Coluna do
Neste local será possível mostrar textos e vídeos de maior amplitude com certos ângulos, detalhes ou eventos e equipamentos históricos relevantes da cidade, que merecem um pouco de aprofundamento pela sua importância cultural. O primeiro será uma apresentação da história do Zé Pereira Club dos Lacaios, oriunda de uma dissertação de mestrado que teve esse tema como foco. Na sequência, fragmentos do livro Ouro Preto – Olhar Poético, escrito e ilustrado pelo artista Carlos Bracher. Além da série Eu também sou Patrimônio, produzida pela TV UFOP, que retrata a trajetória de vida de moradores de Ouro Preto, ligando suas histórias com o contexto arquitetônico da cidade.

Eu também sou Patrimônio 

A partir desta semana, o ouropretocultural passa a publicar a série Eu também sou Patrimônio, produzida pela TV UFOP. O patrimônio de uma cidade vai além de sua arquitetura e cultura, pois ambos são construídos também pelo seu patrimônio humano e imaterial. Nosso Patrimônio é um programa da TV UFOP que retrata a trajetória de vida de moradores de Ouro Preto, ligando suas histórias com o contexto arquitetônico da cidade. O programa colabora com a valorização do patrimônio histórico e mostra a dinâmica cultural local ao revelar o envolvimento das pessoas na manutenção da história da antiga Vila Rica.

Este programa foi financiado pelo Fundo Estadual de Cultura.

Eu também Sou Patrimônio 

Ângela Maria Ferreira – Casa dos Contos

Neste episódio você conhece a trajetória de Ângela Maria Ferreira e sua história com a Casa dos Contos.

Roteiro turístico e poético de Ouro Preto

Carlos Bracher é um pintor e artista apaixonado por Ouro Preto e uma de suas inúmeras obras é justamente “Ouro Preto-Olhar Poético”, onde os principais pontos da cidade são revisitados  com texto e imagem preparados para nos encantar. Com a sensibilidade dos grandes artistas Carlos Bracher nos convida por uma passeio especial pela cidade tricentenária que ele escolheu para viver, amar, pintar e descrever. Agora a Revista Ouro Preto Cultural vai presentear seus leitores, quinzenalmente, com  este belíssimo trabalho pelos recantos de Ouro Preto.

Capa do livro Olhar Poético do Carlos Bracher 3

Casa de Gonzaga

Foto_olhar_poético_bracher_casa_de_gonzagaNa Rua Cláudio Manuel ou do Ouvidor, no número 61, residiu (de 1782 a 1788) um dos homens mais proeminentes de Vila Rica, o ouvidor e poeta da maior expressão, Tomás Antônio Gonzaga, em cuja casa reunia-se a fina flor da intelectualidade da época. Inconfidente da primeira hora, torna-se um dos principais articuladores do movimento e viria a ser o primeiro governante caso desse certo a Inconfidência. Foi preso uma semana antes do seu casamento com a amada Marília.

Ao lado de sua residência morava o tenente Luis Antônio Velasco Saião, casado com Antônia Cláudia Cassimira de Seixas, tios de Marília, em casa de quem Gonzaga veio a conhecê-la. Após o episódio da Inconfidência, o poeta foi degredado para Moçambique, África, vindo morrer em 1810, há exatos 200 anos. No rico solar de generosos jardins internos, funciona atualmente a Secretaria de Cultura da Prefeitura. A casa é o local de onde Gonzaga descortinava deslumbrante cenário: à esquerda, a casa de sua Marília ao longe; à frente, o Pico do Itacolomi, a Igreja de São Francisco e o prédio construído em 1747 (hoje Hotel Mondego), antiga sede do Colégio Assunção, onde se instalou a primeira Escola de Farmácia do Brasil, em 1839.

