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Museus: Locais de Futuro
Ouro Preto é um verdadeiro Museu a céu aberto, com todas as implicações que esta condição proporciona. Assim discutir, apresentar e ressaltar detalhes museológicos será sempre interessante e esclarecedor, o prof. Gilson Nunes iniciará uma sequencia de pequenos textos que irá mostrando o tema de forma rica e ilustrativa. Além disso, iremos publicar fragmentos do livro Ouro Preto – Museus.

Ouro Preto – Museus

Este livro nasceu da ideia de divulgar o belíssimo trabalho que Ouro Preto vem fazendo no sentido de preservar o seu patrimônio, de todas as formas possíveis, e com todas às limitações características de uma cidade pequena, do interior de Minas Gerais. É realmente um exemplo de esforço e dedicação se consideramos que atualmente a cidade abriga 13 museus em funcionamento e alguns outros aguardando os trâmites próprios para estes tipos de instalações. Ao projetar o livro, em português, francês e inglês, consideramos também que cada museu deveria, por seus próprios meios, apresentá-los. Assim as diferenças de estilo tem mesmo o sentido de que cada equipamento museológico tem sua forma de se expressar e apresentar-se à comunidade.
Sendo assim, iremos publicar, toda semana, imagens e informações sobre cada museu da cidade.

Museu das Reduções

O Museu das Reduções é a realização do sonho de quatro irmãos, nascidos nas primeiras décadas do século passado, na cidade sul-mineira de Campanha. Ênnio, Décio, Evangelina e Sylvia trilharam seus caminhos durante suas vidas, residindo em cidades diferentes e exercendo atividades profissionais diferentes.

Ênnio radicou-se em Juiz de Fora, onde trabalhou por 35 anos no Banco de Crédito Real de Minas Gerais, até aposentar-se. Lá viveu até os seus últimos dias.

Décio radicou-se no Rio de Janeiro, trabalhou como piloto comercial e diretor da PanAir do Brasil, até sua extinção, mudando-se para Lisboa, ingressou na Transportes Aéreos Portugueses (TAP), aposentou-se e retornou para a terra natal, Campanha, onde passou os últimos anos de sua vida.

Sylvia, também funcionária do Banco de Crédito Real de Minas Gerais e Evangelina, funcionária do Estado de Minas Gerais, se radicaram em Belo Horizonte, trabalhando até a aposentadoria no Banco de Crédito Real de Minas Gerais e no Estado de Minas Gerais, respectivamente. Lá viveram até falecer.

Dotados de enormes habilidades manuais, de grande sensibilidade artística e de muita disposição, os Irmãos Vilhena, como são carinhosamente conhecidos, se uniram para tornar realidade um projeto de vida: deixar um legado artístico e cultural de grande valor. Assim, logo após as aposentadorias, já totalmente disponíveis, começaram a planejar a execução do Projeto Redução, um parque temático baseado em similares existentes pelo mundo, mas com um grande diferencial: um acervo que fosse significativamente brasileiro, produzido de forma totalmente artesanal (com os mesmos materiais empregados nas construções originais) e totalmente executado por eles, e tão somente pelos quatro. Para tanto, basearam-se em uma réplica da Igreja das Dores, de Campanha, que Ênnio acabara de fazer, como hobby.

Fizeram contato com as Secretarias de Estado da Cultura dos estados brasileiros, buscando indicações de monumentos arquitetônicos locais, representativos que poderiam ser reproduzidos. As muitas secretarias que atenderam ao chamamento proporcionaram aos Irmãos Vilhena um rico universo de pesquisas e trabalhos a serem desenvolvidos. Munidos, então, de uma grande relação de monumentos arquitetônicos dos quatro cantos do Brasil (cerca de 52), puseram-se a viajar pelo país, sempre com recursos próprios, com o intuito de fotografar, medir e desenhar as mais diversas relíquias arquitetônicas nacionais, preocupando-se com cada detalhe das edificações, que foram minuciosamente escolhidas, levando-se em conta a representatividade, o tamanho, a riqueza de detalhes, a beleza plástica, os materiais empregados e a diversidade da natureza dos prédios: igrejas, palácios e palacetes, fortalezas, casarões coloniais, casas comuns, casas de fazendas, sobrados, usinas, etc.

Concluída a fase de levantamentos, pesquisas e definições, os Irmãos Vilhena passaram a trabalhar na definição de um local apropriado para sediar o parque, então denominado de Projeto Redução, surgindo como primeira opção, até natural, a sua implantação na região de Campanha, no Sul de Minas. A opção foi logo desprezada em função do mau momento que o Circuito das Águas atravessava, quanto ao fluxo turístico necessário à manutenção do empreendimento, fator que acabou direcionando o foco para a região de Ouro Preto, principal destino turístico do Estado.

Paralelamente a estas definições, os Irmãos Vilhena iniciaram a complexa produção das réplicas, já instalados no distrito de Amarantina, no município de Ouro Preto, em uma simples e humilde casinha, bem no centro. Acabaram por adquirir com recursos próprios um grande imóvel, de 6.000m², então na área rural do lugarejo, em um recém-lançado condomínio, onde iriam erguer o prédio definitivo que abrigaria as réplicas. Começava a surgir, de fato, o Museu das Reduções.

Uma equipe de meninos residentes no distrito foi logo composta, para as tarefas mais fáceis, como produção de telhinhas, tijolinhos, pequenos acabamentos, etc., num verdadeiro mutirão de cidadania, uma vez que, além de aprenderem o ofício, os meninos recebiam orientações básicas como higiene pessoal, saúde bucal, etiqueta, cidadania, etc., e, também de materiais escolares, roupas, sapatos e um auxílio financeiro, o que marcou muito a atuação dos Irmãos Vilhena no distrito de Amarantina.

A técnica da construção, as formas diversas, as ferramentas e grande parte da mão de obra do acabamento final eram encargos de Ênnio, o artesão-mor. Décio, detentor de grande capacidade intelectual, além das enormes habilidades manuais, produzia em madeira verdadeiras joias, como balaústres e canhões torneados a mão, portas almofadadas, treliças, persianas, janelas e marcos de portas, etc., se incumbia, também, do trabalho mais racional como os cálculos, as escalas, os desenhos e plantas. Sylvia, a mais sonhadora deles, era a responsável pelos primeiros desenhos, pelas pinturas, pelas esculturas em pedra-sabão, trabalho de ourives, com pequenos formões, pincéis e outros. Evangelina, o fiel da balança, era a grande gerente. Cuidava do pessoal, dos pagamentos, da estrutura da casa, da comida, das viagens, além de fotografar e, principalmente, com sua forte personalidade, cuidava de amenizar os constantes conflitos, típicos dos temperamentos dos grandes artistas.

À medida que as réplicas eram produzidas e concluídas, surgia a necessidade de ampliação dos pequenos espaços que possuíam na casinha em que viviam, o que os levou à locação de outra casinha, próxima do terreno onde seria instalado o museu, que funcionava como depósito de materiais e de réplicas prontas desmontadas. Paralelamente, iniciava-se a construção do prédio que abrigaria o museu, uma concepção moderna projetada por Décio. Como a necessidade de recursos financeiros ia crescendo, um verdadeiro périplo foi iniciado à busca de patrocínios, onde os insucessos constantes não foram capazes de desanimar os quatro irmãos, que se desdobravam para arcar com os custos da grande obra. Até que uma luz vinda da Alemanha, através da Lateinamerika Zentrum e.v, de Bonn (LAZ), modificou todo o quadro. Graças à intervenção pessoal de seu presidente, o deputado alemão Hermann Gorgen, a entidade aprovou o apoio financeiro, a fundo perdido, ao Projeto Redução, da ordem de 90 mil marcos alemães.

Com esse recurso, aliados a novas pequenas doações efetuadas pelo Banco Crefisul S/A, Banco Bamerindus do Brasil S/A, Divinal Vidros, Vidraçaria Catarina e Alba Química S/A, além dos recursos da família, o prédio principal e o pequeno prédio que abrigaria a Escola de Artesanato foram tomando forma e o Museu das Reduções nascendo… Com ele, nasceu a Escola de Artesanatos, onde moças e senhoras da comunidade, por cerca de quatro anos, aprenderam corte e costura, tricô e crochê, desenho, artes em bambu, etc., agregando ao projeto original um grande conteúdo social.

Em 26 de março de 1994, era chegado o grande momento. O então prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo de Araujo Santos, hoje (2014), presidente do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), grande incentivador do trabalho dos Irmãos Vilhena, na presença de grande parte da família Vilhena, de autoridades locais, regionais, estaduais e nacionais, da comunidade de Amarantina, de Ouro Preto e região, cortava a fita inaugural e entregava ao trade turístico e cultural de Ouro Preto, de Minas, do Brasil e do mundo o Museu das Reduções.

Durante os primeiros dez anos, de 1994 a 2004, o Museu das Reduções experimentou todo o caráter lúdico da gestão dos próprios artistas, já encantando os milhares de visitantes, mas sem maiores ambições. A partir de 2004, com o falecimento de Evangelina, veio a reclusão de Sylvia e o museu passou a ser gerido pelo seu diretor administrativo e financeiro, Carlos Alberto Xavier de Vilhena, filho de Ênnio, que abandonou carreira vitoriosa como alto executivo do mercado financeiro para fixar-se, definitivamente, em Amarantina e dar prosseguimento ao trabalho da família. Com um verdadeiro choque de gestão, otimizou o funcionamento da casa e deu visibilidade ao trabalho, através de agressiva política de marketing, culminando com o reconhecimento obtido junto ao Guia 4 Rodas Brasil, de 2006, que elegeu o Museu das Reduções a Melhor Atração do Brasil na categoria Contribuição Artística, título mantido até os dias de hoje, em função do não surgimento de nova premiação na categoria. Nesse período, o museu registrou média de público, superior a 2.000 visitantes mês.

Apesar dos momentos difíceis que se sucederam, o museu atraiu investidores e parceiros de peso, que o recolocaram nos trilhos rumo ao sucesso que lhe está reservado. Citamos como fatos marcantes, a efetiva participação na fundação do Sistema de Museus de Ouro Preto, os patrocínios da Transcotta Ltda., Microcity Computadores e Sistemas Ltda., da EMTEL Ltda., da CEMIG, da CEMIG TELECOM e da GERDAU, além da firme parceria com o Instituto Nacional de Desenvolvimento e Integração Cultural (INDIC) na execução de projetos de educação patrimonial.

Merece, ainda, destaque especial, a participação da professora Terezinha Lobo Leite, especialista ouro-pretana em educação patrimonial que, em uma releitura fantástica do acervo do museu, praticamente o redescobriu como fonte inesgotável de conhecimento nas áreas da matemática, história, geografia, ciências e artes. A partir das réplicas, alunos do ensino fundamental têm recebido informações e conhecimentos importantes para a formação da consciência preservacionista e o desenvolvimento do sentimento de pertencimento, contribuindo para o surgimento de uma geração comprometida com a preservação de nossa memória e de nosso patrimônio histórico, material e imaterial, tudo isso associado às disciplinas curriculares correspondentes.

Enfim, dessa forma, o Museu das Reduções tem merecido o reconhecimento de autoridades, intelectuais, artistas, das grandes empresas e do público em geral, como um importante equipamento turístico, cultural e educacional, que orgulha Ouro Preto, Minas e o Brasil.

O Museu das Reduções, com seu contexto, é único e atrai o público pela beleza plástica de suas réplicas, pela fidelidade e pela riqueza de detalhes, proporcionando aos espectadores a mesma emoção que sentiriam diante dos monumentos originais. Diferencia-se dos demais parques temáticos do mundo pela concepção de suas réplicas, confeccionadas com os mesmos materiais empregados nas edificações originais, sem produtos industrializados e/ou sintéticos.

O acervo do Museu é composto de 29 réplicas perfeitas de monumentos edificados do Brasil, localizados em 24 municípios de 15 Estados do país, a saber:

Matriz de Nossa Senhora da Conceição, Viamão/RS; Casa de Enxaimel, Pomerode/SC; Estação Ferroviária, Joinville/SC; Museu de Arqueologia e Etnologia de Paranaguá, Paranaguá/PR; Igreja de São Benedito, Paranaguá/PR; Fazenda do Resgate, de Bananal/SP; Casas Coloniais, Paraty/RJ; Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro/RJ; Convento dos Reis Magos, Nova Almeida/ES; Farol de São João da Barra (Farol da Barra), Salvador/BA; Engenho de São João, Itamaracá/PE; Convento de São Francisco de Assis, Olinda/PE; Fortaleza dos Reis Magos, Natal/RN; Museu Histórico de Sergipe, São Cristóvão/SE; Mercado Municipal, Laranjeiras/SE; Trecho de Rua, Marechal Deodoro/AL; Casas Particulares, Aracati/CE; Palácio Conde dos Arcos, Goiás Velho/GO; Palácio da Alvorada, Brasília/DF; Usina Marmelos Zero, Juiz de Fora/MG; Solar dos Ferreira, Campanha/MG; Casa de Câmara e Cadeia, Mariana/MG; Igreja de Nossa Senhora da Expectação do Ó, Sabará/MG; Igreja de São Francisco de Assis (Igrejinha da Pampulha), Belo Horizonte/MG; Igreja das Dores, Campanha/MG; Casa Paroquial de Amarantina, Ouro Preto/MG, Casa dos Contos, Ouro Preto/MG e, inacabada, a Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto/MG.

A Igreja São Francisco de Assis, de Ouro Preto, encontra-se inacabada devido ao falecimento de um dos Irmãos Vilhena: Evangelina, quando os outros decidiram por bem não continuar o trabalho. E, o atual diretor do museu, após ouvir opiniões de autoridades e especialista, optou por não terminar a réplica, deixando, assim, um marco do fim do trabalho de uma equipe que, necessariamente, precisava estar completa para funcionar.

Cada uma das reduções tem sua particularidade, sua pluralidade, sua beleza, seu encanto. Mas, destacaremos, aqui, o Solar dos Ferreira, na terra natal dos artistas, Campanha. O monumento original foi tomado por um incêndio em 1986 e não mais existe. Isto ressalta, além de todas as características do museu, a importância que o mesmo tem na preservação da memória arquitetônica nacional, pois, vemos no acervo do Reduções, uma representação idêntica do referido solar.

O museu desenvolve, há anos, grandes projetos de educação patrimonial direcionados à alunos das redes públicas de ensino. Até o final de 2014, terão se beneficiado, diretamente, cerca de 15 mil alunos de municípios da Região dos Inconfidentes. Esses projetos possuem a aprovação das Secretarias de Educação dos municípios envolvidos e são desenvolvidos sob patrocínios oriundos das leis de Incentivo à Cultura (federal e estadual), tendo merecido destaque nos Encontros Nacionais de Educação Patrimonial (ENEP), realizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

“Trata-se de um esforço para preservar a memória arquitetônica nacional e de uma iniciativa que merece ser premiada pela contribuição que dá às artes brasileiras.” – Guia 4 Rodas

“A vida, às vezes, nos reserva belíssimas surpresas, como esta: dos Irmãos Vilhena… Ela também prova como o amor não fenece, e como seres humanos se dignificam sempre em razão de grandes causas.” – Carlos Bracher, artista plástico

“Miniatura é uma palavra que não traduz a originalidade e a riqueza do Museu das Reduções. Uma viagem emocionante pela história do Brasil….” – Embaixador Sérgio Paulo Rouanet, ex-ministro de Estado da Cultura

“…sugiro que as Secretarias de Educação de Estados e Municípios tragam a este grande centro de cultura e de civismo os jovens e as jovens para apreciarem este belíssimo e histórico Museu. Parabéns! Vocês são criadores de Brasil.” – Professor Aluísio Pimenta, ex-Ministro de Estado da Cultura, ex-reitor da UFMG e da UEMG

“Contemplei, extasiado, o acervo do Museu das Reduções, trabalho artístico admirável, que retrata com inigualável fidelidade parte do passado e projetos do futuro…” – Murilo Badaró, Presidente da Academia Mineira de Letras, ex-senador e ex-ministro de Estado da Indústria e Comércio

“O Museu das Reduções é obra de amor ao Brasil e à nossa cultura […] pelo empenho em reduzir, à perfeição, cada monumento representado a essa escala mágica que sensibiliza e fascina o espectador.” – Angelo Oswaldo de Araújo Santos – presidente do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), ex-prefeito de Ouro Preto, ex-secretário de Estado da Cultura

“… a experiência mais singular  parece ser a dos Irmãos Vilhena, que, para a reprodução de monumentos, desinteressados da simples cópia, desenvolveram um processo intermediário entre a maquete, a escultura e a montagem que gera aquela rara emoção que produz uma criação artística genuína. ” – Rui Mourão, escritor, diretor do Museu da Inconfidência de Ouro Preto.

Museu do Oratório

O Museu do Oratório foi inaugurado em Ouro Preto em 1998, ano comemorativo do tricentenário da fundação da cidade tornada Patrimônio Mundial. É uma ampla e impressionante coleção de nichos devocionais, que acabam por narrar a própria história de Minas Gerais e do Brasil ao se articularem em projeto museológico paradigmático.

O casarão do Noviciado da Venerável Ordem Terceira do Carmo, instituída em Vila Rica de Ouro Preto em 1751, situa-se no alto do Morro de Santa Quitéria, entre a notável capela e o cemitério carmelitano, em pleno centro da cidade. A Igreja do Carmo foi projetada por Manuel Francisco Lisboa e seu filho, o Aleijadinho, alterou o risco do frontispício, dentro do gosto rococó.

Cerca de 200 oratórios provenientes de várias partes do Brasil revelam crenças, tradições, usos, costumes, estilos e características da civilização tropical, desde os primórdios. Esses objetos são portadores da marca inconfundível do barroco, mas incorporam contribuições diversas que definiram originalidade da arte brasileira. A obsessão religiosa, a teatralização da fé e a miniaturização do mundo fundamentam a onipresença do oratório. Muitos deles têm cortinas pintadas sobre o reverso das portas, como se tratasse da abertura de um palco no qual se encena o espetáculo sagrado.

Todo esse acervo foi fruto de uma coleção iniciada por inspiração de meu pai, Flávio Gutierrez, e coube a mim ampliar esta busca, restaurar as peças e estudá-las, de maneira a formar um acervo raro e fascinante, à luz de valioso aporte  historiográfico. Foi com essa consciência que resolvi compartilhar: disponibilizando o acesso ao público ao abrir o Museu do Oratório. Toda a coleção foi doada ao Patrimônio Nacional e o cônego José Feliciano da Costa Simões, então pároco de Nossa Senhora do Pilar, cedeu-lhe, com o aval do sodalício, a importante edificação. O genial Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), nela residiu por algum tempo, no final da vida, conforme registra o seu primeiro biógrafo, Rodrigo José Ferreira Bretas (1858), ao informar que ele ali ultimou trabalhos de talha destinados ao interior do templo.

