Início Blog Os belos automóveis antigos que circulavam pelas ruas Ouro Preto, por Carlota

Os belos automóveis antigos que circulavam pelas ruas Ouro Preto, por Carlota

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Carro antigo nas ruas de Ouro Preto no século passado
Foto: Acervo Luis Fontana

O cenário é lembrado: remonta aos anos sessenta, quando os motoristas de táxis de Ouro Preto punham à prova, a sua perícia como perfeitos chouffeures nas ladeiras da antiga capital de Minas Gerais. A propósito a palavra “Chauffeur” é francesa, seu significado é foguista.

Os táxis ou carros de praça ou de aluguel daquela época, em sua maioria, eram Chevrolets, alguns Dodges e até Jeeps. O Hotel Toffolo, o Salvador Troppia e o Colégio Arquidiocesano tinham os seus próprios carros. Esses a buscavam os filmes para o cinema, os hóspedes na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, e serviam a eventos, como os casamentos, batizados e etc.

Os automóveis mais bonitos da cidade, que tenho em minha lembrança, eram: o Mercury 52, do Dico Toffolo; o Chevrolet 47, do Padre Rocha; o Chrysler 48, do Dr José Carlos; o Ford 1934, do Professor José Barbosa (igual ao do Professor Antônio Fortes); e o Chevrolet 38, do Dr. Sartori. Destes, infelizmente, só resta o Chevrolet 47 Canadense. As ruas, no fim dos anos cinquenta, eram perfeitas e limpas, os chouffeures de praça faziam seu trabalho com as chamadas corridas, com os preços combinados previamente.

Havia em Ouro Preto somente um ponto de carros de aluguel, que ficava ao lado do antigo correio, atualmente a Casa dos Contos, e lá ficavam os carros dos irmãos: Sebastião, Vavá e Celso Molambo, do Geraldo Correia, Romeu Jardim, Sebastião Jardim, Domício, Seu Vítor e o Faustino que morava na rua do Barão, que com seu Jeep, transportava o Padre Veloso.

Quando não estavam espanando a poeira do carro colocavam uma caixa de fósforo debaixo do pneu traseiro e apostavam quem arrancava naquela ladeira, ao lado da Casa dos Contos, sem danificar essa caixinha e sem auxílio do freio de mão. Às vezes trocavam o carro, mas, nunca de marca. O último carro do Toffolo foi um Chevrolet Sedan, 1956, com duas cores, chamada de saia e blusa, um verde e branco maravilhoso. Somente mais tarde é que apareceram os Aero Wyllis, a princípio muito criticados por serem construídos sem chassis e sem o fôlego para competir com os grandes motores americanos.

Os postos de abastecimento ficavam em frente ao chafariz da Praça Reinaldo Alves de Brito, que pertencia ao “Seu Albergaria” e o outro, na venda do Zé Gonçalves, no Rosário, cuja bomba era manual. Não existia caminhão pipa e a gasolina vinha do Rio de Janeiro, em tambores de duzentos litros, nos comboios da Maria Fumaça. Oficina só existia uma, a do Roque Fina, na rua do Paraná, a famosa oficina Ford. Porém, existiam ótimos mecânicos que trabalhavam na casa dos proprietários dos automóveis. O famoso “Zé Chagas”, que demorava dois dias à procura de um parafuso apropriado para montar um diferencial Tinken, ou simplesmente, o mesmo tempo para achar um outro parafuso apropriado para segurar um friso da grade do automóvel.

Os irmãos Zé, Vicente e Paulo Lourenço, especialistas com a marca Ford, tinham o capricho e orgulho de não consertarem outras marcas. Sabiam, com perfeição, afinar um “vê oito”. Os mecânicos faziam de tudo, desde as trocas de óleos, até as improvisações dos óleos de freios com óleo de mamona, diluído em álcool. Ar para os pneus era no braço.

No Carnaval, todos os táxis eram enfeitados com serpentinas, balões e confetes. As corridas geralmente eram para a Santa Casa, para o bairro Saramenha, para os distritos e, às vezes, para a capital, que sem o asfalto, durava mais de quatro horas. Eram mais de 130 km e o caminho seguia via Rodrigo Silva, Itabirito, Rio Acima, e Nova Lima.

A poeira e o barro eram os empecilhos de uma boa viagem, para Conselheiro Lafaiete, Juiz de Fora e Rio de Janeiro, e o percurso era: Rodrigo Silva, Cachoeira do Campo, Leite, Engenheiro Correia e Miguel Burnier, quase cem quilômetros só nessa primeira etapa. Hoje, essa viagem foi reduzida para 50 km, via estrada Real, cujo empenho se deve ao saudoso antigo prefeito de Ouro Branco, Raimundo Campos, que infelizmente não conseguiu ver essa obra pronta e asfaltada.

Chegava-se até a capital lá pelas bandas do atual Hospital da Baleia e já na Avenida Brasil, a “Cidade Jardim” era avistada com suas avenidas arborizadas, com seus bondes e vários automóveis de luxo, Buicks, Cadilacs, Packard, que deslizavam suavemente por essas avenidas já asfaltadas, além de outras marcas, como os Kaisers e Studbakers, que hoje não são mais fabricados.

Tempo bom… não havia fartura, esbanjamento e ostentação. Pelo contrário, tempo de respeito, de consideração, tempo de muita valorização do ser humano. Tempo dos automóveis fabricados para durar, fortes, robustos, com o charme e estilo. A nostalgia ou a mania de preservar os carros antigos, é o compromisso de não permitir a descaracterização da coleção, promover os eventos, exposições, para que nossos netos possam valorizar a nossa existência. E esta é a referência que com satisfação, companheirismo e amizade, faz parte de nossa vida romântica e feliz como colecionadores e amantes dos carros antigos.

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