O livro SCRIPT é um romance, obra de F. Gabriel Araujo. O autor, nascido em Belo Horizonte, passou parte de sua infância, na década de 70, em Ouro Preto. Para cá voltou depois de adulto, como professor universitário e, até esta obra, só havia escrito textos acadêmicos.
Este seu primeiro livro de ficção foi escrito durantes os meses de abril e maio de 2015, enquanto se recuperava de uma pequena cirurgia.
Imaginado como roteiro de filme, o texto só vingou como romance, de modo que o seu título, Script, ficou como vestígio da intenção original.
Acompanhe nesta página a publicação desta obra, que se dará no formato dos antigos folhetins, um capítulo por vez. As atualizações semanais acontecem todas as segundas-feiras às 17h.
Capa do livro Script

Abrem-se as cortinas

 

     Caro leitor, qualquer semelhança com fatos e pessoas reais será mera coincidência. É melhor começar assim de uma vez. Falarei de nosso defeito  tolo, de alegremente nos aprisionarmos quando nos iludem. Pura  boçalidade – adianto-me no que penso, mas sem adiantar-me nos fatos, porque aí você não precisará ler o livro. Considerando que você decidiu continuar, peço-lhe ajuda para tirar o melhor proveito deste relato, já que não sou lá nenhum mestre da escrita. De tal forma que, quando o texto lhe estiver muito leve, não se impaciente com a minha pieguice e espere por fatos mais sombrios. De outra parte, quando persistir for pesado para sua leitura, prossiga e talvez encontre um oásis à frente, com o remanso de suas águas e quem lhe lave os pés – mas não posso garantir. Conto com você, para preencher, com suas imagens, as lacunas deixadas por esta história, porque assim fica mais divertido. Sei por experiência, porque também eu preencho lacunas, as que deixou Ícaro em suas memórias, de segredos que guardava ou de mistérios que desconhecia. Agora que a Ícaro não cabe negar, revelo os eventos por ele vividos, em uma cidade oculta, à beira de montanhas, à beira de um rio, à beira do mar e à beira do século XXI, mas que poderia acontecer hoje. Erramos sempre igual.

PRÓLOGO

A Última Noite: Entram os Vilões

 

