Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Dom Barroso Ouro PretoFRANCISCO BARROSO FILHO, DOM BARROSO, é ouro-pretano e bispo emérito de Oliveira (MG). Nasceu em 8 de outubro de 1928, foi ordenado, aos 29 anos, em 1º de dezembro de 1957 e eleito bispo em 1984. É formado em Direito Canônico pela Universidade Gregoriana de Roma, além de ter cursos de violoncelo e regência. Fundou o Coral e Orquestra São Pio X, o Museu do Aleijadinho e a Escola de Música de Ouro Preto. É membro de Academias além de autor de livros, como Museu do Aleijadinho, Santa Teresinha e as Pastorais, A espiritualidade na Arte, Ateísmo Contemporâneo, Reminiscências Históricas e Tricentenário de Ouro Preto.

O Futsal nasceu em Ouro Preto?

Por volta de 1945, no período das nossas férias no Seminário, eu, Padre Simões e colegas nossos, íamos de manhã cedinho para uma quadra que ficava próximo à igreja de São Francisco de Paula, onde hoje funciona o estacionamento da Capela Velório. Era uma quadra de basquete antiga e abandonada. Jogávamos eu, Padre Simões, seu irmão, Jonas, o primo, Dr Percival, que mais tarde se tornou médico, entre outros parentes dele, meu irmão e meus sobrinhos que estudavam aqui. No fim, eram cinco de cada lado. Ficávamos a manhã inteirinha lá.
Só que naquela época não se falava em futsal, somente anos depois. Então podemos dizer que Padre Simões e eu fomos os fundadores do futebol de salão. Costumo brincar assim, que nós dois fomos os pioneiros e que ele surgiu aqui. Pode ser até que alguém fizesse essa experiência em outro lugar, mas antes de se falar em futsal, nós já praticávamos em Ouro Preto.

a

O Cristo de Marfim

Há em Ouro Preto um crucifixo de marfim anatomicamente perfeito. Desde a proporção dos membros, até os nervos. Ele ficava na Capela de São João do Bonfim, que foi a primeira da cidade. Por volta da década de 40, havia um provedor da Irmandade de São João que guardava esse crucifixo na sua casa. Ele era muito pobre e, com receio que fosse roubado, mantinha a peça no sótão da sua casa. Depois que ele ficou mais velho e já não era mais o provedor, devolveu o crucifixo para a igreja. Mas na época, São João era uma capela muito isolada. Dom Helvécio, sabendo do risco de deixar uma imagem preciosa sem segurança, levou-a para casa dele. Ela ficou lá por muitos anos. As irmandades foram sucedendo sem nem tomarem conhecimento desse crucifixo. Quando ele já estava mais idoso, chamou o padre João, Monsenhor Castilho, pároco do Pilar, e entregou a imagem a ele, dizendo ser de Ouro Preto, era preciosa e que ele a guardasse com cuidado. Ela ficou guardada sem ninguém saber que estava com ele.
Durante anos, vários párocos passaram pelo Antônio Dias e vários irmãos passaram pela Irmandade de Santana sem ninguém ter conhecimento desta imagem. Quando o Cônego José Francisco Versiani Veloso, que era de Ouro Preto, foi nomeado pároco de Antônio Dias, padre João, que confiava muito nele, passou a incumbência para o cônego Veloso. Ele guardava esse crucifixo com muito cuidado, enrolado no meio de algodão, no fundo da gaveta do seu quarto. Sei disso porque fui coadjutor dele. O interessante é que esse crucifixo era misterioso porquê de vez em quando vinha algum turista querendo vê-lo. Isso quer dizer que ele era conhecido. Mas cônego Veloso, com receio de ser algum ladrão, fingia que não sabia de nada. Esse crucifixo, usando uma expressão, ficava guardado a sete chaves.
Quando ele foi nomeado bispo de Itumbiara e dom Oscar me nomeou pároco do Antônio Dias, resolvi organizar o Museu do Aleijadinho. Fiquei na dúvida se colocava ou não a peça no Museu. Mas uma peça com valor artístico extraordinário e, além disso, tão cheia de mistérios como essa, não poderia ficar escondida. Mandei fazer um estojo especial para ela ser bem apreciada, com segurança e a coloquei no Museu. Mas eu não conhecia bem a história dessa peça E me estranhava tanto cuidado de todos os que ficaram com ela. Dom Veloso me fez até assinar um documento que eu estava recebendo o crucifixo.
Quando coloquei a imagem na exposição, comecei a conhecer a história oral do crucifixo. O pesquisador Manuel de Paiva, quando viu esse crucifixo, contou que o pai dele falava dessa peça para ele, que ela teria sido trazida pelos Bandeirantes. Dessa forma, mesmo não existindo documento nenhum confirmando isso, esse crucifixo de marfim é a peça mais antiga de Ouro Preto.
Participei de vários encontros de Museus. Fui até o Rio Grande do Sul para participar do 1º Encontro Rio-grandense de Museus. Durante este Encontro, foi dito por um dos conferencistas que, ao apresentar uma peça no museu, devemos ser muito fiéis e não afirmar na indicação da peça algo que não fosse documentado. Apresentei duas peças que tinha no museu daqui: o crucifixo e mesa doada pela família de Marília de Dirceu para Ordem das Dores. Mas não possuía documentação de nenhuma delas, só de tradição oral. E perguntei: “E quando temos alguma peça que não temos documentos para comprovar a veracidade da história dela, somente por tradição oral? Morre comigo ou devo passar aquilo que chegou até mim? ” O meu questionamento serviu para debate durante o evento e chegaram à conclusão de que uma peça nessa situação não deve ser guardada, mas sim exibida e sua história transmitida, mesmo que por tradição oral. Mas, a escrita usada na indicação da peça, não deve assumir a responsabilidade da veracidade dela. Assim sendo, criei uma frase dizendo que a peça havia chegado até mim por tradição oral e que este crucifixo teria vindo com os Bandeirantes para Ouro Preto. Portanto, umas das peças mais antigas. Dessa forma não afirmo, não nego, mas transmito esse conhecimento. Esse crucifixo continua sendo uma das peças mais importantes do Museu. Pequena, mas de um valor extraordinário.
A parte folclórica dessa história é que, naquele tempo, os cicerones de Ouro Preto não tinham formação e qualquer menino se apresentava como guia. Eles inventam coisas para mostrar aos turistas porque, quanto mais tempo ficassem com eles, mais ganhavam. Consta que um desses meninos que não conhecia nada da história do crucifixo, mas que já tinha ouvido falar, levou um turista até o Morro de São João dizendo que havia na capela, um crucifixo muito importante, já que ele era muito antigo. O turista então perguntou: “Mas é de que época? ” Como ele não tinha noção nenhuma de história, nem mesmo da história de Jesus Cristo, respondeu: “É muito antigo. Ouvi dizer que é de 1500 anos antes de Cristo”. Quer dizer que, mesmo antes de Cristo morrer na cruz, já havia esse crucifixo, segundo esse garoto.

