Tendências, debates e contribuições
A Revista Ouro Preto Cultural publicará uma série de artigos, aqui nesta coluna, com fulcro no futuro de Ouro Preto. Acreditamos que o planejamento e a criatividade na elaboração de projetos, aliado ao trabalho persistente, podem trazer resultados consistentes para a cidade, principalmente com a participação de todos os cidadãos interessados no bem comum.
Por isso abrimos este espaço para que os interessados em realmente contribuir para o enriquecimento das discussões sobre um futuro melhor para todos  em Ouro Preto opinem, apresentem sugestões e ideias.
O que será do trânsito no centro histórico de Ouro Preto em 10 anos? O que será das estreitas ruas e calçadas, já com excesso de tráfego? Da falta de água, não só na sede, mas também em todos os distritos? O que será de Lavras Novas que já está no limite da saturação, em datas especiais? Os problemas urbanos de Cachoeira do Campo já são problemas de uma cidade de pequeno porte, como estarão daqui a 10 anos? Miguel Burnier, Antonio Pereira estão hoje gritando por ajuda para solucionar problemas de toda ordem, e daqui a 10 anos como estarão? Questões como essas estão aí para serem resolvidas, com planejamento e projetos.
Para resolvê-las as soluções passam pela discussão agora, com a participação de todos.
A falta de recursos não pode ser arguida como justificativa para a falta de planejamento e proposição de projetos  de médio e longo prazo.  O levantamento das questões e problemas atuais mais importantes, e colocados em perspectiva, a criação de projetos para solucioná-los, tem de ser buscados com afinco e de forma imediata, por toda a comunidade.
O espaço está aberto, aqui! A qualquer hora, qualquer pessoa pode enviar suas contribuições  em textos, pois a forma eletrônica permite que todos contribuam de forma  educada,honesta e cidadã com suas ideias e sugestões.
O primeiro artigo vem do Jornalista Mauro Werkema que abre o espaço para  refletir o futuro de Ouro Preto. Textos podem ser enviados para: ouropretocultural.opc@gmail.com

Qualidade, condição de sucesso

Qualidade é cada vez mais uma condição buscada por todos os que prestam serviços, pessoas, comerciantes, empresas, serviços públicos, fabricantes dos mais diversos produtos e cidades.  E, a qualidade é, no mundo contemporâneo  em que as pessoas estão muito mais bem informadas e exigentes, uma condição essencial   à boa sobrevivência das instituições, dos negócios, dos produtos e serviços e até das relações humanas. Hoje  tamanha  é a sua importância que se tornou um capítulo especial da gestão moderna, denominada Marketing de Qualidade, ensinado em todos os cursos de administração e gestão. E que é continuamente estudada e busca em todas as organizações modernas.
Mas implantar qualidade ampla e sustentável não é fácil. Por isto, deve integrar os esforços de todas as instituições e pessoas e tornar-se um objetivo permanente, que se busca todo dia e em todas as ações. Qualidade é particularmente importante para uma cidade como Ouro Preto, destino turístico internacional, núcleo urbano de economia voltada para a prestação de serviços representada pela cadeia do turismo. A satisfação do cliente, no caso o turista, é essencial ao seu retorno, à  avaliação  que fará do serviço que recebeu e pelo qual pagou. E, ao final, diz respeito à reputação de Ouro Preto como destino turístico.
O desenvolvimento de Ouro Preto como cidade turística, com sua economia preponderantemente voltada para atender visitantes, deve integrar o planejamento da cidade e envolver não só o setor público como também o setor privado. A satisfação do cliente/turista  pode, nos nossos dias, ser medida por técnicas usuais e é o principal fator de  avaliação e conhecimento se  os serviços estão sendo prestados adequadamente. E hoje, em todo o mundo, a qualidade dos serviços prestados torna-se fator concorrencial decisivo e que, se insatisfatória, pode levar à falência  de qualquer empreendimento. A avaliação é, importante ainda lembrar, que permite otimizar processos e controles, na medida em que diagnostica pontos falhos.
