Literatura, estória, contos e causos de Ouro Preto

Foto Bastardos Reais

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Bastardos Reais – Os filhos ilegítimos dos Reis de Portugal: Ao longo de quase oitocentos anos, duas mulheres e 32 homens sentaram-se no trono de Portugal. Destes soberanos, apenas seis não tiveram filhos. E dos 26 restantes, só dois não terão tido filhos ilegítimos. Segundo os testemunhos que a História nos deixou, todos os outros foram pais de bastardos. Estes filhos ilegítimos dos reis de Portugal assumiram papéis de relevo e cargos influentes, tanto na corte como no estrangeiro. Desempenharam ofícios importantes e diversos. Isabel Lencastre é o pseudônimo de uma personalidade da vida pública portuguesa, nascida em Lisboa nos anos 40 do século XX, que desde sempre se interessou pela história das monarquias europeias. Este é o seu primeiro livro

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O Filho Ouro-pretano de D. Pedro I

por Isabel Lencastre
 Numa tarde de junho de 1874, o Imperador do Brasil depois de ter palestrado com um oficial de marinha, Teotônio Meireles da Silva, que se dizia seu irmão por parte de pai, mandou chamar a princesa Isabel e disse-lhe: – Minha filha, aqui está uma petição de um oficial de marinha, o Teotônio Meireles. É uma justificação de paternidade. Poderá ser filho de meu pai, tanto quanto o Pedro Saisset, o Delfino Pereira, a condessa de Iguaçu, a duquesa de Goiás e alguns outros. Porém o seu avô, minha filha, apenas legitimou a duquesa de Goiás, agora condessa na Baviera.
Devemos respeitar a vontade daquele que fundou o nosso Império, mas não podemos nos esquecer daqueles que têm o nosso sangue, como esse Teotônio. Este documento que aqui está constituirá um segredo de Estado. Se eu morrer, não se esqueça desse oficial de marinha, facilitando-lhe as promoções. – Sim, meu pai, sua vontade será feita. A princesa Isabel levou a petição para mostrá-la ao conde d’Eu. E, ambos, depois do sossego do Paço, puderam conversar sobre a justificação de Teotônio Meireles da Silva, filho de Gertrudes Meireles de Vasconcelos, aquela encantadora Tudinha, que em 1821 e 1822, enlouquecia os corações dos moços ouropretenses. E os dois, a filha e o genro de D. Pedro II, leram a peça interessante do memorial do capitão-tenente Teotônio Meireles: “Senhor, o povo do Rio de Janeiro, em geral, acredita e diz que eu sou filho natural do sr. D. Pedro I, crença que apareceu, sem dúvida, pela circunstância da estada daquele senhor na província de Minas, em 1822, e coincidir, felizmente, a nossa idade com a dessa estadia na província de Minas, e mais pela proteção que nos dispensou o dito Senhor em 1830, quando, pela segunda vez, foi a Minas, proteção que se estendeu a trazer-nos, a mim e a minha mãe Gertrudes, e deixar-nos em São Cristóvão sob os cuidados de V. M. Imperial, em 1831”. Juntamente com essa petição, os príncipes encontraram um pequeno volume, impresso na tipografia de Seignot Planchet, em 1831. Era a descrição da viagem de D. Pedro a Minas em 1831, nas vésperas de sua abdicação. Quem a fez? Foi o irmão da formosa ouropretense Gertrudes Meireles, o futuro deputado brasileiro João Fernandes de Vasconcelos. Atribuíram esta narrativa a Bernardo de Vasconcelos e Evaristo da Veiga. Nem um nem outro. Foi o tio do capitão-tenente Teotônio. No dia 22 de fevereiro de 1822, com grande e espaventoso acompanhamento de tropa e povo, entrava D. Pedro em Ouro Preto. Os membros do Senado da Câmara, do Corpo Municipal, receberam o príncipe debaixo de pálio, com as solenidades de um grande acontecimento. Indo, nesse dia, à casa do famoso João José Leitão, a quem condecorou, teve ocasião de conhecer a mais bela flor da família ouropretense: a Tudinha Meireles. O príncipe D. Pedro era uma espécie de avatar do mais célebre conquistador do mundo que foi D. Juan Tenorio. Ver uma bela mulher era para D. Pedro um caso sério. Seu coração pulava, pulava tanto, que chegava a perturbar-lhe o próprio bom senso. – Ó, João José, – segredou D. Pedro ao ouvido do dono da casa, – diga-me aqui baixinho, quem é essa linda cachopa que nos serviu a limonada? – Aquela moça, Alteza, é filha de uma notável família de Minas. O pai é o capitão-mor Sebastião Meireles Fagundes, aquele valente, que, como sargento da campanha