De doido e louco, todo mundo tem um pouco

Na década de 40 não havia muita organização social em Ouro Preto, por isso havia muitos loucos na cidade. O Chico Bento era um deles. Um louco que morava no bairro Cabeças, onde hoje é a Febem, numa casa velha, desabitada e que já estava em ruínas. Falava o dia todo. Se estivesse conversando com ele e você fosse embora, ele continuava a conversa como se ainda estivesse ali. Nessa época, eu estudava na Escola Dom Pedro II, era menino ainda. Gostava de conversar com ele, achava engraçado. Ele era carregador. Tinha uma voz bonita, elegante. Mas andava todo sujo, descuidado. Um dia ele foi até a minha casa levar um móvel e ficamos batendo papo. Ele falava sobre o céu e o inferno. Perguntei para ele: “Você conhece o céu? ”. E ele respondeu: “Conheço o céu e o inferno”. Fiquei curioso e voltei a perguntar: “Como é lá? ”. Ele com aquela voz forte e bonita disse: “Olha, o céu é aquele silêncio, os santos andando para lá e para cá. Aquela paz. O inferno é muito animado, muita cachaça. Muita música, muito barulho”. Querendo saber mais, questionei: “Como você fez para entrar no céu? ”. E ele, tirando um pedaço de pano do bolso, que eu nem sabia para que ele usava: “Para entrar no céu precisa ter um documento muito forte igual a esse”. E mostrou seu pano. Chico Bento era assim, falava tudo desconexo, mas era um doido que não precisava ter medo.
Havia outro doido, o Canjica, que morava na “Volta do Córrego”, no bairro São Cristóvão. Ele também fazia alguns trabalhos como carregador. Esse era perigoso, diferente do Chico Bento. A mãe dele também era doida, a Samaria das Couves. Eles moravam em um casebre. Pessoas contavam que, de vez em quando, um saía para ir à rua e quando voltava, o outro não queria abrir a porta. Se desentendiam. Para lavar suas roupas, Samaria ia com bacia e tudo até uma bica que ficava em frente a Santa Casa. Uma vez minha mãe, que era muito caridosa e gostava de dar atenção aos mais pobres, passou por lá e, querendo puxar papo com ela, começou a perguntar como ela estava. A Samaria era tão doida que do nada pegou a bacia de água suja jogou na minha mãe.

Repórter: Patrícia Botaro