Entrevista Ouro Preto, revista ouropretocultural

ROC Entrevista Quelé

quele_ouro_pretoOsmar Alves de Oliveira Júnior, o Quelé, 77 anos, nasceu do interior de São Paulo, na divisa com Mato Grosso do Sul, numa cidadezinha chamada Guaraçaí. Quando tinha pouco mais de 1 ano, seu pai, que era de Minas Gerais, resolveu voltar para o seu estado, já que só estava em Guaraçaí para trabalhar na construção da estrada de ferro Brasil x Bolívia. Foi embora com a esposa morar em Raposos (MG). Próximo dali, moravam seus avós, em Matosinhos. Quelé gostava também de passar algum tempo com eles. Lá ele fez o primário. O ginásio, cursou em Nova Lima. Até ali, sua vida resumia apenas em jogar futebol, só queria saber disso. Até que seus pais resolveram que ele teria que mudar de ambiente e o mandaram para estudar e se aventurar em Ouro Preto em 1956. Aqui ele se tornou engenheiro pela Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto, ator, marido, pai, avô, pintor e canteiro. Quelé é tudo isso: um homem de Exatas, apaixonado pela Ciências Humanas.

Como foi sua chegada em Ouro Preto?

Vim para Ouro Preto chateado. Minha meta quando adolescente era ser jogador de futebol. E olha que era uma época em que jogador de futebol não ganhava dinheiro e era mal visto. Mas meus pais queriam que eu saísse dessa vida de só querer bater bola. Como na época os internatos mais falados eram o Caraça, em Santa Bárbara e o Arquidiocesano, em Ouro Preto, acabaram optando por Ouro Preto. Vim para cá com 16 anos. Cheguei em Ouro Preto e era tudo diferente do ambiente em que vivia. Foi um impacto. Nos primeiros dias do colégio estranhei. Para ter uma ideia, quando cheguei aqui o trator ainda estava abrindo o acesso de chegada em Ouro Preto pela antiga Santa Casa. A gente não tinha facilidade para ir a Belo Horizonte.

Pessoas que vinham para estudar no superior e que moravam longe, ficavam as vezes o ano todo na cidade e só iam no fim do ano para casa. A adaptação não foi fácil, fui para casa no final do primeiro ano do internato decidido a não voltar para Ouro Preto. Acontece que, quando estava em casa com meus amigos, aqueles encontros, muito tempo sem nos ver, senti algo diferente. Notei que estava pensando diferente deles. Não que me sentisse elitista. Então, pensei: se tivesse que voltar, ainda não era o momento. Voltei para Ouro Preto e aqui estou até hoje. E foi ali, enquanto ainda estava no internato, que conheci a Vera, minha esposa. Ela morava logo ao lado do Arquidiocesano. Depois do internato, fiz o científico e logo entrei na Escola de Minas.

Como foi esse processo para ingressar na Escola de Minas?

Estudei durante as férias todas, 17 horas por dia, só parava para dormir e comer. Hoje vejo um excesso de preocupação e de drama quando o jovem vai prestar vestibular. Parece que é o fim do mundo. Na minha época tinha que estudar e ponto. Sem reclamação. E olha que não existia tanto recurso como hoje e também não tinha tantas formas de dispersar. Depois que saí do internato, morei em algumas pensões, até chegar na república Baviera. Nessa época já estava na Escola de Minas. Fui da penúltima turma do chamado “Curso geral”, onde formava-se em três engenharias: Minas Metalurgia e Civil. E ainda tinha atribuição de geólogo. No quinto ano de curso, já se podia formar em Minas e Metalurgia, com atribuição de geólogo. Foi o que eu fiz.

E o apelido Quelé, onde surgiu?

Foi lá na república Baviera que ganhei o apelido de Quelé. Logo no primeiro ano do curso, num sábado à tarde, fui para uma aula de cálculo. Imagina, sábado, aquele solzinho, e uma aula de cálculo. Quando cheguei no pátio da escola, havia um movimento, eram os veteranos. Nessa época ainda era “bixo”, apelido dado a quem tinha entrado recentemente no curso. Perguntei o que estava acontecendo e eles falaram que estavam preparando para o teatro do Doze¹. Todo ano no Doze havia a apresentação do teatro dos estudantes da Escola de Minas. Era um evento que fazia parte das comemorações. Os alunos  que escreviam a peça. Fiquei observando o movimento e acabei nem indo para aula, queria ver como era. A peça era em três atos e chamava “O Lampião, o terror do cangaço”. Nela havia o bando de Lampião, a gloriosa Força Pública da Bahia, nela estava o Cabo Quelé. Os veteranos estavam selecionando alunos para participar da peça. Fiquei observando, vendo a seleção, as cenas. Até que perguntaram se mais alguém gostaria de participar da seleção para o cabo Quelé. Quando eu disse que queria, o pessoal tirou o maior sarro. Mas enquanto via a seleção, acabei decorando as falas, enquanto os outros só liam. Isso ajudou muito. Me deram a folha com as falas e eu disse que não precisava. E tiraram sarro de mim mais ainda: “um bixo que não é burro”, diziam. Dei tudo de mim naquela seleção e, quando acabei o teste, disseram que eles já tinham o primeiro papel escolhido: o Cabo Quelé. Ganhei o papel. Ganhei também um apelido. A partir daquele dia, todo mundo me chamava de Cabo Quelé. Com o tempo, cassaram minha patente, e ficou só Quelé mesmo. Até hoje estranho quando alguém me chama de Osmar.