Subindo seu olhar à direita, Gonzaga se defrontava com a torre em construção da Casa de Câmara e Cadeia. Em 1786, escreve as sigilosas Cartas Chilenas, atacando violentamente o governador Luiz da Cunha Meneses (“O Fanfarrão Minésio”), por abusos e desumanidades durante a construção do prédio da cadeia. Aqueles seres, como habitavam essas casas, como povoavam esses quartos, com que sentimentos, sonhos, reservas, desejos? Nessas paredes tardias persistem murmúrios, vozes silenciosas de outrora. Tais moradas são feitas de vultos, mistérios insondáveis de um relevo intangível. Às vezes vemos ou pressentimos espectros, nesses chãos habitados por ecos. Na Lira XXI, Verso I, lamenta-se Gonzaga:

Que diversas que são, Marília, as horas,

Que passo na masmorra imunda e feia,

Dessas horas felizes, já passadas

Na tua pátria aldeia!

Museu da Inconfidência 

Antiga Casa de Câmara e Cadeia

Foto do Museu da Inconfidência do livro Olhar PoéticoSão tantas pedras, largas e altas, róseas e fundas, formando um só bloco monolítico, parecendo-se, de tão certas, um só pedaço desbastado, de tanto apuro. Os operários de cantaria que as fizeram eram exímios, como ourives. Quanto suor, quanta ciência! Subir essas escadas, tatear as mãos na rugosidade granítica remonta-nos não só aos que as fizeram, quanto aos presos que nelas sangraram seus dias, devastados, dilacerados na solidão das graves grades, apunhalados na sensação de habitar lugar inexpugnável. Acima, os legisladores, livres e soltos, subindo a escada interna, larga da majestade. É sempre assim, a eterna luta humana, as diferenças, desigualdades.

Hoje, o museu não mais guarda homens, mas objetos, peças, móveis, armários, candeeiros, aldravas, tramelas, luminárias, mesas, cadeiras, liteiras, telhas, telhados, canos, encanamentos, espingardas, pistolas, trabucos, quadros, projetos, desenhos, formas, formas tantas de tudo, quase tudo. Mas, sobretudo, o espaço não material, imaterial das células nacionais neste solo de pedras frias, chão guardando o calor dos sonhos – o Panteão da Inconfidência. Tiradentes reverte-se no tronco gélido, inerte, abaixo da bandeira vermelha e branca, a dizer como antes: “Adeus, minha Pátria, vou trabalhar para todos” –, carregando os restos dos que ali estão ao lado seu, os companheiros de lutas, também inertes na campa, os restos africanos dos degredados, feridos por deixarem o torrão dos sonhos. Mas voltaram, todos voltaram, no silêncio obscuro dos ossos, para o sepulcro da eternidade.

Em metal, Tiradentes lá está, na praça, na visagem imemorial quando os tempos restabelecem os grandes círculos, os grandes símbolos, sobretudo é o principal deles – a liberdade. Maciel trouxe a centelha republicana e tantos outros a entenderam, supliciando a si próprios, o próprio ser, a própria vida.

Antigo Palácio dos Governadores

Foto Olhar Poético Antigo Palácio dos GovernadoresOs brancos espaços gloriosos se lançam sobre a praça, guardando os governadores no Palácio, isolando-os acintosamente da plebe. Implantando nas faldas da serra, se escorre imponente da rampa e dos altos muros inclinados, dando-lhe feição algo militar, acentuada por quatro guaritas cilíndricas equidistantes.

O Palácio fica a sobranceiro, observando os dois vales laterais e as serras à sua frente. Os governadores espiavam os povos e as gentes de cima para baixo, com o devido distanciamento. Maestro das ideias, o brigadeiro, arquiteto e engenheiro militar, José Fernandes Alpoim, o projeta em 1741 e o bom governador Gomes Freire de Andrade o constrói. Manuel Francisco Lisboa arremata a contratação da obra, para fazê-la em pedra e cal. O próprio Alpoim descreveu os detalhes ao arrematante:

“As paredes desta obra até o vigamento serão de quatro palmos de grosso cujo pé direito começando a contar da porta principal terá vinte dois palmos craveiros e incluindo nessa altura levará um cordão de cantaria com um palmo de alto, outro de sacada como o das fortificações que cercará em roda toda a obra de cortinas flancos e faces. Nos ângulos flanqueados dos quatro baluartes haverá em cada um uma guarita redonda, fundada sobre seu pião”.

