Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto
Carlota, Ouro Preto

CARLOS EDUARDO LISBOA, O CARLOTA, nasceu em Ouro Preto em 1945, é casado e tem 4 filhos. Formou-se na Escola de Farmácia, na UFOP, na década de 70. Depois de formado, passou 4 meses trabalhando em Conselheiro Pena, mas voltou para Ouro Preto, para especializar na área de botânica. Em 1982 se tornou professor de  Botânica aplicada por 36 anos. Em 2015 recebeu a Medalha Escola de Farmácia, em comemoração ao 176º Aniversário da Escola de Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto. Hoje, já aposentado, gosta de escrever discursos, textos sobre pessoas e belas estórias.

O Brasil é agro, Ouro Preto já era.

Uma fotografia antiga, do Fontana mostra uma construção neo-clássica, possivelmente do principio do século XX onde funcionava o Mercado Municipal de nossa cidade, atualmente demolida, no Largo de Coimbra onde está a feira de Pedra Sabão. Esse estabelecimento do Mercado Municipal funcionou ainda até os anos sessenta na Rua Xavier da Veiga, onde hoje é a nossa Biblioteca Municipal. O mundo mudou, o abastecimento das cidades estão nos Supermercados , de preferência em nossa cidade, na nossa Cooperouro.

Antigamente alguns produtos de subsistência eram encontrados somente nos Mercados, os frangos, leitões lá eram vendidos assim como queijo, frutas e verduras.

Foi-se o tempo dos tropeiros que vinham do Chapéu de Sol, Amarantina, São Bartolomeu, Santa Rita , Do Manja e até de outras cidades como Piranga; eles chegavam lá pelas bandas das Cabeças, Rua Nova e pela Barra, traziam lenhas, carvão, encomendas ou vendiam suas mercadorias apregoadas ou mostradas através de um simples ramo de jabuticabeira enfiado nos balaios ou mesmo outras mercadorias, amarradas nas cangalhas, que podiam ser sacos de batatas, mandiocas , abóboras ou mesmo bandas de porco , cujo toucinho era vendido nas vendas ou as linguiças maravilhosas.

Um dos últimos comerciantes que mantiveram um mercadinho, onde se encontrava quase de tudo, foi o Crispim das Cabeças. Lá se podia encomendar para o doce a Cidra, a Gila ou alguns frutos atualmente desaparecido como o Bacupari ou o Jequiri.

Lá não tinha telefone, era preciso você sempre voltar para procurar a encomenda, às vezes , ocorria a mesma resposta muito educada do Crispim:

_ Carlos , você não vai acreditar mas, tive que passar sua encomenda para
fulano, me distrai, não guardei e não é que fulano viu sua encomenda, o que é
visto é desejado, você vai me perdoar, quem sabe você volta lá pelo meio da
semana e assim posso mandar o recado para fulano trazer. Oh sô. Espera aí,
Tem boi na linha. Vou buscar aquela branquinha especial para você provar.

O Brasil é agro, Ouro Preto mais novo que o Brasil já foi, é a cidade do já teve, mais ou menos igual ao comercio do Crispim. Ouro Preto teve uma grande produção do Chá da Índia, com famosas marcas com o Chá EdelWeiss e o Chá do Thesoureiro e outras marcas, foi o maior produtor de alho do Estado de Minas Gerais, foi uma agricultura orgânica familiar que existiu até a proliferação da “podridão branca”. O secretário de agricultura, o vereador Bruno Bastos, no fim da década de setenta, tentou erradicar essa doença mas, e nesse mesmo período com a importação do alho da Argentina e da China que chegou com um preço mais barato, desestimulou e matou o nosso plantio do alho, o citado secretário ainda tentou substituir o alho pelo morango mas , é outra história complexa e com muitos outros problemas gerados pelo paternalismo, de nossa formação e principalmente da falta de conhecimentos da agricultura e amor a terra.

Meu pai tinha um primo chamado Antônio Vargas, era caminhoneiro, vinha de Leopoldina via Juiz de Fora com o seu Ford F600 carregado de arroz para a recém criada Ceasa de Belo Horizonte e de lá retornava passando por Amarantina carregado com alho, nesse trajeto passava por aqui e nos trazia muitos presentes como a famosa fruta pão e as deliciosas mangas.

O Brasil é agro, a televisão insiste nessa propaganda que pode nos decepcionar, se a agricultura não for bem cuidada, esse trabalho milenar de sobrevivência do ser humano.

Na bíblia tem uma história das vacas gordas, naquele tempo já havia previsão das vacas magras, a ciência agrícola requer planejamento, inteligência e principalmente um diversificado de conhecimento, principalmente para o significado de agro tóxicos , pesticidas e xenobioticos, o Farmacêutico estuda na farmacologia uma disciplina denominada Toxicologia: ” Todo medicamento é veneno dependendo da dose”

A terra , o ar e as águas são sistemas que devem ser protegidos não através de criação de leis mas , através de urna consciência de conhecimentos científicos e respeitados por todos os homens.

“Cachorro corre atrás do gato mas, não sobe em telhados”

Crapaud

É uma palavra francesa, que traduzida para o português significa sapo, é um antigo jogo que eu gostava de jogar com o meu amigo Heraldo.
Por que essa palavra me veio á memória?
Ontem faleceu e só hoje fiquei sabendo desse meu amigo que para minha avaliação foi um dos maiores professores que conheci.

Tive essa felicidade, convivi como ele como aluno e como amigo e assim posso dedicar minha admiração por essa personalidade impar e insubstituível. Conhecia e falava o Francês, Inglês com perfeição , como professor de Português conhecia o Latim e o Grego na acepção do significado da palavra , eu considero ele como um professor perfeito, uma singular referencia, que vai preencher para sempre o que se pode dizer, para mim, o que é dedicação e aprimoramento na arte do magistério.

