Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Estórias de DeolindaDeolinda Alice dos Santos possui graduação em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (1976), graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais (1981) e graduação em Estudos Sociais pela Universidade Federal de Ouro Preto (1975). Aposentou-se em 2007, mas ainda atua como Professor Titular enquadramento funcional da Universidade do Estado de Minas Gerais -Escola de Música como Professor Titular na Sociedade Brasileira de Programação Educacional (SOBRAPE). Consultora de Cultura Mineira no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – MG (SENAC) e no SEBRAE – MG. Tem experiência na área de Turismo, com ênfase em História e Cultura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: Cultura Mineira e Folclore aplicado ao Turismo. Membro da Comissão Ouropretana de Folclore, da Comissão Mineira de Folclore e do Instituto Brasileiro de Cultura Popular-Olímpia/SP, Capital Nacional do Folclore. Deolinda é dessas figuras queridíssimas na cidade e que, por onde passa, deixa conhecimento e muita alegria.

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Deolinda e os velórios como encontros sociais

Antigamente, o velório era considerado um encontro social. Era a oportunidade, por exemplo, que as mulheres tinham de sair de casa. Era como que um ritual: o sino batendo, a troca de roupa no defunto, o rapaz que media o caixão, as bebidas e a comida que era preparada para todos que iam se despedir do morto. Isso era muito comum. E o velório ainda acontecia em casa.
Na década de 60, quando eu tinha por volta de doze anos, fui a um velório com meu pai no Morro da Queimada. Eu era a mais velha de quatro irmãos, então acompanhava meu pai nos velórios, representando a família. E, fora isso, sempre fui a mais corajosa da casa.
Na época, era muito comum retirar a porta da frente da casa, colá-la em cima de  cadeiras, e posicionar o caixão em cima desta porta, no meio da sala, para o defunto ser velado. Nesse dia, durante o velório, aconteceu um fato diferente de tudo que já tinha visto. A viúva se aproximava do caixão e lamentava, passando a mão no marido morto E falava em um tom de voz bem alto: “Me leva, me leva”. Os amigos viam aquilo e, tentando consola-la, a levavam para o quarto.
Eu e meu pai estávamos sentados em um banco nesta mesma sala e ele, vendo aquela cena, me falou: “Vamos um pouquinho mais para longe porque eu acho que vai acontecer alguma coisa estranha por aqui. Vamos para perto da porta”. Eu, sem saber o que era, fui para perto da porta com ele. Meu pai tinha uma percepção incrível, uma malícia para as coisas.
Com o passar das horas, chegavam mais pessoas para o velório e que faziam o mesmo ritual: iam até a viúva para cumprimentá-la, ela chorava, lamentava, gritava “Me leva, me leva”, e passava a mão no defunto. Nesse meio tempo, eu olho para o caixão, e vejo o pé do defunto se mexendo. Olho para o meu pai, ele olha para mim e pergunta: “Você viu? ” E eu respondi: “Vi sim, pai, o que será? “. E ele: “Não sei”.
E a viúva continua a lamentar: “Me leva, me leva”. E os amigos a confortavam: “Não fica assim, ele foi descansar”. Quando ela foi passar a mão novamente no defunto, a outra perna se mexe. A viúva olhou para aquilo, levou um susto, mas logo em seguida já começou a gritar: “Sem vergonha, cachorro, volta para onde você veio”. Todo mundo saiu correndo para o lado de fora da casa, assustados. Mas como era uma casa de tábua antiga, com o peso e o movimento das pessoas correndo, o caixão virou. O morto caiu e ninguém tinha coragem de chegar perto.
As pessoas começaram a rezar do lado de fora, assustadas. Quando algumas pessoas criaram coragem e foram até o defunto com uma lamparina, pegaram um pedaço de pau, viraram o corpo e o que aconteceu? Saíram três ratos debaixo do pé do defunto. Meu pai só sabia rir. Ele já tinha visto o rabinho do rato. E olha que nessa época havia muito rato e gambá em Ouro Preto porque quase não se usava veneno ainda.
Conclusão: colocaram o defunto no caixão novamente, e as pessoas voltaram para dentro da casa e voltaram a velar o morto. Mas a viúva não, ela foi direto para dentro do quarto e não saiu mais de lá. Ela deve ter arrependido do pedido que ela fez. Quem iria imaginar?