Por aqui passaram governadores diversificados e contraditórios: rudes, cruéis, injustos e apenas um justo, Gomes Freire, conhecido como conde de Bobadela, torna-se o melhor e o mais eficiente. De 1733 a 1763 faz pontes para transpor; chafarizes não apenas para compor, mas para jorrar água sem fim das fontes; também os arruamentos necessários, embelezamentos gerais e as benfeitorias públicas vigentes até hoje.

Depois da mudança da capital para Belo Horizonte (1897), o Palácio recebe, por mais de 100 anos a Escola de Minas, exercendo no prédio a glória de sua história. Nele encontram-se bela biblioteca de livros raros e o Museu de Mineralogia, riquíssimo acervo de pedras colhidas em todos os cantos da terra e considerado o segundo maior do mundo, após o de Amsterdam. A visita ao museu é absolutamente imperdível para quem aprecia gemas e minerais, no delírio de cores e formas prismáticas gestadas pela imbatível estética da natureza.

Praça Tiradentes

 

Foto do livro Olhar Poético

Da praça, a perspectiva do olhar lança-nos ao Pico do Itacolomi, entrecortado por sobrados, o museu, a torre, as quatro estátuas encimando os cantos laterais e o Carmo emprestando suas duas torres, acentuando-se a altiva conjugação de elementos verticalizados, com a presença triunfal do Tiradentes dando costas ao palácio.

Tênue fio de horizontalidade invisível une os dois Tiradentes, olhando-se entre si: o do bloco pétreo de mártir, no interior do panteão, e o do obelisco na praça. Miram-se e se veem, firmes, na intactilidade inviolável de quem jamais renegou os ideais.

Cívico e lírico, o cenário revivifica-se na intrepidez do homem que retorna para onde esteve um dia sua cabeça. Retorna em bronze para ficar, pelos tempos e tempestades, contemplando ao longe as montanhas visíveis e ocultas que lhe invadiram o peito de tanta coragem.

Tiradentes vê por sobre tudo e todos, deixando-se solopar não mais pelos homens, senão pelas chuvas, os choques e ventos, relentos insondáveis das intempéries noturnas. Fato raro numa praça de tal imponência é a não inclusão direta de igrejas, quando o Carmo não participa gloriosamente da cena, intervindo apenas com sua lateral, ainda assim num canto.

De quem entre na praça, à direita está o correr de casas geminadas do grande arquiteto Alpoim, desenvolvendo uma sequência ritmada de sacadas, portas e janelas, algumas destas de propósito “cegas”, num sobe e desce de alturas e proporções, mantendo o nivelamento continuado do telhado, contrastando-se com o caimento da praça.

Vendo-se de frente, o Conjunto Alpoim é um quadro de artística composição entre vazados e não vazados, que certamente Modrian assim o compusesse. Demais sobrados compõem a praça: Casa da Baronesa, no número 35 (do barão de Camargos, hoje sede do Iphan); a Câmara Municipal, no número 41 (onde Niemeyer se inspirou para a colunata); o casarão do antigo Hotel Pilão, no número 4, ora construído pela FIEMG, onde são feitas exposições e se encontra um café com agradáveis mesas e a Livraria Cultural do Paulo Lemos. No prédio funciona um ponto de guias de turismo. Quem quiser ser bem atendido, que solicite os préstimos de um deles, prontos a explicar, inclusive em diversas línguas, as histórias e lendas de Ouro Preto.

Terminando o circuito dos casarões da praça, no número 52/54 encontra-se a casa do último governados de Minas colonial, D. Manoel de Portugal e Castro, no posto entre 1814 e 1822. Na sacada, se lê a inscrição: “Para eterna memória do benefício imortal, teu nome fica neste metal”.

