Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

José Eduardo de Oliveira nasceu em Patos de Minas-MG., em 1954.  Licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto em 1986. Autor do livro, “15 anos em defesa dos bancários: A história do Sindicato dos Bancários de Patos de Minas e Região” (2004) e coautor juntamente com Antônio de Oliveira Mello e Paulo Sérgio Moreira da Silva, do livro “Uma história de exercício da democracia: 140 anos do legislativo patense.” (2006).

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Adeus ao professor John Russel-Wood

 Memórias que viraram corrubianas…

por José Eduardo de Oliveira 

Do dia 17 a 19 de setembro de 2008, participei em Ouro Preto do Seminário Internacional “Administrando impérios: Portugal e Brasil nos séculos XVIII e XIX”. Os seminários, as palestras e os debates aconteceram no salão nobre da Escola de Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto ali na Rua Costa Sena detrás do Museu da Inconfidência. Apesar de ser setembro, garoava, tinha muita neblina e fazia um frio danado. Todos os dias e noites foram assim, uma corrubiana cobria as ruas, as coisas e os homens. À noite essa corrubiana se misturava com a mesma noite e com o álcool e a cidade e tudo o mais se transformavam em telas do pintor Alberto da Veiga Guignard…

Naquela manhã fria do dia 17, a conferência de abertura, “A base moral e ética do Governo Local no Atlântico Luso-Brasileiro durante do Antigo Regime”, fora proferida pelo historiador brasilianista inglês Anthony John R. Russell-Wood.

Russell-Wood ao lado de Charles R. Boxer são considerados os mais importantes brasilianistas ingleses precursores nos estudos sobre o Império colonial português e do Brasil colonial.

O seminário contava com outros importantes historiadores brasileiros e portugueses, mas o nome de A. J. R. Russell-Wood era sem dúvida nenhuma o maior destaque do evento.

Antes da composição da mesa e da abertura do seminário, um pouco receoso e um tanto atrevido dirigi-me ao Prof. Russell-Wood, cumprimentei-o, apresentei-me e pedi que ele autografasse para mim o livro de sua autoria, “Escravos e libertos no Brasil colonial”. Enquanto isso eu fazia o mesmo, com o livro “Uma história de exercício da democracia: 140 anos do Legislativo Patense” em que sou coautor.  Um tanto nervoso, não me recordo hoje o que escrevi na dedicatória. Ele escreveu o seguinte: “Ao Eduardo, companheiro de viagem no percurso da história, abraço cordialmente. John R. Russel-W. 17 de Setembro de 2008”.

O seu livro havia sido publicado em 1982 e só em 2005 havia sido traduzido no Brasil. Eu disse para ele que achava aquilo um absurdo e que a maioria de seus livros e artigos ainda não foram traduzidos aqui. Ele concordou. Disse também que outro livro dele “Fidalgos e Filantropos” sobre a Santa Casa de Misericórdia de Salvador, traduzido e publicado pela UNB em 1981, se encontrava esgotado há muito tempo. Ele riu e disse que há algum tempo esteve na UNB e encontrou a publicação sendo vendida num sebo a dois reais e ele aproveitou e comprou um exemplar.  Eu disse que isso era comum no Brasil e que como ele sabia outro importante livro de seu conterrâneo, Charles R. Boxer, “A idade de ouro no Brasil”, havia tido sua última publicação no Brasil em 1969 e só em 2000 fariam nova edição.

E aí eu já estava muito empolgado e incentivado pela minha “falta de conhecimentos” e já que falamos de Boxer, dei a maior bobeira da manhã ao perguntar se Charles Boxer tinha sido mesmo espião conforme alguns falavam. Russell-Wood mudou de expressão e disse uma coisa que não me lembro bem, mas só tem um sentido em português: “aquilo era uma ignorância total sobre Boxer”.  Aí eu enfiei minha viola no saco e piquei a mula.  O que eu sabia mesmo era que Boxer além ter sido seu mestre foi um de seus inspiradores nos estudos brasileiros. Sua conferência foi excepcional e somente em 2012, ela e a dos outros historiadores do Seminário, foram publicadas no livro, “Administrando impérios; Portugal e Brasil nos séculos XVIII e XIX”, organizados pelos historiadores, Andréa Lisly Gonçalves, Cláudia Maria das Graças chaves e Renato Pinto Venâncio. E também, em 2014, Ângela Domingues e Denise A. Soares de Moura, publicaram “História do Atlântico português” uma importante coletânea de ensaios e artigos de Russell-Wood.

À noite quando eu e meu bando vindos de uma pousada que ficava perto da Mercês de Baixo,  ao atravessarmos o adro da Igreja São Francisco de Assis, deparamo-nos no passeio do Largo do Coimbra, aquele que durante o dia tem artesanato, em meio à chuva fria e a corrubiana, um vulto singular de guarda-chuvas, ali estático olhando a cidade enevoada e que era nada mais nada menos John Russell-Wood, esperando a sua comitiva, dizendo que ainda naquela noite ia beber umas caipirinhas.