Cisplatina, serviu sob as ordens do coronel Castro. – Como se chama a menina? – Gertrudes, ou, como é geralmente conhecida em Ouro Preto, a Tudinha do Meireles. – Muito bem, – disse o príncipe, e calou-se, pensativo. De noite, a cidade em festas, houve baile no Paço Municipal. Como era de se esperar, Tudinha estava encantadora. Risonha, alegre, graciosa, era o alvo de todos os olhares masculinos, Até os velhos comentavam, babosos e sorridentes, a beleza do rosto e a tentação do corpo da famosa ouropretense. Quando chegou a hora da quadrilha de honra, com geral espanto de todos os presentes à festa, o príncipe, ao invés de procurar para dama a esposa do presidente da Câmara, que era a senhora mais representativa no baile, deu o braço à galante e travessa Tudinha. Aquilo chocou de espanto a assistência. – Pois seria possível tamanho escândalo? – balbuciou a mulher do cirurgião Procópio Pinto. – Isso tem água no bico, – comentou D. Benedita, casada com o boticário Eusébio Câmara. – Rirá melhor quem rir por último, – completou suspirando a ilustre consorte do presidente do Corpo Municipal. Depois da quadrilha, D. Pedro ainda dançou com a Tudinha uma valsa, uma pavana e um minueto. E depois, cochichos nos desvãos das janelas… Lá no fundo, juntos à grande janela ornada de reposteiros verdes, os dois heróis da festa. D. Pedro e Tudinha, conversavam, tão baixo, que as pessoas situadas nas proximidades apenas podiam notar o mexer dos lábios dos dois. Mas eles falavam, e já se amavam nesse instante. – Então, minha sedutora princezinha de Ouro Preto, você deixará a janela do seu quarto encostada? – Ó Príncipe, eu o conheci apenas hoje, mas já o amo tanto, tanto… – E não quer conceder-me a graça de uma entrevista a sós, não é? – Príncipe, não exija de mim essa prova de amor. E se meu pai souber? e se o povo descobrir? O que será de mim, meu Deus? – Tudinha, eu juro pela minha honra e pelas cinzas de todos os meus antepassados, juro por Deus e por tudo quanto é sagrado, que saberei respeitá-la. Ficarei satisfeito apenas com um beijo, um beijo que me ilumine o coração, e dê a doçura da pureza do seu amor. – Como poderei duvidar do juramento de um Príncipe como Vossa Alteza? Pois bem, esta noite, às onze e meia, eu o esperarei na janela do meu quarto. O príncipe esteve no ponto marcado. Junto da janela apenas? Não, porque mais forte que seu sagrado juramento, foi o vulcão do seu amor, cujas lavas candentes produziram nove meses depois deste encontro o nascimento de uma criança que o vigário local batizou com o nome de Teotônio. Esse pimpolho foi depois o capitão-tenente Teotônio Meireles, que, diante do Imperador Pedro II, requereu, documentadamente, o reconhecimento de sua origem imperial. Era ele o filho de Gertrudes, daquela famosa e travessa Tudinha do capitão Meireles, figura de realce do Ouro Preto de 1822.
In Bastardos Reais – Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal
Autor: Isabel Lencastre – ISBN: 9789895558469 – OFICINA DO LIVRO
Nota:
Theotonio Meireles foi escritor e Capitão-tenente, escreveu os livros A Marinha de Guerra Brasileira em Paissandu e Durante a Campanha do Paraguai – Resumos Históricos de 1876, Apontamentos para a História da Marinha de Guerra Brasileira de 1881 e A História da Marinha Brasileira para uso das escolas a cargo do Ministério dos Negócios da Marinha de 1884 sendo um dos principais precursores na produção historiográfica naval brasileira.
Foi casado com Carolina Jardineira e teve dois filhos Oscar e Alice. Faleceu no Rio de Janeiro em 1887 por tuberculose pulmonar. Duas publicações se referem à Theotonio, em 1972 Otávio Tarquínio de Souza no livro A Vida de D. Pedro e em 2011 a Revista de história da biblioteca nacional que pesquisaram sobre os filhos naturais e bastardos de Dom Pedro I.
É interessante observar que mesmo a cidade de Ouro Preto tendo um sentido de sempre colocar figuras históricas, populares e até míticas em evidência, não existe um conhecimento explícito sobre este fato na cidade, e mesmo no âmbito geral, as informações são bem pontuais e voltadas para seus livros apenas. Ou seja, é uma pessoa que tem margem para futuros estudos sobre sua vida e parentescos em Ouro Preto.
Notas e comentários: Valéria Carvalho – formanda do curso de Museologia da Universidade Federal de Ouro Preto