Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto
Colunista César LemosCésar Henrique Lemos Santos, nascido no ano de 1995, filho da transição de um milênio para outro. Sujeito moderno, sobretudo, admirador da tradição e da velha sabedoria dos antigos. Desde a tenra infância até a juventude decorreu na pequena cidadela interiorana mineira, Acaiaca. Cursou História na UFOP. Leitor e pesquisador assíduo, constante admirador da natureza e daquilo que dela aprendem os artistas.
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Foi Josefim, Foi

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No do que aqui discorreêi, do criador de muitas prosas naturais, de criação pura e iletrada, de pele queimada pela tamanha exposição dibá-d’sol das três partes quentes que aqui num dia têm. Um quase-gnomo, torto de parafusos falhos na cabeça é o que por ali, Engenho Novo as terras nomeva, lá desdiziam de Josefim, vulgo Josefim por respeito à sua estatura escassa.
Adotado de pós-órfão-menino-feio, pernas tortas e orelhas também não menos envoltas como caracol. Olhos esbugalhados e vermelhos, piedosos; já idoso de mais sessenta e contos poucos anos, porrete na mão, filho postiço de Aristides mais Fininha que o bem cuidara; e que nali dessa casa fazendeira moravam desde matrioniados, compreensão obrigada de todos irmãos, doação de pai pra filho velho; Henrique, há muito Morto: dantes, já sem idade pra qualquer arrumar, da ala da janela só fazia avistar, no verrevêr de suas terras, o curral mais próximo da vista. Não há mais desse tal dita, mais que esse vácuo detalhe, não há.
Josefim acordava, diária, às cinco da manhã ou mais praticontamente antes de os pássaros piantes e galos gritantes. O café tomado doce, botas set’léguas dava mais do que os pés, calçados. Lá ia andar: “Josefim gosta muito é de andar!” dizia a mãe em seus raros comentários do mesmo. Servia de recados confiosos a ele dados e de certeira entrega tal qual e sem abrir pacote, fosse dinheiro fosse recado não assinado. O pacote de arroz a mais constante mala postal. De correio, ora de correria por vontade, besteiro, Josefim só pelali sempre no ia-e-vinha das duas e poucas léguas de sua tradição. Roupa russa de terra, dourada a estrada, é morador-visitante daqueles fins de mundo grot’afundo. Êi-lo e o mistério do cerrado-atlântico e outros tipos infaláveis. De natureza grossa, cheirosa de matagal, debaixo das asas de todos tantos pássaros belos que corriam o céu acima da sua cabeçola e a festejarem com onomatopeia entre o sertanejo e o sertão: josefimguardião…josefim-guardião…josefim-guardião.
Percorria sob suas pernas tortas e olhões estupefatos aqueles quilômetros poucos, mas, infindos nos ires e vires desse estradão. Há lugares daí por ele jamais ultrapassados, se dava para lados de medo e ordem de seus pais do ser se perder e nunca mais achar, ou só diziam pra marcar autoridade mesmo. Inquestionável-inquestionante e de poucas palavras, recados entregados só em papel, raros os que mandavam de boca, haviam de achar qualquer alguém de escrever, pois na fala emborolada de sua linguagem poucos confiavam entendimento. Papéis de literatura recadatária com técnica por letras de pouca escrita e verbos variados por palavras errantes, assim, comunicavam por entre mãos e mediação de Josefim que sem qualquer leitura das tantas letras que nem bem eram escritas, mais desenhadas, parecia grego.
