Estórias que o povo de Ouro Preto conta
Os cidadãos de Ouro Preto têm muito para contar sobre a cidade, assim vamos coletar estas estórias (e as fotografias e imagens pertinentes) passadas na tradição oral e registrá-las aqui para que formem um conjunto de vivências das pessoas do lugar.

Estórias de Dimas Guedes
Fotógrafo

Nello Nuno e a exposição “itinerante” do Ney Cocada


O Nello Nuno era uma pessoa muito amável, doce e um tipo boêmio. O lugar onde ele passava boa parte do dia era o Hotel Toffolo. A mesa redonda do canto esquerdo onde ele ficava ainda está lá até hoje. Por volta de 1972, a gente saía da aula na UFOP e íamos para lá beber e contar estórias. Quando chegava 17h, os bancários e professores também iam para o Toffolo tomar cerveja. O Nello dizia que essa era a hora de ir embora porque os amadores estavam chegando.

Acontecia uma coisa muito engraçada nos domingos de Ouro Preto: o Footing. Haviam duas sessões de cinema. Umas às 18h e outra às 20h. Quando terminava essa primeira sessão, todo o passeio no trecho que vai da Ponte dos Contos, até o Largo da Alegria, no Centro da cidade, ficava ocupado com pessoas em pé, tanto de um lado, quanto de outro. Elas formavam duas filas que caminhavam, uma ia em um sentido, e a outra ao contrário. Isso durava mais ou menos 2h. E era ali que acontecia a paquera. E com a rua cheia, o Toffolo ficava cheio de gente também. Em um desses domingos, o Hotel Toffolo estava animadíssimo, eu estava na mesa com o Nello. Nisso, o Ney Cocada, que era um artista muito talentoso, chegou até a mesa e diz ao Nello e a quem ali estava que ele havia inaugurado uma exposição dos seus quadros no bar do Zebão. Esse bar ficava em frente à Casa dos Contos, onde atualmente funciona uma loja de produtos indianos. Era um lugar muito gostoso e que tinha grandes quadros. E ele queria que nós fossemos até lá.

O Nello disse a ele: “Olha Ney, nós vamos depois. Olha como o Toffolo está animado. É até difícil sair daqui”. O Ney ficou muito aborrecido e foi embora, Depois de meia hora chega no Toffolo o Ney, com mais três ou quatro auxiliares, todos tontos, carregando a exposição toda, entrando com quadros enormes e gritou para o Nello: “Você não foi na exposição, mas ela veio até você”. E expôs todos os quadros ali mesmo, dentro do Toffolo.

O guarda-garçom


Em 1973, havia no Hotel Toffolo um garçom que trabalhava a noite, mas que também trabalhava como guarda do Banco Real durante o dia. Era o Walter, um sujeito completamente enlouquecido. Aliás, ninguém entende até hoje como o deixavam com um revólver na cintura para trabalhar no banco. Para ter uma ideia de como ele era, na época, era muito atuante em Ouro Preto o TFP (Tradição Família e Propriedade). Um pessoal de direita que fazia desfiles carregando estandartes pelas ruas, no período logo após a revolução. Quando passavam pela rua São José, o Walter, com roupa de segurança, saía do banco Real, ia até o Toffolo, pegava uma toalha de mesa vermelha, as mesmas que estão lá até hoje, e saía na frente deles, como se tivesse toureando esse pessoal.

Um dia em que estava no Toffolo com o Nello, ele chamou o Nellinho, filho dele, que devia ter na época uns 7 anos e disse: “Nellinho, tenho uma tarefa para você. Você vai até o Banco e, na hora que o Walter estiver bem distraído, você tira o revólver dele e traz aqui pra mim. Mas cuidado porque o revólver vai estar carregado”. O Nellinho foi até lá, ficou atrás do Walter, que estava agitado conversando com alguém, tirou o revólver dele e trouxe pra gente. Guardamos ele até o Banco fechar. Assim que o banco fechou, chamamos o gerente e entregamos o revólver do segurança dele, que no caso deveria ser usado para segurança do banco. Rimos bastante e já sabíamos que não ia acontecer nada com ele porque todos tinham conhecimento que ele era meio louco mesmo.

A promoção do Cabo Botina


Haviam três soldados em Ouro Preto na década de 60. Um deles, que era conhecido como cabo Botina, gostava muito de vigiar os estudantes para saber se estavam fazendo bagunça. Tanto que alguém disse a ele que um bom sistema para fazer essa vigia, era pegar um jornal e fazer um furo para fingir que estava lendo, mas na verdade estava era vigiando. Ficava ali, na esquina do Fórum, com esse jornal. Ele era cabo, mas tinha muita vontade de ser promovido para sargento.

Nessa época, houve um incêndio em uma casa em frente à Igreja do Pilar. O jornalista Maurílio Torres, que escrevia o Diário Católico, disse a ele o seguinte: “Olha, eu acho que descobri um jeito de você conseguir sua promoção”. O incêndio já estava controlado, mas o Maurílio fez uma foto do cabo Botina com um balde d’água jogando no local, como se ele estivesse prestando socorro. Fez uma manchete no Diário Católico escrevendo que o Cabo ‘fulano de tal’, que eu não recordo o nome agora, conhecido como Cabo Botina, havia salvado uma casa na área histórica de Ouro Preto. E deu certo, ele virou herói e ainda foi promovido a sargento.

Estórias de Anna Amélia Lopes
Artista Plástica

Onde pôr uma obra de arte


Na década de 70, em uma entrevista que o Nello Nuno deu para algumas meninas da Escola Guignard, uma aluna perguntou se ele não ficava chateado quando vendia um quadro. Ele respondeu: “Depois que acabei o quadro ele não me pertence, ele é do mundo. Se ninguém ver esse quadro, ele não existe”. Ela perguntou também se ele não ficaria chateado se uma madame comprasse um quadro dele para combinar com o tapete ou com a sala de jantar. E ele disse:  “Oh, não me interessa. Comprou, pagou, põe onde quiser, ponha na privada”. Passaram-se uns anos, tive que contratar um advogado e estava sem dinheiro para pagar. Ele foi meu colega no primeiro curso de pintura que fiz, então, eu sabia que ele gostava muito de pinturas. Ia propor a ele que me atendesse e que eu pagaria com um quadro. Ele aceitou a proposta. Depois de alguns anos, tive que procurá-lo para pegar um documento. Ele me chamou para ver onde estava aquele quadro do acordo. Me levou até o banheiro e disse que tinha colocado lá porque era o único lugar onde ele tinha sossego. “Sento aqui e fico admirando”. Lembrei na mesma hora da entrevista com o Nello “Põe onde quiser, ponha na privada” e contei a ele. Foi muito engraçado.

OUROPRETOCULTURAL | ACESSO RÁPIDO

novembro azul