Despedimo-nos e antes de virarmos na Rua do Ouvidor rumo ao Bar das Coxinhas na Rua Direita, ainda pudemos vislumbrar o grande Russell-Wood, ali como um fantasma de algum administrador reinol, ou quem sabe como um anjo esculpido pelo Aleijadinho em esteatita negra cujos indefectíveis cabelos brancos foram pintados por Manoel da Costa Ataíde. Depois nós e ele, ele e nós desaparecemos na corrubiana espessa como minha ignorância…

  1. J. R. RUSSEL-WOOD *1939+2010

Em julho de 2010, ao recordar-me deste Seminário Internacional que acontecera em Ouro Preto, lembrei-me daqueles episódios que descrevi acima e não sei porque motivos resolvi descrever o que ocorrera e remeter para o e-mail do Prof. Russell-Wood na Universidade John Hopkins, Baltimore – Maryland nos Estados Unidos. A internet nos permite certas ingênuas veleidades. Jamais pensava em obter uma resposta.

No entanto ela chegou também via internet, na manhã fria e sem corrubianas do dia 17 de um agosto empoeirado e feio: “Dear Colleagues and Friends, It is with deep sadness and regret that I write to inform you of the passing of Dr. Anthony John R. Russell-Wood on August 13, 2010.” Que depois de passado no Google tradutor, lamentavelmente ficou assim, para sempre: “Caros Colegas e Amigos, É com profunda tristeza e pesar que eu escrevo para informá-lo da passagem do Dr. Anthony John R. Russell-Wood a 13 de agosto de 2010.”

Este inglês que morava nos Estados Unidos, escreveu inúmeros livros e artigos e como já dissemos a maioria ainda não foram traduzidos para o Brasil, entretanto, além dos que já citamos dele “Fidalgos e Filantropos; a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755” (1968) e “Escravos e libertos no Brasil colonial” (1982), dentre outros textos traduzidos e que foram e ainda são de fundamental importância para que possamos entender nosso passado colonial estão o livro, “Um mundo em movimento; Os portugueses na África, Ásia e América (1415‑1808)” (1993), e os artigos “Manuel Francisco Lisboa; A Craftsman of the Golden Age of Brazil (Universidade Federal de Um artesão da Idade do Ouro do Brasil” (1968); “Centros e Periferias no Mundo Luso-Brasileiro, 1500-1808” (1997).

Na fria mensagem da Universidade John Hopkins, também estava escrito: “John Russell-Wood, deixa esposa, Hannelore Russell-Wood, os filhos Christopher, Karsten e os netos Isabelle, Elisabeth, Karrigan e Haviland”.

Este amante da História e do Brasil, sobretudo das Histórias das Minas Gerais setecentistas, possivelmente deixou expresso em seu testamento que: “Em vez de flores, contribuições podem ser feitas aos amigos da Johns Hopkins Biblioteca”.

Descanse em paz velho John, a História do Brasil e de Minas Gerais são suas tributárias.

Autor: José Eduardo de Oliveira – Publicado no semanário, Folha Patense, Patos de Minas, 28.08.2010, p. 19, e revisto e atualizado em junho/2018.

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História de uma traição

 Por José Eduardo de Oliveira

Em julho de 1945, o escritor argentino Jorge Luis Borges esteve em Ouro Preto, onde permaneceu por quase um mês. Seus propósitos – segundo ele -, não tinha nada a ver com a carta manuscrita de Gunnar Erjord, que “… elucidava completamente o mistério de Tlön” (Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, In: Ficciones), e que tinha sido carimbada e postada naquela cidade em 1941.

Não que Ouro Preto ou o Brasil significasse alguma coisa para ele, que sempre teve preferência pela América do Norte ou o Oriente em suas narrativas fora da América Latina. A idéia de retomar o “Tema do traidor e do herói” (do livro Ficciones, que depois seria filmado por B. Bertolucci, como “A estratégia da Aranha”) foi que o levou a fazer aquela difícil e penosa viagem, por estradas que até os muares empacavam, em lugar tão remoto, no coração das Minas Gerais. Pois havia lido sobre a “inconfidência mineira” na primeira edição da História do Brasil, de Robert Southey, publicada em inglês em 1810 e gostaria de escrever ou inserir, em uma “História Latino-americana da infâmia” ou em uma outra coletânea, a história não do desditoso, enforcado e heroico Alferes, Joaquim José da Silva Xavier, dito o Tiradentes, mas do execrado Joaquim Silvério do Reis, dito o traidor.  Para ele, o espelho do traidor trazia sempre a imagem do herói, ainda que somente o espelho soubesse disso.

Mas, desta vez quis ir in loco ao cenário real e irreal da trama e conhecer a antiga Villa Rica onde já estiveram outros estrangeiros insignes, tais como o inglês Richard Burton, o francês Saint-Hilaire, ambos no século XIX – o primeiro, aliás, esteve em Meca e seria um dos descobridores da nascente do Nilo. Também, um amigo português, lhe havia falado de um manuscrito do Conde Assumar, o também execrado, que governou Minas por volta de 1720 e que, narrou que ali, “A terra parece que evapora tumultos; a água exala motins; o ouro toca desaforos; destilam liberdade os ares; vomitam insolências as nuvens; influem desordens os astros; o clima é tumba da paz, o berço da rebelião”.