Os oratórios, sendo obras de arte em si, abrigam outras tais como pinturas e esculturas variadas. Configuram, por vezes, maquetes arquitetônicas, testemunhos eloquentes de sua época, das fases sucessivas do barroco ao rococó e ao neoclássico.

Parte da coleção cumpre importante itinerância no Brasil e no exterior. Oratórios foram apresentados no Carrousel du Louvre, no Museu do Petit-Palais e na sede da UNESCO, em Paris, e no Museu da Igreja de São Roque, em Lisboa, entre outros museus internacionais, no curso de exposições temporárias. Admirar a coleção permanente é privilégio que aumenta, ainda mais, os valores culturais de Ouro Preto, cidade declarada Monumento Nacional em 1933 e inscrita pela UNESCO, em 1980, como primeiro bem brasileiro a integrar o Patrimônio Cultural da Humanidade.

O Roteiro da Visita

Os oratórios se distribuem no espaço do museu de modo que o espectador possa viajar no curso da história, por meio da narrativa de cada objeto. No subsolo, estão os oratórios que se movem, levados por tropeiros e viajantes em suas andanças pelo sertão; pelos garimpeiros, na busca dos metais preciosos; pelos padres portadores do viático ou que celebravam em capelas distantes; pelos irmãos de opa e esmoleres, recolhendo ofertas nas vias públicas; pelos devotos, que os guardavam na algibeira, na bolsa ou no alforje, em colar, num cofre ou num baú.

Um acampamento de tropeiro, reconstituído com numerosos objetos autênticos, revela a presença do oratório junto a arreios e bruacas, trempes, panelas, redes e arcas. No pavimento térreo, são vistos os oratórios de fatura popular, mostrando como é generoso e inventivo o gesto criador do brasileiro. As tradições lusitanas, a forte presença dos africanos e seus descendentes, as crendices e devoções alegres e coloridas do povo se imprimem nos pequenos armários em que se instala a religiosidade nativa.

A cama do garimpeiro, em madeira e tiras de couro, é protegida pelo oratório, ao lado do cofre de várias chaves, da bilha de barro e do castiçal de folha de flandres. No andar superior, os oratórios eruditos evidenciam a opulência do século do ouro e dos diamantes. Um deles tem pintura de Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), com os anjos de feições mulatas característicos do grande mestre do período. Outro é certamente a maquete de um altar de autoria do notável entalhador Francisco Vieira Servas (1720-1811).

O mestre Xavier das Conchas (Francisco Xavier dos Santos, 1739-1804) vem do Rio de Janeiro com raros exemplares de sua produção baseada na colagem de conchas. A escultura policromada de São José, em oratório desse núcleo, é atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Sobre um elegante console Dom José I, o oratório com douramento é cercado por castiçais, uma espevitadeira de prata e uma peça de porcelana da China, adereços em voga na época. A prata, por ser rara no território do ouro, era extremamente valorizada. A cadeira de espaldar e o grande pote oriental completam a cena da casa do poderoso senhor de minas.

Funções e Estilos

É possível classificar os oratórios pelas funções e pelo estilo. Há os oratórios de viagem, chamados de bala, em alusão à forma da bala da arma de fogo. Procedem do nordeste do Brasil e de Minas Gerais. Eram utilizados nas viagens, especialmente por tropeiros e mascates, bem como pelos padres. Presos a tiras de couro, eram levados a cavalo. Guardavam-se, também entre os equipamentos de viagem, arcas, baús e malas, enrolados em mantas.

Os domiciliares eram encontrados nos diversos cômodos da residência. Referem o estilo da casa, o modo de vida, o poder econômico e a espiritualidade dos proprietários e moradores. Oratórios no quarto do casal acolhiam a Sagrada Família. Sant’Ana Mestra e a Virgem Maria destinavam-se ao aposento da donzela, onde Santo Antônio era indispensável, por ser popularmente celebrado como o “Santo Casamenteiro”. Santa Bárbara é padroeira dos que trabalham em mina. Santa Rita de Cássia resolve os casos impossíveis. Santa Luzia protege os olhos. São José, os carpinteiros e operários.

Os afro-brasileiros empregam materiais diferenciados, da madeira recortada e entalhada ao ferro batido e lata. Os santos negros: Efigênia, Elesbão, Antônio de Noto ou Caltagirona e Benedito eram venerados pelos africanos e descendentes, geralmente filiados às Irmandades do Rosário. As imagens desses protetores são recorrentes nos oratórios de sabor africano. Destacam-se pela fatura popular e pelos símbolos do sincretismo religioso e cultural, traduzindo a origem étnica de seus autores ou proprietários. Revestem-se de policromia intensamente viva e suas formas seriam consideradas profanas pelos padrões da época. Estão ligados, muitas vezes, a rituais de cultos africanos ocultamente praticados na era colonial e imperial.

Os eruditos ou de salão e de sacristia ostentam formas refinadas e elegantes. Destinavam-se aos espaços nobres das residências urbanas e rurais, bem ainda de recintos públicos, tais como Câmaras Municipais e paços de Governo. Nas sacristias e consistórios de igrejas, ocupavam lugar proeminente na distribuição do mobiliário. O escultor e entalhador Francisco Vieira Servas é autor do belo exemplar do último quartel do século XVIII, visto nesse grupo ao lado do oratório com pintura interna de Manuel da Costa Ataíde. Algumas peças revestem-se de chinoiseries e influências orientais, em moda em Portugal e na Colônia brasileira, conservando os ecos da presença lusitana no Oriente. Em seu interior, não raro, aparecem esculturas em marfim, um requinte tão apreciado quanto os objetos de prata.

Ermidas são oratórios de grande formato. Muitas vezes integradas na arquitetura, eram instaladas em locais de afluência de público, principalmente varandas junto a largos pátios, portais e fachadas, na cidade ou na zona rural. As ermidas ensejavam a celebração de ofícios, novenas, missas e festividades diversas, funcionando também como elemento protetor em tempos de difusa superstição. Na ermida do Museu do Oratório, encena-se a celebração de um batizado, com manequins em roupas autênticas de época.

Os oratórios de lapinha são típicos do final do século XVIII em Minas Gerais, ligados à devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Orago de famoso templo na cidade de Matosinhos, nas cercanias da cidade do Porto, foi entronizado em importantes sedes de romaria, na capitania mineira. Santuários consagrados ao Bom Jesus de Matosinhos foram erguidos em Ouro Preto, Santo Antônio de Pirapetinga do Bacalhau (município de Piranga), Itabirito, Conceição do Mato Dentro, Campo Belo e Congonhas do Campo, para cujo adro o Aleijadinho compôs os 12 profetas em pedra-sabão, criando 66 figuras em cedro policromado para as capelas dos Passos da Paixão. Esse conjunto notável integra o Patrimônio da Humanidade, repertoriado pela UNESCO. Adotando o estilo rococó, os lapinhas compõem-se quase sempre de dois nichos. No superior, monta-se a cena do Calvário, tendo o Crucificado de Matosinhos ao centro; no inferior, invariavelmente um presépio, com a cena da natividade de Jesus, justifica o nome da peça, pois lapa significa a pequena gruta com a manjedoura do Natal. As imagens são todas entalhadas em calcita, pedra muito alva, encontrada nas estalagmites das grutas, que evoca o alabastro europeu. Recebiam um toque de douramento e discreta policromia.

Coral Canto Crescente

Iniciado em agosto de 2012, o Coral Canto Crescente é um projeto sociocultural que possibilita a formação musical de 70 crianças e adolescentes, estudantes da rede pública de ensino de Ouro Preto, com idades entre 7 e 15 anos.

O coral, que busca associar a música a elementos cênicos, indo além da postura tradicional dos coros, é uma forma de dar continuidade às estratégias de aproximação do Museu do Oratório com a sociedade ouro-pretana, de modo a favorecer positivamente o compromisso com a democratização do acesso à cultura. Além disso, é uma forma de enriquecer a educação musical na rede escolar do município, incentivando a formação na área e favorecendo o desenvolvimento cultural de adolescentes de Ouro Preto.

Série de Concertos

A série “Concertos no Museu do Oratório”, com direção artística da renomada cravista Elisa Freixo, apresenta aos visitantes e moradores da Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, raros e belos espetáculos de música erudita, com importantes músicos e um repertório variado, que contempla diferentes épocas e estilos, mantido pelo Museu do Oratório desde 2001.

As apresentações, que acontecem uma vez por mês a preços populares, preenchem de sons a antiga Casa do Noviciado do Carmo com programas que percorreram autores de variados séculos. Os concertos oferecem uma excelente oportunidade de contato direto com o acervo do museu, com os músicos em um ambiente que lembra antigos saraus.

Valorização das Manifestações Culturais

O Museu do Oratório entende sua função social e, por tal, proporciona formas de preservação diferenciadas em prol da valorização do patrimônio local. Neste sentido, o projeto de Valorização das Manifestações Culturais incentiva a disseminação dos saberes e fazeres tradicionais, a partir da realização de eventos com grupos culturais de Ouro Preto e região. Partindo do estreitamento da relação entre museu e comunidade, este programa incentiva os indivíduos a reconhecerem seu patrimônio, valorizando a sua história, memória e tradição, tornando-os agentes responsáveis pela preservação de sua herança cultural.

O Museu que acabou se encontrando

Rompendo tradição que vinha dos tempos do reinado brasileiro de D. João VI, o Museu da Inconfidência se instalou fora da faixa litorânea do país. A conveniência da interiorização da cultura brasileira, defendida pelos representantes do Movimento Modernista de 1922, tornava-se realidade naquela quadra. Ouro Preto havia sido a primeira cidade histórica tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional–IPHAN. Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, redescoberto, já se encontrava no centro das atenções e iniciava sua carreira internacional com o estudo que sobre ele foi feito por Germain Bazin, na época conservador do Museu do Louvre. A criação do Inconfidência, não deixando de ser mais um acontecimento que surgia na mesma linha, decorreu de uma ação política que mal escondia suas intenções proselitistas.

Em 1936, o presidente Getúlio Vargas, que planejava a implantação da ditadura do Estado Novo, resolveu se fortalecer junto à população, apresentando-se como defensor de uma das nossas tradições mais sensíveis. Promoveu o repatriamento dos restos mortais dos inconfidentes condenados a degredo na África, onde se encontravam sepultados. As ações subsequentes, oficialmente articuladas, deixaram muito evidente o quanto de interesse se achava em jogo por parte do governo. As urnas funerárias, ao chegarem, ficaram longamente expostas à visitação pública no Rio de Janeiro.

Assinado o Decreto nº. 965, de 20 de dezembro de 1938, de criação do museu, foi realizada a transferência das ossadas para Ouro Preto, que contou com o acompanhamento do próprio Getúlio Vargas. Como se resolveu que ficariam recolhidas na sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Matriz de Antônio Dias, enquanto tinha andamento a obra de restauração do edifício da antiga Casa de Câmara e Cadeia, esvaziado da penitenciária que nele funcionou desde a primeira década do século, seu traslado na cidade, rigorosamente planejado, constituiu ato sem dúvida memorável. Estabeleceu-se um cortejo processional com a participação da comunidade escolar que, de bandeirinha em punho, desfilou aos olhos de uma população emocionada.

O Panteão dos Inconfidentes seria inaugurado a 21 de abril de 1942, no transcurso dos 150 anos da sentença de condenação dos conspiradores. A solenidade contou com a presença de inúmeras autoridades federais, entre as quais se destacavam os ministros Gustavo Capanema e Francisco Campos.

O governo que, durante o período da construção do Panteão, deixou uma locomotiva da Central do Brasil estacionada na cidade para o transporte de ida e volta das lajes de itacolomito (quartzito) que estavam sendo gravadas no Rio de Janeiro, continuaria mantendo o mesmo nível de apoio para a montagem do museu. Mandou vir da capital da República os originais do 7º volume dos Autos de Devassa, que continha a sentença condenatória de Tiradentes e duas traves da forca em que pendeu o Mártir da Inconfidência na Praça da Lampadosa. O prestígio federal seria também decisivo para que a primeira grande doação de acervo acontecesse. O arcebispo de Mariana dom Helvécio Gomes de Oliveira, que vinha recolhendo peças de paróquias do interior com o propósito da organização de um museu de arte sacra na sede da arquidiocese, transferiu boa parte delas para o projeto que seria montado em Ouro Preto. Tudo pôde acontecer com muito desembaraço e, adquirida do Instituto Histórico de Ouro Preto, criado pelo intelectual Vicente Racioppi, expressiva quantidade de objetos e documentos relacionados com a evolução social de Minas e com a Inconfidência, o projeto já encontrava em condições de se tornar realidade. O plano geral da exposição foi sugerido pelo historiador Luiz Camillo de Oliveira Netto e a arrumação museográfica ficou a cargo do decorador suíço Georges Simoni, que desenvolvia outros projetos oficiais no Rio de Janeiro.

O resultado alcançado logrou repercussão nacional. Além de haver surgido, como se viu, bafejado pelo prestígio da vinculação com a mais alta política vigente no país, o órgão se ajustava por completo à campanha modernista de resgate da riqueza do passado colonial mineiro. Pelo seu caráter inovador, o trabalho de montagem da exposição também constituiu grande trunfo. Numa revista denominada Sombra, na capital da república, o escritor e desenhista Luiz Jardim afirmava que, pela primeira vez entre nós, uma instituição daquela natureza estava sendo mais do que um depósito desorganizado de peças. Nela realmente uma inteligência ordenadora era visível para quem soubesse enxergar. Além de conseguir fazer agrupamento de objetos da mesma família em várias salas, Simoni soube estabelecer uma linha de eficiência estética que, mesmo sendo mais de efeito decorativo, garantiu a unidade do conjunto.

A filiação ao Estado Novo, se representou benefício para o museu no período da sua implantação, terminou por se converter em elemento altamente desfavorável quando, em consequência dos ventos liberais que passaram a soprar pelo mundo no final da guerra em 1945, ocorreu no Brasil o desmoronamento da ditadura. Os valores cívicos e culturais apresentados no Inconfidência eram sólidos. Calavam fundo na alma da nação. Sob esse aspecto, o órgão poderia se considerar independente do apadrinhamento político, que não tinha nada de inocente e só via conveniência em se colocar ao lado do que muito significava para a população brasileira. De qualquer maneira, suas possibilidades de sobrevivência de repente se tornaram limitadas. Envolvido com a tarefa da restauração democrática, o país não tinha condições, naquele momento, de dar prioridade à cultura. O sistema como um todo amargou longo período de escassez de recursos, mais acentuado para o conjunto dos museus, que ainda estava longe de conquistar a evidência que tem hoje. Entre todos, o órgão que menos possuía condições para pleitear qualquer ajuda seria aquele que fora criado como elemento de conveniência ideológica do regime acabado de ser proscrito.

Três décadas após a abertura de suas portas, quando ocorreu o afastamento do segundo diretor, o Museu da Inconfidência não era mais nem sombra do que fora. Não dispondo de orçamento próprio, sobrevivia com ridícula mesada destinada a despesas de pronto pagamento, recebida do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O quadro de funcionários, minado por sucessivas aposentadorias sem substituições,via-se reduzido a dois agentes administrativos e cinco guardas de sala. Estes últimos cuidavam da faxina no horário da manhã e à tarde vestiam o uniforme para receber os visitantes, que chegavam a partir do meio-dia. A exposição desmontada no andar superior estava com as peças jogadas pelo chão, recebendo poeira. A cortina simbólica, inspirada na bandeira idealizada pelos inconfidentes, que compõe o Panteão, se encontrava rasgada. Numeroso volume de peças do acervo de reserva, amontoado num canto do que fora a antiga casa do carcereiro – estendido vão ladrilhado e sem forro –, se achava exposto a goteiras, fuligem chegada da rua e emanações de uma parede que lacrimejava atacada de sal, porque no passado ali funcionara também uma cozinha. Na exposição ou fora dela, o conjunto de objetos museológicos clamava por restauração. O prédio da Casa de Câmara e Cadeia, de grande robustez, necessitava de intervenção em ferragens de portas, janelas e havia uma figura danificada no topo da cimalha.

A caminhada para a revitalização do órgão teve início com Delso Renault, funcionário do Ministério da Educação designado para responder pelo expediente até a nomeação do novo diretor. Ajudado pela guarda, ele fez a reintegração do segundo andar, recolocando peças nas diversas salas, embora a primitiva museografia tenha sido impossível de recuperar, devido ao desmantelamento do material de suporte expositivo. Substituída a cortina do Panteão, reparada parte da ferragem de janelas e portas do prédio e providenciado algum retoque de pintura para a melhoria do aspecto geral do ambiente, foi possível conseguir recurso para contrato de dois ou três funcionários por serviço prestado.

Terminada a longa diáspora de nove meses – tempo que o Serviço Nacional de Informação gastou para liberar a nomeação – o novo administrador do órgão, na ocasião exercendo o cargo de diretor executivo da Fundação de Arte de Ouro Preto–FAOP, trouxe de lá uma aluna acabada de se formar no curso de restauração ministrado por Jair Afonso Inácio, Maria José de Assunção da Cunha, para iniciar o trabalho de conservação, sem dúvida a providência mais urgente a ser tomada. Ela trabalhou muito tempo praticamente de graça, recebendo pelo Fundo Fixo. Seu atelier foi o vão de uma das janelas da fachada do edifício, onde se dispôs uma mesa com cadeira. Quando conseguimos construir dois banheiros, colocar assoalho e forro na casa do carcereiro, encontramos meios de trazer também Elisabeth Salgado de Souza, que ministrara no Festival de Inverno e na FAOP alguns cursos de educação artística e veio para iniciar uma atividade de museu-escola, tentativa de integrar o Inconfidência na comunidade.

Esses foram os primeiros passos de uma tímida revolução, aos poucos tornada possível devido à criação, dentro do IPHAN, do Grupo de Museus e Casas Históricas de Minas Gerais, cuja coordenação ficou a cargo do diretor do Museu da Inconfidência, o responsável por este relato. De repente, surgia um período de certa bonança. Levamos a efeito, então, a restauração e ampliação da antiga casa do carcereiro, que deu origem a auditório, sala de exposições temporárias e reserva técnica. Concluímos a reforma da Casa do Pilar, obra que há 20 anos vinha sendo retardada pelo Patrimônio Histórico, devido a compromissos mais urgentes a serem cumpridos. Foi possível instalar no imóvel diversos serviços. O Setor Educativo. O Laboratório de Conservação e Restauração. O Arquivo Histórico, que nasceu da transferência do arquivo do Barão de Camargo, há anos ocupando um canto de parede do gabinete do diretor, na Casa de Câmara e Cadeia, e do arquivo de documentação cartorial, que estava aos poucos se desfazendo no sótão da Casa da Baronesa, atacado por goteiras, insetos daninhos e pela gatunagem de pesquisadores mal intencionados. A Biblioteca que, igualmente por falta de espaço, cobria o que restava das paredes no gabinete do diretor. O Setor de Documentação Museológica. O Setor de Pesquisa Histórica. O Setor Administrativo.