De estatura baixa, trazendo na pele a herança afro-brasileira, ele era dotado de uma inteligência especial bastante diversificada, foi meu professor de química, e bioquímica porem, conhecia Anatomia e Física cadeiras essas que também lecionou.

Como farmacêutico não seguiu a profissão mas, foi o mestre que ensinou e desenvolveu sensibilidades e bases para a nossa formação na arte de fazer o medicamento.

Com sua voz de barítono, falava com pronuncia perfeita e discreta, cantava, com voz afinada e modulação intensa canções francesas, apreciei, acho eu, que no fundo ele bem poderia ser um cantor de óperas

Era um professor muito sério, suas aulas tinham uma certa cerimônia, caprichosamente preparadas, nesse momento se impregnava, era o professor, que gostava de um tratamento respeitoso , que os alunos se postavam submissos a sua cultura , de uma amplitude de seu conhecimento .

Um dia surgiu uma vaga para a cadeira de Física ,na Universidade Federal de Ouro Preto , alguém o advertiu:

Vocêr sabe que a prova do concurso vai cair muita Matemática como Cálculo e Geometria Analítica.

Responde ele :

Eu sei, vou estudar , rever essas matérias e estudar o que não sei.

Ele passou , se aposentou como professor de Física dessa Universidade, encontrava com ele , as vezes, e prometia visitá-lo.

Essa é uma pálida descrição do tipo desse amigo que ontem partiu e deixou saudades e tristezas em meu coração.
Professor Heraldo Hugo de Morais foi um grande exemplar entre os mestres dos mestres da Escola de Farmácia.

Nota da ROC:. O professor Heraldo Hugo de Morais faleceu em 13 de setembro de 2018.

Os belos automóveis antigos que circulavam pelas ruas Ouro Preto

O cenário é lembrado: remonta aos anos sessenta, quando os motoristas de táxis de Ouro Preto punham à prova, a sua perícia como perfeitos chouffeures nas ladeiras da antiga capital de Minas Gerais. A propósito a palavra “Chauffeur” é francesa, seu significado é foguista.

Os táxis ou carros de praça ou de aluguel daquela época, em sua maioria, eram Chevrolets, alguns Dodges e até Jeeps. O Hotel Toffolo, o Salvador Troppia e o Colégio Arquidiocesano tinham os seus próprios carros. Esses a buscavam os filmes para o cinema, os hóspedes na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, e serviam a eventos, como os casamentos, batizados e etc.

Os automóveis mais bonitos da cidade, que tenho em minha lembrança, eram: o Mercury 52, do Dico Toffolo; o Chevrolet 47, do Padre Rocha; o Chrysler 48, do Dr José Carlos; o Ford 1934, do Professor José Barbosa (igual ao do Professor Antônio Fortes); e o Chevrolet 38, do Dr. Sartori. Destes, infelizmente, só resta o Chevrolet 47 Canadense. As ruas, no fim dos anos cinquenta, eram perfeitas e limpas, os chouffeures de praça faziam seu trabalho com as chamadas corridas, com os preços combinados previamente.

Havia em Ouro Preto somente um ponto de carros de aluguel, que ficava ao lado do antigo correio, atualmente a Casa dos Contos, e lá ficavam os carros dos irmãos: Sebastião, Vavá e Celso Molambo, do Geraldo Correia, Romeu Jardim, Sebastião Jardim, Domício, Seu Vítor e o Faustino que morava na rua do Barão, que com seu Jeep, transportava o Padre Veloso.

Quando não estavam espanando a poeira do carro colocavam uma caixa de fósforo debaixo do pneu traseiro e apostavam quem arrancava naquela ladeira, ao lado da Casa dos Contos, sem danificar essa caixinha e sem auxílio do freio de mão. Às vezes trocavam o carro, mas, nunca de marca. O último carro do Toffolo foi um Chevrolet Sedan, 1956, com duas cores, chamada de saia e blusa, um verde e branco maravilhoso. Somente mais tarde é que apareceram os Aero Wyllis, a princípio muito criticados por serem construídos sem chassis e sem o fôlego para competir com os grandes motores americanos.

Os postos de abastecimento ficavam em frente ao chafariz da Praça Reinaldo Alves de Brito, que pertencia ao “Seu Albergaria” e o outro, na venda do Zé Gonçalves, no Rosário, cuja bomba era manual. Não existia caminhão pipa e a gasolina vinha do Rio de Janeiro, em tambores de duzentos litros, nos comboios da Maria Fumaça. Oficina só existia uma, a do Roque Fina, na rua do Paraná, a famosa oficina Ford. Porém, existiam ótimos mecânicos que trabalhavam na casa dos proprietários dos automóveis. O famoso “Zé Chagas”, que demorava dois dias à procura de um parafuso apropriado para montar um diferencial Tinken, ou simplesmente, o mesmo tempo para achar um outro parafuso apropriado para segurar um friso da grade do automóvel.

Os irmãos Zé, Vicente e Paulo Lourenço, especialistas com a marca Ford, tinham o capricho e orgulho de não consertarem outras marcas. Sabiam, com perfeição, afinar um “vê oito”. Os mecânicos faziam de tudo, desde as trocas de óleos, até as improvisações dos óleos de freios com óleo de mamona, diluído em álcool. Ar para os pneus era no braço.

No Carnaval, todos os táxis eram enfeitados com serpentinas, balões e confetes. As corridas geralmente eram para a Santa Casa, para o bairro Saramenha, para os distritos e, às vezes, para a capital, que sem o asfalto, durava mais de quatro horas. Eram mais de 130 km e o caminho seguia via Rodrigo Silva, Itabirito, Rio Acima, e Nova Lima.

A poeira e o barro eram os empecilhos de uma boa viagem, para Conselheiro Lafaiete, Juiz de Fora e Rio de Janeiro, e o percurso era: Rodrigo Silva, Cachoeira do Campo, Leite, Engenheiro Correia e Miguel Burnier, quase cem quilômetros só nessa primeira etapa. Hoje, essa viagem foi reduzida para 50 km, via estrada Real, cujo empenho se deve ao saudoso antigo prefeito de Ouro Branco, Raimundo Campos, que infelizmente não conseguiu ver essa obra pronta e asfaltada.

