Coluna do
Neste local será possível mostrar textos de maior amplitude com certos ângulos, detalhes ou eventos e equipamentos históricos relevantes da cidade, que merecem um pouco de aprofundamento pela sua importância cultural. O primeiro será uma apresentação da história do Zé Pereira Club dos Lacaios, oriunda de uma dissertação de mestrado que teve esse tema como foco.

Zé Pereira do Club dos Lacaios

O Bloco Zé Pereira do Club dos Lacaios completa, em 2017, 150 anos de existência. A agremiação carnavalesca surgiu da ideia de um português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes, que desfilou pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro com foliões e músicos da época no carnaval. Quando José Nogueira foi transferido para trabalhar no Palácio do Governo em Ouro Preto, criou, em 1867, o bloco que é símbolo do carnaval da cidade, formado na época por empregados do palácio. Produziram bonecos em gesso, papel machê e taquara, com roupas parecidas com as que os lacaios (mordomos) vestiam: fraque e cartola. Hoje o bloco mais tradicional de Ouro Preto conta com cerca de 70 membros, além de baterias e bonecos gigantes, como o Catitão, a Baiana e o Benedito.

Apresentamos aqui, um artigo feito por Jefferson Rocha, integrante e tocador de Clarim do Zé Pereira dos Lacaios.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Resgaste: A volta dos Clarins e das Lanternas no Zé Pereira

por Jefferson Rocha

No aniversário da cidade de Ouro Preto, a Agremiação Folclórica Club Zé Pereira dos Lacaios saiu pelas ruas da cidade com os três bonecos mais antigos – “Catitão”, “Baiana” e “Benedito”. Foram levadas ao som de suas caixas e bombosas lanternas e os clarins, além dos bonecos.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

No dia da comemoração dos 319 anos da cidade, os clarins fizeram soar novamente as antigas clarinadas que anunciavam a saída e a chegada do Zé Pereira nas ruas.

Sendo assim, proponho escrever sobre a volta das lanternas e dos clarins no Zé Pereira a partir de julho deste ano (2017), em especial, na data do aniversário dessa cidade.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Há alguns anos os trompetes substituíram os clarins no Zé Pereira, inclusive no carnaval deste ano, ainda sim, tocaram-se os trompetes. Já os clarins são instrumentos mais agudos que os trompetes. Os clarins militares são menores e os “medievais” são até maiores que os trompetes, porém de espessura fina com sons bem agudos (sons finos/altos). Os clarins do Zé Pereira são réplicas dos “militares”, portanto menores. E ao mesmo tempo, réplica das cornetas das fanfarras.

O idealizador desse resgate foi o atual presidente Arthur Carneiro – um jovem sonhador e apaixonado por essa agremiação que caminha para o bicentenário.

Um ponto que também me levou a compor essas palavras diz respeito à tradição e como essa palavra, assim como o lendário Club dos Lacaios, passeia por essa cidade. Tradição conforme uma linha de movimento, não se conserva no tempo. Ela anda, caminha, contorna, retorna, desliza, sobe e desce no campo semântico do termo. Deste modo, tradição é dinâmica.

Há 150 anos essa agremiação era muito diferente de hoje. A população ouro-pretana era outra, as ruas eram outras, a cultura no geral era outra. E o único jeito de se manter a tradição, não no sentido estático do termo, é caminhando sob essas mudanças. Mudanças que se fazem necessárias no dia-a-dia, tanto no campo geográfico, no turístico, no político, no econômico e no cultural. Mudanças essas que são inevitáveis, mas que, com muita luta tentaram no mínimo reinventar o já inventado, conservando em novos acordes os sons antigos. Reinterpretando velhos costumes na tonalidade do agora. Ressignificando suas práticas dentro de algumas limitações e entendimentos. E assim, essa agremiação que é Club, bloco e tradição, continua por passear sonoramente e esteticamente pela cidade tricentenária.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Eu como clarinetista do Zé Pereira sinto uma mistura de carnaval e procissão, sobretudo, com as saídas das lanternas. Durante a composição deste texto, tocando com o Zé Pereira, cheguei a comentar essa minha sensação, mistura de carnaval com procissão, com uma pessoa (Chiquinho de Assis) e ela me disse que representava o barroco. Conflito entre sagrado e profano. Logo fez sentido, primeiro porque sou ouro-pretano e admirador da cidade que traz uma forte sensação barroca. E segundo, porque estudo um filósofo romeno de nome Mircea Eliade, que escrevera obras sobre o relativo sagrado e profano em suas pesquisas sobre símbolos religiosos. O que se aplica muito nesta minha cidade.

Enfim, os clarins que trazem à tona a era medieval e a anunciação sob os cavalos. As lanternas que clareavam uma cidade que ainda não conhecia os postes e que aludiam ao sagrado são, de sobremodo, um toque diferencial nesse “Bloco” gigante. É mais do que carnavalesco, é mais do que lúdico. É tradição barroca, ressignificada, que, quiçá perdurará por mais séculos por essa Ouro Preto.

Zé Pereira foi minha primeira escola de música. Antes mesmo de sair nele, já o batucava nas latas na rua de minha casa com outros amigos. Fazíamos os bonecos com vassouras velhas. O Zé Pereira, os sinos/torres desta cidade, e os atabaques dos terreiros e capoeiras me levaram ao estudo formal da música. Hoje sou músico da Banda do Rosário, ainda sineiro, clarinetista no Zé Pereira, compositor e arranjador.

OUROPRETOCULTURAL | ACESSO RÁPIDO

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