Todo o ambiente estava escuro. Ouviam-se aproximando passinhos irritantes pelo corredor, de salto alto. Talvez até alguns pulinhos de alegria e podiam distinguir. Uma chave destravou a porta da grande sala e uma pata gorda de mulher entrou pela fresta, em busca do interruptor. Seria um excelente momento para uma garra gosmenta cravar-se naquela gordura suculenta e arrancar-lhe meio braço, para, em seguida, devorá-lo, sob o olhar apavorado de Dona Mnísi, em choque. Não foi o que aconteceu. Ela acendeu a luz e o monstro que a assombrava derreteu-se instantaneamente, saindo em seguida por um ralo no canto da sala. Mesmo aquela pequena iluminação, de um lustre antigo que pendia sobre a mesa de reuniões, era suficiente para dizimar o frágil monstro. Uma pena. Tudo seria melhor se ele devorasse Dona Mnísi e todos os que entrariam naquele cômodo.
A senhorinha estéril tinha obsessão por chegar mais cedo, na inocente ilusão de que sua bajulação seria vista como competência, pelos seus chefes, seus ídolos, seus donos. O Prefeito Chyntos e o Secretário Menon a trouxeram como assessora, para organizar-lhes as contas. Agora ela também já era uma Secretária de Governo. Era uma cidade pequena e Mnísi sentia-se sua dona, o que ela agradecia àqueles dois. Naquele início de noite, que era quando começavam a trabalhar – para sacarem as horas complementares, naturalmente – ela sabia que o futuro que planejavam seus chefes apontava para além de seu horizonte. Com o novo mundo que abririam dali a poucos minutos, ela se imaginava lançada ao cume de montanhas, os quais jamais alcançaria por si só. Isto no mundo material, por certo, porque, no imaterial, pouco lhe importava que se lançasse seu espírito às trevas. Bem, talvez seu espírito já estivesse lá, em companhia dos de seus coleguinhas, os demais participantes da reunião, que chegariam logo.
Depois de toda a sala arrumada, com as cadeiras alinhadas, da maneira que lhe forçavam seus cacoetes, Dona Mnísi mandou trazerem as bebidas, as leves e as “para macho”, da maneira que lhe ordenava o prefeito. Foi apenas então, para seu alívio de novamente ter feito tudo a tempo, que entrou o Prefeito Chyntos, com seus asseclas mais próximos. Reunião reservada a ela, que ansiava por poder, ao Prefeito Chyntos, que se via destinado a ele, ao Secretário Menon, que dominava os ardis para alcançá-lo, e ao Secretário Heinrich, o homem do dinheiro, o que realmente tinha poder. Este fazia silêncio. O prefeito deu o tom daquela noite, em que expandiriam seus pântanos para além de Flordeliz. Ali estava ele, como os demais, inspirado pelos sussurros dos pequenos demônios, que se arrastavam pelos cantos da sala e refestelariam-se com o banquete do mal, que eles mesmos esperavam servir.
‘Dona Mnísi, uma dose de cachaça para cada um de nós. Desta vez para a senhora também. Vamos comemorar nosso triunfo final, que começa hoje’
Com os quatro copos servidos, os obsidiados brindaram o seu futuro e o aval que acabaram de receber da liderança de seu partido. No próximo mandato, Mnísi teria a prefeitura que cobiçava, Heinrich faria a maior operação que sonhara, Menon seguiria Chyntos e este, finalmente, ascenderia a seu primeiro posto na capital da nação.
No entanto, ao tomarem o primeiro gole, no caso de Chyntos, o copo todo, os quatro imediatamente foram acometidos de um ardor insuportável na garganta e no esôfago. Uma chama acetilênica desceu-lhes para o estômago e, dali, para os intestinos, que inflaram como baiacus. Todos suavam frio, mas a cataratas, como não é normal em suor frio. Apenas um teve a chance de dizer ‘Dona Mimi, que merda é esta?’, antes que a correria se instalasse. Chyntos disparou para seu banheiro, abriu a porta em desespero e, antes que abaixasse as calças, vomitou no espelho, dando à sua imagem o aspecto que muitos já viam. A força do jato que lhe saiu pela boca relaxou-lhe o esfíncter e, enquanto ainda regurgitava no chão e na pia, desceu-lhe pelas pernas a sujeira mais fétida de que se tem notícia, enchendo até os sapatos. Quando já começava a amaldiçoar aquele mal súbito, veio a segunda rodada. Putaquepariu!
E olhe que Chyntos foi o que teve sorte, apesar do que se possa imaginar. Quanto voltou à sala, para reclamar com os demais, eles lá ainda estavam sentados, com suas sujeiras decorando a mesa e seus fedores escorrendo pelas cadeiras. Dona Mnísi chorava, toda borrada.
A reunião foi interrompida, para não mais se iniciar, pois o dia seguinte seria o primeiro dia do que eles não poderiam prever. Eles ainda não atinavam, mas aquela noite foi a última noite do passado de Flordeliz e o próximo dia seria o primeiro de seu futuro. Pensando bem, é assim para todas as noites e todos os dias, mas agora o passado e o futuro seriam diferentes. Os diabinhos que os acompanhavam por todo lado, com medo, abandonaram seus postos e evaporaram, pelo menos temporariamente, não se sabe se para fugirem do cheiro, ou para eles mesmos irem ao banheiro. Foram expulsos por uma reza forte, de mulheres que exorcizavam aquele quarteto, ocultas em um canto da cidade.

I. A Chegada a Flordeliz

 