A essa altura, o diretor do Museu já acumulava também a função de coordenador do recém-criado Programa Nacional de Museus. A consequente movimentação de recursos mais vultosos permitiu o contrato de terceirizados e tornou possível o povoamento dos vários setores. Mesmo as várias unidades do Grupo de Museus e Casas Históricas puderam ser organizada em bases mais realistas, com o acréscimo de melhores condições de segurança, sendo constituído além do mais um corpo geral de guarda armada dirigido a partir do Museu da Inconfidência.

A Biblioteca do museu, que tivera início com uma seleção sofisticada de títulos levada a efeito pelo fundador do IPHAN, Rodrigo Mello Franco de Andrade, mais que dobrou com a aquisição do acervo deixado pelo falecido historiador Tarquínio José Barbosa de Oliveira. O Arquivo Histórico viu-se enriquecido com variada documentação procedente dos séculos XVIII e XIX. Material sobre os inconfidentes, sobre artistas e outros personagens. Recebeu vultoso lote de papéis musicais colecionados pelo musicólogo Francisco Curt Lange, adquirido no Uruguai, depois 37 traslados dos Autos da Devassa, referentes aos réus eclesiásticos envolvidos com a conspiração da Inconfidência, vindos também do exterior. Estas duas últimas aquisições sobrelevam em significação. As partes e partituras coletadas pelo descobridor da música colonial brasileira, ao longo de suas pesquisas, acabaram se convertendo numa das mais importantes coleções dessa natureza existentes no país. Contando com cerca de um metro cúbico de manuscritos, ela foi a origem de todos os arquivos de obras de compositores coloniais existentes em Minas Gerais. Os processos de condenação dos padres foram mandados recolher por D. Maria I que, católica fervorosa, não desejava vê-los expostos à curiosidade pública. Entregou-os aos cuidados do Conde de Galveias, que havia sido governador de Minas. No século passado, os descendentes do nobre português, espoliados dos seus bens pela Revolução dos Cravos, resolveram fazer dinheiro com aquela relíquia. Havendo o presidente Ernesto Geisel recusado a efetuar a compra ao ser informado, o Anuário do Museu da Inconfidência já havia feito a divulgação do conteúdo das peças, o negócio teve que ser feito por arrematação, quando a imprensa brasileira começou a denunciar que documentação fundamental do país estava sendo leiloada em Londres.

A análise das condições gerais do Museu da Inconfidência àquela altura estava a indicar, a recuperação integral do órgão só se completaria com a reforma da exposição de longa duração, embora ela fosse aceita sem questionamentos e até considerada insubstituível por muita gente. Na verdade, tais alegações não tinham razão de ser. Bastaria se lembrar, o que vinha funcionando no segundo piso não passava de remontagem improvisada e insuficiente. Os detalhes da primitiva arrumação não puderam ser recuperados. Até divisórias criadas por Georges Simoni haviam se perdido. Por outro lado, o todo do museu sobrevivia com suportes muito envelhecidos. À medida que se aprofundava o exame da casa, objeções fundamentais vinham à tona. Embora no projeto original algumas salas, devido à coerência do grupo de objetos que as constituíam, houvessem sido estruturadas com propósito narrativo, o que comandava a mais vasta organização do conjunto não passava de um propósito decorativo, não fosse esta a profissão do técnico que ali funcionara. Em sua defesa, temos que admitir, a aprovação alcançada pelo trabalho dele tinha razão de ser. A tendência museográfica da época era tão somente a apresentação de um acervo em condições visualmente harmoniosas. O segundo problema que nos chamou a atenção parecia ainda mais sério. Criado por decreto para ser o Museu da Inconfidência, ele de fato não correspondia ao desejo do legislador.

Realizado pelo IPHAN um levantamento do que existia de memória do movimento político de l789, pouca coisa se encontrou. Só se conseguiu material para a organização de uma única sala, que tomou o nome de Relíquias da Inconfidência. O total do prédio, que impressionava pelo tamanho, por salões de grande generosidade, teve que ser preenchido com uma simplificada mostra sobre a história de Minas Gerais no período colonial. Como o tema, por sua vez, só pôde ser abordado superficialmente, ocorreu até uma espécie de interferência impressionista, que parecia querer convencer pela apresentação de objetos repetidos à exaustão. Confundia-se com vitrina de antiquário o que de forma mais sóbria devia ser constituído. Finalmente, chegou-se a constatar algo ainda mais condenável. Flagramos a contaminação de uma ideologia procurando se apropriar da memória da conspiração, tirando dela a sua pureza de ação libertária. Criado pelo governo Vargas no momento da implantação da ditadura, quando era forte a influência do Integralismo, o Panteão da Inconfidência surgiu sob inspiração do pensamento fascista. Os brasileiros que estavam sendo repatriados foram recolhidos ali como heróis messiânicos, intemporais, que deviam ser cultuados em termos absolutos, desprezada a sua contextualização histórica.

A intervenção final, que encerraria o trabalho de recuperação e modernização do museu só veio a acontecer na primeira década do século atual. Como foi possível dar solução para o conjunto desses problemas? A deficiência básica, que comprometia o órgão como um todo, foi atacada no momento em que se procurou determinar os fatores que deram origem à conspiração, iniciada não se podia precisar por quem, mas foi sem dúvida consequência da grande agitação de ideias que prenunciava uma realidade nova para o ocidente e já havia alcançado resultados concretos com a constituição dos Estados Unidos da América do Norte, recém-emancipados da Inglaterra. Não havendo possibilidade da indicação de um precursor individual para o movimento, o local do seu acontecimento – a região das minas – constituía fato histórico incontestável. Mas fomos além dessa constatação ao concluir que só havia mesmo condições para que ele ocorresse em Vila Rica.

Até o final dos setecentos, o centro de gravidade da colônia achava-se localizado no nordeste. Os latifúndios formados em torno da produção açucareira, sustentando o fluxo financeiro estabelecido com a metrópole, concentravam em torno de si o grande contingente da força de trabalho disponível. Naquela área ninguém estava em condição de pensar em independência, uma vez que a lei portuguesa é que garantia a posse da terra. As diversas povoações, que lutavam por existir no vasto território nacional despovoado, se encontravam em fase elementar de desenvolvimento. Não iam muito além de entrepostos de abastecimento e passagem. A mineração, na sua expressão maior de Vila Rica, é que iria permitir o aparecimento do primeiro núcleo urbano perfeitamente constituído. Nela foram reunindo pessoas que trabalhavam por conta própria ou agrupamentos pouco adensados que garantiam independência de pensamento. Eram trabalhadores e artífices de diversas especialidades, servidores públicos, profissionais liberais, militares, padres, negociantes de porte médio, pequenos agricultores, pequenos proprietários. Essa gente presenciava o sacrifício da população na região das minas, o endurecimento cada vez maior da fiscalização para a cobrança do quinto, a ponto de se encontrar no ar a ameaça de decretação de derrama, e não estava presa a nenhum compromisso ou conveniência semelhante ao que se passava com os proprietários nordestinos. Em Vila Rica é que houve de fato massa crítica para se pensar no rompimento com Portugal. Além disso, nela é que existiam, com o ouro, condições para um real confronto com a metrópole. Tal constatação de saída reduz a importância de movimentos surgidos em Pernambuco e na Bahia, muito comentados por certos historiadores, na verdade apenas interessados em sustentar disputas regionais.

A saída para conclusão da reforma que havia iniciado estava a nosso ver definida. Revelar o que foi o movimento político de 1789 envolveria necessariamente o esforço de tentar compreender a base social imediata que a gerou. O estudo da conspiração teria que ser feito de forma conjugada com o estudo de Vila Rica. Só assim se chegaria a realizar um completo e verdadeiro Museu da Inconfidência. O plano museológico que em consequência foi elaborado estabeleceu a divisão da mostra em dois segmentos para a ocupação dos dois pisos do edifício. Em baixo, seria apresentada a infraestrutura da evolução social, econômica e política da vila e, em cima, a consequente superestrutura. No andar térreo se procuraria estudar desde a origem mais primitiva dos pequenos arraiais, quando a região era ocupada ainda por tribos indígenas, passando em seguida pela constituição da vila, expondo o ambiente de sombras de um período em que estavam vigentes os efeitos da Contrarreforma, do Barroco, do absolutismo, e promovendo a transição – com o recurso museográfico da apresentação do salão imediato inteiramente pintado de branco – para o ambiente do iluminismo, da agitação de ideias em torno dos direitos individuais, do governo dos homens constituído em República com dirigente escolhido pelo voto livre de cada cidadão. E, para terminar, com a caracterização da fase imperial, já no país independente, quando a cidade pôde chegar à consolidação do seu desenvolvimento.

A mostra do piso superior estabeleceu a sua unidade com a apresentação da procissão do Triunfo Eucarístico, na sala que se abre para o hall da escadaria. A festa de trasladação do Santíssimo da Igreja do Rosário para a Matriz do Pilar, de onde fora provisoriamente retirado durante o período de uma reforma da edificação, como se sabe, aconteceu como verdadeira explosão, um caótico amontoado de produtos culturais sendo apresentado. Ao se deslocar pela rua, o cortejo exibia objetos de religiosidade cristã e pagã, de arte erudita e popular, de música, poesias, pinturas, desenhos, cartazes, declamações e encenações teatrais. Assumindo aquela posição central, simbolicamente fazia a união de tudo o que compõe aquele pavimento. Sala Arte e Religião, Sala das Irmandades Religiosas, Sala dos Oratórios, Sala do Aleijadinho, Sala do Mobiliário, Sala D. Maria I, Sala Manoel da Costa Athaide, Sala de Pintura e Escultura.

No primeiro patamar da escadaria, que no hall central faz a articulação dos dois pavimentos, um grande retábulo originário da Fazenda Serra Negra se encontra instalado na parede, a dois metros e setenta de altura, permitindo o trânsito de pessoas sob a sua base. A visão espalmada dele, que fica voltado inteiro para quem sobe do andar térreo ou circula em cima, no corredor formado pelo guarda-corpo de ligação dos lances de degraus da direita e da esquerda, é completada por dois anjos de tamanho humano, de autoria de Vicente Vieira Servas, instalados em vãos de janelas. Uma dupla de anjos do tipo convite, também de grande porte, que na exposição primitiva ficava no chão, encaminhando o visitante para a porta de entrada do segundo andar, foram localizados nas quinas do guarda-corpo, no ponto mais elevado. Toda essa arrumação visa chamar a atenção para a monumentalidade do edifício, que nunca havia sido explorada.

A Sala da Mineração e a apresentação de mobiliário que pertenceu ao contratador João Rodrigues de Macedo foram recursos utilizados para a contextualização dos inconfidentes, que conviveram com a dura realidade da produção aurífera, envolvendo brancos e negros, disputas armadas, sacrifícios de toda ordem, e com o grande capital, que sem dúvida permeou a tentativa de rebelião. O movimento teve motivações econômicas, como ficou evidenciado na obra A Devassa da Devassa, de Kenneth Maxwell, que pesquisou a documentação fazendária do período. A Inconfidência não se limitou a simples episódio romântico envolvendo poetas com suas musas infelicitadas pelo amor interrompido, que agregava ainda outros idealistas, negociantes, fazendeiros, religiosos, militares, profissionais liberais recém-formados, que enfrentavam seu primeiro tosco embate com a realidade.

A arquitetura museográfica foi desenvolvida pelo especialista francês Pierre Catel, perito em adaptações em prédios históricos. As vitrinas monumentais que criou deram sequência à exploração da robustez e elevados pés-direitos dos vastos salões da Casa de Câmara e Cadeia. A sábia disposição das peças fez com que cada uma ganhasse seu espaço próprio, podendo se exibir com autonomia e personalidade. A iluminação, demerizada no seu conjunto, soube se concentrar sobre as vitrinas e os objetos expostos, conferindo indiscutível aspecto de modernidade à casa.

O acervo apresentado é dos mais ricos. Imbatível enquanto testemunho da civilização do Ciclo do Ouro, que suplantando o poderio dos latifúndios nordestinos voltados para a produção do açúcar, transferiu para as minas o centro econômico da colônia. Ele interessa aos estrangeiros que desejam tomar conhecimento do que foram os séculos XVIII e XIX entre nós e aos brasileiros que podem vir aqui beber na fonte das suas raízes mais autênticas. A Inconfidência Mineira despeja significação sobre a independência que, se não contasse com a retaguarda dela, seria apenas um ato burocrático vazio, destituído de contribuição popular. O Presidente Juscelino Kubistchek compreendeu perfeitamente essa questão e instituiu as celebrações de 21 de abril, quando o governo do Estado e a nação, num encontro diante do Museu da Inconfidência, anualmente homenageia a personalidade símbolo de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

O museu tem a honra de contribuir para o estudo e a divulgação de duas personalidades que se tornaram marcos definitivos da nossa cultura, cada um em seu campo de atividade, dando o máximo que entre nós pôde ser alcançado pela bravura cívica e o gênio criador. Uma lei federal declarou Tiradentes Patrono da Nação Brasileira e outra, Antônio Francisco Lisboa Patrono da Arte no Brasil. Se no adro do Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, de Congonhas do Campo, podemos visitar o conjunto mais expressivo da obra de Antônio Francisco Lisboa, o nosso museu conseguiu montar uma sala inteira com peças que documentam os vários caminhos criadores percorridos pelo arquiteto, o escultor, o entalhador, o projetista de altares e de móveis. Ali se encontram também mais de quarenta recibos que documentam a produção do artista multifário e alguns desenhos que testemunham o domínio completo que ele possuía nesse campo, únicas peças até hoje encontradas.

O Museu da Inconfidência é um órgão bastante completo. A base fundamental do Arquivo Histórico é um número elevado de processos que tiveram curso na justiça local nos séculos XVIII e XIX, mas a ele foi juntado o arquivo particular do Barão de Camargo, senador do império, papéis musicais onde sobressai a coleção formada por Francisco Curt Lange, o descobridor da nossa música colonial, documentos relacionados com a Conspiração de 1789, incluindo traslados dos réus eclesiásticos, documentos de natureza fazendária e eleitoral. A Biblioteca que entre livros comuns, obras raras e periódicos totaliza um acervo de 18.228 itens, além de dar suporte ao nosso trabalho técnico, atende a pesquisadores. O Laboratório de Restauração e Conservação, o Setor Educativo e o Setor de Musicologia, na expectativa de verem completos os seus quadros funcionais a partir de concurso público, passam por período de transição, mas continuam de qualquer forma por meio de contratos para realização de serviços, trabalhando em nível satisfatório. Os Setores de Pesquisa, Documentação Museológica, Promoção Cultural e Comunicação possuem grande vitalidade. A Oficina do Inconfidência – Revista de Trabalho, que não fica restrita ao que produzem os pesquisadores da casa, constitui um estuário anual de divulgação de alta cultura e o boletim Isto é Inconfidência, de distribuição trimestral, destinado a um público de nível médio, colecionado por intelectuais e requisitado por bibliotecas de universidades, tem alcançado resultados na verdade superiores aos das suas intenções. A Reserva Técnica, muito completa, é das melhores existentes no país e a Loja e Café, mantida pela Associação de Amigos, de padrão elevado, completa o conjunto dos serviços que o museu oferece.

O Museu da Inconfidência recebe uma massa de mais de 150 mil visitantes anuais e exposições temporárias são oferecidas no Anexo I, com a contribuição do vizinho Auditório-Sala de Projeções.

Museu da Farmácia

1. Fachada do Museu da Farmácia. Imagem Raiany Silva (Copy)O Museu da Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto (MPh/UFOP) está localizado no prédio que abrigava, até 2013, todas as atividades acadêmicas da Escola de Farmácia (EFar). Fica localizado no centro histórico de Ouro Preto, na Rua Costa Sena, 171, na mesma edificação em que funcionou o Congresso Mineiro onde foi promulgada em 1891, a primeira Constituição Republicana do Estado de Minas Gerais.

14. Quadro de formatura. Imagem Raiany Silva (Copy)A Escola de Farmácia de Ouro Preto, criada em 1839 e, atualmente, uma unidade acadêmica da UFOP, é considerada a instituição mais antiga de ensino autônomo nessa área na América Latina. Ao longo de sua trajetória, manteve um acervo remanescente desde a implantação e que hoje compõe a maior parte das coleções do museu.

Após 30 anos da aquisição do mobiliário, outro grupo de professores e funcionários decidiu reunir material antigo disperso pelos laboratórios da EFar. O acervo era composto por equipamentos, materiais didáticos, mobiliário, drogas, documentos, livros do século XIX (principalmente de origem francesa), periódicos e teses elaboradas por professores e alunos. Em um espaço maior, essas peças foram dispostas ao redor da antiga “Pharmacia Magalhães”, originando então o Museu da Farmácia. Tinham como principal objetivo permitir que o visitante desse espaço tivesse uma visão do relacionamento do farmacêutico com o medicamento através dos tempos, tendo como pano de fundo a história da escola.

Somente em 2010, unificando esforços e contando com o apoio da Reitoria da UFOP e de diversos profissionais da área museológica em Ouro Preto, foi formada uma Comissão Acadêmica e Administrativa que teve como objetivo principal abrir, permanentemente, o Museu da Farmácia à visitação pública. A partir daí, foram desencadeadas ações sistemáticas de conservação e proteção dos acervos, melhorias na disposição da exposição, inventário, restauração do acervo, criação de um projeto arquitetônico e contratação de pessoal para gerir e receber os visitantes.

Dessa forma, e após dez anos fechado à visitação pública, em 4 de abril de 2011 – data em que também se comemorou o 172º aniversário da Escola de Farmácia – o museu foi reaberto, oferecendo a Ouro Preto mais um museu para seu circuito cultural e educativo.

O MPh/UFOP acredita ter, assim, iniciado sua primeira etapa de revitalização do prédio histórico e, a partir de agora, pretende estender sua abrangência ao público através de uma conexão do passado com o futuro da profissão farmacêutica, incentivando uma reflexão sobre a função do medicamento no processo saúde/doença no mundo contemporâneo.

5. Pharmacia Magalhaes (Copy)Nas novas instalações, além de uma exposição de longa duração, o museu abrigará exposições de curta duração, um arquivo, uma biblioteca de obras antigas e um centro de convenções.