Chegava-se até a capital lá pelas bandas do atual Hospital da Baleia e já na Avenida Brasil, a “Cidade Jardim” era avistada com suas avenidas arborizadas, com seus bondes e vários automóveis de luxo, Buicks, Cadilacs, Packard, que deslizavam suavemente por essas avenidas já asfaltadas, além de outras marcas, como os Kaisers e Studbakers, que hoje não são mais fabricados.

Tempo bom… não havia fartura, esbanjamento e ostentação. Pelo contrário, tempo de respeito, de consideração, tempo de muita valorização do ser humano. Tempo dos automóveis fabricados para durar, fortes, robustos, com o charme e estilo. A nostalgia ou a mania de preservar os carros antigos, é o compromisso de não permitir a descaracterização da coleção, promover os eventos, exposições, para que nossos netos possam valorizar a nossa existência. E esta é a referência que com satisfação, companheirismo e amizade, faz parte de nossa vida romântica e feliz como colecionadores e amantes dos carros antigos.

Em homenagem ao aniversário de 179 anos de nossa querida Escola de Farmácia

Nos idos dos anos 70, nós, alunos da Escola de Farmácia de Ouro Preto, tínhamos hábitos completamente diferentes dos alunos de hoje. Isto é, além de estudar aos domingos, a tarde destes dias, era reservada para o futebol no Campo da Barra, onde quem não jogava, ia para fazer torcida e assistir aos craques campeões da nossa época. Á noite, invariavelmente aos sábados e domingos, era a vez da hora dançante, que acontecia no nosso Centro Acadêmico, localizado na época a rua São José. Esse era o nosso lugar de descontração.
O fato que sucedeu, aconteceu com um veterano¹ e um calouro² da nossa turma. Um veterano, que se não me falha a memória, era um daqueles companheiros que gostava de falar difícil e que, muitas vezes, era motivo de nossa zombaria. Um exemplo do que estou falando, quando o convidávamos para mais uma rodada de bebida no bar, este respondia: “No momento não estou susceptível a essas vicissitudes, o amanhã me obriga a rever meus conhecimentos de farmacologia. Portanto, não posso me entregar as práticas de libações alcóolicas”. Era mais ou menos assim. Muito engraçado.
Um dia, ao reparar um novato na turma, no caso, o calouro, que por diversas vezes ia ao banheiro, o veterano perguntou:
– Por acaso você é diabético?
O calouro respondeu:
– Não, sou do tugúrio³. Por que?
O veterano continua:
– Porque o álcool inibe o hormônio antidiurético, a vasopressina.
O calouro responde, sem entender.
– Vaso pressinha? É, realmente estou indo depressa ao vaso mesmo.
E o veterano explica:
– Não, estou falando do álcool, esse mais famoso excipiente – E começou seu discurso com palavras difíceis, como costumava fazer – A propósito, o metabolismo das drogas, isto é, a farmacocinética dos medicamentos tomados por via oral, no caso particular o álcool, que é também um veículo fantástico, sem carga elétrica, passa com uma grande velocidade pelo trato intestinal. Por isso é imediatamente absorvido pelo fígado, órgão este, responsável pela eliminação de todas as drogas, transformando os lipídeos, os corpos gordos, em substâncias polares. Ele, o álcool, também atua no Sistema Nervoso Central, tal como outras drogas cuja absorção se dão no sistema microssonal, aumentando o número disponível do citocromo P450. O álcool se transforma em aldeído e finalmente em ácido acético. Dois moles de etanol representam 1,5 gramas do cofator NAD e a parte restante é esterificada com ácidos graxos. Portanto, essa desidrogenase oxida o álcool e finalmente a NAD reduz em NADH. A frutose, essa cetose, age de maneira, como se pode explicar… Como um agente de sobriedade, levemente regenera parte do NAD. Enfim, 25% é metabolizado no sistema, microssoma dessa oxidade de função mista. Por isso, os esteroides, anticoagulantes e alguns medicamentos como o fenobarbital, são incompatíveis com a ingestão do álcool. Você entendeu a ilação?
 O calouro ficou completamente atordoado, sem entender, sem resposta, com um olhar totalmente perdido. E o veterano continuou:
– Isso que acontece agora com você pode ser a ação do álcool, você está tomado pelos braços de Baco? O que você enxergou? Enfim, essa droga, o que é? O álcool é um agonista ou ao mesmo tempo antagonista?
Estupefato4, o calouro responde:
– Eu estou é agoniado.
Presenciando o fato, o Rui, amigo nosso, solta uma gostosa e estridente risada e aos gritos proclama:
– Sarto de purga carreira de lebre, bem faz nós que num bebe. E eu completaria hoje: pra conferir, vai procurar explicação no Rang, Dale e Ritter, pois quem nunca fumou foi Hitler. Vamos ao brinde. Viva a Escola de Farmácia e Bioquímica de Ouro Preto!
Notas do editor:
1 – Veterano: estudantes mais antigos, que já estudam na instituição há mais tempo
2 – Calouro: estudante novato e que nessa condição pode ser submetido ao trote estudantil, ou seja, a toda sorte de brincadeiras
3 – Tugúrio: abrigo
4 – Estupefato: imobilizado, pasmo