Zé Pereira do Club dos Lacaios

O Bloco Zé Pereira do Club dos Lacaios completa, em 2017, 150 anos de existência. A agremiação carnavalesca surgiu da ideia de um português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes, que desfilou pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro com foliões e músicos da época no carnaval. Quando José Nogueira foi transferido para trabalhar no Palácio do Governo em Ouro Preto, criou, em 1867, o bloco que é símbolo do carnaval da cidade, formado na época por empregados do palácio. Produziram bonecos em gesso, papel machê e taquara, com roupas parecidas com as que os lacaios (mordomos) vestiam: fraque e cartola. Hoje o bloco mais tradicional de Ouro Preto conta com cerca de 70 membros, além de baterias e bonecos gigantes, como o Catitão, a Baiana e o Benedito.

Apresentamos aqui, por hora, um artigo do turismólogo e estudante de museologia Marco Antonio Leite Brandão e outro feito por Jefferson Rocha, integrante e tocador de Clarim do Zé Pereira dos Lacaios.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

ZÉ PEREIRA DO CLUB DOS LACAIOS: Do carnaval DE Ouro Preto ao Carnaval EM Ouro Preto

por Marco Antonio Leite Brandão

No dia 01/01/2017 os ouro-pretanos puderam conferir desfile do Zé Pereira do Club dos Lacaios (ZPCL) com um condimento especial: celebração oficial de 150 anos (1867-2017) de existência.

Embora o ZPCL,  agremiação folclórico-carnavalesca,  seja uma página singular da história cultural e social de Ouro Preto (Minas Gerais), até o presente não havia qualquer pesquisa, acadêmica ou não, que apresentasse uma leitura integral de sua longa trajetória. O trabalho realizado permitiu uma leitura panorâmica sobre o Carnaval DE & EM Ouro Preto e em particular sobre o ZPCL. No contexto do século XIX verificou-se também a questão do Entrudo.

Particularmente entre 1857, ano do primeiro carnaval em Ouro Preto (fato documentado no Correio Official de Minas (Ano I, n.10, 09; 02; n. 19, 12/03/1857) e meados do século XX são franciscanas as informações levantadas e sistematizadas sobre os folguedos de Momo e, especificamente, a digital do ZPCL).  A origem da versão carioca do folguedo Zé Pereira, adaptação de festejo português, ainda encontra-se em questão aberta entre os especialistas: 1846? 1850? 1852, mas até pelo menos 1873 não localizamos  na imprensa mineira, menção de sua existência entre os foliões locais, apenas Entrudo e Carnaval.

Na pesquisa procuramos corrigir e elucidar algumas versões correntes  sobre as origens da tradicional agremiação e fundamentar/legitimar, documentalmente, as raízes do ZPCL nO Zé Pereira Carnavalesco, espetáculo produzido por Francisco Correia Vasques (1839-1892), apresentado em 03/07/1869 no Teatro  Phoenix Dramático (RJ),  paródia do musical de Les Pompiers de Nanterre (Os bombeiros de Nanterre), produzido  por Louis-Claude Desormes (1840-1898). Em 08/11/1873 amadores ouro-pretanos encenaram O Zé Pereira Carnavalesco no Teatro Municipal. Na versão do espetáculo  montada em 1878.  Deste fato têm raízes o tema musical  do Zé Pereira e que se consolidou como ícone do carnaval no Brasil e  se tornou marca registrada do Zé Pereira do Club dos Lacaios. Ou seja, documentalmente confirmado, tem-se que de 1873 a 1898 o Zé Pereira já se consolidara como expressão dos festejos de Momo em Ouro Preto. Em 1898 é que, pela primeira vez, aparece na impressa Zé Pereira do Club dos Lacaios. Todo o processo foi esmiuçado ao longo da pesquisa. Para nossa fortuna entre 1857 e 1900 todos os carnavais estão registrados nos inúmeros periódicos da antiga capital mineira e assim foi possível investigar ano a ano a versão publicada na imprensa do Entrudo e Carnaval no século XIX.

