Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

Um violeiro toca pra gente sonhar

Estórias de Vicente GomesVicente de Paula Gomes, 64 anos, é ouro-pretano e respira música desde cedo, já que toda sua família era do meio musical. Acompanhava as serestas que aconteciam na sua casa, em frente à igreja do Rosário, rodeado de instrumentos, como violão, cavaquinho e pandeiro. Da sua janela via os grupos de Congado e Folias de Reis que ali passavam. Assim, Vicente cresceu na música, e aprendeu a tocar cedo. Fez parte de três grandes grupos: Malungos, Turismo Samba Show e o saudoso Viola de Folia, que fazia homenagem às Folias de Reis e Congados. Formado em Artes Cênicas e Técnico em Iluminação e Sonorização Teatral, começou a trabalhar no Teatro Municipal de Ouro Preto, antiga Casa da Ópera, em 1975, onde aprendeu muito com grandes músicos que se apresentavam no local. Sempre ligado à música e não poderia ser diferente, conheceu sua esposa, Maria da Conceição, em um baile. Tem duas filhas. Hoje, aposentado, mas com toda sua experiência na música, Vicente continua se apresentando em Ouro Preto, tocando do rock ao samba, do jeito que ele gosta.

 

Vicente, desde cedo você respira música e, com isso, fundou três grandes conjuntos em Ouro Preto. Quais foram?
Em 1970, fundamos o grupo Malungos. O estilo era rock, onde tocávamos músicas de bandas, como Pink Floyd, Led Zepellin e Beatles. O grupo se apresentava em muitos bailes em Ouro Preto, em uma época que haviam, por exemplo, por volta de seis clubes na cidade. As opões eram muitas, diferente de hoje. Além disso, nós viajávamos muito. Fizemos show em Belo Horizonte, Rio Casca, Ponte Nova, Itabirito, entre outros. O Malungos durou dez anos.
Nos anos 80, fundei um grupo de samba de raiz chamado Turismo Samba Show. Como eu trabalhava na época para a Secretaria de Cultura, a associação de guias ia para congressos fora de Ouro Preto e eu também ia junto com eles. Dentro de uma Kombi, que era nosso veículo para essas viagens, fazíamos um batuque, um samba. A partir disso, resolvemos criar esse grupo, eram oito pessoas e os integrantes trabalhavam na Secretaria. Não imaginei que iria fazer tanto sucesso. Viajamos muito. Seu eu não me engano, foi o primeiro conjunto que gravou um DVD na Praça Tiradentes, ao vivo. Essa banda também durou 10 anos. Mas continuei tocando meu violão, não saía da música. Um dia, sentado no sofá da minha casa, recordei o que eu via na minha porta quando criança, as Folias de Reis e Congado em frente à igreja do Rosário. Pensei em resgatar o nosso folclore que estava apagado na época. Comprei uma viola, aprendi a tocar e gostei. E passou na minha cabeça formar um grupo de violas. Lembrando das violas de Queluz de Minas, hoje Conselheiro Lafaiete, tive a ideia de homenageá-las e homenagear, também, as folias de Reis. Uni os dois e levei para os palcos, em 1998, o Viola de Folia.

