Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto
Foto de Osmar PuperiA
Osmar Puperi nasceu no Rio Grande do Sul, morou em São Paulo e veio para Ouro Preto para se tornar geólogo pela Escola de Minas. Depois de formado, trabalhou em lugares como Amazônia, Pará, Amapá e Mato Grosso. Voltou para Minas para trabalhar na Mina da Passagem, em Passagem de Mariana. Após a constituição de 1988, onde havia o artigo 43, dizendo que pesquisa mineral e lavra só poderiam ser feita por empresa brasileira de capital nacional, todo dinheiro estrangeiro saiu de cena e ele decidiu parar de lidar com ouro. A partir desse momento, começou a trabalhar com quartzito e fundou a Quartzito do Brasil. Atualmente, após ter passado a empresa para os filhos, abriu uma empresa que lida somente com pedra sabão, e que atua também em Rio Piracicaba, Piranga e Nova Lima.
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Mina do Ouro Podre e o choro da criança

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No século XVIII, por volta de 1648, próximo onde hoje se encontra a empresa Quartzito do Brasil, em Passagem de Mariana, havia uma mina: a Mina do Ouro Podre. Como ela surgiu? Os portugueses, que percorriam o caminho na direção do Rio do Carmo, encontraram muito ouro naquela região e acabaram indo explorar as rochas que ali estavam e acabaram desenvolvendo essa mina. E o curioso é que o contato da rocha itabirito¹ e o quartzito², resultava em um material amarelado, que era chamado de salbanda, e que carregava grande quantidade de ouro.
Os portugueses, bem espertos, lotearam a mina, construíram uma estrutura de mineração, senzalas e começaram a negociar com os escravos. E para lavrar a rocha, eles faziam poços muito fundos, com 30 a 40 metros de profundidade.
Acontece que, quando as pretas escravas ficavam grávidas e tinham seus bebês, já sabiam do destino triste deles. Pensando na dor e no sofrimento que teriam, já que se tornariam escravos quando crescessem, para que não passassem por isso, jogavam seus bebês nesses poços desativados.
Acontece que, depois dessa época, surgiram várias estórias dessas minas. Estórias de dar medo. Muitos contam que aquela região é assombrada. Há pessoas que não conseguem nem entrar nessa mina, de tanto medo, e algumas conseguem até escutar, durante a noite, o choro dessas crianças que foram mortas.

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Capitão Jackes: o protetor das donzelas

Ainda no século XVIII, depois que exploraram a Mina do Ouro Podre, os capitães de mina³ seguiram para outro lugar próximo dali, onde havia uma rocha dura para também explorá-la. O local era onde hoje funciona a Mina da Passagem, lugar em que trabalhei e que aconteciam coisas incríveis, como barulhos estranhos que eram escutados, luzes de equipamentos que apagavam do nada.
Lá havia um capitão de mina que chamava Thomas Tremolar, conhecido na época como Capitão Jackes. Era ele quem desenvolvia o serviço de mineração nessa mina. Ele foi assassinado em Ouro Preto, enquanto protegia uma donzela.
Os antigos contam que, certas moças e senhoras, quando estão andando na Praça Tiradentes, escutam o barulho do trote de um cavalo atrás delas e, quando olham para trás, veem uma pessoa de capa dourada, como se tivesse as seguindo para protegê-las. Dizem que Capitão Jackes, mesmo depois de morto, ainda acha que a Mina de Passagem é dele, e que ele aparece por lá para cobrar sua porcentagem em dinheiro todo mês.
Seu eu fico assustado? Não! Fico é com muita vontade de cumprimentá-lo, e perguntar quanto ele ainda está ganhando ali na Mina.

 Repórter: Patrícia Botaro

Notas do editor:
1 – Rocha Itabirito: O itabirito provém de ação metamórfica sobre depósitos marinhos ricos em ferro e sílica, que em seu estado natural pode ser encontrado em diversas formas diferentes, entre elas o quartzo, o topázio e a ametista.
2 – Rocha Quartzito: Rocha fonte de materiais para tijolos e refratários de sílica, usada na siderurgia e para o preparo do leito de fusão dos altos-fornos. Rocha ornamental utilizada de diferentes maneiras (rústica, talhada, polida, etc).
3 – Capitães de Mina: comandavam a exploração da mina