E a vida pós Escola de Minas?

Terminei a Escola de Minas e fui trabalhar na Votorantim, na Companhia Brasileira de Alumínio, em São Paulo. Uma das concorrentes do grupo Alcan. Mas não sabia se queria ficar lá. Acabei tirando um mês de licença para poder decidir o que fazer. Pesquisei algumas empresas e acabei indo conversar com o Dr. Machado, presidente da Alcan em Ouro Preto na época. Antigamente tinha uma brincadeira entre os estudantes que era: estudante em Ouro Preto? A sina é não sair mais daqui: vai tomar café no Crispim (lanchonete que havia no Centro), vai trabalhar em Saramenha (na Alcan), vai dar aula na Escola de Minas, vai comprar um Volkwagem (carro) e vai casar com nativa (pessoa natural de Ouro Preto). No fim das contas, eu só não comprei Volkswagen. Entrei na Alcan em 1966. Fiquei em uma vaga na Mecânica por dois anos. Depois, fui para área da Mineração. Cuidava das jazidas de bauxitas da região, o minério que fornece o alumínio. Era basicamente saber a quantidade de minério que viria para Alcan para atender as necessidades da fábrica. Depois que saí dessa área, fiquei no escritório. O ambiente de trabalho era muito bom, mas não estava satisfeito. Em 1971, o professor da Escola de Minas, Joaquim Maia, me procurou e disse que estava precisando de um professor assistente para ficar em tempo parcial. Aceitei o convite. No início, ficava uma parte do dia na Alcan e outra na Escola de Minas. Até que, no ano seguinte, recebi a proposta de ficar em tempo integral como professor e fui para lá de vez, com dedicação exclusiva a Universidade.

Quelé, você era formado na área de Exatas, mas sempre gostou da Ciências Humanas?

Sim. Devo esse amor pela arte à minha mãe. Ela sempre me incentivava. Lembro do primeiro livro que ela me deu: Reinações de Narizinho. A gente conversava muito, tudo que ouvia na rádio, o veículo de comunicação da época, a gente conversava. Inclusive sobre teatro. Isso me influenciou. Desde que participei daquela peça de teatro no meu primeiro ano da Escola de Minas, sempre estive envolvido com teatro. Participei das apresentações do Doze nos anos seguintes. E mesmo depois de formado.

Com o surgimento do Festival de Inverno da UFMG em Ouro Preto, tive ainda mais contato com o meio cultural. Foi um período de efervescência cultural muito forte na cidade. Com isso, em 1968, retornamos com o teatro da Escola de Minas, que estava parado, agora não só com estudante da Escola de Minas, e mais quem quisesse participar, como gente da cidade, por exemplo. A partir daí, criamos o Getop: Grupo Experimental de Teatro de Ouro Preto. A gente fazia tudo intuitivamente. Fazia parte do Grupo muita gente boa, como a Mônica Versiane, Víctor Godoy, José César Caiafa. Todo mundo fazia um pouco de tudo. Inicialmente, a gente fazia somente as peças no Doze de Outubro porque havia um recurso para comprar os materiais que fossem necessários, desde que não fossem muito caros. Em 1970, quando ainda estava na Alcan, tirei férias  para participar do festival e fiz um curso de teatro.

Em 1971, o Living Theatre, companhia de teatro Off Broadway norte-americana fundada em 1947 em Nova York, um dos mais antigos grupos de teatro experimental, chegou em Ouro Preto. No mesmo ano, decidi reescrever uma peça que havia feito em 1968, O Ômega, baseada no livro O Alquimista. A peça abriria o Festival de Inverno. Semanalmente a gente tinha reunião com o pessoal do Living que nos ensinou várias técnicas de preparação. No dia da nossa apresentação os atores do Living, Julien Beck e sua esposa Judith Malina foram presos por causa da censura. Essa foi a última vez que escrevi uma peça. Ficou um ambiente pesado por causa do trabalho, família. Não podia correr o risco de perder o emprego. Mas sempre acompanhava o movimento.

