Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Estórias de Vicente Gomes

 

VICENTE DE PAULA GOMES: 64 anos, é ouro-pretano e respira música desde cedo, já que toda sua família era do meio musical. Acompanhava as serestas que aconteciam na sua casa, em frente à igreja do Rosário, rodeado de instrumentos, como violão, cavaquinho e pandeiro. Da sua janela via os grupos de Congado e Folia de Reis que ali passavam. Assim, Vicente cresceu na música, e aprendeu a tocar cedo. Fez parte de três grandes grupos: Malungos, Turismo Samba Show e o saudoso Viola de Folia, que fazia homenagem às Folias de Reis e Congados. Formado em Artes Cênicas e Técnico em Iluminação e Sonorização Teatral, começou a trabalhar no Teatro Municipal de Ouro Preto, antiga Casa da Ópera, em 1975, onde aprendeu muito com grandes músicos que se apresentavam no local. Sempre ligado à música e não poderia ser diferente, conheceu sua esposa, Maria da Conceição, em um baile. Tem duas filhas. Hoje, aposentado, mas com toda sua experiência na música, Vicente continua se apresentando em Ouro Preto, tocando do rock ao samba, do jeito que ele gosta.

aO fantasma na plateia

Trabalhei no Teatro Municipal por 38 anos e tenho várias histórias de lá. Eu conto essa estória, que aconteceu na década de 90, mas muita gente não acredita. Para montar a iluminação, sempre ia para lá à noite porque preferia fazer esse trabalho depois das 22h, já que estava tudo escuro e em silencio e assim é melhor para montar uma boa luz. Um dia, fui montar um espetáculo infantil, que seria apresentado na parte da manhã. Lá havia uma escada de três metros que a era usada para colocar a luz. Eu desligava tudo e deixava só o foco com a luz branca para “jogar” no local certo. Assim que fiz isso, ficou tudo escuro, em seguida liguei a luz, subi a escada, joguei o foco no chão. Quando olho na plateia, vejo um vulto sentado numa das cadeiras, uma pessoa sentada, olhando para mim na escada. Levei um susto, desci a escada tremendo, em baixo, olhei novamente e não tinha mais ninguém.
Acendi a luz toda e não consegui fazer mais nada. Fui para casa meio ressabiado e só voltei no outro dia de manhã para terminar de montar tudo. Mesmo assim, ficava olhando para o lugar onde vi o vulto para ver se ainda tinha alguém. Não fiquei com medo depois disso. Dormia por lá ainda, quando necessário. Contei para os amigos, alguns acreditaram, outros não. Mas que foi verdade, foi.

Um toque de bacias

No Festival de Inverno de 2000, montamos uma luz para um concerto. Acontece que eu e meus colegas estávamos muito cansados. Assim que acabamos, a orquestra fez seu ensaio. Mesmo cansados, não podíamos sair de lá porque se acontecesse qualquer coisa, a gente teria que resolver. Na hora da apresentação, um senhor, que também estava ajudando na montagem do som, sentou em uma escada que usávamos para colocar a luz que ficava ao lado do palco. E ficava no último andar, onde comandava a iluminação. O teatro ficou lotado na hora do concerto. De repente, ouvimos um barulho muito alto que vinha de trás do palco. Todo mundo ficou olhando sem saber o que estava acontecendo. O senhor que estava na escada, ficou tão cansado, que adormeceu e caiu da escada lá de cima. Uns três metros de altura. Lá embaixo haviam algumas bacias que o pessoal da dança que se apresentou com a orquestra, usou. Ele caiu no meio daquilo, por isso fez um barulho imenso. Uns começaram a rir, outros ficaram preocupados. Ele cortou um pouco a testa. Depois do susto, os artistas pediram desculpa pelo ocorrido e continuaram o espetáculo. Coisas de bastidor!

O bêbado e o pianista

Os banheiros do teatro ficam embaixo do palco e para ir até lá, tem que passar na lateral do palco. Um dia, na hora em que um pianista ia começar sua apresentação, o teatro lotado e em silêncio, eu lá de cima na iluminação, vi quando entrou uma pessoa para ir ao banheiro. Isso era normal, porque só havia aquele banheiro então a gente deixava a pessoa ir até lá. Acontece que ninguém sabia que ele estava bêbado. Quando ele voltou do banheiro, em vez de sair e ir direto se assentar para ver a apresentação que já ia começar, foi até o palco e começou a falar com o pianista na maior altura e abraça-lo. “Você toca muito. Toca pra caramba”, dizia ele. Ele não largava o pianista, que tentava sair fora do bêbado. O pessoal na plateia rindo. Tive que descer para tirar o bêbado de lá. O pianista ficou nervoso e encerrou um concerto com duas músicas. Disse que estava desconcentrado. Algumas pessoas pedindo para que ele tocasse, outros já saindo. Só sei que que ficou todo mundo do lado de fora do teatro rindo do ocorrido.

Repórter: Patrícia Botaro