Sobre o carnaval ouro-pretano  e a comunidade estudantil nas últimas duas décadas, tem-se expressiva produção de estudos sob cânones acadêmicos que apresentam panorama e análise sobre o  câmbio do complexo que definimos como Carnaval DE Ouro Preto (organizado por e para a comunidade nativa) ao Carnaval EM Ouro Preto (para fruição do consumidor turista). No contexto desse trânsito avaliamos o protesto protagonizado pelo ZPCL em 2013, episódio que julgamos seminal em sua história e do carnaval ouro-pretano: após ingressar na Praça Tiradentes postou-se em silêncio, virou de costas para o imenso palco  e em seguida manifestou seu descontentamento. No dia anterior o ZPCL não conseguiu adentrar a Praça Tiradentes para oficialmente abrir o Carnaval. Mais que mera falha da organização do evento, o episódio explicita e espelha, a nosso ver,  a hegemonização do Carnaval EM Ouro Preto, que os nativos apelidaram como Carnaval DAS Repúblicas ou Carnaval DA Cerveja.

Inicialmente procuramos conferir capilaridade e interação entre o que denominamos Ouro Preto Cidade Acadêmica / Festa do 12 / Casa de Gorceix  &  Carnaval DE Ouro Preto em correlação com  sua interação com a comunidade local;  e o câmbio para a Ouro Preto Cidade Universitária / Festa do 12 da UFOP & Carnaval EM Ouro Preto / Carnaval DAS Repúblicas / Carnaval DA Cerveja / interação com o consumidor turista. Casa de Gorceix é como carinhosamente os acadêmicos referiam-se à instituição Escola de Minas. O fato que identificamos como referência que marca o descolamento entre esses dois contextos paradigmáticos deu-se em 1976: o Bloco do Caixão (cortejo criado em 1966) da República Necrotério (1958) deixou de desfilar após o baile da Festa do 12 Casa de Gorceix e passou a integrar os festejos de Carnaval; e ano do centenário da Escola de Minas. Em seguida avaliamos leitura panorâmica do tríduo de Momo em Ouro Preto de 1857 aos dias atuais tendo como perspectiva apreender a emergência e evolução do ZPCL. Para o período 1857-1902 os registros compilados da imprensa mineira foram as principais fontes de referência; na primeira metade do século destacamos os registros memorialísticos (livros de memórias, crônicas, entrevistas de antigos moradores já publicadas) e na segunda pautou-se fundamentalmente no levantamento e exegese de registros de memória oral, sobretudo com membros que identificamos com orgânicos do ZPCL e da comunidade cultural ouro-pretana.

Essencialmente, a nosso ver, o ano de 1997 é o que, cronologicamente, marca o câmbio para o que a população ouro-pretana passou a denominar como Carnaval Das Repúblicas e Carnaval da Cerveja. Trata-se do trânsito do Carnaval DE Ouro Preto ao Carnaval EM Ouro Preto.  E basta ao leitor conferir o fato de que o Carnaval de 2017 teve efetivamente  como patrocinadores os recursos mobilizados pelas Repúblicas, cerca de 1/3 do investimento e por duas empresas. A imagem do ZPCL, mais uma vez usada, como valor de troca para a venda do tradicional carnaval DE Ouro Preto…

Concluímos o trabalho com sugestões com perspectiva de que possam contribuir para que a comunidade do  ZPCL possa melhor perceber-se no contexto do Carnaval EM Ouro Preto.

Resgaste: A volta dos Clarins e das Lanternas no Zé Pereira

por Jefferson Rocha

No aniversário da cidade de Ouro Preto, a Agremiação Folclórica Club Zé Pereira dos Lacaios saiu pelas ruas da cidade com os três bonecos mais antigos – “Catitão”, “Baiana” e “Benedito”. Foram levadas ao som de suas caixas e bombosas lanternas e os clarins, além dos bonecos.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

No dia da comemoração dos 319 anos da cidade, os clarins fizeram soar novamente as antigas clarinadas que anunciavam a saída e a chegada do Zé Pereira nas ruas.

