com mais pessoas e outros setores de pesquisa, restauração, difusão cultural, do acervo, de comunicação. O Museu ganhou outra estrutura, outra força, outra dimensão.

  1. E a função educacional e cultural do Museu?

O Museu criou serviços que acho interessante. O setor educativo, por exemplo. O setor educativo dos museus do Brasil, quase todos, eram e são até hoje ainda, apenas uma comunicação com a sociedade a respeito do acervo. Tudo aquilo que foi consequência do desenvolvimento da elite cultural e social brasileira, aquilo que foi sendo deixado como testemunha da revolução é que os museus recolheram, então era só uma informação sobre isso. No exterior também é assim: os grandes museus europeus comunicam sobre o acervo, dão informação sobre a significação e importância dos acervos que possuem. Nós começamos com uma experiência completamente diferente. Queria formar os  alunos dentro dos seus valores e dentro do ambiente que ele nasceu. Queríamos criar um ouro-pretano cônscio dos valores que Ouro Preto representa e que ele conhecesse todo o ambiente em que nasceu, com base nas concepções educacionais de Paulo Freire. A Beth Salgado entendeu isso muito bem e desenvolveu muito bem esse setor. O curso teve uma importância muito grande, formou muita gente. Uma formação que educa o aluno e ao mesmo tempo o professor. De acordo com a experiência é que ele vai vendo que o aluno aprendeu e  ele descobre na cidade, ele próprio cresce. Esse curso depois foi tendo consequências. Até a UFOP adotou. A Maria Zélia Damásio  Trindade, então diretora do Instituto de Artes e Cultura da UFOP,  escreveu um livro sobre isso e  começou a trabalhar no mesmo sentido na Universidade.  Em  todos os museus que ficaram sob a minha coordenação implantamos o  mesmo sistema de curso. Quando fui para o Programa encontrei uma grande educadora, a Estela Fonseca. Ela é doutora em linguística, título obtido  na Inglaterra. Ela foi uma das dirigentes do Mobral, tinha experiência em trabalhar com a comunidade. Então começamos a trabalhar com esse curso que implantei. Ela fez um livro expondo as intenções do curso e implantamos nacionalmente. Até hoje é usado, inclusive no IPHAN, que começou a dar curso daquela natureza.

Quando construímos os anexos  da Casa do Carcereiro e colocamos a Sala de Exposições Manoel da Costa Athayde, tratamos de fazer exposições de alto nível, não só de acervo museológico, mas sobre arte em geral. Porque em Ouro Preto esse ambiente era pobre. A cidade tinha exposições muito secundárias e inferiores, tradicionalistas e sem importância. Com a influência do Museu tudo foi tomando rumo e crescendo. Hoje há salas de exposições de  bom nível. Isso foi influência, sem dúvidas, do nosso trabalho nessa sala. Quando vi que estava desenvolvido, passamos a fazer mais exposições relacionadas com o acervo museológico, tentando, também, ver se  se modificava o ambiente da cidade. Foi uma experiência que me deu muita satisfação em realizar.

O acervo era classificado a mão na época do Orlandino Seitas. Desenvolvemos isso e criamos um sistema computacional.  Começamos a fazer rigorosamente o levantamento de tudo, as fichas técnicas completas, estudo da peça, origem, passado e evolução que ela teve, bibliografia, tudo dentro desse sistema. Hoje está tudo organizado, tem uma seção própria, de arquivo colonial.