Foto Vicente Gomes

O Viola de Folia ficou marcado na memória dos ouro-pretanos e deixou muita saudade. Como foi o início do grupo?
No início, muita gente não entendeu porque o folclore em Ouro Preto estava muito apagado na época, e nós cantávamos usando  chapéus, fitas, quepes de espelhos, roupas brancas. Chamei alguns amigos que já tocavam comigo. Todos eles já haviam tocado comigo antes. Nossa formação: eu tocava viola; na sanfona primeiro foi o Fred, depois o Hélio e por fim, o Edvaldo; o Raimundo na rabeca; Heli Bretas no baixo acústico; Marcelo Magrão na percussão; Diego Fernandes que tocava flauta transversal e que também fazia percussão; antes dele, quem tocava era o seu pai, o Itatiaia. Assim, decidimos fazer nosso primeiro show no Teatro- a Casa da Ópera. Decoramos tudo como se fosse uma apresentação de Folia de Reis. Mas fomos para o camarim e ainda não havia ninguém na plateia. Na hora do show, quando fomos para o palco, olhava para um lado e para o outro, estava tão cheio que ficou gente do lado de fora. Foi lotação máxima. Emocionante. Arrepiamos na hora. Ao final da apresentação, haviam pessoas chorando, crianças vieram abraçar a gente. Foi fantástico. Após essa apresentação, todo mundo queria saber onde iríamos tocar. Nossos ensaios aconteciam duas vezes por semana na minha casa. Em Ouro Preto nos apresentávamos na praça, nas festas tradicionais da cidade, além do Festival de Inverno. E começamos a nos apresentar fora também. Nessas apresentações, dava para sentir como é a cultura em cada local. Quando o show acabava, as pessoas queriam nos receber em casa e faziam isso de braços abertos. Foram muitas pessoas que disseram para gente que voltaram à infância vendo nosso show. Senhoras que foram criadas na roça, nas folias, e já estavam há muito tempo sem assistir esse tipo de apresentação, gostavam muito. Não imaginávamos que as pessoas nos receberiam tão bem. Entramos no passado delas sem saber.
Vocês tinham algum tipo de patrocínio?
Foto Vicente GomesTivemos um apoio enorme da Alcan na época, que nos patrocinava mensalmente. Mas com a mudança da diretoria, não renovaram essa ajuda. Conseguimos entrar na Lei de Incentivo Estadual por duas vezes. E isso é muito difícil. Com isso, fomos tocar até no Jequitinhonha em 2005 e 2006. Fizemos muito shows que deixaram saudade na gente. Mas infelizmente, em 2010, por falta de apoio cultural e a situação em que chegou o país, o grupo teve que acabar. Quem é musico sabe: as pessoas acham que o músico vai chegar no local, se assentar, tocar e fim. Mas não é assim. Há ensaios, estudo, instrumentos caros. Agora, imagina um grupo com seis integrantes? Um acordeom que custa 8 mil, uma viola de 3 mil, por exemplo. As pessoas não pensam nisso. Até temos planejamento para voltar a tocar, mas os gastos são grandes. Ainda recebo telefonemas, convites para apresentação. Mas por enquanto, fica somente a saudade.
Além da carreira musical, você também trabalhou no Teatro Municipal. Como era trabalhar na 1ª Casa de Ópera das Américas?
Me aposentei no Teatro Municipal de Ouro Preto em 2015, mas trabalhei lá por 38 anos. Comecei em 1975 e aprendi muito com grandes músicos que faziam shows ali. Ângelo Oswaldo, prefeito na época, conhecia meu trabalho e me chamou para trabalhar. Lá não havia ninguém que mexia com iluminação, e eu também não sabia nada. Mas fui me virando, trabalhei por muito tempo sozinho. Mas fiz dois cursos de iluminação e fui aprendendo cada vez mais. Dizia que o teatro era minha segunda casa. Dormi muitas noites lá. Tive a oportunidade de montar grandes espetáculos para artistas, como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Adélia Prado, João Bosco, Tom Zé. Fiz amizades com vários deles, de até me passarem o contato. Foi um grande aprendizado, montei milhares de espetáculos, entre grupos amadores e profissionais.

Foto Vicente Gomes

Quais são suas atividades atualmente?
Continuo na música. Ainda me apresento em Ouro Preto. Recentemente, por exemplo, toquei bolero em um almoço do grupo Renascer. Mas faço de tudo, rock, samba, música regional. Além disso, muita gente vem conversar aqui na minha casa, batemos um papo, tocamos um violão. Gosto muito disso. Gosto também de fotografar, isso desde pequeno. Tinha uma máquina Kodak, daquelas bem antigas. Não sou um fotografo profissional, mas estou sempre pesquisando. Nunca pensei em fazer uma exposição com essas fotos, mas pretendo comprar uma câmera melhor. Converso muito com amigos meus que também são fotógrafos amadores, e sempre falo que cada tem uma visão para fotografia. Vejo uma coisa diferente e acho que dá uma foto boa. Mas como disse sou amador. É um hobby mesmo, que eu adoro.
Repórter: Patrícia Botaro
Nota do editor:
– O grupo Viola de Folia gravou seu primeiro CD em janeiro de 2012, e leva o mesmo nome do grupo. Já o segundo, “Cheiro da Terra”, foi lançado em novembro de 2003.
– Veja as fotos autorais de Vicente Gomes e as fotos do Viola de Folia na nossa galeria.