A qualidade agrega valor, distingue, enaltece e valoriza o serviço ou o produto, gera preferências, estimula o retorno do cliente. Mas a qualidade é algo que passa por uma série de atributos nem sempre percebidos ou praticados  pelo prestador de serviços. Passa por um bom atendimento, pela educação e capacidade de relacionamento, formação que permita  boa informação ao cliente, por instalações adequadas, por qualidade do serviço ou produtos e que sejam honestos e com preços adequados, condições que o potencial cliente, bem informado, sabe distinguir e reconhecer. É claro que, neste conjunto de ações, é fundamental  o papel do atendente, que deve estar  bem treinado, seja cortês, capaz de prestar todas as informações e com boa capacidade de compreender e atender às demandas  e de solucionar problemas ou dificuldades.
Numa cidade turística, como Ouro Preto,  algumas condições são fundamentais, conforme várias pesquisas realizadas por órgãos nacionais e internacionais de turismo: boas condições de acesso, boas informações sobre os atrativos turísticos, folheteria com boa indicação e orientação,  sites etc, guias de turismo qualificados e não extorsivos, limpeza pública, segurança, orientação de trânsito, na locomoção e no estacionamento,  acesso facilitado aos atrativos, boa oferta de alimentação e de hospedagem. E particularmente nas cidades históricas, que os acervos artísticos e patrimoniais, estejam bem preservados e que possam ser visitados nos horários normais para os visitantes. O turista, sobretudo o do segmento cultural, espanta-se e recrimina se encontrar o patrimônio cultural mal cuidado, pois seu conceito é que aquele bem é da humanidade e por isto é que foi tombado para ser  socializado, devendo ser preservado para fruição de todos.
Ouro Preto pode e necessita   avançar muito na gestão da qualidade. É questão de planejamento, com identificação dos pontos  que precisam ser aprimorados, um diagnóstico que possa indicar o que deve ser feito e, por último, efetivas ações corretivas. Boa informação e treinamento de recursos humanos são indispensáveis. Há organizações especializadas nestes serviços e algumas iniciativas já foram feitas em Ouro Preto. Existem programas e plataformas já elaboradas e testadas em cidades turísticas. O Ministério do Turismo tem um programa especial de avaliação dos destinos turísticos. A Secretaria de Estado de Turismo é associada a este programa. Sebrae, Senac e outras entidades tem competências  consolidadas nesta área e até já trabalharam em Ouro  Preto. E a UFOP tem hoje um curso de turismo que poderia interessar-se em um projeto, como matéria essencial de formação e treinamento.   Mas é essencial que na sua execução  se envolvam todos os segmentos que tem participação na prestação de serviços, públicos e privados, sob liderança da Prefeitura e das entidades da sociedade, em especial as prestadoras de serviços.
E, finalmente, é bom ressaltar que é preciso que a qualidade seja atributo  que integre  todos em um esforço comum. Um visitante pode ser bem tratado no hotel, nas lojas, nos restaurantes, na visita aos atrativos culturais  mas um só fato ou momento negativo pode comprometer a  reputação da cidade como destino turístico. Um programa bem conduzido e bem sucedido pode representar para Ouro Preto um excepcional acréscimo no seu fluxo turístico.

Ouro Preto e a economia criativa

O mundo em mutação traz novos paradigmas que vão remodelando o modo de vida contemporâneo.  Amplia-se a constatação de que cidades com vocação turística possam transformar-se em efetivas “economias criativas”, que são centros urbanos sofisticados de serviços, ofertantes de opções de cultura e turismo, de lazer, entretenimento, de conhecimento e locais de reuniões de negócios da rede do turismo de convenções e eventos. Este é o caminho contemporâneo para cidades com destacada vocação turística, qual seja aproveitar seu patrimônio cultural, histórico, artístico e os atrativos característicos e singulares, para tornarem-se destinos de turistas e suas diversas motivações de viagem. Ouro Preto é exemplo destacado nestes novos conceitos para as cidades históricas. O planejamento do futuro de Ouro Preto deverá, inevitavelmente, passar por estes novos conceitos, a exemplo de várias cidades em todo o mundo.
Impulsionam esta nova configuração a ampliada mobilidade humana, com as facilidades de deslocamentos em um mundo globalizado, a excepcional conectividade de pessoas e instituições pela Internet, a elevação da demanda por educação e cultura e a busca por conhecimento e a formação de uma nova sociedade do prazer e do lazer.  O conceito contemporâneo de qualidade de vida alimenta a busca de experiências vivenciais, permitidas em destinos com reconhecida vocação turística e com oferta de serviços adequados à receptividade do visitante. É neste contexto que se ampara o planejamento que adota a chamada “economia criativa”, ou “cidade criativa”, cidades com economia de serviços, onde são intercorrentes turismo e cultura.
