BREVE HISTÓRIA DE OURO PRETO

Ouro Preto nasce da aventura do desbravamento e ocupação do interior do território brasileiro no período colonial, nos anos finais do século XVII, por exploradores paulistas à procura de ouro e pedras preciosas. O Rio das Velhas, que recolhe o ouro liberado pelo aluvião da Serra do Espinhaço, guia a bandeira de Antônio Dias de Oliveira nas proximidades de suas nascentes, na Cachoeira das Andorinhas, e logo o ouro encontrado, a princípio nas bateias e mundéus, atrai e dissemina o garimpo pelas encostas do Vale do Tripuí. O bandeirante paulista Antônio Dias tinha notícias da região e do Itacolomi e aqui chegou no dia 24 de junho de 1698. Velozmente surgem as primeiras fixações humanas, que terão crescimento a ponto de poucos anos depois, em 1711, já com o nome de Vila Rica, a Coroa Portuguesa, em esforço para maior controle do território, promover a sua elevação a vila, em ato do dia 8 de julho do mesmo ano.
Ouro Preto oferece ao visitante interessado um roteiro natural, que é o caminho histórico traçado pela própria formação de sua malha urbana. Em linha contínua, esse caminho natural começa no bairro Padre Faria, atravessa toda a cidade, passando por seus principais atrativos turísticos, e termina no bairro Cabeças, na saída para Belo Horizonte. Pequenas variações, num e outro lado do percurso, permitem conhecer todo o conjunto urbano, os principais monumentos e edificações e, sobretudo, ver e sentir, concretamente, a evolução da cidade desde seus primórdios. A sua localização em terrenos inadequados e de geologia instável, às margens e nos patamares do “canyon” do Tripuí, em que os caminhos seguem as curvas de nível das elevações, se por um lado gera o caráter intimista da cidade colonial – de ruas estreitas e tortuosas e edificações conurbadas – por outro denuncia a dificuldade primeira na convivência entre preservação arquitetônica e urbanística e vida urbana ativa. Povoa-se, a princípio, um eixo longitudinal, que vai ligando os arraiais primitivos e que tem, como limites, de um lado, o Padre Faria e, de outro, o Rosário, o Pilar e o Cabeças, e se unem no Morro de Santa Quitéria, atual Praça Tiradentes.
O ouro das primeiras coletas, misturado ao vanádio, é chamado de “ouro preto”. Torna-se moeda, fortalece a economia e a poupança popular e favorece a rápida expansão urbana, com construções residenciais. O fausto econômico estimula o surto cultural na arquitetura civil e religiosa, nos ornatos de igrejas, púlpitos e altares, na escultura, na música e na literatura. Calcula-se que, por volta de 1720, a região apresenta uma população de 20 mil habitantes. Entretanto, será sempre difícil a convivência na vila em florescimento cultural, com a administração colonial portuguesa, sempre zelosa do seu quinto do ouro e disposta a reprimir quaisquer tentativas de autonomia.
Os sentimentos, aspirações, valores e identidades centrados na Vila Rica e sua complexidade, mesclam-se no espírito do minerador: aventureiro, ousado e libertário, com o traço da introversão, próprio do sigilo de quem busca ouro e riquezas. Na mineração, é intensa a mão de obra escrava, propiciadora do caldeamento racial. Neste contexto, nasce e floresce o sentimento nativista, precursor da vontade de independência, um sentimento de distinção e diferença, de não identificação com os europeus, que vai se transformando em consciência e reação contra a injusta realidade colonial.

A Inconfidência Mineira

O levante conhecido por Inconfidência Mineira, em 1789, foi o sonho de poetas, padres e militares, que falavam em república, progresso, fábrica de ferro e universidade. Em Vila Rica, principal núcleo do movimento, as ideias dos enciclopedistas e pensadores franceses, que levaram à Revolução Francesa, e o espírito democrático e libertário da Independência Americana de 1776, inspiraram os inconfidentes.
A Inconfidência Mineira foi precursora do movimento da Independência Brasileira, que ocorre trinta anos depois do enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes, no Rio de Janeiro, a 21 de abril de 1792. Tiradentes, principal líder, alferes do Regimento de Cavalaria de Vila Rica, principal propagandista da revolta, réu confesso, apaixonado pela ideia emancipacionista, foi o único condenado à pena de morte, enquanto os outros indiciados foram degredados para a África e os réus eclesiásticos enviados para Lisboa. A ninguém Tiradentes culpou: calmo, resignado, quando a todos, e só não a ele, chegou o perdão da pena de morte.
Nos escritos de Cláudio Manoel da Costa e especialmente Tomás Antônio Gonzaga, expoentes da Arcádia Mineira e inconfidentes, nota-se o espírito rebelde, de nítida inspiração iluminista. As “Cartas Chilenas”, de Gonzaga, então ouvidor de Vila Rica, poemas satíricos apócrifos, fornecem informações essenciais para a compreensão da sociedade dos anos finais do século XVIII.
Tomás Antônio Gonzaga escreveu o livro de poemas Marília de Dirceu, em estilo arcadista. O nome faz referência à paixão de Gonzaga, quando contava 40 anos, por Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, muito jovem e bela. A desaprovação desse relacionamento pela família da moça o afasta dela e inspira a obra, chamando-a Marília, e a si, Dirceu. A família acaba por ceder e o casamento foi marcado, porém, antes do casamento, Gonzaga foi preso por acusação de participar da Inconfidência; levado ao Rio de Janeiro, preso e anos depois exilado em Moçambique. Nunca mais tornaram a se ver. Fiel à lembrança do noivo, Marília de Dirceu viveu em Ouro Preto até o final da sua vida. Foi enterrada na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, igreja que frequentava.