O milagre em Antônio Pereira

Muitas estórias, em nossa infância, eram contadas deste modo e algumas ficaram na minha memória como esta:
Era uma vez uma menina que um dia entrou na lapa do Antônio Pereira. A família procurou por ela e, sem esperança de encontrá-la, entregaram nas mãos de Deus. Passaram dias, semanas, meses e anos. Um belo dia, essa criança volta para sua casa no arraial do Antônio Pereira e para espanto de todos, essa inocente criança aparece com as mesmas vestes que trajava naquele dia em que havia desaparecido. Surpreendidos com o fato, o milagre então ficou esclarecido com a narração contada pela pobre criança:
– Por que choras, minha mãe? O que aconteceu para a senhora me apertar e me beijar tanto assim? Vou contar o que aconteceu. Só fiquei com aquela moça porque ela era muito bonita, seus olhos eram maravilhosos, e de sua boca as palavras eram carinhosas. Senti um grande conforto, senti o conforto de seu colo. Ouvi os conselhos que ela me disse para eu não esquecer. Ela me disse assim: ‘Seja sempre a boa menina, obedeça e ame a seus pais’. Me pediu, também para ter paciência, perdoar as pessoas, continuar obedecendo, trabalhando e rezando o terço. Praticar a caridade, respeitar todos os nossos amigos e inimigos, e, assim, me ofereceu a água que escorria da parede da lapa, que aliviou minha sede. Essa água era adocicada como o mel, matou não só a sede, como a minha fome. Sentei com ela, que me amparou, como disse, em seu colo, um minuto, talvez. Foi tão bom que até parece que adormeci. Isso é tudo minha mãe, perdoe-me! Por que tanta aflição minha mãe? Não vê que estou aqui? Nada de mais me aconteceu só foram uns minutos de atraso.
Um minuto para Deus não tem significado, para nós, um minuto pode significar muita cousa, o tempo não existe para Deus. Depois desse milagre, a peregrinação na lapa de Nossa Senhora teve início, outros milagres aconteceram e muitos outros pedidos foram alcançados pelos devotos.
O milagre é individual, as pessoas antigas assim procediam e não revelavam a graça alcançada. Eram menos arrogantes, soberba não havia, não se exibiam, sisudos e sérios, vigiavam a sua fé. Hoje os testemunhos são diferentes. Parece que, naquele tempo, Nossa Senhora também não aparecia para muitas pessoas. Como é bom a inocência, me lembro do meu tempo de criança, quando acordava bem cedo para ver os peregrinos que iam para a festa da Lapa de caminhão, passavam debaixo de minha janela alegres, cantando hinos religiosos. Levavam estandartes de sua irmandade para a procissão, o terço era pendurado no pescoço, como um símbolo de fé e devoção, era o tempo de uma crença pura e piedosa. Eu ouvia o caminhão que gemia de primeira marcha para subir o lance do Morro da Queimada até chegar ao Morro de São João. Depois atravessavam o Campo Grande e a descida da Serra de Antônio Pereira, onde aconteceram muitos desastres. Essa era a aventura, que meu pai nunca deixou eu fazer, me deu frustração e inveja de ver meus amigos partirem para essa festa. Outros iam a pé de vésperas à noite, viajavam em turma com receio da onça que morava naquela serra.
O tempo passa, as pessoas mudam, outros chegam, os costumes desaparecem, a fé se transforma, mas lá está e continua o Antônio Pereira. A abundância do ouro desapareceu, o sonho da siderurgia com o alto forno do Barão Schwege nunca se tornou realidade, os topázios apareceram e também desapareceram, a Vila continua entorpecida com uma espécie de sonho que seus moradores não enxergam uma outra realidade. Antônio Pereira é um lugar onde fizeram a Vila da Samarco Mineração e, mais acima, o Timbopeba ou o local em que passa o caminho para as grandes minerações da Vale do Rio Doce.
A população que sabia desta e outras histórias mudou de lá e foi substituída por outros que não se interessam em saber. A Serra de Antônio Pereira que D. Pedro II desceu e por lá passou para chegar até o Caraça, a estrada que hoje insistimos em denominar “Estrada Real”, que liga Vila Rica ao Arraial do Tejuco, hoje Diamantina. A vila do Antônio Pereira é um distrito de Ouro Preto muito importante, um lugar de muitas riquezas, minério de ferro, de manganês, ouro e outros minerais importantes que a Vale do Rio Doce sabe que existe e onde está. Hoje o povo de lá não interessa, talvez a Vale também não se interesse em melhorar esse caminho e continue a passar por lá, quanto menos tocar nesse assunto melhor é…
Contar as histórias do Antônio Pereira é distração ou uma divagação, como o futebol, artesanato e outras ocupações e divertimentos que trazem nostalgia, cousa de poeta. O governo e as grandes companhias não são como a gente, não pensam como o homem. O desastre que aconteceu com a barragem da Samarco não deve ser lembrado, como disse um engenheiro, é mexer numa ferida que já está curada. Precisamos agora é de retirar o minério. O povo precisa trabalhar para ter o pão de cada dia. Se as empresas fossem humanas, eram pecadores pela avareza e não roubavam do povo. Devemos perdoar o governo e suas leis. Rezar muito para que ele mude. Eis o grande milagre que todos esperam. Um dia ele talvez aconteça. Na minha crença de humilde peregrino que chega na Lapa de Nossa Senhora do Antônio Pereira para rezar, trago sempre esse pedido no meu humilde e devoto coração.

