Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Foto Chiquitãoa

Luiz Antônio Rodrigues, o Chiquitão, é natural de Ouro Preto, onde iniciou também sua carreira como artista, realizando diversos cursos (Xilografia, Desenho, Artes Plásticas, História, Guia de Turismo, Escultura, Restauração e Conservação, Teatro e Mitologia). Já atuou em cenografia (teatro), cinema (longa-metragem), televisão, vídeo e curta. Percorreu durante mais de dois anos, as cidades da Estrada Real, e relatou, por meio de suas aquarelas, os principais pontos deste circuito. Inteligente e comunicativo, Chiquitão fica em seu atelier ainda produzindo belas aquarelas, colecionando e vendendo objetos antigos e contando divertidas e interessantíssimas estórias. É só chegar, sentar e se preparar para viajar ao passado e ganhar muito conhecimento.

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A pureza e simplicidade da comunidade

de Lavras Novas na década de 50 

Vamos começar contando a história por trás do apelido Chiquitão. Meu apelido vem de uma estratificação social brasileira. Sou filho de preto, uma formação social de baixa categoria. Meu pai era motorista, chofer, e apesar de ser um cara muito refinado, era pobre e negro. Antigamente, dava-se às pessoas de baixa categoria social e de cor, nomes de santos populares, como Antônio, Francisco, João. No meu caso, que chamo Luís Antônio, o apelido “Chiquitão”, vem de Francisco, que era o nome do meu pai, por causa dos vários São Franciscos que foram populares na região, como São Francisco de Assis, São Francisco de Paula, São Francisco de Bórgia. Todos os meus irmãos também receberam o mesmo apelido.
Quem se chamava João, tinha apelido de Joãzinho, Jão. Quem recebia o nome de José, era Zequinha, Zezão, Zeca. Essa denominação não era observada somente aqui na América colonizada pelos portugueses, mas também na região da América colonizada pelos espanhóis. O grande exemplo disso são os apelidos Chiquitita, Chica, que aqui seria Francisquinha ou Chiquinha. Já as pessoas ricas recebiam nomes como Rafael, Gabriel, que eram nomes de anjos. Ou de santos mais exóticos, como Helena.
Vou contar agora uma estória muito curiosa que poucas pessoas sabem, que mostra a simplicidade e o isolamento do povo de Lavras Novas, e essa maneira ingênua de ser, uma pureza, que proporciona sonhar coisas extremamente hilárias. Um misto de ingenuidade com loucura. Sempre faço uma comparação entre a história, com h, e a estória, com e, e uma dosagem gostosa de estudo social, vendo a situação de um povo, e o quanto comunidades ficaram isoladas durante algum tempo. Como no caso de Lavras Novas, que era um quilombo forçado, já que foi um lugar abandonado durante um tempo, por alguém que foi até lá em busca de ouro, investiu muito e viu que não tinha tanta riqueza como ele imaginava, e acabou abandonando seus escravos. Eles foram obrigados a se agruparem, distribuírem responsabilidades e viverem isolados durante muito tempo, plantando milho, arroz, café.
Na década de 50, havia um negro chamado Chico Forquilha, que era tão alto, que pra mim ele tinha uns “dois metros e meio de altura”, e que andava na frente das procissões religiosas de Ouro Preto, junto com outras pessoas mais robustas, tirando os carros das ruas para a procissão passar. Ele fazia serviços extras para uma família de italianos que existia em Saramenha, a família Mazon. O sr. Mazon tinha uma bicicleta Peugeot antiga, e o Chico era doido para andar nessa bicicleta. Para conseguir isso, ele fez um serviço extra na casa da família com a promessa do sr. Mazon, de que poderia dar um passeio na bicicleta. Chico fez o serviço, e entusiasmado, pegou a bicicleta do patrão e foi dar uma volta no distrito de Lavras Novas. Na época, o lugar era muito simples e tranquilo, com pessoas mais simples ainda. Quando Chico chegou lá, as pessoas ficaram assustadas porque a simplicidade era tanta, que elas não conheciam bicicleta, nunca tinham visto. E para completar, quem estava na bicicleta era um negro, alto, forte, muito grande e que era tão negro, que parecia cor de violeta. Os mais idosos começaram a gritar apavorados:
– Olha o demônio, olha o capeta!!! Olha o judeu, montado em duas peneiras, segurando o chifre do “pemba”¹.
Eles acharam que o guidão da bicicleta eram chifres do demônio e as rodas, as duas esteiras. As pessoas começaram a entrar para dentro de suas casas correndo, muito assustadas vendo aquela situação. Mas Chico não estava nem aí, desceu as ladeiras de Lavras Novas em cima da Peugeot do patrão, alegre e satisfeito por ter conseguido o que queria.
Ainda falando sobre Lavras Novas, o primeiro caminhão que entrou no distrito, pertencia a um homem chamado Mário Roxo. Era um GMC preto e verde oliva, ainda com freio a disco. Na ocasião, estava sendo construída a Usina do Salto, no rio Gualaxo do Sul, que criava eletricidade para a fundição de alumínio através de eletrólise. Um dia, o sr. Mário, chegando em Lavras Novas no seu caminhão, foi usar o freio com pressão de ar, para descer uma rua, fazendo aquele barulho. De repente, aparece uma senhora correndo do fundo de sua casa, com uma caneca esmaltada, cheia de chá, e gritando:
– Seu Mário, Seu Mário!!! Não desce a serra com esse caminhão não, ele tá muito gripado. Da um chazinho pra ele. Coitado desse caminhão, Seu Mário. Ele que leva e traz o senhor. Bota a mão na cabeça e tenha um pouquinho de consciência seu Mário.
Sr. Mário, sabendo que era por causa do barulho do freio e já conhecendo a simplicidade do povo dali, riu da situação, balançou a cabeça e continuou descendo a serra.
Repórter: Patrícia Botaro
Notas do editor:
Pemba: A pemba é um objeto presente nos rituais Africanos mais antigos que se conhecem. Mas é também usado, popularmente, como apelido para o diabo.