A Mudança da Capital

Com a inauguração da nova capital, Belo Horizonte, em dezembro de 1897, Ouro Preto perde posição e população. Calcula-se que até 12 mil pessoas, funcionários públicos e familiares, transferiram-se para a nova capital e a velha cidade inicia novo período de abandono. A cidade fica estagnada por décadas, mas será este o fator que fará com que seja preservada, conservando seus velhos casarões, que se mantêm inalterados justamente porque a população não tinha recursos para intervenções ou desfigurações.

Patrimônio Cultural

Ouro Preto foi declarada Monumento Nacional em 1933, mas são os modernistas brasileiros os responsáveis por relançar Ouro Preto no cenário cultural brasileiro, quando redescobrem que na velha Vila Rica encontravam-se as raízes de uma cultura original brasileira, um verdadeiro museu, com acervo precioso de obras de arte, com características e estéticas próprias, como também um conjunto urbano setecentista preservado, uma história povoada de heróis e mártires, poetas e literatos, altiva e libertária, participante e influente em todos os grandes episódios de construção da nacionalidade brasileira. Em 1938, foi tombada pelo IPHAN e em 1980 a UNESCO inscreve Ouro Preto na lista das cidades com o título de “Patrimônio Cultural da Humanidade”.
Três séculos depois, com seu núcleo histórico setecentista ainda bastante preservado, embora afligida pelos problemas da ocupação em terrenos íngremes e instáveis, Ouro Preto continua a encantar os visitantes e “espanta pela unidade do conjunto, imagem de uma civilização talhada nas asperezas da serra e da pedra, nascida do trabalho e da ventura, em determinadas circunstâncias históricas, filha das batalhas do povo contra as tiranias, do sentimento nacional contra o despotismo”. (SALES, Fritz Teixeira. Vila Rica do Pilar; 1965).

O Barroco

O barroco foi um estilo artístico que surgiu na Itália, no século XVII, e se caracterizou pelas obras rebuscadas e luxuosas. No Brasil esteve associado principalmente à religião católica, mas incorporou elementos das culturas indígena e africana, além de adotar matéria-prima brasileira, como a pedra-sabão. Além das artes plásticas, o estilo também se manifestou na literatura, na música e no teatro. Minas Gerais era, na época, uma região enriquecida pelo ouro. Aqui se concentrou grande parte da produção artística do barroco. A versão desse estilo artístico que se desenvolveu na região tornou-se conhecida como barroco mineiro.

O Rococó

O rococó foi um movimento artístico surgido na França, no início do século XVIII. O termo vem do francês rocaille, que quer dizer rocalha, concha. Na arquitetura, foi utilizado na ornamentação de interiores, fazendo uso de arabescos, laços, flores e volutas. Sua marca é a suavização das formas, dando-lhes leveza e elegância, buscando alcançar o deleite visual. Revelou acentuado gosto pelo exótico, como o uso de elementos decorativos orientais.
No Brasil, o rococó é considerado uma das fases do barroco, por ter se desenvolvido paralelamente à sobrevivência desse estilo. No final do século XVIII, o rococó dominou efetivamente a decoração interna das igrejas mineiras, onde a pesada opulência barroca cedeu lugar ao luxuoso requinte das composições ornamentais sobre fundos claros, tendo as rocalhas assimétricas como tema principal.

 Antônio Francisco Lisboa – O Aleijadinho

Nasceu em 1738, em Ouro Preto, encontrou e conviveu com formidável grupo de construtores, mestres pedreiros, artesãos, entalhadores e ornamentistas, pintores, músicos, nativos ou portugueses. Aleijadinho é considerado o mais importante artista brasileiro do período colonial. Recebeu do pai as primeiras noções de desenho, arquitetura e escultura. Antes dos 50 anos de idade é acometido por uma doença degenerativa, que deforma e atrofia seu corpo, desencadeando a perda progressiva do movimento dos dedos das mãos e dos pés. Passa a trabalhar com os instrumentos atados às mãos por seus escravos, que o carregam até os locais de trabalho. No conjunto de sua obra destacam-se os projetos das igrejas de São Francisco de Assis, em Ouro Preto; as 66 imagens de cedro dos Passos da Paixão e os 12 profetas de pedra-sabão, para o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais.

 Manuel da Costa Athayde

Manuel da Costa Ataíde nasceu em 1762, na cidade de Mariana. Conhecido como mestre Ataíde, foi um dos pintores e douradores brasileiros mais importantes de sua época. Este significativo criador do período barroco de Minas Gerais legou à posteridade vários painéis e quadros elaborados em 18 santuários mineiros; sua herança mais célebre é a pintura da elevação de Maria aos céus na abóbada da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Ataíde dourou e encarnou obras de Aleijadinho, as quais ocuparam um espaço importante na Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo.
Um dos traços dominantes em sua produção é o uso de colorações vivazes, particularmente o azul, cor predileta. Nos seus trabalhos, as criaturas angélicas, madonas e seres santificados aparecem revestidos de qualidades típicas das civilizações africanas.
Textos extraídos de WERKEMA, Mauro. História, Arte e Sonho na Formação de Minas (2009) e Ouro Preto: 300 anos de História, Arte e Civismo in: Ouro Preto 300 anos de Imagem (2011).