  1. Como é a história de Curt Lange e as partituras musicais?

A música colonial do Brasil, segundo os estudiosos, não existia. Mário de Andrade foi um grande artista da música, produziu livro, deu curso sobre música, ele achava que não havia tido música no período colonial.  E que a música erudita tinha começado com padre José  Maurício no Século XIX. Antes disso não havia nada.  Curt Lange foi um alemão que veio para o Brasil por causa da Guerra. O pai dele foi um homem muito interessante. Um restaurador de prédios com influência internacional. Já tinha trabalhado em vários países. Conhecia muito, na época, a Argentina, que era o país mais importante na região. Ele entrou em contato com pessoas na Argentina para receber o Curt Lange, seu filho, que estava se formando. A Primeira Guerra Mundial tinha deixado o país comprometido e ele não queria que o filho continuasse lá. Mas ele não chegou pela Argentina. Ele veio e passou pelo Brasil, depois Uruguai, lá ele se encantou por uma determinada moça, dona Luísa, acabou se casando e ficando lá. No Uruguai, ele tratou de fundar um setor de música, de estudo da música, de todos os países latino-americanos e criou uma publicação importante, um livro em que ele publicava cada uma das unidades musicais do Hemisfério. Villa Lobos, vendo o trabalho, o convidou para vir ao Brasil para fazer um volume especial desse livro. Quando chegou aqui, Villa Lobos tinha ganho uma bolsa de estudo para ir para o exterior, Estados Unidos, e era a primeira viagem internacional que ele iria fazer. Ele falou para o Curt Lange: “Olha, você fica aqui me esperando. Nós vamos te sustentar por aqui até eu voltar”. Quando ele saiu,  Juscelino Kubitschek, que estava em Minas Gerais, convidou  Curt Lange para vir pra cá para ver um musical. Ele queria organizar um programa de rádio com músicas eruditas e ele veio. Ele era um grande estudioso, já conhecia bastante a História de Minas Gerais. Ele me disse o seguinte: “Quando cheguei aqui achei estranho que não havia nenhuma informação sobre música erudita  no Brasil. Ninguém achava que existia música erudita por aqui no período colonial. Tudo era muito informal, genérico. Eu fiquei preocupado com aquilo e achei que se houve uma evolução de todos os setores da cultura, por que não houve evolução musical? Não é possível. Deve ter havido”. Ele estava hospedado onde era o Grande Hotel em Belo Horizonte e, durante um jantar, chegou uma pessoa de Sabará com várias partituras musicais, querendo vender  e pediu  que ele examinasse. Disse para colocar em cima de uma mesa, que depois do jantar  olharia. Quando examinou aquele material, ele fez uma descoberta de uma música que é a Antífona de Nossa Senhora, principal descoberta que ele fez em toda pesquisa que realizou depois. Pelo nome, Emerico Lobo de Mesquita, como era um nome grande, ele achou que era de um nobre português, achou que era música portuguesa. Fazendo pesquisas sobre essa pessoa  acabou descobrindo que era   do Serro, um mulato, que toda vida viveu em Minas Gerais e que era mineiro. Ele disse que então existiu a música erudita mineira. E começou a fazer visitas pelas cidades históricas e foi descobrindo toda a música colonial e acrescentou à música brasileira um século de música clássica realizada no Brasil. O Curt Lange tentou deixar esse acervo no Brasil, procurou as autoridades, queria que elas comprassem o acervo que ele fez, para começar a estudar. Ele não conseguiu fazer isso. Então  levou para o exterior. Quando fez isso, todo mundo achou que ele tinha roubado coisas importantes do Brasil. Teve a maior dificuldade. Quando estávamos, eu e Murilo Rubião, na FAOP, eu  como diretor executivo e ele presidente, nós imaginamos que poderíamos trazer o Curt Lange para o Brasil para continuar as pesquisas. Oferecemos a ele a oportunidade de vir, ele encheu uma mala com as coisas mais importantes que ele tinha descoberto, tudo original, assinados, um baú enorme e trouxe. Ele achou que a Fundação e o Estado iriam comprar aquilo e fazer o que ele sempre quis. Chegando aqui não era nada disso. Então ele disse o seguinte “Tudo que há de importante eu acho que já pesquisei, no máximo temos aí repetições, cópias que estavam com bandas, não há conveniência de continuar essa pesquisa”. Acontece que nesse meio tempo, Andrade Murici era um dos autores sobre música no Brasil, mas que nada publicou sobre esse período, não descobriu coisa alguma, aquilo não existia para ele. A pesquisa do Curt Lange acabou com o livro dele, acabou com a pesquisa que ele tinha feito. Ele ficou furioso. Ficou inimigo do Curt Lange. Quando ele soube que ele viria ao Brasil, porque anunciamos isso na imprensa, o irmão do Andrade, General Murici, que era ligado ao movimento militar de 64, solidário a ele, procurou na grande imprensa uma pessoa do SNI (Serviço Nacional de Informações) e disse que Curt Lange não poderia vir ao Brasil e que, se pisasse aqui, seria preso. Ficamos na maior dificuldade, mas não falamos nada com ele. Eu já estava trabalhando na Imprensa Oficial e colaborando nos suplementos e o Murilo era editor. Fiz três números especiais sobre a pesquisa do Curt Lange levantando artigos de Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux e do próprio  Curt Lange, que  já tinha uma relação enorme de pessoas que  haviam escrito sobre ele. Mandei tudo para o Conselho Nacional de Cultura, que foi onde o André Murici fez a agitação contra o Curt Lange. Depois ninguém quis fazer mais nada, não houve mais ameaça. Acontece que naqueles dias as notícias  que circulavam contra ele repercutiram. A imprensa inteira brasileira veio a Ouro Preto. O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, jornais do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, rádios, emissoras de televisão, todos encostaram o Curt Lange na parede e falaram  desaforadamente com ele: “O senhor roubou coisas do Brasil, levou para o exterior”. O homem não tinha o que dizer. Ele teve um aneurisma cerebral. Tivemos que correr com ele e interná-lo. Teve que voltar ao Uruguai com o genro e a filha, que vieram de lá para ver como ele estava e leva-lo porque os médicos não quiseram fazer a operação nele. Porque já era idoso, importante, conhecido, do exterior, preferiam não fazer. Foi operar depois no Uruguai.