No tempo em que as portas das casas

ficavam abertas

Era uma vez, no tempo em que nossas casas ficavam de portas abertas, haviam as empregadas domésticas, que faziam de tudo: cuidavam dos bebês, cozinhavam, lavavam e passavam. Eram pessoas simples que se apegavam a nós e assim muitas delas eram adotadas pelas famílias. A vida, nessa época, era harmoniosa e feliz, mas como diz o ditado: “A felicidade dura pouco”. Essa vida passou, mas deixou boas lembranças. Uma “paciência de Jó” tinham essas criaturas com as tarefas repetitivas e cansativas do cotidiano: cuidar da casa, sem reclamações, sem férias… Enfim, elas participavam e contribuíram muito com a educação das crianças. À noite, depois de cuidarem das louças, dos talheres, de limpar e lixar os velhos fogões à lenha, tinham outras ocupações. Com suas habilidades manuais, muitas delas eram peritas nos doces ou nos bordados. Eram as contadoras de causos, estórias. Como pessoas simples, tinham a originalidade de crerem no sobrenatural.
Uma dessas era a Maria Pequena. Negra, nascida com um defeito nas pernas, seus joelhos eram muito próximos e suas pernas desviadas para fora da linha de prumo de seu corpo, talvez consequência de uma anemia na infância ou da própria da genética de sua raça. O termo científico é: “genu valgo”¹. De pequena estatura, testa larga e boca rasgada com lábios finos e revolutos, essa negra era a nossa alegria, a personagem mais importante de nossa infância. Com uma imaginação brilhante, possuía uma maneira encantadora de contar suas estórias, e desse modo nos ensinar muitas coisas, talvez a primeira professora que consegui amar de verdade. Ninguém nunca soube bem quem foram seus pais. Ela contava que seu pai tinha sido escravo, cortava capim para os cavalos do Palácio dos Governadores, e sua mãe, uma lavadeira.
Maria Pequena tinha outra irmã, que era identificada simplesmente por “Mim”. Essa preferia os gatos a qualquer outra criatura criada por Deus. Enfim, todas elas eram Marias: das Dores, da Piedade, das Graças, das Mercês, da Conceição ou Pilar. As vezes fugia a regra: Benedita ou Ifigênia. E só. Sempre muito católicas, iam à missa diariamente e lá rezavam um ou dois terços. Naquele tempo, o padre celebrava a missa em Latim e de costas para os fiéis. Quando virava para dizer “orate fraters”², despertavam essas criaturas de Deus, que continuavam a reza do seu terço para alcançar o perdão de seus pecados. Excelentes cozinheiras, do trivial angu, feijão e arroz, aos carirus, frangos ao molho pardo, sopas de galinha, arroz com pomba, leitoas, cabritos e sobremesas com um tempero especial que era só delas.
Não havia, nessa época, os supermercados. As frutas só em suas estações, oferecidas na porta pelos cargueiros, pequenos sitiantes que também traziam no lombo dos burros, frangos, ovos, batatas e toucinho. Normalmente poderiam haver outras encomendas. As laranjas apareciam depois de abril. As jabuticabas, depois das primeiras chuvas de outubro. As uvas apareciam quando havia o veranico³ em janeiro e assim por diante. Porém, o mais comum eram as bananas. Deliciávamos, também, com os bacuparis, cambucás, goiabas, araçás, caquis e ameixas, a fartar só em determinadas épocas do ano, as mais saborosas eram sempre as dos pomares alheios. Peras e maçãs eram importadas da Argentina, ainda não tinham sido aclimatadas, e eram trazidas da capital, aqui não havia como estocá-las. A geladeira era rara. A carne de boi, que consumíamos, eram oferecidas dois dias por semana, trazidas dependuradas por uma casca vegetal denominada imbira4. Criança pequena não podia buscar carne no açougue porque os cachorros, vira-latas, pegavam.
Nosso dia começava com um prato de mingau de fubá ou de farinha de trigo temperado, com açúcar e manteiga. Outra merenda as vezes aparecia à mesa, como a broa de fubá ou o pão dormido, já que não era costume ir até a padaria toda as manhãs. O almoço era o arroz com feijão, angu, verduras, ovos, às vezes, carne de porco ou linguiça conservadas no toucinho, carne seca, carne de fumaça (bife só uma ou duas vezes na semana). À tarde um café com biscoitos, os famosos sonhos e o cuscuz. À noite, o jantar era uma sopa de macarrão com batatas, enriquecido com as sobras das pelancas das carnes e dos ossos oferecidos pelo açougueiro. Descansava-se um pouco antes de irmos para a cama. De vez em quando era permitido escutar uma radionovela, mas, nessa hora, o grande prazer era quando procurávamos o fundo da cozinha para escutar as estórias das assombrações que as empregadas, contavam com compenetração e temor. E assim, eram revezadas as nossas visitas às casas de nossos vizinhos para escutar as estórias que cada uma dessas personagens tinham. Suas estórias eram diferentes e a maneira de contar muito própria, original. Maria Pequena que trabalhava, naquela ocasião, na casa vizinha, uma vez contou a seguinte estória, isto é, só depois de se benzer e “esconjurar o sujo”5, e assim ela começava:
– Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.
– Para sempre seja louvado.
Todos nós respondíamos e ela prosseguia:
– Era uma vez, um desses tropeiros que ficou de mal com Deus e chegou a desafiá-lo, entregando sua alma ao dono das trevas, com o fim de obter riquezas e poder. E foi assim que esse homem, na Quaresma, sempre se transformava no lobisomem. Certa vez, arranchado no Mercado Municipal, que se localizava no Largo de Coimbra, lá pela meia-noite, esse homem tomou a forma de um cachaço6 e saiu pela rua grunhindo, e tudo que encontrava destroçava com seus poderosos dentes. Não devemos facilitar esse encontro, as portas devem estar trancadas e não se deve nem olhar pela janela depois das luzes apagadas. Assobiar a noite é chamar o saci. Até ia me esquecendo, tudo na vida tem o seu remédio, porém, primeiro é a providência divina que nos livra de todo o mal. Para se livrar do lobisomem, as pessoas devem começar a rezar, em voz bem alta, o “Creio em Deus Padre”, que acalma um pouco a fera, mas, o terço, que devemos sempre carregar, é a nossa melhor arma. Deve ser jogado em sua direção e isso enfurece muito mais a fera que, enquanto não engolir conta por conta desse terço, não sossega, e assim, nós podemos fugir em paz. É assim que as pessoas conseguem escapar desse filho do sujo. Fulano, “cadê seu terço”?
Contava também que se lembrava do fim da escravidão. Que num dia 13 de maio disseram que o cativeiro tinha acabado, todos os negros saíram fantasiados para a praça e lá dançaram o dia inteiro, soltaram foguetes, comeram carne, canjica, beberam cachaça e restilo7 e, quando chegou a noite, as luzes se apagaram, todos voltaram para a casa de seus senhores e a vida assim continuou.
– Aqueles que foram embora, ninguém sabe de suas histórias, não deram notícias. Gente rico é diferente, não gostam muito de se misturarem com gente pobre, se é que essa liberdade lhes trouxe riqueza, ninguém ficou sabendo. Papai continuou a fazer o mesmo serviço, tomou as suas cachaças, mais à vontade, e morreu muito novo. Mamãe continuou a lavar suas trouxas de roupa, comprar seu fumo e assim, a vida passou. Hoje estamos aqui para viver como Deus quiser. Os costumes mudaram, a vida fica amparada por Deus Nosso Senhor Jesus Cristo. Amanhã, se vai melhorar ou piorar é indiferente, o que pode acontecer só Deus sabe.
Contava ela e terminava a sua história com uma interjeição enigmática que nunca consegui entender:
– Vaca Vitória caiu no buraco e acabou-se a estória, vaca amarela quem falar primeiro…
O tempo passou, até o dia em que despedimos daquela alma, seu corpo foi sepultado, no cemitério da Santa Ifigênia. Voltei lá muitas outras vezes e a sua cruz um dia desapareceu, poucos sabem que ela existiu. Posso lembrar de seus conselhos e ensinamentos, que foram para mim de muito valor: “Mentira é coisa do sujo”.
A lembrança de sua aparência disforme, do seu sacrifício para se locomover de sua luta não foram em vão. Aprendi com ela que o capricho e a limpeza são importantes em tudo que fazemos. Afinal gostava ela de dizer quando terminava uma estória:
– Agora vão todos pra suas camas, bem quentinhas. Não se esqueçam de vestir o pijama e rezar pro “anjo da guarda” que, eu cá, ainda vou rezar o meu terço para as almas do purgatório.”
Despedíamos com pesar:
– A Benção Maria Pequena!
E ela respondia:
– Inté, que Deus vos abençoe.
Limpando a garganta com um pigarro inexistente, com seus olhos brilhantes e perdidos, virados para o teto sujo da cozinha ainda impregnada de fumaça e cheia de picumã, se levantava com dificuldade do tamborete e dizia:
– Cuá!
Notas do editor:
1 – Genu valgo: joelho torto
2 – Orate fraters: termo em latim que significa “Orai por nós”
3 – Veranico: pequeno verão
4 – Imbira: espécie de cipó muito resistente
5 – Esconjurar o sujo: afastar ou exorcizar o mal
6 – Cachaço: o porco que não foi castrado, utilizado para reprodução
7 – Restilo: aguardente