Embora com uma presença muito intensa na vida cotidiana, poucos conhecem a origem e os cuidados necessários para a produção dos medicamentos. O Farmacêutico participa de todas as etapas da produção, garantindo a segurança e orientando o usuário sobre os cuidados necessários para que o seu tratamento seja eficaz. No Museu da Farmácia, o visitante entrará em contato com as diversas etapas desse processo, conhecendo a sua história e importância na melhoria das condições de vida da população. A partir da abordagem de aspectos relacionados com a biologia, a química e a farmacologia, o visitante poderá fazer um trajeto que irá da floresta, berço dos medicamentos, às mais avançadas tecnologias que estão sendo pensadas para a farmácia do futuro.

Acervo bibliográfico

O acervo é composto de cerca de 3.000 livros, principalmente do século XIX e de origem francesa, nas áreas de biologia, química, física, farmacologia e medicina. Entre estes se encontram aqueles adotados pela escola no século XIX: Leçons élèmentaires de Chimie de M.F. Malaguti,  Traité de Pharmacie de E. Souberain,  Traité de Thérapeutique et de Matiére Medicale de A. Trousseau e Traité élèmentaire de Minéralogie de F. S. Beudant. Existe ainda uma coleção de Theses produzidas por alunos da escola entre 1893 e 1901, durante a vigência do bacharelado em ciências naturais e farmacêuticas, além de obras de viajantes e naturalistas europeus em visita ao país, enciclopédias, dicionários, jornais, revistas, manuais e catálogos de equipamentos usados na indústria, em laboratórios e gabinetes.

8. Coleção de taxidermia. Cobra Jararaca. Imagem Raiany Silva (Copy)

Acervo arquivístico

A vida administrativa e educacional da Escola de Farmácia pode ser vista em documentos de natureza diversa como correspondências, inquéritos administrativos, cadernos de apontamentos de professores e alunos, quadros de pessoal, listas de chamadas, registros de matrículas, papéis das associações estudantis, etc. Outro acervo é o iconográfico: constituído por uma coleção de quadros e fotografias de ex-alunos, além de álbuns de formatura, imagens referentes à vida escolar e datas comemorativas.

Acervo museológico

Apresenta coleções de equipamentos utilizados nas salas de aula e laboratórios desde a implantação da Escola de Farmácia em Ouro Preto. Apresenta também um rico mobiliário, dentre os quais, a antiga “Pharmacia Magalhães”.

Reaberto há quase três anos, o MPh/UFOP prossegue com a ação de divulgação científica por meio do atendimento a turistas e grupos escolares.

Contando com bolsistas da Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (PROEX), contratados para o Programa Integrado de Extensão para o Ensino e a Divulgação da Ciência (PRO-CIÊNCIA), o MPh/UFOP pôde implantar o atendimento monitorado a escolas e grupos de visitantes (turistas e comunidade) nas instalações do edifício histórico permitindo o contato destas pessoas com o conhecimento e preservação da memória científica e tecnológica nacional.

Além da visita orientada pelas dependências dos antigos laboratórios e salas de aula, os visitantes também podem agendar a participação em oficinas ligadas ao conhecimento farmacêutico.

16. Sala da Congregação. Imagem Raiany Silva (Copy)

Ecomuseu

Foto do Ecomuseu1

O Arraial do Ouro Podre

A importância histórico-cultural da cidade de Ouro Preto é inegável. Constituída pelos arraiais mineradores do século XVIII, está situada, estrategicamente, aos pés do Pico do Itacolomi, marco geográfico e simbólico dos inúmeros caminhos percorridos por  aqueles que se aventuram e se (des)venturam nas estradas da vida. Mas Ouro Preto não parou no tempo, através das tramas dos telhados, casas, becos, ruas e ruelas, apresenta um sistema de relações sociais e culturais, que trabalha no sentido de projetar as releituras das memórias passadas nas vivências do presente.

O subsolo das áreas onde se localizam, atualmente, os bairros envolvidos com o desenvolvimento do Ecomuseu da Serra de Ouro Preto – morros da Queimada, São João, Santana e São Sebastião – em outros tempos uma jazida arqueológica, é hoje testemunho do período da exploração do ouro nas Minas Gerais. Mas não só o subsolo. Em todos os bairros estão à mostra resquícios da ocupação urbanística do próspero arraial minerador do início do século XVIII – o arraial do Ouro Podre ou arraial do Pascoal – comerciante português Pascoal da Silva Guimarães – o qual, em 1708, possuía grande contingente de escravos que trabalhavam nas minas.

Por volta de 1711, a Vila Rica de Albuquerque passava por mudança no traçado urbanístico, com o início da construção de pontes, chafarizes, abertura de ruas, surgimento de um comércio e uma certa ordem administrativa. É por essa época que o rei D. João V institui a cobrança dos “quintos” – imposto de 20% sobre o total do ouro extraído, criando tensões na relação entre mineradores e Coroa Portuguesa. As Casas de Fundição, instaladas a partir de 1719, aumentam ainda mais essa pressão, pois estava proibida a circulação do ouro em pó ou em pepitas. Esses deveriam ser fundidos e marcados com o selo real. A situação tornou-se insustentável e, em 1720, eclodiu a revolta conhecida como “Sedição de Vila Rica”, sufocada por D. Pedro de Almeida Portugal, conde de Assumar. Vários revoltosos foram presos, entre eles o próprio Pascoal, deportado para Lisboa. O arraial foi totalmente queimado e a população se refugiou em outros locais da Vila. Segundo a lenda, a “Cidadela do Ouro Podre” ardeu em chamas por toda a noite, para servir de exemplo a quem ousasse desrespeitar a Coroa. A partir de então, este lugar ficou conhecido como “Morro da Queimada”.

Com o declínio da produção aurífera, o local ficou em ruínas por quase 200 anos. Porém, desde o final da década de 1940, começa a surgir novo povoamento, desordenado, nos antigos territórios mineradores do Pascoal. Trata-se de uma população proveniente de áreas rurais, vizinhas aos municípios de Ouro Preto e Mariana. Atualmente, estima-se que chega à casa dos 12 mil habitantes, vivendo nos bairros conhecidos como Serra de Ouro Preto.

Os Parques Naturais

Segundo o documento “Redelimitação do Parque Natural Municipal das Andorinhas”, “a partir da Audiência Pública de 21 de março de 2001, promovida pela Comissão de Administração e Serviços Públicos da Câmara Municipal de Ouro Preto, foi criado um grupo técnico para redelimitação da área de proteção do Parque Municipal da Cachoeira das Andorinhas e Morro da Queimada, visando ampliar a área do parque para proteção das nascentes altas do Rio das Velhas” (Prefeitura Municipal de Ouro Preto, junho de 2005). Tal grupo de trabalho contou com a participação de instituições públicas e associações, dentre elas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a Universidade Federal de Ouro Preto, o Instituto Federal de Minas Gerais, o Instituto Estadual de Florestas e a Associação de Moradores do Morro São Sebastião. Ainda segundo o mesmo documento, nova “Audiência Pública foi realizada em 25 de março de 2003, para apresentação de estudo técnico de delimitação da área de proteção do Parque Municipal das Andorinhas e do Morro da Queimada”. Nessa ocasião, os dois parques, por apresentarem características distintas, foram separados e o grupo de trabalho dividido em duas subcomissões: a do Morro da Queimada e a das Andorinhas. O estudo em questão conseguiu definir etapas de trabalho que não chegaram a ser realizadas pelo Executivo Municipal daquela época (2003).

Durante audiência pública realizada em fevereiro de 2005, junto às respectivas comunidades, foram colocados em discussão temas referentes às questões de preservação e criação do Parque da Cachoeira das Andorinhas, transformando o local em área de proteção ambiental, e do Parque Arqueológico do Morro da Queimada, projeto bastante complexo envolvendo a Prefeitura Municipal de Ouro Preto e o Governo Federal. Nessa ocasião, ao ser aberto o debate, foram lançadas as primeiras ideias sobre museologia comunitária/ecomuseus, recebidas com um misto de curiosidade e desconhecimento.

O Parque Arqueológico

A necessidade de criação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada surgiu sob a perspectiva de proteção de um patrimônio que foi sendo aos poucos dilapidado. O referido parque foi criado a partir do Projeto de Lei Municipal nº 465, de 29 de dezembro de 2008, que, no Art.7º, estabelece também a criação do Conselho Administrativo constituído por representantes da Prefeitura Municipal, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, da Universidade Federal de Ouro Preto e da Associação de Moradores do Morro da Queimada. Atualmente, este conselho é presidido pelo secretário municipal de Meio Ambiente, sendo uma de suas atribuições a realização de reuniões periódicas para promover a elaboração e implantação de um plano de manejo construído por meio do diálogo que começa a se ampliar, integrando-se cada vez mais às finalidades e objetivos desse empreendimento, constituído, na realidade, por um complexo museológico formado pelo espaço-testemunho advindo das escavações e contenção das ruínas remanescentes do antigo arraial, pela experiência contemporânea comunitária (espaço cultural vivido) e pelo lugar-ambiente, potencializando uma rede de relações “sustentáveis” entre homem, natureza, cultura e sobrevivência.

O Ecomuseu nas Trilhas da Serra de Ouro Preto

As Origens

Durante o Fórum das Artes/Festival de Inverno de Ouro Preto – julho de 2005 – duas ações efetivas aconteceram. A primeira, uma oficina na área de artes plásticas, que propiciou o envolvimento social entre seus participantes e a comunidade daquela região. Intitulada “Nas pegadas de Pedro II: aula passeio no Morro da Queimada”, a oficina foi ministrada pelo artista plástico Gélcio Pereira Fortes e acompanhada pelo monitor/morador do bairro, Juliano Ferreira, que atuou como guia histórico do local. A oficina contou com a participação de membros da comunidade que, durante três dias, tiveram oportunidade de desenvolver trabalho criativo e aprofundar conhecimentos a respeito do local em que vivem.

A segunda, mesa redonda coordenada pela então diretora municipal de Cultura de Ouro Preto, Sandra Fosque Sanches, denominada “Modelos de Gestão Museológica e a Inclusão Social: ecomuseu”, durante o Seminário “O Museu e as Cidades”, contando com a presença de especialistas no assunto. Posteriormente, o então coordenador do Escritório Técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/OP nos convidou para elaborar um projeto que envolvesse a musealização da área em questão.

O Conceito

As propostas relacionadas aos processos museológicos comunitários começaram a ser praticadas em diferentes regiões do mundo a partir do final dos anos 1960, estendendo-se pelas décadas seguintes. Alguns eventos coordenados pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), sob os auspícios da UNESCO, foram propulsores deste movimento que defende maior integração de todos os meios de desenvolvimento, estendendo as atribuições e funções tradicionais da museologia a práticas mais abrangentes para melhor inserir suas ações naquelas ligadas ao meio humano e físico. Desta forma, a Mesa-Redonda em Santiago, Chile (1972), o I Ateliê Internacional Ecomuseus/Nova Museologia, Quebec (1984) e o Seminário “A Missão do Museu na América Latina Hoje: novos desafios”, Caracas (1992), tiveram participação fundamental no que se convencionou chamar de Museologia Social.

 A partir do trinômio espaço vivido (território) – sociedade – patrimônio, a museologia comunitária/ecomuseus propõe a realização de ações e processos que irão funcionar como instrumentos de ligação entre o homem indivíduo e o homem social contribuindo para a resolução de tensões e desafios enfrentados ao longo da vida, instrumentos que possam servir ao seu desenvolvimento integral, levando-se em consideração as questões objetivas e subjetivas.

O Público

As comunidades envolvidas constituem o público alvo do ecomuseu, pois há necessidade de sua participação ativa, criadora, colaboradora e não mais contemplativa, de espectador. Trabalhamos com questões afetivas, cognitivas e volitivas relacionadas à cultura viva, à memória presente para transportá-la ao passado por meio de ações que possuam sentidos e significados, contribuindo assim para a ampliação e socialização da produção de bens, serviços e informações culturais.

O público visitante poderá realizar, acompanhado de guia local, um passeio pelos bairros e conhecer aspectos da história local sob a guarda de uma população que detém, em forma de contos, lendas, manifestações religiosas, festas e folguedos, culinária, música, objetos, a fórmula mágica e viva de recriação dos primórdios da cidade.

As Coleções Integram o Patrimônio Cultural e Natural

O ecomuseu possui uma lógica de território, ou seja, não está instalado em um prédio específico. Dessa maneira, suas coleções são referenciadas levando-se em conta o patrimônio cultural e natural da região, bem como o patrimônio familiar. Assim, podemos destacar as capelas de Santana (construída próxima às minas de ouro, por volta de 1720, no Morro de Santana), São João (dedicada a São João Batista e erguida no local em que foi rezada missa por ocasião da chegada dos bandeirantes ao Morro São João. É um marco histórico do séc. XVIII) e São Sebastião (datada de meados do séc. XVIII, localiza-se no Morro São Sebastião); o sítio arqueológico, que contém as ruínas do antigo arraial do Ouro Podre, pode ser visto a partir de locais estratégicos; os mirantes que descortinam belas paisagens: do Mosteiro Zen Budista, localizado no Morro São Sebastião, vê-se toda a serra e a área de Proteção Ambiental da Cachoeira das Andorinhas. Da ladeira João de Paiva, na descida do Morro São Sebastião, vê-se a cidade de Ouro Preto e também as antigas ruínas; a vista do Pico do Itacolomi aparece em toda a sua plenitude, na capela de São João. Foi deste local que a comitiva do bandeirante Antônio Dias visualizou o imponente marco geográfico; destaca-se, também, o Parque Municipal e a Cachoeira das Andorinhas; as manifestações culturais existentes nos bairros: festas tradicionais e populares em homenagem à Sant’Ana (Morro de Santana – 26 de julho); a São João (Morro São João – 24 de julho); a São Sebastião (Morro São Sebastião – 20 de janeiro);  encontro dos tropeiros da Serra de Ouro Preto (Morro São Sebastião – mês de março); exposições temporárias de coleções temáticas que referenciam as memórias da população local: objetos, fotografias, documentos que contam histórias e formam o mosaico artístico-patrimonial da região.

Ações Educativas e Atividades Culturais

Os museus, por extensão de seus pressupostos e abertura para a função social e educacional de suas ações no contexto da comunidade onde se insere, abrem uma reflexão em busca da participação ativa de seus diferentes públicos.

Essa nova perspectiva promove uma revisão dos conceitos de educação, memória, patrimônio e identidade (individual, cultural e social) e das relações entre eles, na dinâmica da criação de itinerários de formação e informação que produzam saber e conhecimento, a partir da experiência e vivência do indivíduo, nas relações e nos processos de comunicação com o mundo.

São esses sentidos e significados que estamos buscando, através das ações em curso no Ecomuseu da Serra de Ouro Preto: Projeto Memória de Vida – Inventário Participativo – Oficinas de Educação Patrimonial direcionadas à capacitação de jovens – Rodas de Lembrança – Exposições Temporárias – Organização de um sistema de informação online.

As atividades culturais acontecem nos fins de semana e estão concentradas no Espaço Cultural Cores, Flores e Sabores, no Morro São Sebastião. Neste espaço, a comunidade e o visitante podem participar das rodas de samba, dos saraus de poesia, das exposições de artesanato, saborear a gastronomia mineira e degustar cachaças artesanais.

Museu do Chá

O Parque Estadual do Itacolomi (PEIT) foi criado em 1967, pela Lei nº4.495 e é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral gerida pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF). A sede administrativa do parque encontra-se em Ouro Preto, na Fazenda São José do Manso, adquirida em 1993 pelo IEF-MG.

A unidade de conservação está inserida entre as cidades de Ouro Preto e Mariana. Nos 7.543 hectares de área protegida do parque existem atrativos ambientais de grande beleza cênica como o Pico do Itacolomi e o Mirante do Custódio, por exemplo, e atrativos históricos de grande importância arquitetônica, histórica e cultural, como a tricentenária Casa Bandeirista.

Com uma infraestrutura composta por centro de visitantes, banheiros, auditório, restaurante, área de camping, alojamentos, casa de hóspedes e duas residências institucionais, o PEIT é considerado uma das unidades de conservação mais bem estruturada de Minas Gerais.

Atualmente, o Parque Estadual do Itacolomi conta com uma equipe de monitores capacitados para as demandas de uso público, além de guarda-parques que realizam constantemente manutenções preventivas, garantindo a qualidade do ambiente e das áreas de convívio.

Casa Bandeirista

Construída pelo 2° Guarda Mor do Distrito das Minas Gerais, Domingos da Silva Bueno, a Casa Bandeirista tinha como finalidade a cobrança dos quintos e controle do acesso às minas da região.

O estilo arquitetônico rural, muito comum nos arredores da Vila de São Paulo ao longo dos séculos XVII e XVIII, teve procedência erudita e era representante de uma classe dominante, alicerçada em fazendas de base policultora e escravagista. Caracterizado por uma fachada simétrica com um alpendre reentrante ao centro, engastado entre dois prismas brancos, cada um deles com uma pequena janela ao centro.

Em 1772, a área da Casa Bandeirista foi arrematada pelo Sargento Mor Manoel Manso da Costa Reis, e nessa época era conhecida como Fazenda da Vargem Olaria, devido à existência da Olaria Roque Pinto. Em uma das trilhas interpretativas, é possível observar ruínas de um antigo forno, pertencente à extinta olaria, ativa durante parte do século XIX.

Em 1793, teria ficado na fazenda Maria Joaquina Dorotéia de Seixas Brandão, a famosa Marília de Dirceu, imortalizada pelos versos de Tomás Antônio de Gonzaga. Foi na Casa Bandeirista que ela provavelmente teria dado à luz ao seu único filho, Anacleto de Teixeira Queiroga, com o comerciante Manoel Teixeira de Queiroga.

O pico do Itacolomi, com seus 1772 metros de altitude, serviu como referência para os viajantes que vinham para a região de Vila Rica em busca de riqueza, principalmente durante o ciclo do ouro. Hoje em dia, o Pico é um dos mais famosos cartões-postais de Minas Gerais.

Museu do Chá

O verdadeiro chá é aquele produzido a partir da planta Camellia sinensis, que é uma planta nativa da Ásia da qual se originam o chá preto e o chá verde. Foi introduzida no Brasil por volta do início do século XIX, entre 1810 e 1814, sendo, inicialmente, cultivada nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas e no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, propagando-se, posteriormente, para os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

O chá preto foi introduzido na região de Ouro Preto em 1825, pelo fundador do Jardim Botânico da cidade, frei José Mariano da Conceição Velloso. O Jardim Botânico de Ouro Preto foi de grande importância para a disseminação da cultura do chá na Fazenda São José do Manso, propriedade que, hoje, se encontra inserida na área do Parque Estadual do Itacolomi.

A produção prosperou a partir da década de 20 e persistiu até o final dos anos 50 nas mãos do proprietário, na época, José de Salles Andrade. Ele importou sementes da Índia e um maquinário da Alemanha dando início à produção do chá, que recebeu o nome de Chá Edelweiss, em homenagem a sua esposa Edelweiss Moretzsohn de Andrade.