Curt Lange ficou muito meu amigo. Ele chegava aqui sempre num Mercedes que ele tinha. Vinha sempre dirigindo do Uruguai até aqui. Mas quando ele voltou, ele não pode ir de carro, teve que ir de avião. Depois o genro mandou buscar o carro dele que tinha ficado aqui. E ficou aqui o acervo que havia trazido, o baú, com o qual ele estava preocupado. Eu disse que mandaria para ele, entramos em contato no Uruguai com a Embaixada Brasileira, que  mandou um carro oficial para buscar o material para ele. Quando eu falei em comprar, ele disse que não venderia para ninguém. No início, Clóvis Salgado falou que compraria, o Curt Lange saiu do Uruguai, foi até o local para ver onde o acervo ficaria, qual o tratamento que ia ter. Ele ainda me falou o seguinte “Não era nada, me mostraram uma estante enorme e iam colocar tudo lá e ficaria perdido. Qual organização que iria  defender e preservar aquele material?  Nenhuma. Então eu não aceitei”. Mas como ele viu meu interesse e cuidado, imediatamente ele nos vendeu. Eu fui até lá com o maestro Edino Krieger, que chefiava o Departamento de Música do Ministério da Cultura, um compositor e pesquisador musical, compramos e trouxemos esse acervo. Um acervo importante que precisa ser convenientemente trabalhado.

  1. E a famosa Biblioteca do Tarquínio Barboza?

Outra compra importante que fizemos foi a biblioteca do Tarquínio José Barboza de Oliveira, que era um historiador importante, técnico de farmácia, assessor técnico de sete laboratórios de farmácias em São Paulo. Ele deixou esse trabalho, que era intenso, quando teve um problema cardíaco, se aposentou e veio para Minas Gerais, para se dedicar exclusivamente à profissão de historiador, que sempre foi a sua vocação e que teve que ser interrompida pela atividade de técnico de farmácia.  Ele formou uma biblioteca, que trouxe para Ouro Preto, com 13 mil volumes, sobre a História do Brasil, de Minas, de Ouro Preto, arte, artesanato, coisas muito boas. Adquirimos e anexei à biblioteca original que havia sido organizada por Rodrigo Melo Franco de  Andrade, com muito acerto. Ele pesquisou livros fundamentais sobre acervos museológicos, patrimoniais, sobre artesanato, história em geral, arte em geral. Era sempre frequentada por pesquisadores. Com essa aquisição nova, o acervo se desdobrou e  tem crescido porque sempre o abastecemos com novas aquisições. Tudo que anualmente vai aparecendo de importante nós comprarmos para essa biblioteca.

O setor de publicação também foi importante. Começamos com uma revista chamada “Oficina do Inconfidência”, destinada a publicar ensaios importantes sobre o Museu e sobre a área. É uma publicação média. Para um público maior  e para  difusão das coisas dos museus publicamos “Isto é Inconfidência”. São duas publicações que eu acho que tem que ser mantidas e desdobradas.