Capricho, amor e dedicação

Fiz, na década de noventa, uma viagem até Leopoldina de Rural com minha família. A distância daqui até lá é, aproximadamente, 260Km. Sem alterações, a velha Rural Ford 1975, com seu motor de quatro cilindros OHC,” cross flow”, desempenhou com agilidade esse percurso com menos de seis horas, com uma média de seis e meio quilômetros por litro de gasolina, de quarta marcha, com o peso das malas, minha esposa e meus quatro filhos ainda pequenos. Saímos de Ouro Preto, passamos por Mariana, Ponte Nova , Teixeira, Viçosa, Ubá, Cataguases e finalmente Leopoldina.
A Rural chamava a atenção de todos por onde passava. Por precaução, chegando a Leopoldina, eu a guardava todas as noites em um estacionamento. “O que não é visto não é desejado”.
A estadia foi maravilhosa , meus tios e tias, que sempre nos receberam com muito carinho, nos proporcionaram todas as atenções e mimos, com os doces e caramelos, a grande herança dos confeiteiros da família Amaral Lisboa. À volta, com uma carga extra de presentes, saco de cocos verdes, mangas, frutas, pão, biscoitos, compotas de doces e outros presentes a Rural ficou com a carga completa.
No dia de nossa partida, aquela manhã, o sol já estava bem claro, despedimos e saímos lá pelo alto do cemitério com destino a Cataguases. É mais uma doce lembrança da cidade de Leopoldina, Atenas da zona da Mata. Na chegada o referencial é avistar a pedra do cruzeiro com seu grande paredão de granito e, logo abaixo, a torre da catedral do bispado da cidade. Na saída são essas as derradeiras vistas que por último desaparecem .
Notei que o motor da Rural engasgava, não obedecia ao meu comando quanto a aceleração. Eu havia verificado o combustível, a água, o ar dos pneus, o platinado, o nível de óleo, tudo conferido, não me preocupei, talvez uma sujidade no carburador, comecei a ouvir o motor, reduzi a marcha e retomei a aceleração o problema continuava, enfim o motor não aceitava aceleração e interrompia com estrondos que foram repetindo até ultrapassar a entrada para Astolfo Dutra, com o pé leve cheguei até Ubá, a Rural prosseguia e desenvolvia bem nas baixadas, com pouca aceleração ela desenvolvia razoavelmente.
Na entrada de Ubá, indaguei onde poderia encontrar uma oficina. Com a ajuda de um mecânico, desmontamos o carburador, examinamos o platinado e seguimos viagem. A cidade de Ubá continua com o mesmo problema para encontrar a saída, sem placas de orientação, por isso quase sempre me perco na volta.
Com a limpeza dos gigleur, conferido a bóia do carburador e o platinado, o mesmo problema continuava, agora com mais frequência. A subida da serra de São Geraldo, só foi vencida com muita dificuldade. As vezes a Rural morria e aos trancos, mesmo de marcha ré, fazia ela funcionar. Lembro que tal fato alegrava minha pequena Ana, que ria. As crianças achavam que eu estava brincando.
Subi de primeira e segunda até o topo da serra. Do topo da Serra até Viçosa, ladeira abaixo. Abusei e compensei o tempo perdido. Em Viçosa, troquei os filtros de gasolina. A marcha lenta do motor era uma beleza, o que se pode concluir que o motor estava funcionando perfeitamente, não poderia ser nada relacionado com o comando de válvulas. Mesmo assim, continuava não aceitando aceleração. Não deixei o mecânico mexer no ponto de ignição, continuei a viagem.
Chegando em Teixeira, já passava da hora do almoço, procurei na praça central um restaurante e lá deixei a família. Era mais de meio dia. Fui procurar uma casa de peças. Conclui que só poderia ser a bomba de gasolina e assim, depois de convencer o vendedor, consegui comprar a bomba nova com o meu cheque. Instalei a bomba com uma junta improvisada da própria caixa da embalagem, confiante agora chegaria até Ponte Nova, sem problemas. É uma longa descida até lá, a tarde se aproximava e o céu já estava escuro. A mulher já estava preocupada com o transtorno da viagem, pois tinha que subir de segunda ou primeira, mas não reclamava. Dentro da cidade, com o trânsito em menor velocidade, não se percebia problema. Este aparecia quando era necessário acelerar na terceira e quarta marcha.
Depois de raciocinar e providenciar todas as soluções, agora a minha preocupação era com a segurança de minha família, minha expectativa era só chegar, faltavam ainda oitenta e seis quilometros.
Saímos de Ponte Nova, margeando o majestoso Rio Piranga numa estrada plana e ondulada, vem a subida do restaurante Caipira, depois o Pimenta, logo acima mais uma descida que foi vencida da mesma maneira, trocas de marchas, mais uma subida, segunda e meia aceleração. Nessa hora a mulher, com toda razão, já estava bastante impaciente e também preocupada com o desempenho da Rural. Mais subida. O carro agora estava de primeira marcha, a cada curva e a cada subida a Rural andava mais devagar. Quase sem esperanças começamos a descer até Acaiaca. Nas descidas, compensava com imprudência o atraso.