Seja dinheiro, seja recado, que sejam entregados; só o restava ir pelali, pedindo benção a velhas candengas e já adentrando seu pequeno corpo nas cozinhas pretas externas e meio abertas. Nas cadeiras em finas madeiras, sempre “senta e toma um gole de café, J’séfim”, arranhavam as velhotas com timbre terno. Café pode dar, “cachaça num dá pra J’séfim não”, pregavam. O mesmo, em sua expressão dotada em guardioso silencío dos olhões curiosos que ora baixavam vergonhosos se topasse outro olhar. Às crianças mais novas metia medo certo pelo excêntrico jeito em ser. Já o admirava os homens: “Feêio que dá até gosto de ver!”. A roupa cor de mato seco também, interpretável cor como do sertão ali. Nas casas muitas que passava puxavam-lhe a língua fofoqueira, que faziam dele, também, um traz notícia de casa alheia. Mas a Josefim nunca apetia futica ou capitalêzas. Bendito! por todos por servir  naquela ruralesca região à base de café, bênça e boa-fé; no  que dos crontaditos de sua benfeição era só um modo se besta em exibir o enrugado falo para algumas damas passantes.
As que corriam, corria também, pequenês. Outras de mão em tala, vara-fina ou chicote, resultava dentre seus meio-gemidos tortos mais os desenhos em som que a vara traçava no ar silencioso em gesto furioso. Fugia-se. Já houve até no que deu de sua menor sorte, para o feito que uma Joana tal, com chicote ráb’tatu estribilhou-lhe nas pernócas. O coitado sempre mal podia coisa qualquer, mas bem fazia o gesto por vezes a mimetizar.
Ria alto e redondo, chutava um mulambo de bola no quintal de casa, ria alto e chutava de novo. Nunca se soube saber de seus olhares interrogatórios, exclamadores de coisas e à linha do abstrato entendimento; ainda que por formigueiros jorrassem segredos ditos à toda e qualquer verdade. Assim sua vida; mais o porrete acompanhante mais útil, se defendendo de grandes cachorros de fazendas e roçados; correndo de chuvões, por vezes ensopado. Nunca, se no raro-raro adoeceu, se divertia sem tempo ou pesar. Acompanhante pio das novenas de Senhor dos Passos, junto das tias e avós velhas perseguiam estrada afora em plena e aguda cantarolia. Nas casas de parar e rezar, teatralmente Josefim juntava as mãos; gesto de boa e engraçada imitação a quem visse toda aquela exibição; grande em fervor. Inda IntocávelDeus, imaterial e grandioso em mistério envolvente da profunda psique humana; na reza que durava, ora abria ora fechava os olhos vermelhos e grandes que iam da fé à curiosidade sem se atinar à cara de piedade; a que sempre carregara.
No que tange o tempo no nada-nada daquelas roças, dor de barriga das fortes, inchava, não sabe que comeu, não foi comer e isso não importa. É a vida no chegar das horas-findas-horas. Encontrara-se encontado no baixo do barranco da casa de Ginina, a velha preta benzedeira, onde ia todo dia pra modo de brincar com as crianças muitas que ali habitavam de serem netos, uns seis. Clamou dor, o bucho inchou, recostou ainda mais na terra sêca e solta; lugar íngreme que ajuda seu miúdo corpo a não estirar de todo no chão. Ali, entre pés de mandioca, se ia sua alma, deixado o corpo plantado. Por velho e feio, nunca o disseram de anjo, mas de fato parecido fantástico, um gnomo. Na casa fazendeira de Aristides adveio toda a encomendaria, de mais enfeites; no quintal gramado e espaçoso de uma só bela gigantesca árvore a bola molambenta não mais rolara, estático também como o corpo o cajado já muito pacato do primeiro dia sem se retirar dali pra lá da porteira. Josefim Cipriano dos Santos jaz deitado “com uma carinha de paz, parecia que dormia” (concluíam as velhas quanto à estética do velado). Um vozerio ecoa do quintal dianteiro da casa; olgumas estórias miúdas ali foram engendradas pelos homens mais cachaça e risos de engraçadas. E nunca houvera o que ou quem mais lho interessasse em vida; uma é o curto cajado de mulato que Fininha olhou e quis que não chorou; outra, ela, a mãe que o criou. Pelas chaminés, uma fumaça, sobe, é o cajado jamais por outro utilizado que morre com o fim do mesmo entardecer. Para lá donde a fumaça dissolvia no tempo, a passarada gritava num lúgubre encontro:
“…josefim-fôi…foi-josefim-fôi…foi-josefim-fôi…foi…”
Foi
Josefim,
foi!