Na Fazenda do Manso, o cultivo era feito por cerca de 120 pessoas na época de maior produção e, aproximadamente, 40 pessoas em períodos mais tranquilos. O chá era plantado em um grotão em frente à fazenda, onde passava o Córrego do Manso e nos assentos em volta da Casa Grande. O ritmo de trabalho era intenso e começava cedo, às 5h, e encerrava-se às 16h30. A maioria dos trabalhadores vinha de Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, mas também tinha gente de Ponte Nova e Raul Soares.

Entre fevereiro e maio, era feito o plantio; de junho a setembro, a poda. Já a colheita era feita entre os meses de outubro e janeiro, período de muita chuva. Apenas as mulheres realizavam o delicado trabalho de colheita, em que apenas as folhas mais novas, localizadas no topo dos ramos, eram colhidas e depositadas em balaios que elas carregavam presos à cintura. Já os homens eram os responsáveis por abrir as covas, plantar, limpar as leiras e fazer drenos em lugares brejosos.

Após a colheita, as folhas eram colocadas para murchar em uma esteira em um barracão apropriado, depois levadas para outro cômodo onde ocorria um melhor controle do processo de fermentação. As folhas murchas grudavam umas nas outras, formando um “bolo”, então eram levadas para a máquina “quebra bolo”, onde era feita uma triagem para retirar impurezas. Em seguida, as folhas eram colocadas na estufa por cerca de 45 minutos, a temperatura era cuidadosamente controlada, nesta etapa as folhas fragmentadas tornavam-se pretas. Depois de secas eram levadas para a máquina classificadora, as folhas maiores resultavam em um chá de melhor qualidade que era exportado. Na etapa final as folhas eram prensadas e enroladas, formando fardos. O Chá Edelweiss era levado em latões para ser embalado em um depósito que ficava na Rua do Ouvidor, no centro de Ouro Preto, de lá seguia para o Porto de Santos afim de ser exportado para a cidade de Hamburgo na Alemanha, onde manteve o primeiro lugar em qualidade durante um bom tempo.

Segundo um relato, no ano de 1946, havia cerca de 1,8 milhão de pés de chá e cerca de 1 milhão nos arredores da Fazenda do Manso. Mudanças no comércio internacional levaram ao abandono das plantações no período pós-Segunda Guerra Mundial.

No ano de 1974, a fazenda foi adquirida pelo historiador Tarquínio Barbosa de Oliveira que tentou reiniciar o cultivo, mas nessa segunda fase a produção não obteve o mesmo sucesso e foi abandonada.

A implantação do Parque Estadual do Itacolomi permitiu a conservação do maquinário da antiga fábrica de chá e a recuperação deste capítulo da rica história de Ouro Preto. O conjunto de edificações correspondente aos galpões onde o chá era beneficiado, desde a secagem e seleção das folhas até o seu processamento para comercialização, encontra-se preservado no local original. Próximo a essa área é possível encontrar, ainda, alguns pés dessa planta, remanescentes do período glorioso da plantação de chá na região.

Museu Casa dos Inconfidentes

Foto do Museu Casa dos Inconfidentes

Situado na região conhecida por Morro do Cruzeiro, próxima ao centro da cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, o Museu Casa dos Inconfidentes destaca-se por seu traçado arquitetônico setecentista e por sua privilegiada localização, que além de brindar o visitante com exuberante área verde emoldurada por montanhas, oferece uma visão panorâmica da antiga Vila Rica.

Conhecida como “Casa dos Revoltosos”, “Chácara Boa Vista” ou “Casa dos Inconfidentes”, o imóvel esteve em ruínas por longo período, mas resistiu às intempéries cristalizando-se, no imaginário coletivo, como mais um dos símbolos da Conjuração Mineira, uma vez que pode ter sediado reuniões dos envolvidos no famoso episódio cujo objetivo principal era a Independência do Brasil em relação a Portugal.

Embora nenhum documento ateste que a mencionada casa fizesse, realmente, parte do roteiro frequentado pelos líderes do Movimento Libertário, alguns historiadores afirmam que o imóvel pertenceu a José Álvares Maciel, natural da Santa Maria Maior, Arcebispado de Braga, Portugal, que veio para o Brasil aos 13 anos e, depois de passar pela Bahia e pelo Rio de Janeiro, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto), onde se casou com Juliana Francisca de Oliveira e galgou ilustre carreira, chegando a ocupar, no século XVIII, o importante cargo de capitão-mor.

De acordo com Tarquínio Barbosa[1], a Casa dos Inconfidentes não possui nenhuma relação com o Movimento Político, o que, certamente, merece o benefício da dúvida, uma vez que, segundo o mesmo autor, o imóvel pertencia a José Álvares Maciel, cujo filho, seu homônimo, e o genro, Francisco de Paula Freire de Andrade, estavam dentre os principais líderes do Movimento.

José Álvares Maciel, o filho, teve participação fundamental na idealização da Inconfidência Mineira, modernamente chamada de Conjuração[2]. Natural de Vila Rica foi batizado na Capela de Santa Quitéria, freguesia de Nossa Senhora do Pilar, em 1º de maio de 1760, bacharelou-se em filosofia natural (ciências naturais) pela Universidade de Coimbra, após o que seguiu para a Inglaterra, local em que aperfeiçoou seus estudos acerca das siderurgias e manufaturas e manteve contato não apenas com industriais e técnicos, mas também com as ideias do liberalismo e da maçonaria.

Foto do Museu Casa dos Inconfidentes 2

Entre 1787 e 1788, em nova viagem à Coimbra, encontrou-se com José Joaquim da Maia, que conseguira do embaixador dos Estados Unidos na França, Thomaz Jefferson, a promessa de apoio às aspirações de libertação dos brasileiros. Após inúmeras andanças pela Europa, Maciel regressou ao Rio de Janeiro em meados de 1788, transferindo-se, posteriormente, para Vila Rica, onde logo se integrou ao grupo idealizador da Inconfidência Mineira.

A utopia de conquistar a independência teve curta duração para os idealistas de Vila Rica. Antes de concretizar o sonho de liberdade, os inconfidentes foram denunciados. O jovem Maciel, acusado como um dos líderes do movimento, apenas um ano após regressar à terra natal foi preso, em 28 de junho de 1789, e levado para a Fortaleza de São Francisco Xavier da Ilha de Villegagnon, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até maio de 1792, quando de seu degredo para Angola. Depois de cumprir pena, tornou-se representante comercial dos negociantes de Luanda e proprietário de uma pequena siderúrgica na localidade de Trombeta, Província de Itamba. Faleceu em março de 1804 ou 1805.

O outro inconfidente a guardar relação com a Casa dos Inconfidentes é o tenente-coronel do Regimento de Dragões de Minas Gerais, Francisco de Paula Freire de Andrade, que se casou com D. Isabel Carolina de Oliveira Maciel, filha de José Álvares Maciel, pai.

Nascido em 1752, no Rio de Janeiro, era filho do 2° conde de Bobadela, o coronel José Antônio Freire de Andrade, que governou a capitania mineira entre 1752 e 1758. Apesar do seu altíssimo posto militar, participou da conspiração republicana não apenas como idealizador, mas patrocinando-a e franqueando sua casa para ali se reunirem os conjurados. Quando descoberta a conspiração, Paula Freire foi preso e sentenciado à morte, como Tiradentes, mas teve sua pena comutada em degredo para Moçambique, onde aportou em 1792. Apesar do seu grande desejo de retornar à pátria, não pôde realizá-lo, pois só teve licença para fazê-lo em 1808, ano em que faleceu.

Como se vê, comprovando-se que a Casa dos Inconfidentes pertenceu mesmo ao capitão-mor José Álvares Maciel é inevitável relacioná-la ao Movimento Inconfidente, pois, ainda que as reuniões do grupo não ocorressem no local, sendo os inconfidentes Álvares Maciel e Paula Freire membros do núcleo central da família do proprietário, seriam também, certamente, frequentadores do imóvel.

Foto do Museu Casa dos Inconfidentes 3

Abandonada e em estado de total declínio, a propriedade, então constituída por “uma casa e terreno, conhecido por Chácara dos Inconfidentes ou Boa Vista, no caminho de Saramenha (…) medindo 60 palmos de frente e 100 de fundos, em ruínas, com água própria, terreno alcatifado e com pasto cercado”[3], na década de 1930 pertencia à Empresa Industrial de Melhoramentos no Brasil, instituição que, reconhecendo a importância da edificação para o patrimônio cultural, resolveu doá-la ao município de Ouro Preto, em 27 de junho de 1930. Como revela documento anexo à escritura que sacramenta tal doação, um dos poucos existentes sobre o imóvel, a concessão justificou-se porque a dita empresa,

sabendo que [era] desejo da municipalidade conservar essa propriedade histórica, e não tendo representante em Ouro Preto que se [encarregasse] da conservação do imóvel mantendo essa relíquia em condições desejáveis, resolveu dar a propriedade à Municipalidade de Ouro Preto, crendo assim ir ao encontro dos desejos do povo dessa histórica cidade[4].

Após a passagem oficial do imóvel ao município de Ouro Preto, ele foi reformado e, por longa data, funcionou como hospedaria destinada a convidados da Prefeitura, mais habitualmente a artistas e autoridades que visitavam a cidade para promover eventos culturais ou deles participar.

A primeira reforma de que há registros ocorreu em 1970, seguida por outra cujo projeto, desenvolvido pela então Secretaria Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano, apresenta memorial descritivo que confirma a construção do imóvel no século XVIII e a manutenção de muitas características do seu traçado original, como se lê a seguir:

Construída no séc. XVIII, a casa da chácara das “Boas Vistas”, chamada também dos Inconfidentes, em Ouro Preto, sofreu várias intervenções até os dias de hoje, sem contudo desfigurar seu partido original e seu sistema construtivo.[5]

Foto do Museu Casa dos Inconfidentes 4

Este último projeto foi executado pela Prefeitura, e, seu término, no ano de 2010, marcou mais uma significativa mudança na história da edificação, que passou a funcionar como museu, retornando, assim, às mãos da sociedade brasileira, como local relacionado a um dos episódios mais importantes da nossa história.

Museu Casa dos Inconfidentes: o acervo

Quando nos referimos a uma “casa” do século XVIII, reportamo-nos a um ambiente especial, retratando aspectos de relações de privacidade familiar, porém objeto de curiosidade e do desejo de conhecer como se organizavam algumas famílias na Vila Rica do Ciclo do Ouro. É este contexto histórico e social que define a expografia do Museu Casa dos Inconfidentes (MCI).

A exposição museológica dispõe-se em dois pavimentos: superior e inferior. No primeiro, mobiliário e artefatos diversos ajudam a reconstituir espaços que caracterizam o cotidiano familiar do século XVIII de maneira a estabelecer relações com os saberes e fazeres típicos do período e considerando-os como elementos culturais. Assim, ao adentrar este espaço, o visitante é convidado a uma viagem ao passado que expressa, por meio de catres de solteiro, de viúva e de casal, remete à intimidade do descanso; por meio de oratórios com douramentos e imagens sagradas, remete à religiosidade tão presente nas Minas Gerais, e por meio de mancebos, porcelanas, livros raros e objetos decorativos produzidos artesanalmente, remete à memória de todo o movimento histórico, artístico e literário da Vila Rica de outrora.

Os acervos expostos compõem-se, em grande maioria, por mobiliário feito de madeiras nobres, como jacarandá e cedro, revelando o trabalho valoroso dos marceneiros. Trazendo alguns elementos rústicos e outros refinados, demonstram as nuances da arte do entalhe, do douramento e da policromia, além de evidenciarem que os artefatos, móveis e outros pertences domésticos contam não só a história de uma determinada família, mas de uma sociedade, cuja evolução, manifesta em cada um destes elementos do cotidiano, se deu em consonância com o contexto social, cultural e político. Tais objetos, portanto, caracterizam-se como testemunhos da memória de um povo, de uma época, de um momento ímpar na história do Brasil.

Em cada espaço, elementos que revelam a memória de três séculos. Canetas-tinteiro, oratórios, litogravuras, cerâmicas, chaves, mesinhas e cadeiras em estilo D. Maria I são peças do acervo que fazem referência a momentos de um passado vivo em nossa memória e que abrigou, dentre outros, o amor entre o inconfidente Gonzaga e a jovem Doroteia; a literatura árcade; a formação acadêmica europeia, integrante do currículo de muitos inconfidentes; as manifestações intelectuais e culturais expressas pelos saraus, jantares e almoços musicais; as negociações políticas e as conspirações delas decorrentes.

No pavimento inferior, situado no antigo porão da chácara, o convite que se faz é a uma visita à Ouro Preto contemporânea que, como Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, preserva, mesmo nos espaços mais recentes, toda a memória de seu reluzente passado. Assim, painéis modernos expõem fotografias de outros imóveis da cidade que guardam relações com a Inconfidência Mineira e, consequentemente, com a Casa dos Inconfidentes. Tais painéis aludem às imponentes construções que compõem o patrimônio edificado da cidade no século XVIII, hoje, símbolo de um dos maiores e mais bem preservados conjuntos arquitetônicos brasileiros do período.

Foto do Museu da Inconfidência 5

O Museu Casa dos Inconfidentes é, hoje, o único museu municipal de Ouro Preto e vem se fixando como um espaço dinâmico, com função cultural, mas também social, razão pela qual tem investido em ações educativas que valorizam a comunidade local, seus saberes e fazeres.

Além do mobiliário dos séculos XVIII e XIX, de informações acerca da Inconfidência Mineira e de atividades variadas, aqui o visitante encontra também, uma exuberante área verde, uma vista incomparável da cidade e, como em toda casa mineira, um café quentinho sobre o fogão.

[1] BARBOSA, Tarquínio. In: CÂMARA DOS DEPUTADOS. Governo do Estado de Minas Gerais. Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. Brasília/Belo Horizonte, 1981, vol. 3, p. 343-344.

[2] O termo “inconfidência” remete à traição, falta de fé, infidelidade, razão pela qual, atualmente, prefere-se denominar o movimento libertário mineiro como Conjuração, sinônimo de conspiração. Aqui, entretanto, utilizaremos ambas as denominações com o sentido de movimento político.

[3] In: Escritura n. 2, no Arquivo Público Municipal de Ouro Preto (PMOP).

[4] Documento dirigido à Câmara Municipal de Ouro Preto, em 1º de novembro de 1929, assinado pelo então presidente da Empresa Brasileira de Melhoramentos no Brasil, o engenheiro Paulo de Frontin. In: Escritura n. 2, no Arquivo Público Municipal de Ouro Preto (PMOP).

[5]PREFEITURA MUNICIPAL DE OURO PRETO. Secretaria Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano. Projeto de Reforma da Casa dos Inconfidentes. Ouro Preto: 2007. Arquivo Público Municipal de Ouro Preto.

Museu Casa Guignard

Foto do Museu Casa Guignard

Guignard nasceu em Nova Friburgo, RJ, em 1896. Aos 11 anos, mudou-se para a Europa com a família. Lá permaneceu por mais de 20 anos, estudando desenho e pintura na Itália e Alemanha. De volta ao Brasil, em 1929 fixou-se no Rio de Janeiro, instalando seu ateliê no Jardim Botânico. No ano seguinte, iniciou a carreira de professor de arte, passando a ensinar desenho e pintura para crianças na Fundação Osório. Em 1940, transferiu-se para Itatiaia, RJ, onde passou curtas temporadas. Associado a um grupo de jovens amigos artistas, em 1942 organizou um ateliê coletivo, que se chamou a Nova Flor de Abacate. Dois anos depois, a convite de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, mudou-se para a capital mineira.

À frente da escola de pintura que hoje trás o seu nome, Guignard teve papel decisivo na formação da geração de artistas modernistas mineiros. Viajava para Sabará, Lagoa Santa e, com mais frequência, para Ouro Preto, cidade que lhe inspirou muitas obras e onde residiu nos últimos meses de sua vida. Morreu em Belo Horizonte, em 1962 e está sepultado no cemitério da Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto. É considerado um dos maiores pintores brasileiros do século XX.

O Museu Casa Guignard (MCG), vinculado à Superintendência de Museus e Artes Visuais, da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, foi inaugurado em 1987, decorrente de um processo iniciado em 1960 com a criação, por iniciativa de amigos de Guignard, de uma fundação destinada a apoiar o artista e a difundir sua obra.

A casa onde está o museu foi construída para servir de residência particular no início do século XIX e integra o conjunto arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em seu pátio interno, destaca-se um chafariz em pedra-sabão, também tombado pelo IPHAN, cuja autoria é atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Guignard nunca morou nessa casa que, adquirida pelo Estado no início dos anos de 1980, foi restaurada e destinada à instalação do museu.

O MCG reúne acervo de desenhos, pinturas, ilustrações, objetos de trabalho e de uso pessoal do artista, fotografias e documentos textuais, que foram adquiridos por meio de doação e compra. Destacam-se a coleção de cartões produzidos pelo artista e dedicados à pianista Amalita Fontenelle, retratos, violão e cama, estes com superfícies revestidas por pintura decorativa.

Centro de pesquisa e memória da vida e obra de Guignard, o museu oferece uma diversificada programação de ações educativas e culturais, oficinas, visitas orientadas e ciclo de palestras.

Mapa do Museu Casa Guignard

Projeto Guignard

Com o objetivo de ampliar o acesso à produção do artista, cuja maior parte das obras se encontra dispersa em coleções públicas/particulares e com um alto custo de aquisição, o projeto, concebido nos anos de 1980, encontra-se em andamento. Na primeira fase, foram inventariadas mais de 200 obras localizadas em coleções públicas e particulares de Belo Horizonte e Ouro Preto. A proposta do projeto é disponibilizar, em meio digital, imagens e textos para consulta pública. O sítio do projeto é www1.cultura.mg.gov.br

Passos de Guignard em Ouro Preto

O projeto “Passos de Guignard” apresenta nove roteiros espaciais e líricos do artista por Ouro Preto, entre 1944 e 1962. Esse roteiro, traçado a partir de depoimentos de pessoas do seu convívio e das obras produzidas pelo artista, apresenta a relação de Guignard com a cidade que ele definia como “Amor inspiração”.