Além de tudo isso, você ainda fazia o tingimento das serragens para Semana Santa. Como era esse processo?

Em 1982, quando a Procissão da Ressurreição, que faz parte das solenidades da Semana Santa, começou a passar pela Igreja de Bom Jesus do Matozinhos, o pessoal da nossa rua se reuniu para poder enfeitar o local. A partir daí, nos anos seguintes, comecei a pesquisar sobre tingimento de serragem usando pó xadrez, que é muito difícil, já que obtém umas cores e outras não. Nessa pesquisa, descobri uma anilina industrial, feita em Belo Horizonte. Comecei a comprar dessa anilina e fui desenvolvendo um processo. Inicialmente jogava anilina na água, para depois jogar a serragem e não dava certo. Jogava a anilina e água em cima, e também não dava certo. Até que consegui acertar. O processo era: medir uma quantidade de serragem, que vinha das carpintarias da cidade, uma quantidade da anilina e misturar a seco. Distribuindo homogeneamente por toda a serragem e só depois jogava a água. E aí sim a cor aparecia.

Começava a fazer isso dois meses antes da Semana Santa. Tudo era preparado em uma área dentro do Colégio Arquidiocesano. Fiquei muito triste quando mudaram o percurso da procissão e ela não veio mais para o lado do Bom Jesus. Mas passei esse processo para a Prefeitura e hoje, mesmo usando a betoneira, o princípio é o mesmo do que eu fazia.

Hoje você está aposentado. O que faz no tempo livre?

quele_ouro_pretoAposentei em 1994. Mas queria abrir um leque de opções. Depois de aposentado, fiz alguns cursos na Faop. Como o de pintura, marcenaria, cantaria. Fiz alguns quadros. Mas só para mim mesmo, não vendi nenhum. Fui da primeira turma de Cantaria, que era ministrada pelo mestre canteiro José Raimundo Pereira, o sr. Juca, em 1997. No dicionário diz que a Cantaria² é uma pedra de canto, de terminações. Mas a partir do momento que comecei a me envolver, vi que o sentido dela é muito mais amplo. É um viés da escultura em pedra. Gostei muito do curso e comecei a estudar e pesquisar. Depois ainda trabalhei com sr. Juca até o curso ir para a Ufop. Fizemos vários trabalhos, como restauração de chafarizes, esfera para a Igreja de Santa Efigênia. O último trabalho que fiz com ele foi a restauração do cruzeiro da Barra, em 2000. Em 2006, cheguei a fazer uma boneca³ de um livro sobre Cantaria e apresentei a uma editora de Belo Horizonte. Eles gostaram, queriam publicar. Mas eu não tinha patrocínio. Então a editora conseguiu pela Lei Rouanet, a Lei de Incentivo à Cultura. Por meio dela, conseguimos mais de R$160 mil reais. Partir para procurar apoio das empresas, mas não deu certo. Acabei deixando isso de lado. Hoje em dia fico estudando, pesquisando. Comecei a refazer o livro e buscando suporte para ver como escreve-lo. Mas sinceramente, não sei se vou fechar isso. Mas tenho um material fotográfico bastante didático, como por exemplo, um passo a passo do que foi a restauração do museu do oratório, do chafariz do Deguste, e assim outros trabalhos. Ainda não sei se toco para frente ou não. Por enquanto está indefinido. Mas, paralelo a isso, o que toma conta dos meus dias hoje é a família. Eu e a Vera temos hoje 51 anos de casados. Tivemos dois filhos: um juiz e o outro consultor na área de engenharia elétrica. Eles nos deram netos lindos e nada compara a alegria de vê-los aqui em casa.

Repórter: Patrícia Botaro

 

Notas do editor:

1 – A tradicional Festa do Doze começou como uma festa para o aniversário da Universidade Federal de Ouro Preto. Esta escola foi inaugurada em 1876 por Dom Pedro II, o ex-imperador do Brasil, e é onde muitos famosos engenheiros brasileiros se formaram. O festival foi inicialmente organizado pela renomada Escola de Minas, mas, atualmente é feito pelas repúblicas universitárias. Todos os anos muitos ex-alunos com suas famílias e turistas vêm a Ouro Preto para a festa.

2 – A técnica de cantaria consiste em lavrar a rocha em formas geométricas ou figurativas para aplicação em construções, com finalidade ornamental e/ou estrutural.

3 – O boneco é uma prova impressa do arquivo, simulando, de forma aproximada, como ele deve ficar em seu formato final (ou seja, impresso).