Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Aluisio Drumond, Fundação SorriaDR. ALUÍSIO DRUMMOND é dentista formado pela PUC Minas em Belo Horizonte, lugar onde também deu aulas. Na mesma época em que lecionava (1978), foi que surgiu a ideia de fazer um projeto que devolvesse à criança de Ouro Preto, um sorriso compatível com a dignidade dela: Assim, nasceu  a Fundação Sorria. Em 2015, lançou o livro Fundação Sorria 25 anos, que conta a trajetória do projeto. Atualmente, faz pós-graduação em Odontopediatria na PUC. Dr. Aluísio Drummond é sempre foi um profissional de destaque e muito requisitado na sua área.

Dom Luciano Mendes de Almeida e sua Guardiã

Como grande parte dos ouro-pretanos sabem, Dom Luciano foi um grande embaixador da Fundação Sorria. Um homem que abriu portas e foi um elo de ligação da Fundação com instituições físicas e privadas. Nos deu muito encorajamento para que a gente pudesse dar sequência ao nosso trabalho. Ele sempre estava ocupado, tinha uma agenda muito preenchida com suas obrigações religiosas. Era extremamente integrado no convívio social, nas comunidades de Mariana, Ouro Preto e em todos os lugares onde a Arquidiocese de Mariana atuava.
Ele tinha uma assessora que chamava Irmã Carmem. Uma freira que fazia a toda agenda dele e vigiava seus passos o tempo todo, principalmente depois do terrível acidente de carro que ele sofreu. Ela ficava o tempo todo tentando restringir as atividades dele, mas eu tinha necessidade de procura-lo porque ele era um homem que abria qualquer porta no meio empresarial para que pudesse fazer os meus pedidos.
Estava mesmo muito difícil falar com ele. Não que ele dificultasse, Dom Luciano sempre me tratava muito bem e facilitava o encontro dele comigo. Mas a irmã Carmem estava cerceando mesmo a liberdade dele em relação a esses encontros, que não eram assim, segundo o que ela pensava, tão importantes na vida religiosa dele.
Um dia, entre 2005 e 2006, eu muito ansioso para resolver a situação, fui procura-lo já que precisava de uma carta de apresentação para um grande empresário. Mas irmã Carmem disse que era impossível conversar com Dom Luciano naqueles dias porque ele estava com muitas atividades, e ainda escrevendo a coluna da Folha de São Paulo. Ela colocou mil empecilhos e eu percebi que não ia conseguir mesmo. Falei ainda que era coisa rápida e ela disse que ele precisava descansar, que estava doente. Perguntei se no outro dia daria, mas me informou que ele iria viajar. Sairia às 4 da manhã para o aeroporto de Confins, já que tinha um compromisso em São Paulo. Então disse a ela que voltaria na próxima semana.
Mas o que eu fiz: sabendo que ele ia sair ás 4 da manhã, levantei às 3h e fui até Mariana na garagem onde ele saía com o carro no Palácio do Bispo. Exatamente às 4h, quando ele estava saindo, me viu e levou um susto e perguntou o que estava fazendo lá àquela hora. A irmã Carmem estava ao lado dele e parecia que ele havia acabado de sair do banho porque o cabelo estava penteadinho, todo preparado para viajar.
Contei a ele: “Vim encontrá-lo porque a irmã Carmem não quis de jeito nenhum que eu conversasse com o senhor.  E ele: “Mas irmã, não faça isso com o Dr Aluísio”. Quando ele vier me procurar, eu sei que é coisa que ele precisa. Deixe-o vir conversar comigo”.
A irmã foi ao rubro. Ele perguntou o que queria e expliquei a ele sobre a carta de apresentação para conseguir ajuda com a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) para a Fundação. Dom Luciano disse que faria sim e durante a viagem ainda, dentro do avião. Quando ele entrou dentro do carro e saiu com o chofer, irmã Carmem falou para mim: “Dr Aluísio, o senhor é impossível”. Respondi a ela: “Irmã, a causa é muito nobre, a Sra. não pode fazer isso comigo”. Ela rebateu: “ Pode deixar, agora eu sei que com o senhor ninguém pode”. E entrou sem dar muito papo. E realmente Dom Luciano cumpriu o combinado: escreveu a carta durante sua viagem para São Paulo para nos ajudar na busca de recursos para a Fundação Sorria.

Repórter: Patrícia Botaro