Ação educativa do Museu Casa Guignard

Alberto da Veiga Guignard não deixou o legado apenas de suas obras em desenho e pintura. Sua atuação como artista educador se faz presente desde os anos de 1930, no Rio de Janeiro, com um trabalho pioneiro na Fundação Osório. Ali atuou por quase 10 anos, orientando jovens no exercício das artes plásticas e sinalizando um programa de arte para todos, como parte da formação integral do cidadão. Sobre este trabalho, escreveu a então reitora da Fundação Osório, Cacilda Martins, em 1943:

“despertar na criança a ideia e o senso da linha, a expressão e o valor do colorido, dar ao aluno a liberdade de expansão, sem peias restritivas, tal é o seu objetivo para a iniciação que depois se disciplinará na observação, na cultura, no estudo e na prática da arte. Não temos uma escola para formar artistas. Guignard faz um curso para estimular valores, fixar atenções, guiar instintos e talvez, despertar vocações…” (Do caderno de autógrafos e dedicatórias do artista/acervo MCG)

Foi ainda no Rio de Janeiro que o artista rompe com o ensino oficial na Escola Nacional de Belas Artes, onde lecionou por um curto período, e propõe a instalação de ateliês alternativos, espaços livres para a manifestação de jovens artistas, alinhados então com a modernidade que se afirmava no panorama das artes no Brasil. Foi com esse espírito que o artista aceitou o convite do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubistchek, e se transferiu para Minas, criando uma escola onde foi chamado de “mestre” e formou toda uma geração de consagrados artistas, a partir de 1944. Nos seus últimos 18 anos de vida, permanecendo em Minas Gerais, Guignard transformou as ruas das cidades históricas, especialmente Ouro Preto, numa escola a céu aberto, onde o seu cavalete, sempre cercado pelo público, era uma aula sobre geografia e história, sonho e realidade… Para o crítico Frederico de Morais, Guignard e Ouro Preto acabaram se transformando em uma coisa só e ele foi um dos responsáveis por esta paisagem ter se transformado em um dos ícones de nossa modernidade.

Guignard foi um artista de poucas palavras e quase nada escrito, a não ser receitas de preparo técnico de tintas e procedimentos para a pintura e o desenho, como um dedicado mestre do seu ofício. Os relatos de seus alunos e admiradores trazem para o presente e o futuro o que, de fato, se concretiza como a Escola Guignard.

Interior do Museu Casa Guignard

O Museu Casa Guignard, único espaço no Brasil dedicado ao artista, além da formação de um acervo significativo de sua obra, com pesquisas e debates sobre sua produção, não poderia se omitir de uma ação educativa que mantivesse vivo os seus princípios como professor e artista.

Neste sentido, o museu adotou ações que podem ser chamadas de educação do olhar, utilizando a cidade de Ouro Preto, território que Guignard chamava de “Amor inspiração”, como um laboratório de desenho, tendo a paisagem da cidade como referência. A partir de 1996, o museu inicia minuciosa pesquisa sobre as estadias de trabalho do artista na cidade, a partir de depoimentos dos moradores que com ele conviveram e passou a traçar as suas rotas, mirantes privilegiados que despertam o olhar e a contemplação desta paisagem síntese do seu período em Minas Gerais. Percorrer a cidade dentro desta perspectiva do artista é descobrir outros roteiros alternativos a um programa “oficial” que é sempre oferecido aos visitantes.

As oficinas adotadas há alguns anos pela ação educativa tem proposto esta observação da paisagem, com ênfase na interpretação pessoal dos participantes e tendo como referência práticas que faziam parte do cotidiano do artista e dos moradores de Ouro Preto, como tomar sol na ponte de Marília pela manhã ou assistir o pôr do sol na Capela de São João ao cair da tarde.

O museu, atualmente, criando uma nova dinâmica em sua ação educativa, adota um cardápio de atividades que tem como referência o universo do artista, que pode ser acessado por grupos interessados, após a visita ao acervo ou com agendamento específico para a proposta desejada.

Assim, temas como as “Noites de São João” inspiram uma oficina de balões e gera uma festa popular em frente ao museu, todos os anos no dia 24 de junho. Oficinas de observação e interpretação da paisagem têm especialmente no público escolar do ensino fundamental de Ouro Preto e região, um público expressivo e permanente, e tem sido bastante procurado por escolas visitantes de outros Estados, que optam por esta atividade para iniciar um passeio por Ouro Preto. A coleção singular dos cartões de Guignard para Amalita Fontenelle, acervo do museu, gerou a oficina “Amor e Amizade”, estimulando uma correspondência afetiva com textos e desenhos, voltada para uma geração mais jovem, acostumada apenas a utilizar o computador como veículo de expressão.

Foto de Alberto Veiga Guignard

As atividades do setor educativo do museu estão abertas ao público de qualquer idade, mediante agendamento prévio através do telefone 55 (31) 3551-5155, ou pelo e-mail educativoguignard@cultura.mg.gov.br.

Museu Casa dos Contos

Museu Casa dos Contos

O prédio da Casa dos Contos, um dos mais amplos, belos e suntuosos monumentos do barroco mineiro, situa-se na Rua São José, nº 12, no centro histórico, em Ouro Preto.

Originalmente, de 1782 a 1784, foi construído para residência e Casa dos Contratos do arrematante para Arrecadação Tributária das Entradas e Dízimos, João Rodrigues de Macedo, uma das maiores fortunas da colônia no século XVIII e, certamente, eminência oculta da Inconfidência Mineira, tendo sido, inclusive, o seu caixa – Vicente Vieira da Motta – um dos conjurados condenados e deportados para a África. No prédio, o próprio Tiradentes teria se reunido com outros inconfidentes.

Durante a repressão à Inconfidência Mineira, o edifício aquartelou tropas do vice-rei, além de servir de prisão nobre para conjurados dos mais elevados títulos sociais, como o cônego Luís Vieira da Silva, José Álvares Maciel, padre Rolim e Cláudio Manuel da Costa, tendo este morrido tragicamente na cela, na madrugada de 4 de julho de 1789.

Em 1792, encontrando-se Macedo em grande débito com a Real Fazenda, iniciou-se a transferência para o casarão e, mediante aluguel, da sede da administração e contabilidade pública da capitania de Minas Gerais, a denominada Casa dos Contos, daí a permanência até nossos dias do nome que representa, em uma de suas acepções, o monumental prédio de Vila Rica.

Sobreveio, em 1803, o sequestro definitivo do imóvel, devido à inadimplência do contratador com a Real Fazenda.

Entre 1820 e 1821, foi construído o prolongamento do lado direito da edificação e, em 1844, o acréscimo do lado esquerdo, este para permitir o funcionamento da Secretaria da Fazenda da Província de Minas no mesmo local já ocupado pelo Tesouro Nacional e aquele para abrigar, junto aos Contos, a Casa de Fundição do Ouro e da Moeda.

O prédio foi avaliado, em 1803, em 52 contos, quantia equivalente à época, a 125kg de ouro.

Museu Casa dos Contos 2

Com a transferência da capital de Minas Gerais para Belo Horizonte, em 1897, caracterizando um enorme período de tempo em que o prédio foi submetido a vários acréscimos, intervenções, alterações e descaracterizações, o imóvel passou a ser ocupado simultaneamente pelos Correios e pela Caixa Econômica, nas áreas antes destinadas às repartições fazendárias. Em 1970, a Prefeitura Municipal ocupou o prédio.

Finalmente, em 1973, o Ministério da Fazenda retoma o imóvel, adapta-o e ali inaugura o Centro de Estudos do Ciclo do Ouro, numa experiência pioneira de levantar, em microfilmes catalogados, também por computadores do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), toda a histórica documentação econômico-fiscal do Ciclo do Ouro – o chamado Arquivo Casa dos Contos – disseminada entre o Arquivo Público Mineiro, o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional.

A investigação profunda desse acervo, que remonta às origens da identidade brasileira, permite uma valiosa contribuição às ciências sociopolíticas, abrangendo todo um ciclo – o Ciclo do Ouro – da maior importância para o país.

O imóvel conta, também, com salões destinados a conferências e exposições e sala multimeios, o que assegura uma efetiva e dinâmica participação cultural da instituição na vida da comunidade local e flutuante, criando uma perfeita simbiose entre a arquitetura física e artística do monumento de dois séculos com as mais altas expressões das artes e culturas atuais.

Em 2004, a administração da Casa dos Contos retorna à Superintendência do Ministério da Fazenda em Minas Gerais, que promoveu uma completa revitalização física e conceitual no espaço, com diversas ações das quais destacamos:

– lançamento do livro “A Casa dos Contos de Ouro Preto – 2ª edição” com a completa história e memória da restauração do monumento;

– lançamento da Revista Casa dos Contos, um periódico com artigos referentes à arte e cultura, com recursos privados e, posteriormente, sucedida pela “Memória Cult”;

– criação de novos espaços para exposições temporárias (Salas Cláudio Manoel da Costa e Vicente Vieira da Motta), proporcionando a vinda de mais exposições temporárias beneficiando a comunidade local, os visitantes e, principalmente, valorizando e incentivando a produção artística local e regional;

– diversas exposições foram promovidas simultaneamente. Algumas, inclusive, com grande repercussão nacional, como: “Cem Mona Lisas com Mona Lisa” e “Aleijadinho Pop”, lançadas na Casa dos Contos (inclusive com livros alusivos aos temas), que percorreram importantes galerias no país, dentre elas, a Câmara dos Deputados, em Brasília e o Palácio das Artes, em Belo Horizonte;

– em 2006, a Prefeitura Municipal de Ouro Preto, após uma completa revitalização, reinaugura o Jardim Botânico Municipal, conhecido como Horto dos Contos. Entretanto, havia uma grande dificuldade. Para visitar o local, as pessoas entravam pela Rodoviária e saíam próximas à Igreja do Pilar (ou vice-versa). Este longo percurso acabava por desanimar as visitas. Mas, em 2009, a Casa dos Contos, por meio de recursos da Superintendência do Ministério da Fazenda em Minas Gerais e em parceria com Prefeitura de Ouro Preto, viabilizou um acesso experimental ao Horto dos Contos, praticamente no meio do caminho. A iniciativa foi extremamente exitosa, pois, ao mesmo tempo, aumentou significativamente a visitação na Casa e no Horto dos Contos. Além disso, o novo acesso serviu para facilitar a ida de moradores de Ouro Preto ao centro da cidade.

O Centro de Estudos do Ciclo do Ouro

Museu Casa dos Contos 3

O projeto do Centro de Estudos do Ciclo do Ouro (CECO), elaborado em 1973, cuidou da microfilmagem e catalogação da coleção “Casa dos Contos”, depositada no Arquivo Público Mineiro. A microfilmagem, em 35mm, e consequente catalogação, compreendeu duas fases distintas:

  1. Série Códices, com 926 volumes, em sua quase totalidade, livros de contabilidade pública, de registro de provisões, ordens, patentes ou copiadores de correspondências e comprovantes, tendo seu catálogo, como indicações, o número códice na classificação do Arquivo Público Mineiro; o título de códice; as datas de abertura e encerramento do códice, com indicações de quem as fez; a quantidade de folhas numeradas, rubricadas e utilizadas; o período compreendido pela utilização e o número do rolo do microfilme;
  2. Série Avulsos, com cerca de 14 mil autos processuais, que geraram, aproximadamente, 96 mil fotogramas e cuja catalogação, impossível de fazer-se em volume impresso, foi elaborada por computador, mediante colaboração do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), empresa pública pertencente ao Ministério da Fazenda, gerando listagens de entrada (locais, datas, tipos de documentos e nomes) para obtenção inicial de dados que levam a outra listagem, onde se obtém um sumário do documento.

No final dos anos 1970, nas próprias instalações de Ouro Preto, realizou-se a microfilmagem e catalogação de alguns acervos que vieram enriquecer o potencial da instituição, entre os quais o antigo Arquivo do Ministério da Fazenda em Minas Gerais, composto de 76 volumes com registros da mais alta importância; o Arquivo da Matriz do Pilar de Ouro Preto; o Arquivo Judiciário de Ouro Preto; com destaque para o Arquivo Criminal e o Arquivo Municipal de Ouro Preto, os quais, compostos por, aproximadamente, mil volumes, geraram cerca de 200 rolos de microfilme de 16mm. Dos volumes recebidos do Arquivo Geral do Ministério da Fazenda em Minas, destaca-se o Livro de Actas (também apelidado de Livro de Ouro), banhado a ouro, cuja abertura diz:

Servirá o presente livro para lançamento da Acta Commemorativa da Augusta Visita de Sua Majestade O Imperador O Senhor D. Pedro 2º, à esta Thesouraria.

Thesouraria da Fazenda da Província de Minas Geraes, 1º de Abril ed 1881.

No anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos e oitenta e um, ao primeiro dia do mez de Abril, nesta Imperial Cidade do Ouro Preto Capital da Província de Minas Geraes, em o prédio Nacional denominado = Casa dos Contos =, sito à Rua do Tira-Dentes, onde funcciona a Thesouraria da Fazenda, Dignou-se Sua Majestade O Senhor D. Pedro Segundo, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, honrar com a Sua Augusta Pessoa, em visita à mencionada Repartição, presentes todos os empregados da Fazenda por estes foi requerida a Sua Majestade O Imperador a graça de deixar neste livro, sua Imperial assignatura para que a noticia de tão distincta honra possa chegar à mais remota posteridade, e com ella a expressão do mais profundo reconhecimento de todos os empregados d’esta Thesouraria. E em sinal de que por sua Majestade O Imperador foi benevolente acolhido esse pedido, lavrou-se o presente termo em que se dignará assignar O Mesmo Augusto Senhor.

Eu Francisco Roberto Velasco Segundo Escripturário, servindo de Secretário o escrevi.

Com os trabalhos efetuados no CECO, de microfilmagem e catalogação de acervos socioeconômicos, eclesiásticos e jurídicos, pretendeu-se legar à pesquisa e à posteridade, vários e importantes arquivos históricos daquele centro econômico e social do país no século XVIII, estabelecendo-se, na Casa dos Contos, um repositório documental para estudos e pesquisas em diversas áreas, e transformando o Centro de Estudos do Ciclo do Ouro, enriquecido pelas atividades culturais desenvolvidas no prédio e o acervo da Biblioteca Luiz Camilo de Oliveira Netto, em um elemento dinâmico, em nível nacional e internacional, presente de forma consistente em Ouro Preto.

Também, na revitalização ocorrida a partir de 2004, foi feita a digitalização do acervo de microfilmes do CECO, em trabalho dos próprios servidores.

A restauração

Museu Casa dos Contos 4

A Casa dos Contos, nesses mais de 220 anos de existência, recebeu diversas intervenções, a começar pelos acréscimos havidos por volta de 1821 e 1844.

Em 1928, com o desabamento do Mirante, foi introduzido no prédio concreto armado, bem como ocorreram substanciais modificações na reconstrução. Outra intervenção ocorre por volta de 1947, com a diminuição do beiral da varanda.

Durante a ocupação do prédio pela Agência dos Correios e Telégrafos, inúmeras transformações internas ocorreram, como a transformação de ala de cômodos em salão contínuo, adaptações de banheiros em sala frontal, construção de novas paredes e divisórias no salão térreo que anteriormente já tivera demolidas suas paredes originais.

Com a saída dos Correios e a ocupação pela Prefeitura Municipal em 1970, novas obras são executadas, sem, contudo, maiores preocupações estruturais. Em 1973, ainda em adaptações para a Prefeitura, descobre-se, na Sala Nobre da Casa, acima de rebaixamento do teto, um forro original com pinturas então atribuídas a Athaíde.

Posteriormente, em fins de 1973, o Ministério da Fazenda retoma o prédio e lhe devolve suas possíveis e então imagináveis características físicas originais, por meio da remoção de acréscimos recentes e de outras intervenções que descaracterizavam o prédio.

Finalmente, em 1983/84, em uma longa, completa e considerada exemplar restauração, o Ministério da Fazenda retornou a Casa dos Contos à sua condição absolutamente original, pois na oportunidade, diversas descobertas foram efetuadas, resgatando o prédio às suas origens, bem como com a permanente consultoria e acompanhamento do IPHAN, IEPHA/MG e CETEC/MG, empreendeu-se uma completíssima e eficaz reestruturação e restauração madeireira, por meio de pioneiras técnicas aplicadas no país em relação ao tratamento de madeiras. Todas as demais instalações, com destaque para as elétricas, foram refeitas, de forma superdimensionada para a época, e ainda hoje mais que suficientes, mesmo com a introdução recente de equipamentos de informática e outros. Igualmente superdimensionadas foram as proteções contra incêndio, por meio de diversos tipos de extintores espalhados pelo prédio, inclusive nos forros sob telhados.

Em 2009, foram instalados hidrantes que trouxeram mais segurança para a Casa dos Contos e, também, à vizinhança, uma vez que há pontos próximos à entrada do prédio capazes de atender edificações próximas. Na mesma época, o prédio passou por uma completa pintura interna e externa.

Descobertas

Pinturas em forros

Feita a prospecção inicial, constatou-se a existência de pinturas artísticas a têmpera recobertas por cerca de dez camadas de tintas lisas, aplicadas no decorrer dos anos.

A par de tão importante descoberta, todos os demais forros foram imediatamente pesquisados descobrindo-se, ainda, pinturas artísticas originais em outra sala do segundo pavimento, na denominada Sala de Jogos.

As remoções das repinturas, por meio de espátulas, formões e outros equipamentos especiais, associados a removedores e reagentes apropriados, desenvolveram-se em paralelo e em local isolado da própria obra, descobrindo-se, a cada etapa de trabalho, novas surpresas nos tabuados, que, em princípio, sugeriam apenas a existência de faiscados artísticos nas cimalhas da Sala de Jogos. À medida que o trabalho se desenvolvia, começaram a aparecer os florões e rosáceas do painel, de extremo bom gosto e qualidade.

No salão térreo, foram descobertas pinturas artísticas originais, sob camadas de repinturas. Das 54 tábuas que comporiam aquele forro, somente foram encontradas 40 com pinturas, sendo as demais resultado de substituições posteriores à construção do prédio. Os três painéis montados foram deixados junto à parede dos fundos do salão e parte das demais tábuas, de impossível montagem em painel que lhes desse continuidade, foram afixadas próximas ao forro.

Museu Casa dos Contos 6

Pinturas em paredes

Posteriormente, na parte superior das paredes internas do salão térreo, foram descobertos barrados e faiscados de diferentes tipos e tonalidades, que delimitavam com precisão os três ambientes originais. Foram então abertas “janelas” que permitem a visualização da composição de origem.

 

Nichos

Suspeitava-se, havia muito, da existência de características arquitetônicas originais, diferentes das que se apresentavam à vista.

Certos pontos, então, sofreram prospecção, com a qual se descobriram quatro nichos escondidos (três ocos, somente vedados, e um totalmente preenchido com pedras). Em outros locais, onde se verificou a inexistência de nichos, confirmou-se a exata localização original de paredes transversais ao trecho em prospecção, o que explica a ausência dos nichos.

Óculos

Somente durante a restauração foi que se tornou possível uma pesquisa e prospecção do extenso – e por isso mesmo estranho – pano de parede daquela área, com características diferentes dos distanciamentos entre esquadrias do imóvel.