Por sua topografia, pelas características do seu tecido urbano, pela imperiosa necessidade de preservação do seu conjunto urbanístico e arquitetônico e dos seus acervos artísticos, Ouro Preto só encontra opções de desenvolvimento pela economia de serviços, qualificando-se como destino turístico de alta competividade, pela exploração adequada desta sua vocação essencial. Ouro Preto, no seu território urbano e mesmo regional, não tem vocação para a atividade industrial ou mesmo espaços adequados, a não ser em dimensões e especificidades que não afrontem o meio ambiente e o patrimônio cultural.
É importante lembrar que uma cidade com vocação para a economia de serviços tem na imensa cadeia econômica do turismo a sua sustentabilidade. Esta cadeia de serviços está na hospitalidade, na oferta de hospedagem de qualidade, com moderna e internacional gestão hoteleira. Na gastronomia criativa, na oferta de meios de deslocamento confortáveis, na boa receptividade dadas pela orientação turística e acesso aos atrativos, na existência de informações e narrativas sobre história, cultura e acervos culturais locais. Na segurança urbana, nos serviços de guia, na limpeza dos espaços públicos, no deslocamento urbano compatível com o destino turístico, na existência de serviços médicos emergenciais, no trânsito receptivo para visitantes, na existência de centros de convenções com telecomunicações e outras exigências tecnológicas para as reuniões. E que o patrimônio artístico esteja bem cuidado, restaurado e protegido.
 É essencial à qualidade de vida contemporânea a participação em eventos culturais, artísticos, esportivos, classistas, técnico-científicos e muitos outros da economia criativa.  A crescente procura por espetáculos, de entretenimento e lazer, da boa gastronomia, das festas populares, de momentos de elevação do espírito e que permitem vivências emocionais e de conhecimento, representam uma oportunidade de um futuro melhor às cidades turísticas. Abre-se um novo tempo para estas cidades e de ganhos de renda, trabalho, emprego e melhoria das qualidades de vida. Não há outra opção de futuro para Ouro Preto, que já tem avançadas ofertas nestes campos e um programa de impulsionamento turístico não demandaria maiores investimentos.
O conceito de cidade de “economia criativa” baseia-se, nos nossos dias, na afirmação de que vivemos a época da “dream society”, ou seja, a sociedade do sonho. E também na época da economia dos sonhos.  Todos sonham em viajar, um dos maiores prazeres da vida contemporânea. E as cidades turísticas se transformam velozmente em economias que procuram atender sonhos e desejos. Cada vez mais criativas na competitividade para atrair turistas. Hoje, ao decidir viajar, as pessoas sonham com o que vão desfrutar, com as singularidades, exemplaridades ou raridades naturais ou culturais dos destinos, mas como também na cadeia de serviços. E a modernidade informativa permite escolha ampla também pela facilidade de acesso, preços e a boa propaganda.  Constata-se o quanto o planejamento do turismo se sofistica no mundo contemporâneo.
Ouro Preto, reconhecida internacionalmente, tem tudo para avançar como destino turístico forte. Tombada pelo IPHAN desde 1938, incluída na lista de Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1980, com acervo histórico, artístico e patrimonial raro, exemplar maior da arquitetura colonial luso-brasileira setecentista. Com localização competitiva no Sudeste Brasileiro, à uma hora de voo do eixo Rio-São Paulo, à uma hora de carro de Belo Horizonte. Cercado por opções de novas modalidades do turismo rural e de aventuras, já com boas ofertas de hospitalidade, tem um bom caminho para consolidar-se como “cidade criativa” do turismo e da cultura, com as opções de inovação e criatividade que suas condições permitem. Falta um planejamento que amplie e refine sua atratividade e suas ofertas de hospitalidade.