Avistamos o Posto de Gasolina.
“Pare! Vou telefonar para o meu irmão Vicente e suplicar para que ele venha nos buscar”, disse a mulher.
Sem opção, estacionei a Rural quase sem mais outras esperanças. Deitei debaixo dela, a noite já havia chegado, com a lanterna procuro a ligação do conduite de alimentação do tanque com a bomba de gasolina. A bomba fora trocada, era novinha, colocada em Teixeira, nunca usada, não poderia estar defeituosa. Num estalo, me veio a cabeça: o entupimento está no pescador do tanque. Tirei o conduite, junto ao tanque e veio um jorro de gasolina que me sapecou a cara e me cegou momentaneamente. Atordoado, escapuli com o rosto todo sujo de gasolina. O fato assustou a mulher e as crianças, o conduite começou a retornar a gasolina e o cheiro logo foi espalhado e percebido. Voltei rapidamente e tampei o buraco com o polegar. Levantei o conduite e assim, impedi maior desperdício do combustível.
Novamente deitado debaixo do tanque e agora, com uma mangueira de chuveiro, adapto e coloco no terminal do tanque que se liga ao pescador. Sopro e nada. Sopro com mais energia e nada. Peço a mulher que abra a tampa do tanque de gasolina, continuo soprar até ouvir o barulho das borbulhas do tanque. Sopro mais vezes e finalmente verifico que não é necessário soprar mais, quem sabe, descobri a solução. Recoloquei o conduite no lugar, apertei a braçadeira, lavei o rosto. A mulher sabendo que eu poderia ter a solução do defeito, um pouco mais pouco tranquila, me diz: “O Vicente está vindo, já saiu de Ouro Preto. Daqui uns trinta minutos ele deve chegar aqui. De Acaiaca até Ouro Preto são trinta e cinco quilômetros de subida. Vamos entrar que está esfriando, as crianças devem esperar dentro da Rural”.
Depois de todos acomodados, liguei e dei a partida. Observei que o motor tinha outro barulho, acelerei até o talo, arranquei, pisei fundo. “Cano cheio”. Era como a água mudada para o vinho. Uma maravilha! De quarta e terceira piscava o farol, ultrapassava caminhão, desviava dos buracos, passei a ponte dos Tabuões, passei pelo alto do Furquim e a Rural havia se transformado num verdadeiro carro esportivo. Reduzia nas curvas, retomava a aceleração e o motor era outro. Esmerilhava sem dó e nem piedade .
Perto de Mariana, depois do Sumidouro, o Opala do Vicente me reconheceu e piscou para mim. Encostei e esperei no acostamento. Ele encostou atrás e perguntou: “Você não estava lá em Acaiaca?  O que aconteceu? O que é que houve?”. Respondi: “Vamos aproveitar que a ‘Marieta’ está de bom humor, quando chegar conto o meu padecimento dessa viagem”
Vim na frente, acelerando, subindo e acelerando. Não dava folga ao motor. Cheguei de terceira, com a temperatura do motor que não ultrapassava o número oitenta. O ponto de ignição era perfeito e apesar dessa nossa gasolina,
com 20% de álcool, a Rural tinha feito uma média final de quase dez quilômetros por litro. Incrível mas, é a tal da Banguela. Tanque sujo, falta de completar, sujeira no tanque, oxidação. “Eureka!” Carro antigo é assim, se identifica com o dono, e só a ele obedece.
Se você é também, como eu, dono de carro antigo, deve conhecê-lo bem, cuidar bem dele. Caso contrário, é só dor de cabeça. Enfim, todo problema é bom para aprender mais, mas aborrece. Precaver as vezes pode não ser a solução, ainda bem que não me aconteceu nenhum desastre. Dias depois, abracei minha esposa, me desculpei com ela por esse contratempo. Tempo bom de reconhecimento e amor. Apesar dos pesares ainda continuo com ela… e a Rural.
Esgotei o tanque, enchi de brita água e sabão lá na fazenda da “Do Carmo”, no Passa Dez, mãe do Cacá. Sacudi, balancei, escorri e por fim, lavei com muita água e depois com álcool e coloquei no lugar. Só não mantenho o tanque cheio devido as dificuldades financeiras de pai de família.
Depois de tudo isso passado, lá se vão bem mais de umas décadas, a mulher hoje tem ciúmes da Rural e quer que eu a venda. Esse dilema, entre o carro e a mulher é difícil de resolver. Acredito que muitos colegas também tem esse mesmo problema , fato que me faz lembrar do falecido José Aurélio Afonso, colecionador de Cadilacs, ex- presidente da Federação, que tentou me explicar esse ciúme. Entender de carro antigo e mulher, ao mesmo tempo, é complicado, muito complexo. Ainda bem que mulher não sabe que o nome da Rural é Marieta.