Borges queria sentir o cheiro da “Potosí brasileira”, onde tanta traição e infâmia haviam escrito com ouro, fogo e sangue a história daquela cidade magnífica e espectral. E o cenário da que poderia ter sido a primeira independência brasileira, feita de fato por brasileiros, ou quase, era propício para uma narrativa onde a figura, não do herói Joaquim José – cuja cabeça havia sido exposta em poste de ignomínia na praça central da vila até que o tempo a consumisse – mas do traidor Joaquim Silvério, cuja memória se encontrava submersa em brumas, as mesmas brumas que naquela época do ano eram tão densas e viscosas que podiam ser palpáveis e feriam. As brumas que faziam desaparecer os casarios, os incontáveis campanários, as escarpas talcosas dos arredores e as efígies de homens e animais, ainda que fosse dia. Sim, seu interesse era pelo obscuro português, mas não queria fazer um relato histórico do delator, mesmo porque isso seria quase que impossível por falta de evidências e fontes escritas, pois no Brasil, eles esquecem até mesmo os heróis, quanto mais os traidores. Entretanto, ele queria ser o mais plausível com relação aos verdadeiros motivos da traição de Silvério dos Reis, já que achava pouco provável que ele tenha feito sua delação naquele infausto 1789, apenas para se livrar de dívidas do tempo em que ele era contratador dos direitos de entradas na Capitania de Minas. Apesar de que a delação foi, digamos assim, regiamente compensada e o “Judas” teve o perdão das dívidas e saiu ileso, no entanto teve que se mudar de Minas Gerais e acabou tendo que exilar-se no nordeste brasileiro, contudo, continuou sob a condição de “fiel vassalo”, inclusive com mais de um sobrenome: Montenegro ou Leiria (que até então, diziam, não usava nunca).

Para Borges, o motivo da traição era de natureza mais simples e delicada: era uma traição semântica.  Ou seja, para os mineiros, Silvério dos Reis era um traidor que abortou a república brasileira. Para dos Reis, os brasileiros é que cometiam “o crime de lesa majestade”, já que eram colonos e deviam fidelidade à rainha Maria I, de Portugal, a “inconsiderada”, digamos assim. O significado do traidor e do herói, portanto, não passaria de pontos de vistas e dependeria do enunciador. Se os “inconfidentes”, à maneira dos americanos das 13 colônias, se sentiam lesados, eles também deviam conjurar e se libertar, era esse o espírito do tempo.

No século XVII, outro traidor, Domingos Fernandes Calabar, natural de Porto Calvo, Alagoas, também faria opção e trairia seus conterrâneos. Só que com um detalhe, era brasileiro e se opôs aos brasileiros, ou melhor, aos portugueses-brasileiros (ou luso-brasileiros) em defesa de outros colonizadores, os holandeses. Este episódio, também havia interessado a Borges, sobretudo porque nesta traição, quem foi enforcado não foi o herói que conspirava contra outros colonizadores, mas o traidor que lutava a favor da colonização holandesa. E, diga-se de passagem, se existisse algum tipo de colonização boa, a dos holandeses seguramente, foi considerada melhor para o pardo Calabar.

Borges, dizem, ouviu depoimentos no Hotel Tóffolo onde ficou hospedado. Neste mesmo hotel, de onde podia avistar sobressaltado e irrequieto o portentoso prédio da “Casa dos Contos” onde o poeta Cláudio Manoel da Costa foi encontrado morto no mesmo ano da delação, ele pode concluir perplexo e frustrado, que se ele não fosse embora rapidamente daquelas “incultas brenhas”, era ele que seria enforcado, já que a História já havia acontecido e mais, já estava escrita e que Joaquim Silvério dos Reis tinha feito a delação simplesmente para se ver livre de suas dívidas e receber favores da coroa portuguesa. E que ali, na mesma rua que tinha o nome do herói enforcado, Tiradentes, era inconcebível, outra história, com outro desfecho, ainda que ficcional.  Ali, ouvindo o dobrar dos sinos, o herói seria sempre o herói e o traidor seria sempre o traidor e não valia a pena ser lembrado, quanto mais ser questionado e ainda ser enredo de alguma narrativa. Ainda mais de um “gringo”, meio que quase cego.

Borges, nunca mais voltou ao Brasil. Nunca mais tocou no assunto e suas anotações, seus manuscritos inéditos sobre os “inconfidentes” ou “conjurados” ou “traidores” de Villa Rica, foram lacrados em um envelope de pergaminho e postado ali mesmo para um destinatário ignorado numa tarde brumosa e fria. Naquele dia a névoa era tão espessa que Borges ao retornar para o hotel teve a impressão de que se encontrava no Século XVIII e a qualquer momento surgiria um oficial de cavalaria da tropa paga do regimento de Vila Rica e o levaria preso por conspirar contra a História do Brasil português…

Autor: José Eduardo de Oliveira – Patos de Minas – escrito em 1993 – Uberaba – revisto em 1999 e 2018- Patos de Minas