Turismo: A vocação maior de Ouro Preto

O Turismo, nos seus diversos segmentos e a imensa cadeia de negócios que aglutina, é o maior negócio do mundo. A Organização Mundial do Turismo (OMT), já há alguns anos, vem divulgando estatísticas de que o setor é hoje 8% do PIB mundial. E mantém-se em constante crescimento, com alguns poucos momentos de retração devido a ocorrências regionais. E é o grande gerador de trabalho e renda.  É ambientalmente limpo, pode ser implementado a baixo custo.  Todos os diagnósticos sobre o futuro de Ouro Preto apontaram a inequívoca vocação da cidade para o Turismo, a partir de vários vetores que conferem à tricentenária cidade qualidade e condições competitivas singulares, capazes de promover um expressivo salto nos fluxos turísticos.  Depende de planejamento, de visão de futuro, de união de esforços e da vontade coletiva, das instituições públicas e privadas. Vejamos estes vetores:
Patrimônio Cultural da Humanidade (título concedido em 1980, pela UNESCO), Ouro Preto é conhecida em todo o mundo, abrigando rico e raro acervo artístico e histórico do Século XVIII e XIX. É considerado um “Destino Ouro” do Ministério do Turismo, colocando-se entre os mais famosos do Brasil. É tombado pelo IPHAN desde 1938. Recebe de Getúlio Vargas em 1933 o título de “Patrimônio Nacional”.  Possui acervo arquitetônico ainda bastante íntegro e homogêneo, exemplar da arquitetura luso-brasileira setecentista e considerado uma das maiores expressões da cultura portuguesa de todo o mundo.  E, não só por sua exemplaridade arquitetônica e urbanística, mas também pelos acervos artísticos de suas igrejas e alguns palácios e residências, atrai visitantes de todo o mundo.
Um planejamento turístico para Ouro Preto já conta com algumas vantagens diferenciais. Em primeiro lugar o investimento não será alto quanto a imobilizações, uma vez que a hotelaria já oferece boas condições de hospitalidade e tem elevada capacidade. O setor de alimentação também oferece condições muito qualificadas, com cozinha típica, regional e até com variedades capazes de satisfazer preferências internacionais.  A acessibilidade, hoje item fundamental de competitividade turística, é outro fator favorável a Ouro Preto.  Está localizado na Região Sudeste, que abriga 45% da economia brasileira, emissora de metade das demandas turísticas, por suas agências e empresas de promoção de eventos, está próximo de grandes centros emissores de turistas, como Belo Horizonte, Rio e São Paulo, e possui rodovia de razoável condição. Está a duas horas do Aeroporto de Confins, cada vez mais um hub internacional e a pouco mais de uma hora da Pampulha.
 Além do segmento de turismo cultural, Ouro Preto possui hoje o Centro de Convenções que lhe permite usufruir do Turismo de Eventos e Negócios. Em 1994, ao propor à UFOP a implantação de um Centro de Convenções, no antigo Parque Metalúrgico, então desativado, a Prefeitura atendia a um diagnóstico sócio-econômico que indicava a necessidade de qualificar o público visitante de Ouro Preto através do turismo de reuniões e negócios, considerado o mais rentável de todos os segmentos. O turista de reuniões e negócios gasta cinco vezes mais, vence a sazonalidade, fornece a escala necessária à garantia da rentabilidade da cadeia de serviços do setor. É hoje o mais cobiçado e a Organização Mundial do Turismo estima que é responsável por 30% dos fluxos turísticos mundiais.
Eis, portanto, a vocação de Ouro Preto e seus diferenciais de competitividade. E é bom lembrar que abriga uma universidade, hoje de grande porte. Suas áreas técnico-científicas podem ser geradoras de eventos, congressos, convenções, reuniões, indispensáveis à atualização e à cooperação entre professores, pesquisadores e mesmo alunos. O Centro de Convenções surgiu desta preocupação e possui grande viabilidade, porque alia sua capacidade para receber reuniões médias, com espaços e salas adequadas, à atração natural, de ordem cultural e de lazer, fornecida por Ouro Preto. O que não pode acontecer, e este era o grande temor inicial quanto ao Centro de Convenções, é que se transformasse em auditório e espaço para casamentos, formaturas e outras reuniões locais, sem caráter turístico, ou seja, que não atraísse visitantes e, portanto, não gerasse investimentos na cadeia econômica do turismo.