Sendo assim, proponho escrever sobre a volta das lanternas e dos clarins no Zé Pereira a partir de julho deste ano (2017), em especial, na data do aniversário dessa cidade.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Há alguns anos os trompetes substituíram os clarins no Zé Pereira, inclusive no carnaval deste ano, ainda sim, tocaram-se os trompetes. Já os clarins são instrumentos mais agudos que os trompetes. Os clarins militares são menores e os “medievais” são até maiores que os trompetes, porém de espessura fina com sons bem agudos (sons finos/altos). Os clarins do Zé Pereira são réplicas dos “militares”, portanto menores. E ao mesmo tempo, réplica das cornetas das fanfarras.

O idealizador desse resgate foi o atual presidente Arthur Carneiro – um jovem sonhador e apaixonado por essa agremiação que caminha para o bicentenário.

Um ponto que também me levou a compor essas palavras diz respeito à tradição e como essa palavra, assim como o lendário Club dos Lacaios, passeia por essa cidade. Tradição conforme uma linha de movimento, não se conserva no tempo. Ela anda, caminha, contorna, retorna, desliza, sobe e desce no campo semântico do termo. Deste modo, tradição é dinâmica.

Há 150 anos essa agremiação era muito diferente de hoje. A população ouro-pretana era outra, as ruas eram outras, a cultura no geral era outra. E o único jeito de se manter a tradição, não no sentido estático do termo, é caminhando sob essas mudanças. Mudanças que se fazem necessárias no dia-a-dia, tanto no campo geográfico, no turístico, no político, no econômico e no cultural. Mudanças essas que são inevitáveis, mas que, com muita luta tentaram no mínimo reinventar o já inventado, conservando em novos acordes os sons antigos. Reinterpretando velhos costumes na tonalidade do agora. Ressignificando suas práticas dentro de algumas limitações e entendimentos. E assim, essa agremiação que é Club, bloco e tradição, continua por passear sonoramente e esteticamente pela cidade tricentenária.

Zé Pereira dos Lacaios, Ouro Preto

Eu como clarinetista do Zé Pereira sinto uma mistura de carnaval e procissão, sobretudo, com as saídas das lanternas. Durante a composição deste texto, tocando com o Zé Pereira, cheguei a comentar essa minha sensação, mistura de carnaval com procissão, com uma pessoa (Chiquinho de Assis) e ela me disse que representava o barroco. Conflito entre sagrado e profano. Logo fez sentido, primeiro porque sou ouro-pretano e admirador da cidade que traz uma forte sensação barroca. E segundo, porque estudo um filósofo romeno de nome Mircea Eliade, que escrevera obras sobre o relativo sagrado e profano em suas pesquisas sobre símbolos religiosos. O que se aplica muito nesta minha cidade.

Enfim, os clarins que trazem à tona a era medieval e a anunciação sob os cavalos. As lanternas que clareavam uma cidade que ainda não conhecia os postes e que aludiam ao sagrado são, de sobremodo, um toque diferencial nesse “Bloco” gigante. É mais do que carnavalesco, é mais do que lúdico. É tradição barroca, ressignificada, que, quiçá perdurará por mais séculos por essa Ouro Preto.

Zé Pereira foi minha primeira escola de música. Antes mesmo de sair nele, já o batucava nas latas na rua de minha casa com outros amigos. Fazíamos os bonecos com vassouras velhas. O Zé Pereira, os sinos/torres desta cidade, e os atabaques dos terreiros e capoeiras me levaram ao estudo formal da música. Hoje sou músico da Banda do Rosário, ainda sineiro, clarinetista no Zé Pereira, compositor e arranjador.

OUROPRETOCULTURAL | ACESSO RÁPIDO

fevereiro