 

O nariz do farmacêutico

A noite foi mal dormida, devido ao compromisso da manhã, que foi uma grande preocupação durante parte de minha vida. Como professor de Farmacognosia, duas vezes por semana, o meu cotidiano começava com a continuidade e repetição dessas minhas aulas no curso de Farmácia.
O café da manhã era rápido, com uma xícara de café, dois biscoitos e, enquanto esperava a água ferver, mais uma passada de olhos no sumário da aula. Avaliava o tempo, acertava a hora, vestia apressadamente uma blusa de lã, e numa caminhada apressada chegava finalmente até a sala de aula.
O ritual: a chamada dos alunos, quase sempre poucos, ainda adormecidos. São sete horas e dez minutos, encerro a chamada tendo o cuidado de fazê-la a lápis pois sei que a maioria está atrasada e ainda devem chegar. Inicio a aula, dependuro no quadro negro alguns vegetais que serão mostrados e analisados naquela aula.
Com leitura pausada, leio um artigo de divulgação científica à respeito dos aromas nos vegetais. Instigo e provoco a participação dos alunos, aproveito, também, para preencher a aula escrevendo no quadro negro fórmulas químicas das diversas funções orgânicas do assunto: terpenos e fenil propanoides. Mostro as partes anatômicas das bolsas secretoras onde ficam os depósitos desses compostos e suas inúmeras aplicações na terapêutica. Continuo, falo das propriedades físicas: solubilidade, densidade, índice de refração, volto à mesma pergunta “Como vamos analisá-los e classificá-los? Droga vegetal ou Derivado de Droga Vegetal?” Prossigo e explico os métodos de extração.
Continuo a minha exposição. Faço alguns comentários a respeito da nossa profissão, quanto a sua originalidade e exclusividade desses medicamentos. Distribuo os vegetais que estavam expostos no quadro para avaliação dos alunos. Oriento quanto as descrições macroscópicas e espero a apreciações dos alunos, advertindo: não avaliem o sabor, já que a aula não é de Bromatologia. Enfim, pergunto:
__ Este cheiro é sugestivo a quê?
A pergunta se perde no ar, como o aroma das plantas, ninguém responde. Passa-se um breve período de tempo porém, um aluno se manifesta.
_ __ Este aroma me lembra aquele pauzinho que a vovó enfeita o doce de côco.
A propósito, esta folha tem o mesmo cheiro.
__ Perfeito! – intervenho – E o começo da proposta de nossa aula é a análise
sensorial, a qual temos que desenvolver para aprimorar todos os outros conhecimentos analíticos. A memória olfativa é importantíssima, porém, cuidado, nem todas as vezes podemos utilizá-la. Estou satisfeito, comecem a reparar que tudo aquilo que ativa a nossa sensibilidade é importante. O aprendizado começa com a educação dos sentidos. É o exercício da memória olfativa.
E assim falei das observações e relações entre os simples de nossa Farmacopéia. Outros comentários sucedem e a aula chega a seu final. Ainda comento que o óleo de cravo é obtido do pedúnculo floral , escrevo o nome científico dessa espécie e da família. Faço o meu último comentário, sobre os dentistas que usam o óleo de cravo até hoje como medicamento anti-séptico e anti-inflamatório. Assim como foi usado o óleo de gomenol na primeira grande guerra como antibiótico, anti-inflamatório. Cito outros exemplos como da resina da nossa Copaiba, pergunto algo da farmacologia dos modernos antibióticos e das sulfas .
Categórico, escrevo mais uma vez no quadro: “O que é bom não é novo nem velho é simplesmente bom”. Fecho o livro e chega ao fim a aula. Um bando de alunos apressadamente vão saindo da sala e vão gritando “Fulano de tal presente” e assim outros mais.
Eu estou cansado, mas cheio de ardor pois ainda tenho fôlego para mais uma vez repetir a pergunta. “O que é o que é, que cheira mais na farmácia?”
Ninguém responde, ninguém sabe. Não se importam em saberem da resposta. A sala se esvaziou. Continuo convencido com a resposta: o nariz do farmacêutico.

A indiferença

O relógio do Museu Inconfidência está parado.
A outra pessoa também não percebeu, esqueceu da hora.
O tempo na cidade monumento mundial não faz diferença.
Amanhã começa novamente a funcionar esse mecanismo que marca um tempo irreal e consolador das tristezas e alegrias do ouro-pretano.
Os fatos, as cousas, e os negócios vão bem e passam, cada um dos personagens que vivam a seu modo.
A cidade deve continuar, sem mudar a sua impassível fisionomia.
A cidade não representa nada, não deve proporcionar nada de compensação para seus moradores.
O ouro acabou, a capital se mudou, a cidade adormeceu como se estivesse paralisada por uma droga que a anestesiou.
O tempo lá fora mudou as outras cidades .
Aqui foi proibido soltar foguetes nas festas religiosas.
O povo aceitou, o povo obedeceu.
Meio dia no Padre Faria, panela no fogo barriga vazia.
Hoje não tem meio dia, a panela ficou esquecida, o povo sentiu uma sensação diferente.
O dia passou com a tarde que chegou com uma tempestade, com a boca da noite o povo se saciou e nem ao menos teve um pesadelo.
Amanhã o outro dá corda no relógio, nada mais é importante, tudo ficou esquecido, o tempo não passa, só nós é que passamos.
O sino não tocou, não percebemos
Amanhã vou prestar atenção para ver o tempo passar.