Passados tantos anos do Centro, é fundamental que a UFOP e a rede de prestadores de serviços, hotelaria, restaurantes, lojistas, prefeitura, agências e operadoras de turismo, realizassem uma avaliação do desempenho e do impacto no turismo ouro-pretano. E que indicassem questões e posturas a corrigir com o objetivo não só de o Centro alcançar sua sustentabilidade como consolidar-se como uma alavanca forte para o turismo de Ouro Preto. É preciso dizer, no entanto, que o Turismo de Eventos e Negócios não se resume no Centro de Convenções. Sua viabilidade depende de todo um conjunto de prestadores de serviços, como a hotelaria, alimentação, informações qualificadas, receptivo adequado, limpeza pública, segurança, promoção e marketing e, sobretudo, gestão de captação de eventos, o que é essencial em um setor altamente competitivo.
O turismo, em todo o mundo, funciona como negócio moderno, competitivo, que disputa clientes com vantagens preferenciais. As ofertas estão representadas em “pacotes”, em clubes de produtos e serviços, com a cadeia econômica parceirada, em Arranjos Produtivos Locais, os chamados “clusters”. Há, em Ouro Preto, algum Arranjo Produtivo entre pelo menos três destes integrantes da cadeia econômica do turismo? É o que se torna imperativo pensar desde logo, por iniciativa do setor privado com o imprescindível apoio da Prefeitura.
Além do patrimônio cultural, Ouro Preto pode elaborar um rico programa de festas e eventos, com um calendário anual cultural, cívico, religioso, recreativo, de lazer e entretenimento, festivais, em uma imensa criatividade, como já ocorreu, bastando lembrar o famoso Festival de Inverno que era realizado pela UFMG.  O planejamento, do ponto de vista de definição de objetivos, indicação de meios, públicos, entre outros aspectos de um bom projeto, é de fácil elaboração. O que é essencial neste tipo de iniciativa é a ação integrada dos diversos atores, públicos e privados, agentes e coadjuvantes. Ouro Preto, que tem faculdades de Turismo e de Economia, tem recursos humanos capacitados a conduzir este planejamento. Depende de vontade e não mais apenas da demonstração de que é importante, viável e necessário. São necessários projetos viáveis e exequíveis.
Ouro Preto tem história, cultura e arte, títulos e fama, mas não será pelo acaso ou pela espontaneidade que poderá transformar esta vocação em efetivas riquezas econômicas e sociais para sua população.

Ouro Preto: tempo de crise é  também  de pensar o futuro 

Tempo de crise e de recessão econômica é momento para reflexão, para repensar, reorganizar e planejar. É hora, portanto, de Ouro Preto, que vive as dificuldades da grande maioria dos municípios mineiros,  abrir uma discussão sobre seu futuro.  Poucas cidades tem, como Ouro Preto, tantas publicações sobre sua tricentenária história, na Colônia, no Império e na República, abrangendo os mais variados aspectos, de sua história, suas lutas de afirmação, o surto artístico-cultural do Século XVIII, sua preservação.  Mas nada conhecido sobre o seu futuro, sobre o planejamento do desejável e do possível, a partir de suas potencialidades, vocações, oportunidades.
Sabemos todos, no entanto, os governos federal,  estadual e municipal, os órgãos de patrimônio cultural, as instituições acadêmicas, os empresários e, de resto, todos os que têm um mínimo de preocupação com a cidade tricentenária, que é fundamental pensar no futuro. E planejar ações e iniciativas que possam, se transformadas em projetos viáveis, possibilitar a busca de recursos. Sem planejamento não há visão de futuro, não há como evitar ou sair do imobilismo. É resignar-se à estagnação, perder oportunidades e condenar a que se repitam os erros e omissões.
Pensar em planejamento para Ouro Preto  começa, inevitavelmente,  pela indagação: quais as vocações da cidade  e quais são condições diferenciais ou facilidades para pensar seu futuro? O que impede que se tornem em efetivas fontes de riqueza, trabalho e renda? E, é claro, preservem o patrimônio histórico e cultural? São, obviamente, o turismo, nas suas diversas modalidades,   e a educação,  duas riquezas de Ouro Preto e que são  excepcionais atividades do mundo contemporâneo.  Ambas oferecem amplas perspectivas de expansão e desenvolvimento de atividades integradas ou complementares. Estas duas vocações já foram apontadas por diagnósticos em diferentes ocasiões como também pela opinião de especialistas em planejamento urbano e desenvolvimento econômico e tanto a Prefeitura, como todas as outras instituições públicas e privadas de Ouro Preto o sabem. Só que não estão colocadas em um planejamento efetivo, com indicação de ações objetivas, viabilizadoras  de novas oportunidades de negócios e geração de renda.