Acontecia muita coisa curiosa nos velórios. Por exemplo, a viúva esperta, que aproveitava o velório do marido para arrumar pretendente. Ela chegava perto do caixão, ficava um pouco ali, lamentando, e depois ia para dentro do quarto. Mas quando chegava algum futuro pretendente, aí ela logo dava um jeitinho de voltar para perto do falecido. E com uma cara de sofrimento, começava a falar para que o pretendente escutasse: “Pois é  fulano (nome do marido), fulano tão bom, ne? Deixou uma caderneta de poupança boa, deixou um terreninho. Deus o tenha, só tenho a agradecer”. Desse jeito, o pretendente já saberia que se  interessasse por ela, iria sair “no lucro”, já que a viúva não ficou “a ver navios”. Meu pai olhava para isso e logo falava: “Olha lá, ela já está de olho no próximo”. E não parava por aí. A viúva, esperta que só, fingia que ia desmaiar e caía no colo de quem? Claro que do pretendente. Será que ela sentia dó do morto? Parece que não.
Ainda falando sobre a morte, outra coisa curiosa é que era comum pessoas mais velhas, principalmente as que moravam na roça, deixarem guardadas uma toalha de broia¹, e um sabonete para quando dessem banho neles antes de colocar o corpo no caixão. Isso era para que não dessem trabalho na hora de ajeitá-los para o velório. Essa coisa do banho no defunto vem da influência da cultura judaica, para facilitar a ação do micróbio no defunto, para que comessem o corpo rapidamente. Além disso, as pessoas mais velhas também já deixavam separadas um par de roupas para que fossem vestidas quando morressem.
E você acha que eu tenho medo da morte. De jeito nenhum. Não temos que temer a morte, todo mundo vai para o mesmo lugar. Olha bem, já tenho tudo preparado para o meu velório que será bem chique, pode esperar. E aqui vai algumas recomendações para quando eu morrer. Não me mande flores porque flores devem ser mandadas quando ainda se está vivo. Depois de morto, não precisa mais.
Além da opa² de Nossa Senhora das Mercês, usarei também um vestido verde, todo bordado de dourado, da noiva de Marrocos³. Logicamente brinco não pode faltar. Então serei descoroada. Vou explicar: toda vez que morre uma rainha conga, os capitães têm que fazer a cantoria de descoroamento, tirando o terço da mão do defunto. E eu sou uma rainha conga. Dois grupos de congados, de Piedade Paraopeba e Ouro Preto estarão presentes. Além do Zé Pereira e as Bandas da cidade, já que sou sócia das duas.
Quero ainda que toquem a música Amazing Grace, do Elvis Presley. Eu acho ela linda. Mas quero que distribuam a tradução dela para todos que estiverem presentes. Quero também muita comida e bebida. Os amigos dos lugares onde trabalhei, levem apenas uma carta batida no computador, que pode estar escrito “Saudades, Deolinda. Foi muito bom conviver com você”. Com letras coloridas, de preferência. Quero essa carta no lugar da Coroa de Flores. Serei enterrada na gaveta, lá não acabe coroa de flor. Façam o seguinte: aprecem o valor da coroa, peguem esse valor e comprem salgados ou um fardo de cerveja. Ou até uma garrafa de cachaça. Bem melhor. Vai ser uma coisa linda, não percam. E para todos os namorados que eu tive, tenho um recado: deixarei uma mensagem para cada um. Foram pessoas que me fizeram felizes. E olha que tem bastante recado.

 Repórter: Patrícia Botaro

Notas do editor:
1 – Toalha em Broia: é uma técnica de tecer fios que não utiliza nenhum tipo de maquinaria ou ferramenta. É uma forma de tecelagem manual. Trabalhando com os dedos, os fios vão se cruzando e ficam presos por nós, formando cruzamentos geométricos, franjas e uma infinidade de formas decorativas.
2 – Opa: espécie de jaleco
3 – Vestido da noiva de Marrocos: Nas terras onde se fixaram os judeus espanhóis, trajar uma noiva merecia grandes preparativos e suntuosidade, sendo comparado aos preparativos de uma rainha para a cerimônia de sua coroação. O vestido da noiva, rico e elaborado, assemelhava-se aos trajes usados pelas rainhas de Espanha. Chamado de “El Gran vestido”, ou pelo seu nome árabe, el-keswa el-kebira, durante séculos este majestoso traje foi usado sob a chupá por grande parte das noivas marroquinas, indício da grande influência dos sefaraditas sobre as comunidades judaicas do Marrocos.