O problema mais sério no Museu foi,  no início, o fato de ser uma casa em decomposição, em falência absoluta. Um prédio arrasado, um acervo arrasado, tudo restrito, sem comunicação com a cidade. O prédio sempre foi muito importante em Ouro Preto, central, a maior construção dentro da cidade, todo mundo que chegava em Ouro Preto queria saber o que tinha lá dentro. Tinha um acervo, mas estava só parcialmente em exibição, as pessoas que faziam a limpeza – que eram os guardas- atuavam  tão mal que dava pra ver o caminho que as pessoas faziam lá dentro.

  1. O que ainda precisa ser feito?

O Museu tem que desenvolver o setor de pesquisa e publicações. Uma coisa dependendo da outra. Precisamos de mais pesquisadores, pesquisar sobre o acervo, História de Minas Gerais, sobre Ouro Preto, sobre o Museu e difundir através de publicações, cursos, seminários. O Museu precisa recuperar certos setores que ficaram deficientes, que tinham a maior importância dentro da instituição e que  estão hoje com dificuldades. Não temos, ultimamente, a possibilidade de contrato. Contratei muita gente, fiz uma equipe numerosa na época da Fundação Nacional Pró-Memória. O Aloísio Magalhães criou dentro do IPHAN a Fundação, uma empresa que funcionava como outra qualquer, que contratava pela CLT. Conseguimos contratar muita gente, que depois foi incorporada ao serviço público. Quando chegou o presidente Lula, ele achava que estávamos fazendo covardia com as  pessoas contratando por terceirização, que não oferecia segurança. Então passou todos para o serviço público. Eu mesmo nunca tinha sido funcionário público, fui professor da UNB e depois nos Estados Unidos. Fui contratado pela Fundação Pró-Memória e depois incorporado ao serviço público.

Fizemos um concurso pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), antes da presidente Dilma tomar posse. Quando ela entrou os concursados não tinham ainda sido nomeados. Iríamos receber 14 pessoas, só conseguimos contratar sete. Ela então paralisou e acabou extinguindo este concurso. Não fizeram concurso para restauradores. Como um museu vai ficar sem restaurador? Não tem jeito. Os que tínhamos  aposentaram ou foram embora. O último, trabalhava como DAS, não fez o concurso, mas ele queria naturalmente ser concursado, o que permitiria que ele se aposentasse. Então ele fez concurso na Universidade, que abriu  curso de musicologia, e a restauração ficou abandonada. Quando precisamos de restaurador, nós contratamos serviços. Isso é um absurdo.  Nós tínhamos montado o melhor laboratório de toda  área museológica brasileira. Muito bem organizado, com infraestrutura, equipamento e pessoal. Ele está completamente vazio. O setor da educação, o curso que criamos, ficou sem ninguém. Desse concurso, íamos contratar quatro educadores, mas nenhum foi contratado. O curso ficou paralisado durante certo tempo. Depois chegou uma pessoa do Rio que tinha feito concurso e sido nomeada assistente na Universidade do Rio de Janeiro. Combinei com ela de retomar o setor da educação. Ela começou a dar cursos de outra natureza, não era aquele curso que criamos. Fazia atividades culturais isoladas, convidava turmas de Ouro Preto e dava cursos de artes, histórias e continua até hoje fazendo isso.

No setor de música, tínhamos contratado gente por terceirização, mas nunca em número suficiente e depois ficamos sem ninguém, porque há uma proibição, não se pode contratar por terceirização nenhuma atividade-fim, só atividade-meio. Estávamos tentando resolver isso através de um convênio com a Universidade. Um rapaz que sempre colaborou conosco, inclusive na revista com artigos sobre música, foi contrato pela Universidade e está trabalhando lá desenvolvendo o setor musical. Não foi assinado ainda, está na Procuradoria Jurídica.

  1. E o público do Museu?

O Museu da Inconfidência é o segundo mais visitado do Brasil. O primeiro é o Museu Imperial, em Petrópolis. Não sei se o dado é real, aquele é um Museu inferior,  uma casa bem montada. Quem visita aquele espaço eles consideram como visitantes. Nós recebemos  de 150 a 200 mil por ano. Cerca de 12 a 15 mil por mês.  Em certos meses a visitação é mais intensa.