Retirada a argamassa de recobrimento da cantaria, verificou-se a existência de um enorme óculo ovalado no sentido horizontal (2m x 1,60m, aproximadamente), preenchido por pedras menores que o restante que compõe a parede. Iniciada a abertura, descobriu-se em sua superfície interna, quase intacta, a argamassa de acabamento original, descoberta que, demarcando o posicionamento de possível caixilho móvel, permitiu a fiel reconstituição do local. Determinados furos no seu perímetro interno sugeriam uma possível existência de barras de ferro.

Como acabamento final, instalou-se um caixilho fixo e, do lado externo, barras de ferro para proteção do ambiente interior.

Exatamente em frente à parede onde se descobriu o óculo maior, verificou-se a existência de outro óculo na parede oposta, dentro de um nicho, supondo-se que ambos permitiam originalmente na Casa de Fundição uma adequada ventilação junto ao forno. Com fechamento idêntico ao da parede oposta, foi este totalmente reaberto e, por desnecessário, não se cogitou vedá-lo.

O piso da senzala

Descoberto em novembro de 1973, pelo administrador da Casa dos Contos/ CECO, Eugênio Ferraz, o piso pé de moleque existente na senzala até então sob aterro, de cerca de 60cm, escondia, na última sala da área, grande quantidade de cadinhos utilizados na fundição de ouro, que ali tinham sido jogados anteriormente e, com o tempo, foram recobertos. Trata-se de refratários, possivelmente franceses, à base de grafita, com o símbolo do fabricante e número de tamanho impressos na base (encontradas séries de 1 a 15).

Instalações sanitárias originais

Nunca fora convincente a hipótese de que os dois orifícios existentes em nicho na Casa de Fundição servissem de suporte para frascos de reagentes químicos que, “caso se derramassem, cairiam em vazio existente abaixo das aberturas”. Aquele local assemelhava-se mais a instalações sanitárias.

Descobriu-se, então, que as confirmadas instalações sanitárias do segundo pavimento tinham seu escoamento de esgoto através de uma “chaminé” dupla existente por detrás dos sanitários descobertos, a partir de onde se interligavam a um vazio único, enorme, com uma de suas laterais inclinada em pedras, de sorte que os dejetos vindos do segundo pavimento, por gravidade, escoassem até encontrar a galeria de águas pluviais que atravessa o edifício, pelo pátio, atendendo desde a Praça Tiradentes – graças a essa engenharia colonial, Ouro Preto ainda se mantém de pé – e daí desembocassem no córrego. A partir da senzala, caso algum dejeto permanecesse no escoadouro, era possível lavar o local, graças a uma abertura em parede ali existente.

De todas as descobertas, exceto as pinturas em forros, essa foi a mais importante, demonstrando o zelo construtivo do monumento e um avançado sistema higiênico, sem similar para a época em se tratando de construções residenciais.

Algumas observações que devem ser feitas pelos visitantes

Museu Casa dos Contos 5

  1. O arco abatido da entrada, em madeira imitando pedra e os suportes para tocha e roldanas para lampião.
  2. A escadaria monumental, toda em cantaria, tendo em seu início florão (rosácea) que simboliza a construção e que se repete, estilizado, em outros locais do monumento (na balaustrada e em portas da sala nobre).
  3. A balaustrada do hall superior, em madeira trabalhada, que se encontrava gessada até 1973, e cuja restauração se completou em 1984, na qual, moduladamente, se repetem entalhes estilizados do florão.
  4. O falso arco estrutural da varanda.
  5. O forno de fundição de ouro e sua monumental chaminé, na Casa de Fundição e da Moeda, do segundo pavimento, resultado de acréscimo feito ao prédio em 1821.
  6. A escada em caracol, acrescentada para uso direto dos funcionários do fisco imperial e que, depois de fechada, propiciou o surgimento da lenda do túnel.
  7. A bela paisagem de Vila Rica, vista a partir do Mirante.
  8. No pátio, a escadaria, com seu arranque em pedra trabalhada, descoberta na restauração, juntamente com os espelhos dos degraus da escada, em sua forma original, após a remoção dos cimentados que os encobriam.
  9. A galeria de águas pluviais, no pátio, que se liga à Praça Tiradentes, no centro de Ouro Preto, obra monumental da engenharia colonial, cuja rede de drenagem se deve a conservação da cidade até nossos dias.
  10. O sistema sanitário no térreo, avançadíssimo para a época, que, descoberto, complementou o sistema já existente no segundo pavimento.
  11. O acesso à sala onde foi encontrado morto o inconfidente Cláudio Manuel da Costa.
  12. Além disso, o visitante interessado poderá conhecer, nas áreas internas do CECO, os trabalhos efetuados no tocante aos levantamentos, cadastramentos e registros micrográficos dos acervos documentais históricos existentes na Casa dos Contos, que se destinam, precipuamente, à divulgação da história econômica do século XVIII – o Ciclo do Ouro – e outros acervos, mediante consulta a modernas listagens de computador e catálogos que possibilitam pesquisas diretas nas documentações microfilmadas, além de consultas a obras de valiosa biblioteca existente no Centro de Estudos do Ciclo do Ouro (Biblioteca Luís Camillo de Oliveira Netto).

Museu de Arte Sacra de Ouro Preto – Paróquia do Pilar

Museu de arte sacra - paróquia do pilar

O Museu de Arte Sacra de Ouro Preto, instalado na Basílica de Nossa Senhora do Pilar[1], envolve, na verdade, todo o edifício. O Santuário da Padroeira de Ouro Preto permanece como local privilegiado de culto, em plena utilização dos fiéis, mas, generosamente, também se abre para democratizar o acesso a obras maiores da arte colonial brasileira.

Especialmente no coro, tribunas, consistório, sacristia e cripta, vai caracterizar-se, no corpo do templo, o Museu de Arte Sacra. Apresentam-se aí, pinturas, esculturas, paramentos e alfaias, prataria e ourivesaria, documentos e objetos diversos que testemunham a rica herança cultural de Ouro Preto, os valores basilares da cultura mineira e o notável patrimônio que o Brasil tem amealhado ao longo de sua construção histórica.

Iniciado pelo monsenhor João Castilho Barbosa e consolidado pelo cônego José Feliciano da Costa Simões[2], os dois grandes párocos do Pilar no século XX, o Museu de Arte Sacra é modelo de conservação patrimonial e museologia. É exemplo de engajamento da Igreja nos desafios da cultura de todos os brasileiros e honra as lições dos arcebispos marianenses – dom Helvécio Gomes de Oliveira e dom Oscar de Oliveira, fundadores de museus e dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, restaurador de igrejas.

A primeira versão do museu é de 1965 e a atual de 2000. No final dos anos 80 e até os anos 90, o museu chegou a ser instalado na Casa do Noviciado do Carmo, próximo à igreja de Nossa Senhora do Carmo. Reintegrado na Basílica do Pilar em 2001, hoje, novos estudos estão sendo realizados para tratamento e modernização da expografia e otimização do sistema de visita.

O Museu de Arte Sacra tem por objetivo fornecer elementos para leitura e reflexão sobre a arte colonial mineira, dentro de uma perspectiva crítica que considere sua articulação com as condições históricas específicas da região, sem perder de vista o próprio fenômeno artístico.

O processo civilizatório gerado pelo ciclo agrominerador ocasionou um rápido desenvolvimento urbano da antiga capitania das Minas Gerais, propiciando o aparecimento de vilas e cidades que igualaram e até suplantaram os antigos núcleos litorâneos, a nível cultural e artístico.

Museu de Arte Sacra 2 - Paróquia do Pilar

A referida atividade econômica permitiu também o surgimento de um modelo de sociedade caracterizado pela forte miscigenação e pela formação incipiente de uma classe média em que se destacou o elemento mestiço – o mulato – que, livre dos preconceitos adotados pelos brancos e das restrições impostas aos negros, exprimiu-se socialmente por meio de intensa atividade construtiva e artística. Cumpre assinalar o papel predominante desempenhado pelas agremiações religiosas leigas no mecenato das artes e na organização da sociedade urbana.

Ao longo do século XVIII, a expressão artística deste povo encontrou na fé católica sua fonte de inspiração e a opulência do ouro se refletiu nos interiores de capelas e igrejas. Afastados da influência direta dos padrões estéticos da Corte, mestres e artesãos reelaboraram os modelos transplantados, formulando conceitos e valores próprios e criando condições para que a arte mineira setecentista representasse um momento privilegiado e singular no contexto da visualidade colonial.

Assim, é no domínio da arquitetura, pintura, talha e escultura religiosas e, ainda, nas peças de culto que se revelam as formas mais expressivas e originais da arte colonial de Minas Gerais.

Em virtude de ter sido tardia a ocupação permanente da região mineira, sua colonização se fez, primeiramente, sob a influência do barroco, estilo cujas características formais tão bem traduziram a linguagem da Contrarreforma, servindo de instrumento persuasório para suscitar a religiosidade pela via do fascínio visual. A partir da forma estética exuberante, dos efeitos cenográficos, a arte barroca compôs seu discurso simbólico-religioso, que operava o valor emotivo da comunicação, ao mesmo tempo em que glorificava o Reino dos Céus e legitimava o poder temporal da Igreja.

A partir da segunda metade do século XVIII dá-se o transplante da gramática estilística rococó que, embora comumente tomada por um prolongamento do barroco, constituiu-se em um estilo histórico determinado, com características plásticas e conteúdo expressivo próprio. O rococó, arte dos nobres, operou o deslocamento da dramaticidade e grandiosidade barroca para a graciosidade e elegância, exprimindo os novos valores da sociedade europeia. Dos salões, o rococó se transferiu para o universo cristão, florescendo nas igrejas e levando o sabor palaciano às manifestações religiosas.

E foi na arte do rococó que Minas Gerais alcançou seu momento máximo de criatividade estética.

Um Museu de Arte Sacra na Paróquia do Pilar/ Proposta Museológica[3]

O Museu de Arte Sacra de Ouro Preto encerra em sua proposta um duplo desafio. Em uma vertente, seu objeto: o acervo que, acumulado durante mais de três séculos por gerações de fiéis e membros das irmandades religiosas, extrapola o próprio espaço físico da basílica e museu, localizando-se, também, nas 23 igrejas e capelas filiadas da Paróquia Nossa Senhora do Pilar.

Na outra vertente, se o público alvo imediato é a comunidade ouro-pretana, que aqui encontrará elementos diretos para a identificação de sua própria memória cultural, a elevação da cidade de Ouro Preto a Patrimônio Cultural da Humanidade acarreta a necessidade do museu atingir um público diversificado, transmitindo de forma clara, seu papel de veículo de difusão do processo de formação da identidade cultural brasileira e, ainda, de instrumento de manutenção dessa identidade.

Em 1980, com apoio da Fundação Roberto Marinho e da FIAT Automóveis, foi realizada ampla pesquisa do acervo em todas as igrejas e capelas da paróquia e cerca de 3.000 peças foram catalogadas, fotografadas e processadas formando um sistema documental que se constitui em instrumento básico para a otimização da ação museológica, possibilitando ao museu desempenhar, também, o seu papel de centro de investigações e estudos. Ainda assim, o conhecimento produzido permitiu que muito do acervo fosse reintegrado a seu contexto original, e que outros objetos não mais utilizados no culto ou que precisavam de mais proteção fossem incorporados na exposição permanente do Museu de Arte Sacra, instalado na Casa do Noviciado da Ordem Terceira do Carmo.

Passados pouco mais de dez anos, a paróquia decidiu pela reinstalação do museu na Basílica de Nossa Senhora do Pilar amparada por justificativas de ordem técnica. A primeira, motivada quando da restauração de todo o piso da igreja foi encontrado um espaço vazio debaixo da capela-mor.[4] O que nos permitiu a ampliação da área física da exposição permanente do novo museu. A segunda justificativa é a de que as condições da Casa do Noviciado já comprometiam a conservação, preservação e proteção do acervo mais precioso da Paróquia do Pilar. Seriam necessários investimentos muito altos para recuperação da casa dos terceiros carmelitas. Vem daí a decisão de ceder o imóvel para a instalação do Museu do Oratório.

Na basílica, o espaço encontrado foi preparado para receber o acervo e decidida a manutenção da proposta museológica antes trabalhada na Casa do Noviciado do Carmo.

Os trabalhos de transferência do museu para a basílica foram concluídos em 2001. Hoje, propõe-se que o museu não se limite ou se esgote no espaço interno da basílica, mas que possa motivar o visitante a complementar seu circuito nas igrejas e capelas, onde a visão das peças em seu contexto original deverá contribuir para sua melhor compreensão. Para isso, o roteiro de visita está sendo ampliado, atendendo a proposta de visita conjugada entre o museu e as igrejas filiadas da Paróquia Nossa Senhora do Pilar.[5]

O museu entendido em sua dimensão paroquial, enquanto museu-síntese, seja também, um museu-referencial, proporcionando uma reflexão sobre a produção artística e cultural da sociedade mineira nos séculos XVIII e XIX.

A consolidação de Ouro Preto como polo turístico fez com que as igrejas-monumento se preparassem para atender essa nova demanda e vocação de incluir os acervos em disponibilidade no circuito museológico.

Esse novo modelo de tutela, de gestão e de valorização pastoral do patrimônio religioso tem sido implantado de forma a atender a “Função Pastoral dos Museus Eclesiásticos” conforme orientações contidas no documento emitido pela Comissão para os Bens Culturais da Igreja, em 15 de agosto de 2001, na cidade do Vaticano. O fim último é de oferecer o ulterior contributo para reforçar a ação da Igreja por meio dos bens culturais em ordem a permitir um renovado humanismo à luz da nova evangelização e postos ao serviço da missão da Igreja.

Basílica de Nossa Senhora do Pilar: o endereço do Museu de Arte Sacra

A Matriz e Basílica de Nossa Senhora do Pilar é a sede paroquial.

A construção é esplêndida, resultado de importantes reformas do início do século XIX sobre a edificação setecentista.

“O volume arquitetônico é sóbrio e sólido que, de repente, surpreende quem desce desprevenido ao bairro do Fundo da antiga Vila Rica, em meio ao confinado arruamento de súbito aberto em espaço mais generoso para acolher a imponência do templo. A fachada, tardia na sua concepção, mas integrada em espírito da época em que os frontispícios mineiros se empolgaram de movimento barroco nas soluções de ritmo ou modulação. Suas linhas são mais severas e sua insinuação plástica mais contida, porém o desenho solene dessa fachada é logo compreendido como um anteparo mágico por aquele que penetra afinal a cidadela de uma porta almofadada. Daí para dentro fala outra linguagem, prepondera o idioma franco e descontraído do estilo D. João V, seu vocabulário ornamental e profuso, colorido, esvoaçante, na metáfora em contraponto de anjos, aves, dosséis e volutas, numa simbologia escrita em douramento exuberante, mas que nem por isso imobiliza em seus nichos e tronos uma imaginária candente e viva, rica em escultura, panejamento e cenografia.”[6] Quando, entre 1728 e 1730, os habitantes decidem edificar um templo de maiores proporções, capaz de abrigar a população crescente em seus ofícios e solenidades religiosas e mesmo sociais, eles têm noção plena do vulto do empreendimento e dos recursos necessários ao investimento da obra. Inaugurada em fausto festivo, descrito numa crônica-reportagem de requintada prosa escrita por Simão Ferreira Machado, em 1733 e publicada em Lisboa um ano depois, com todas as licenças necessárias, a nova igreja já tinha o arcabouço definido e, entre os anos de 1735 e 1737, os seis altares laterais e os dois púlpitos em talha dourada contratados e trabalhados pelo mestre português Manoel de Brito. Essa face oficial ajuda a explicar o porquê do conjunto da talha dos seis altares laterais ser um dos mais homogêneos e esplendorosos do Brasil, fruto do investimento simultâneo de irmandades leigas, outrora poderosas, e da própria Coroa Portuguesa.

Todo o interior revela a exuberância da talha barroca da primeira metade do século XVIII e pintura da segunda metade. A nave poligonal, inaugurante em Minas da índole elíptica dos interiores barrocos é devida à concepção inventiva de Antônio Francisco Pombal e confere à igreja o aspecto teatral de sua estrutura interna. Destacamos os painéis de Carvalhaes, nos caixotões do forro da nave apresentando, nos quinze painéis, o amplo programa messiânico e de Bernardo Pires da Silva, os evangelistas e a sagrada ceia na capela-mor. A talha da capela e retábulo-mor são do escultor notável que foi Francisco Xavier de Brito[7], nicho principal do estilo joanino em Minas Gerais.

Nos setecentos, o Pilar foi a paróquia mais rica e populosa de Vila Rica, reunindo o maior número de irmandades, isto é, de associações de leigos, institucionalizadas a partir de estatutos aprovados pela Mesa de Consciência e Ordens ou pelo bispado mais próximo.

Da atuação integrada das confrarias, bem como de recursos do Senado da Câmara, surgiu uma obra total e complexa, resultante de um catolicismo de leigos. O acervo formado e acumulado ao longo de três séculos por esses organismos sócio-religiosos é expressivo e importante no cenário do patrimônio cultural brasileiro.

Exposição de longa duração do Museu de Arte Sacra na Basílica do Pilar

A exposição de longa duração foi trabalhada como uma ação interna do museu. Foi um trabalho endógeno e, ao mesmo tempo, exógeno voltado para o público visitante. Pensado após análise de todo acervo inventariado e escolhido a partir dos seguintes critérios:

– peças do acervo que já não se usam de forma habitual no culto;

– peças do acervo localizadas em locais sem proteção;

– peças do acervo especiais que precisam de maior proteção;

– proposta museológica e museográfica;

– espaço físico disponível.

Cerca de 400 peças compõem a mostra de longa duração. Todo acervo é proveniente da própria basílica e das igrejas e capelas filiadas da Paróquia do Pilar. São peças do período barroco ao rococó e demonstram a originalidade do que é a arte colonial brasileira.

Toda a igreja e seu conjunto compõem o Museu de Arte Sacra. O acervo existente nos retábulos, em seu contexto original, é parte da mostra da exposição completada pelas peças existentes na sacristia e na antiga cripta da igreja, hoje, sala do tesouro. O acervo está distribuído em vitrines temáticas de modo a permitir ao público uma reflexão crítica da arte colonial e encontrando, na exposição, as referências históricas necessárias para completar o circuito de visitação nas igrejas filiadas da Paróquia do Pilar.

Os temas trabalhados estão distribuídos em uma mostra de pintura religiosa nos corredores da sacristia onde são abordados os aspectos históricos que se referem a exaltação mística e os princípios contra reformistas, subordinada a um programa estabelecido pelas comunidades religiosas e da evolução estilística. Na sacristia, além do espaço físico, o acervo disponibilizado nos permite compreender a produção do mobiliário colonial e os temas marianos na pintura do forro. Na sala do tesouro, oito vitrines apresentam rico acervo de prataria e ourivesaria onde são abordados os temas da Quaresma e Semana Santa, Iconografia Religiosa, a Prata em Minas Gerais, Objetos Litúrgicos, as Alfaias do Triunfo Eucarístico, o Culto a Nossa Senhora do Pilar e o Aleijadinho.