O turismo se distingue positivamente como a atividade que mais estimula o consumo de bens e serviços e  a  giro rápido. É hoje atividade cobiçada por todo o mundo.  E é ambientalmente limpo,  gerador de trabalho e  distribuidor de renda, com boa capacidade de integração social. E, no caso de Ouro Preto, não exige grandes investimentos porque a cidade já possui bons e  variados equipamentos turísticos na hotelaria, na gastronomia, no transporte e muito mais.   Conhecida internacionalmente abriga acervo raro patrimonial, de história e arte, atrativo cada vez mais cobiçado em todo o mundo por visitantes. O  fluxo de turistas  cresce em torno de  5% a cada ano,  mundialmente, segundo a Organização Mundial de Turismo (OMT),  proporcionalmente ao crescimento da educação,  da demanda de  ofertas culturais, a busca de lazer e entretenimento e pelas facilidades de deslocamento.  Em Ouro Preto o turismo ainda é sazonal e não elevou a qualidade dos visitantes. O Centro de Convenções, criado para incentivar o Turismo de Eventos e Negócios, o segmento mais rico, não revela competitividade na atração  de eventos.
Existem no Brasil vários exemplos de cidades que reorganizaram seu turismo e hoje se tornaram destinos conhecidos e visitados. O mundo é cheio de exemplos. A metodologia de planejamento e gestão do turismo é conhecida e sem mistérios. A prática é outra coisa. Exige ação integrada entre o setor público e o privado. Exige a preparação da cidade  para o  acolhimento do visitante,  com recepção adequada, organização e  qualificação dos equipamentos turísticos, qualificação de recursos humanos, boa oferta cultural e promoção do destino não só por sua divulgação, mas pela realização de atividades culturais, como também congressos, convenções, reuniões diversas nos ramos de eventos e negócios gerais. É preciso ter presença nas redes internacionais a que estão  ligados operadores e agências de turismo, instituições que organizam eventos. Infelizmente não é a realidade de Ouro Preto onde, ao contrário, só surgem notícias negativas que não precisamos lembrar.
Ouro Preto abriga uma universidade que cresceu muito nos últimos anos. E que hoje possui cursos que poderiam ter papel importante no planejamento ou variados  campos de intervenção, como Engenharia, Arquitetura, Economia, Comunicação Social, Museologia, História.  A UFOP se beneficia da cidade,  seus serviços públicos, seus espaços. Além dos empregos que oferece, ou dos recursos que entram na cidade,  a UFOP pode fazer  muito mais por Ouro Preto. Os exemplos são fartos também em todo o mundo. Universidades se tornaram estimuladoras não só de crescimento econômico, mas de atração de iniciativas que caracterizam as  sociedades modernas. São amplas as perspectivas, na atração de investimentos, como incubadora de iniciativas empresariais, na prestação de serviços básicos e muito mais também sobejamente discutidos e  conhecidos. Um seminário sobre o que a UFOP poderia fazer mais por Ouro Preto e  traria importantes e surpreendentes ideias até para reduzir as dificuldades da convivência entre o campus universitário aberto e a cidade cultural e turística, com organização urbanística e arquitetônica excepcional, originária do Século XVIII. Convivência que às vezes se torna difícil e até antagônica. Ao que eu saiba, nunca houve o desenho de uma colaboração ampla e persistente, de ações imediatas e de ajudar a pensar o futuro.
Qualquer agenda positiva sobre Ouro Preto  teria que começar por estas duas vocações. O royalty do minério de ferro, que agora  dobrará com a alíquota de 3,5% sobre o faturamento bruto,   foi constituído para isto, ou seja, busca de atividades alternativas para a mineração, que é finita.    Ouro Preto, com a reputação que tem, mundial, tendo bons projetos, legitimados pelo apoio da sociedade e por uma instituição universitária, pode conseguir apoio e mesmo recursos com muito maior facilidade. Ouro Preto é preocupação constante de todos, de todas as instituições e governos, capaz de despertar solidariedades,  mas precisa vencer o imobilismo, a falta de visão, a inexistência de gestão qualificada capaz de diagnósticos, de elaborar projetos e buscar recursos.
Mauro Werkema | Jornalista
mauro.werkema@gmail.com

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fevereiro