  1. Com sua vivência em Ouro Preto, o que pode dizer sobre a cidade, seus problemas, seu futuro?

O IPHAN tem se mostrado, ultimamente, um pouco condescendente com pessoas que constroem aqui. Acho que isso precisa ser revisto, precisamos de um maior rigor. Principalmente quando existem áreas em desenvolvimento, como a Bauxita, onde pode-se construir quem quiser, pode construir em Cachoeira do Campo, em Passagem. Não há necessidade de construir dentro da cidade. Quem quiser morar em Ouro Preto que construa nesses lugares. Mas tem ocorrido concessões. Há umas construções que não deviam estar. Inclusive uma casa de quatro andares, na chegada de Ouro Preto. Uma coisa absurda. Precisamos pintar as igrejas, os grandes monumentos precisam de melhor tratamento.  Procuramos manter o  Museu da Inconfidência  em ordem, pintado e bem recuperado. As Igrejas estão muito sujas. A de São Francisco está imunda, precisa de uma pintura.

Havia uma possibilidade de um novo acesso em Ouro Preto. Uma estrada que passaria por Nova Lima e chegaria em Itabirito, no governo Geisel. Já estava toda marcada, paralisaram por causa da crise do petróleo. Segundo os engenheiros, ia diminuir em meia hora a viagem de BH a Ouro Preto. Uma coisa fundamental e necessária. Talvez essa estrada devesse ser retomada. Deixaram porque precisava cortar muita montanha, era uma estrada cara, embora naquela época faziam obras caras, era o “milagre brasileiro”.

Turismo e Educação tem que desenvolver. E   fazer uma publicidade cada vez maior da cidade. Não só no Brasil, mas no exterior, uma campanha publicitária em torno de Ouro Preto. Na época no bicentenário americano, vieram aqui dois especialistas em artes. Queriam fazer uma grande exposição desse aniversário. Examinaram o acervo. Um deles me falou o seguinte: “Olha, Ouro Preto, não há nada igual na América.  Nem as ruínas do Peru podem ser comparadas”. Ele achava um fenômeno. Outra vez, um americano estava no antigo Hotel Pilão, me chamou, chegou na janela e falou: “Olha isso aí, você acha que existe? Isso é sonho”. Precisamos promover a cidade. Eu conheci nos Estados Unidos, na Califórnia,  uma região chamada Seventeen Miles Drive, dezessete milhas dirigíveis de litoral maravilhoso, não há praias, o terreno todo é escarpado, lá embaixo é que chega o mar, com toda violência, espancando as laterais e produzindo espumas. É um lugar maravilhoso, as pessoas visitam a região por causa disso. Existe uma cidade chamada Carmel, menor que Ouro Preto,  que  vive cheia de gente, de segunda a domingo, o ano inteiro ela é assim. Sempre pensei que esse vai ser o futuro de Ouro Preto, todos os dias do mês e do ano cheios de gente. Ouro Preto tem significação, tem importância. Não pode ser abandonada.

  1. O que planeja para o seu futuro?

Pela primeira vez terei a oportunidade de ficar exclusivamente por conta da literatura, de estudar e escrever. Eu fiz três livros sobre Ouro Preto, que estão sendo estudados no momento. Agora estou sendo descoberto  pela internet. Saíram, recentemente, quatro artigos sobre essa trilogia. Quero fazer um livro sobre o país, naquela linha do Boca de Chafariz.

O Museu deve se firmar cada vez mais, se tornar um órgão de repercussão internacional. Nós estabelecemos contato com o Paraguai, por causa de uma historiadora e restauradora que veio fazer estágio no Museu e depois acabou se ligando ao Museu e até  desenvolve trabalhos de interesse de restauração. Ela era muito preocupada com a impressão que a gente tinha sobre o Paraguai e ela me mostrou um lado diferente do país. Escrevi um artigo sobre isso e o pessoal de lá se sensibilizou e começamos a ter um intercâmbio através de  um grande organismo que existe lá de difusão cultural. Iríamos trabalhar daqui e eles de lá.  Fizemos uma exposição com peças vindas de lá e de outros museus brasileiros. Um dia chegou um paraguaio que estava em reunião no Museu e disse que o Museu da Inconfidência era muito comentado no Paraguai e foi imediatamente visitá-lo. Para você ver como conseguimos ter repercussão no Paraguai. O Museu tem que se vincular a outros países, expandir internacionalmente. É preciso fazer uma grande publicidade do Museu dentro do país e no exterior. E de Ouro Preto, quanto mais for difundido aqui e no exterior, mais o Museu terá facilidade de ter esses contatos.