A sala da imaginaria encontra-se em fase de reformulação da expografia e deverá ser implantada na sala do consistório localizada no piso superior onde serão expostas uma imaginária diversa sendo abordados os aspectos da técnica e da fatura, da evolução estilística, da iconografia e tipologia.

Com uma média de 100 mil visitantes por ano, o Museu de Arte Sacra de Ouro Preto é parte integrante do rico circuito de visitação de igrejas-monumento e museus da cidade Patrimônio da Humanidade. É um pecado não conhecer.

Notas:

[1] A igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar foi elevada a Basílica Menor em dezembro de 2012 por Decreto do Papa Bento XVI. O processo de análise pela “Congratio de Cultu Divino et Disciplina Sacramentorum” levou menos de uma semana para análise dos documentos e aprovação.

[2] Monsenhor João Castilho Barbosa foi pároco da Paróquia do Pilar de 1906 a 1963, era um padre talado segundo o velho figurino tridentino. Alarmou-se, com as mudanças conciliares tendo falecido dias antes de João XXIII, o Papa do “aggiornamento”. Padre José Feliciano da Costa Simões foi pároco de 1963 a 2009. Conhecido como Sacerdote do Patrimônio, foi professor de arte no Instituto Teológico de Mariana, teve uma forte atuação em defesa do patrimônio cultural brasileiro, especialmente o de Ouro Preto. Desenvolveu inúmeras restaurações de igrejas e capelas e foi o idealizador do Museu de Arte Sacra após o Concílio Vaticano II.

[3] Depois de terminado o trabalho de inventário de todo acervo da Paróquia do Pilar em 1984, os profissionais envolvidos no projeto, sob a Supervisão do Cônego José Feliciano da Costa Simões e coordenação técnica das Museólogas Heloísa Duncan e Margarida Ramos, elaboraram a proposta museológica do Museu de Arte Sacra considerada naquele tempo como inovadora e inédita.

[4] É possível que a área encontrada trata-se da antiga cripta da igreja.

[5] A proposta é criar um roteiro de visita que tenha início na igreja da Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, igreja de São José dos Pardos, igreja do Rosário dos Pretos, Basílica de Nossa Senhora do Pilar e Museu de Arte Sacra, igreja da Ordem Terceira do Carmo, igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora das Mercês de Bom Jesus da Misericórdia e igreja dos Santíssimos Corações, Senhor Bom Jesus de Matosinhos e São Miguel e Almas.

[6] Afonso Ávila. Catálogo Reabertura da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, Ano de 1988.

[7] Diz Rodrigo Melo Franco de Andrade… “que não se tratava, portanto, apenas de um entalhador hábil e talentoso. Aqueles qualificativos só podem significar que além da capacidade para realizar as obras de talha próprias de seu ofício, Francisco Xavier de Brito tinha aptidões especiais que o habilitava a executar obras de escultura, não”.

Museu Aleijadinho – Paróquia Nossa Senhora da Conceição

Circuito Museu do Aleijadinho

O Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, nasceu em Vila Rica, atual Ouro Preto, sendo batizado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias em 26 de junho de 1737.

Era filho da preta forra Isabel e do construtor e carpinteiro português Manoel Francisco Lisboa (1697-1767), natural de São José de Odivelas, localidade pertencente ao Arcebispado de Lisboa.

Aleijadinho foi iniciado no mundo das artes ainda criança, seguindo os ensinamentos do pai e dos tios Antônio Francisco Pombal (carpinteiro responsável pela construção da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto) e Francisco Antônio Lisboa (escultor que deixou várias obras nas regiões de Santa Bárbara e Diamantina).

Aos vinte e cinco anos de idade, Antônio Francisco Lisboa já havia atingido a maturidade como mestre carpinteiro e passou a assumir obras de marcenaria, escultura e entalhe, liderando a própria oficina, que logo se tornou famosa na Capitania de Minas Gerais em razão da grande qualidade artística e técnica, passando a ser requisitada para as obras mais importantes das mais exigentes irmandades religiosas.

Entre as suas obras-primas estão os púlpitos, retábulo e portada da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto; púlpitos, coro, altares colaterais e imagens sacras para a Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Sabará; púlpitos, retábulo e imagens sacras para a Igreja da Fazenda Jaguara, em Matozinhos, e as imagens dos doze profetas e os  passos da paixão de Congonhas, estes últimos reconhecidos pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade.

 Por volta de 1778, Antônio Francisco passou a apresentar os sintomas de uma grave e progressiva doença, que lhe causou deformidades na boca e olhos e fez com que perdesse os dedos das mãos e dos pés, sendo necessário que seus escravos lhe atassem as ferramentas nos pulsos para que pudesse esculpir. Em razão da doença deformante surgiu o epíteto Aleijadinho, pelo qual passou a ser conhecido.

Depois de dois anos  acamado e padecendo de fortes dores na casa de sua nora Joana Francisca de Araújo Correa, Antônio Francisco Lisboa faleceu em 18 de novembro de 1814  e foi sepultado em cova reservada à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, no interior da Igreja Matriz de Antônio Dias.

 O maior expoente da arte colonial brasileira morreu desprovido de riquezas materiais. Seu legado foi à humanidade e não pode ser medido em cifrões.

Museu do Aleijadinho

Foto do acervo do Museu do Aleijadinho

O Museu Aleijadinho foi criado em 1968, pelo, então pároco, padre Francisco Barroso Filho, bispo emérito de Oliveira, para reunir peças de arte sacra e documentos gráficos com a finalidade de conservar, preservar e difundir o precioso acervo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto.

A denominação do museu é uma homenagem ao grande artista ouro-pretano Antônio Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”, Patrono da Arte no Brasil.

Aleijadinho nasceu, passou boa parte da vida e morreu no bairro Antônio Dias. Nesta freguesia, também tomou gosto pela arte, acompanhando o pai, Manuel Francisco Lisboa, que foi responsável pela construção da monumental Igreja (Santuário) de Nossa Senhora da Conceição, local onde ambos estão sepultados.

O Museu Aleijadinho funciona em um circuito que abrange três igrejas históricas de Ouro Preto: Santuário Nossa Senhora da Conceição, Igreja São Francisco de Assis e Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões.

O visitante poderá conhecer os três templos e as salas de exposições de longa duração adquirindo apenas uma entrada, salvo ocasiões especiais em que uma e/ou outra igreja esteja(m) em processo de recuperação/restauração.

Santuário de Nossa Senhora da Conceição

Foto da igreja de Nossa Senhora da Conceição
Construção iniciada em 1727, sob a responsabilidade (risco e direção das obras) do português Manuel Francisco Lisboa, mestre do ofício de carpinteiro, pai do Aleijadinho. Igreja em estilo barroco e, naturalmente, com clara influência portuguesa.

Trata-se da maior igreja histórica de Ouro Preto, ostentando oito altares laterais, estando entre eles o de Nossa Senhora da Boa Morte, diante do qual está sepultado o Mestre Aleijadinho.

Destaca-se, também, no trono do altar-mor, a imagem da Virgem, modelada em tamanho natural, segundo a Conceição de Murillo, no ano de 1893. As talhas desse altar, com colunas salomônicas, foram executadas pelo mestre Felipe Vieira (1760-1765).

Ainda no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, o visitante poderá acessar as salas de exposições de longa duração do museu que, em 2007, foram submetidas a uma completa revitalização física, museológica e museográfica, passando a contar com a seguinte composição:

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Interior da igreja de Nossa Senhora da Conceição

 

  1. a) Refulgência: antiga Sala da Sacristia. Nela encontram-se as peças douradas como cálices, custódias e ambulas; mobiliário histórico como oratórios, cômodas e mesas, além de algumas imagens dotadas de algum tipo de douramento. A sala conta, ainda, com umtelevisor de plasma que exibe imagens de douramentos em outras igrejas de Minas Gerais, com música ambiente. Além de uma “linha do tempo” com os principais marcos da vida e da obra do Aleijadinho.
  2. b) Festas Religiosas: instalada no consistório, onde estão expostas as peças relacionadas às festasreligiosas, tais como: imagens de santos, objetos usados nas missas (turíbulos, navetas, castiçais, cruzes, entre outros), objetos usados na ornamentação das igrejas (palmas e sacras), além de paramentos litúrgicos. O ambiente também conta com trilha sonora que mescla trechos de composições religiosas barrocas, entoadas em missas e novenas, com cantos populares também de cunho religioso.
  3. c) Arte na Talha: esta sala é um prolongamento do consistório. Nela, o visitante tem a oportunidade de observar o processo de entalhamento da madeira,dos traços até a sua forma final, o douramento.
  4. d) Encenação da Morte: o espaço desta sala foi, primeiramente, pensado para ser a cripta da igreja. Nele encontram-se expostos objetos usados em cerimônias fúnebres. Há, também em exposição, uma cópia do registro de óbito de Antônio Francisco Lisboa, cujo assentamento está no arquivo histórico da paróquia.
  5. e) Auditórios: com a revitalização de 2007, o Museu Aleijadinho passou a contar, ainda, com um pequeno auditório, destinado a eventos como palestras e apresentações, com assentos e equipamentos de áudio e vídeo e, paralelamente, com uma sala de multivisão, equipada de uma grande tela para projeção de imagens de obras com autoria atribuída ao Aleijadinho. Estes espaços são destinados a eventos pontuais e ações educativas.

Igreja São Francisco de Assis

Foto da igreja de São Francisco de Assis

Considerada por muitos especialistas e leigos, a obra-prima do Aleijadinho. Projetada por ele em 1766, tendo sua construção se estendido até meados do século XIX.

Em estilo rococó, Aleijadinho deixou nela a sua marca pessoal utilizando recursos e materiais incomuns.

Já na entrada destaca-se o frontispício, esculpido em pedra-sabão, mesmo material e mesma técnica utilizada nos púlpitos e no lavabo da sacristia. Também merecem especial atenção os retábulos do altar-mor, entalhados em madeira, por Aleijadinho.

Não bastasse todo o trabalho do Patrono da Arte no Brasil, a Igreja São Francisco de Assis se destaca, também, pela pintura monumental do forro, obra de Manuel da Costa Athaide – mestre Athaide.

Foi eleita, em 2009, uma das Sete Maravilhas de origem portuguesa no mundo.

Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões

Foto da Igreja das Mercês e Persões

Construção iniciada em 1775. No ano de 1740, já existia no local a Capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões. Aleijadinho, “recebeu a importância de seis oitavas de ouro por pagamento” do risco do altar-mor.

Eventos e ações educativas

Juntamente com o museu foi criada, em 1968, a Semana do Aleijadinho. Evento de tradição e repercussão nacional, que tem como objetivo principal difundir a vida e a obra de Antônio Francisco Lisboa. É realizada no mês de novembro, por volta do dia 18, data de falecimento do Aleijadinho no ano de 1814.

Durante o ano, acontecem diversos eventos culturais nas dependências do Museu Aleijadinho, destacando-se: apresentações de corais, orquestras sinfônicas, palestras, pesquisas e exposições.

Além disso, o museu participa de eventos pontuais, em parceria com o Sistema de Museus de Ouro Preto, tais como: Semana Nacional de Museus e Primavera de Museus.

O ouro preto também está no Museu

Prof. Dr. Gilson Antônio Nunes

fotografia artigo gilsonMarte e a Lua já foram observados, quer seja pelas lentes do telescópio refrator do Observatório Astronômico, ou a olho nu pelas pequenas amostras dos meteoritos rochosos na vitrine do Setor de Astronomia do Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas da UFOP. Mas além de minerais vindos do espaço, existem todos aqueles formados na Terra.
E se há no Brasil uma referência em mineração, este lugar é Ouro Preto. Passados mais de trezentos anos, continuamos sendo uma cidade mineradora, agora de ferro. Foi nesta cidade conhecida então como Vila Rica, que se realizou o sonho da metrópole portuguesa de se encontrar ouro na sua colônia na América do Sul.
Foi por conta da busca do ouro, que nessas terras chegaram os primeiros bandeirantes vindos de São Paulo e que, em 1698, encontraram por aqui o ouro preto, deflagrando uma autêntica corrida por este mineral sem igual em terras brasileiras.
O antigo Museu de Mineralogia, atual Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas da UFOP, é considerado, desde sua origem, como uma referência por sua vultuosa coleção de minerais.
foto artigo gilson
foto artigo gilson
Assim, tanto no setor de Mineralogia I, com concepção museográfica herdada da Escola de Minas de Paris em 1984, quanto no setor de Mineralogia II que apresenta os minerais em uma exposição com vitrines semelhantes às do início do Museu, o visitante poderá comtemplar pequenas amostras do mineral ouro.
Em Vila Rica, era muito frequente encontrar pepitas de ouro, recobertas com uma película de óxido ou hidróxido de ferro, de cor muito escura, devido à abundância do minério de ferro na região. Esse ouro também é rico em paládio. Na época, esse elemento ainda não era conhecido, sendo descoberto em 1803. Quando o ouro era fundido, era conhecido como “ouro podre” por causa do paládio. Nesse processo, além da retirada do paládio, também o óxido de ferro era separado do ouro.
(Fotografia Leonardo Homssi – Guia do MCT-EM-UFOP).

Rochas do Céu para o Museu

Depois de observar a Lua e até o planeta Marte pelas lentes do telescópio refrator do Observatório Astronômico da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o visitante pode conhecer esses planetas um pouco mais de perto. Literalmente!

Basta conhecer os pequenos fragmentos dos meteoritos Dar al Gani 262 e 476, que são provenientes justamente do satélite natural da Terra e do planeta vermelho. Esses pedaços de rochas da Lua e de Marte estão em exposição no Setor de Astronomia Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas da UFOP.

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Os meteoritos são fragmentos de corpos celestes (como asteroides, Lua, planetas rochosos ou cometas) que após orbitarem no espaço são atraídos pela força gravitacional, passam pelos gases de nossa atmosfera e atingem a Terra. Portanto quando a rocha de origem celeste é recuperada trata-se de um meteorito. Quando nos referimos ao fenômeno luminoso denomina-se apenas meteoro, embora popularmente nesse momento são chamados de estrela cadente. Finalmente, quando o objeto ainda se encontra no espaço, em órbita do Sol ou mesmo da Terra são designados genericamente de meteoroides.

Diariamente centenas de toneladas de meteoroides bombardeiam a alta atmosfera terrestre. O meteorito recebe o nome da localidade mais próxima de onde foi recuperado (por exemplo: Dar al Gani é uma região do Deserto do Sahara na Líbia). Quando a queda do meteorito é assistida ele é tido como queda, se for encontrado no campo sem estar relacionado a qualquer evento, é considerado meteorito achado.

Os meteoritos são classificados quanto à composição química em: rochosos ou aerólitos (cerca de 95% do total), formados basicamente de material rochoso, metálicos também chamados de sideritos (cerca de 4%) formados basicamente da liga metálica ferro-níquel ou em metálicos-rochosos (cerca de 1%), os siderólitos, que são meteoritos compostos por fases metálica e rochosa.

A coleção de meteoritos do Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas/UFOP é uma das mais significativas do país, com quase 70 amostras, sendo também expostas no Setor de Mineralogia I. O maior meteorito da coleção é o siderito Itutinga – MG (foto) achado em 1960 (grupo: IIIAB, tipo estrutural octaedrito médio – Om), com massa de 46,21kg.

Atualmente o Museu realiza pesquisas e procura contribuir como um centro de referência na área. Assim se assistir a uma queda ou mesmo se encontrar uma rocha muito escura, de elevada densidade e que possua ferro (ou seja fortemente atraída por um imã), entre em contato com o Museu.

Do Barroco ao Espaço Sideral

Museus Locais de Futuro, Museu de Ciência e Técnica, Astronomia, Escola de Minas de Ouro Preto

Estar em Ouro Preto, uma cidade tão importante para a história do Brasil e como uma das maiores produtoras de ouro do século XVIII uma cidade igualmente relevante na economia mundial, propicia muitas descobertas.

Caminhar pelas ladeiras do centro histórico revela sempre novos ângulos e pontos de vista verdadeiramente fascinantes. Se for à noite então logo ao nascer da Lua cheia o horizonte leste da cidade se confunde ao intenso brilho do satélite natural da Terra.

Mas porque não observar a Lua mais de perto?

Se a caminhada for em um sábado basta se dirigir ao prédio da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) na Praça Tiradentes e na lateral direita acessar o Observatório Astronômico.

Ao chegar ao observatório o visitante seja turista ou morador (para o qual a visita é gratuita) pode conhecer os equipamentos antigos e modelos usados nas aulas de desenho dos cursos de engenharia no início do século XX na Escola de Minas. Pode conhecer também centenários aparelhos para medidas de ângulos e distâncias para se produzir plantas topográficas e finalmente conhecer antigos telescópios usados nas observações astronômicas. Esses são alguns acervos da coleção dos Setores de Astronomia, Topografia e Desenho do Museu.

Mas e a Lua? Sim a Lua, planetas do Sistema Solar e outros astros visíveis durante a noite podem ser observados pelas lentes do telescópio refrator, produzido pela empresa alemã Gustav Heyde na cidade de Dresden, Alemanha em 1911.

Em todo esse percurso alunos de graduação da UFOP e membros da Sociedade de Estudos Astronômicos de Ouro Preto orientam os visitantes e operam os telescópios.

Essa ação faz parte de projetos de extensão e que também atendem escolas e outros grupos de visitantes mediante agendamento prévio às quintas-feiras das 19 às 22h.

Serviço: Museus Locais de Futuro, Museu de Ciência e Técnica, Astronomia, Escola de Minas de Ouro PretoObservatório Astronômico e Setores de Astronomia, Topografia e Desenho do Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas da UFOP.
Aberto ao público aos sábados das 20h às 22h.* Atendimento a escolas e outros grupos de visitantes mediante agendamento prévio às quintas-feiras das 19 às 22h.*
*Fechado em feriados, feriados prolongados, recessos e férias escolares da UFOP.
Telefone: 31-3559-3118
E-mail: museu@ufop.br
Home Page: www.museu.em.ufop.br

Gilson Nunes, Museus, Professor Museologia Ouro Preto

Gilson Antônio Nunes | Graduado em Engenharia Civil | Especialista em Ensino de Astronomia | Mestre em Engenharia de Materiais (Meteorítica) | Professor Efetivo do Departamento de Museologia da Escola de Direito, Turismo e Museologia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) | Ex-Diretor da Escola de Direito, Turismo e Museologia da UFOP | Coordenador do Observatório Astronômico da Escola de Minas da UFOP | Coordenador Acadêmico do Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) | Ex-Coordenador Executivo do Sistema de Museus de Ouro Preto (SMOP)


Publicado no ouropretocultural em outubro de 2017