As verdades de Flordeliz foram ofuscadas por sua beleza, por seu disfarce. Quando muitos entorpeciam-se em uma orgia velada, aos vigilantes coube socorrer.
Olá. Me chamo Ícaro e Belo Horizonte já não é suficiente para mim.
Lá só tenho dinheiro para uma quitinete, o que realmente não é suficiente. Resolvi mudar-me para o interior, algo que alguns considerarão retrocesso, mas não é bem isso. É bem mais que isso. Se levarmos em conta todos os prós e contras, trata-se de uma catástrofe. Apesar de me chamar Ícaro, sou destinado a pequenos feitos, não tenho pretensão de voar. Mas tenho minha missão, embora não saiba se sou capaz de cumpri-la.
A razão pela qual não tenho dinheiro é simples. Não tenho talento para consegui-lo. Não sou bom em esportes, nem em artes e tampouco em ciências, que eu acho um saco. Sou o que estou programado para ser, um sobrevivente. É genético. Ao cabo de tudo, temos simplesmente que sobreviver até uma idade que nos permita nos reproduzir e garantir o sucesso de nossas proles. De preferência, garantindo ainda que nossas proles suplantem as proles dos outros. Não é uma crítica. Eu também quero, senão eu conto para todo mundo. Aliás, acabei de contar.
Resolvi ir para o interior para realizar meu destino. Vou a Flordeliz, porque não posso evitar. Se tiver sorte, lá irei acasalar, cruzar, gerar minha prole e sobreviver. Se minha fêmea for a filha de um sogro que me dê condições financeiras de cumprir minha missão, sem esforços exagerados, tanto melhor. Posso amar sem ser amado, e vice-versa. Com ênfase no versa.
Meu paradeiro foi a cidade na qual não desisti, o que já é muito bom, para qualquer cidade e para qualquer pessoa. Mais ainda para mim, já que há muito descobri que minha constituição é frágil para o futuro que desejo. Fui ao encontro de minha tarefa, porque não podia deixar de ser. (Porque, se pudesse, eu não iria.)
Sem muita preparação, juntei minhas coisas, liguei meu carro e segui em direção ao meu novo futuro. Não paguei o aluguel e tampouco levei minha mobília. Ficava uma coisa pela outra. Segui por uma estrada tortuosa, em direção ao mar, entre montanhas de cume invisível. Uma parábola da vida, pensei, enquanto dirigia.
Por fim, cheguei a Flordeliz. Cidade de construções antigas, quase do tempo dos bandeirantes, à beira do mar, alcançada por uma estrada de terra. Depois do cume das montanhas, ao iniciar-se a descida para o mar, tudo parecia ter sido esquecido. Com o fim do asfalto, findaram as placas, cessou a via de duas mãos e restou apenas uma seta de madeira. Nela, se lia Serra do Espinho, em garranchos. E apontava para o sentido contrário ao que eu ia. Indicava que eu deveria voltar, mas não dei atenção.
Cheguei revigorado àquela vila iluminada, como se minha saída da capital fosse um tônico do Velho Oeste. “Milagroso elixir de presas de cascavel do Mojave e cílios de tigre anão da Sumatra! Virilidade para o homem, santidade para a mulher, força para o velho! Compre dois e leve dois!  Descubra o segredo dos imperadores da longínqua China e dos pigmeus encolhedores de cabeça da Nova Guiné!”, diria o astuto boticário, bem  sabendo que nem os imperadores da China, nem os pigmeus da Nova Guiné tinham qualquer segredo que valesse a pena, muito menos em comum. Aliás, para ser fiel ao provável, mal sabendo, respectivamente, onde ficavam Nova Guiné e China.
Não importa, o fato é que, ao chegar a Flordeliz, senti-me um novo homem, mais viril, mais forte, mais confiante, mais agudo, mais desperto, mais feliz. Dirigi lentamente por uma das mãos da rua principal da cidade e tudo nela passou por mim em câmera lenta, sob vários ângulos, de várias distâncias. Cruzei toda a cidade, à beira da grande praça aberta, um campo de futebol, em uma pista lateral. Fui interrompido por uma igreja abrupta, a qual era ladeada por dois botecos, um dedicado aos bêbados da manhã e a servir refeições aos trabalhadores da cidade, o outro dedicado a trazer prazer noturno aos turistas e aos locais que se arriscavam a despistar as esposas. Naquele dia, seriam eles os meus paradeiros. Lá, eu estacionaria meu Mustang ’70 preto, um carro quase de minha idade, de capota abaixada, retrovisores cromados, herança que eu não poderia comprar. Mas antes, ainda dirigindo, eu travaria meu primeiro e cinematográfico contato visual com alguns personagens da cidade.
Logo ao entrar, depois de um par de casas, havia uma reentrância da fileira de sobrados, ao fundo da qual descansava um chafariz, com três cabeças esculpidas em pedra. As cabeças cuspiam fluxos de água reluzente e gelada (como sei que era gelada?), que tilintavam refrescantes no tanque ao seu pé. Sorri para o olhar matreiro dos três anjinhos de pedra, que emprestavam suas cabeças ao chafariz e pareciam desafiar-se.
Estacionada no pequeno adro em frente ao chafariz, estava uma grande carroça de madeira, toda fechada como um motorhome. Havia um balcão montado em sua lateral, repleto de vidros coloridos de todas as formas e recheios. Loções, poções e aguardentes eram os produtos do volumoso  homem que discursava, enquanto os vidros com cobras, aranhas e escorpiões eram apenas para chamar a atenção, imaginei. Minha visão lentamente sobrevoou o topo da cartola, o brilho do olho direito e os três dentes de prata do boticário, Doutor Mathias. Em frente à sua carroça, tracionada por dois poderosos cavalos negros, de longas crinas e patas  felpudas, ele gritava a todos pulmões, para uma plateia de três moleques catarrentos: “Venham e experimentem! Milagroso elixir de presas de cascavel do Mojave e cílios de tigre anão da Sumatra! Virilidade para o homem, santidade para a mulher, força para o velho! Pague com favor e reza! Descubra o segredo dos imperadores da longínqua China e dos pigmeus encolhedores de cabeça da Nova Guiné!”
Mais abaixo, na rua, como uma abóbora gigante a amadurecer lentamente no sol a pino do meio-dia, remolejava-se uma enorme senhora morena, de sombrinha da Belle Époque e vestido laranja com descomunais bolas  brancas. Em seus pés, ela tinha um par singelo de sapatilhas de balé, que decoravam, com seus laços brancos, os desajeitados saltos acrobáticos de sua hipopótica proprietária. Como pequenos diamantes, vi passarem rentes aos meus olhos os mini arco-íris das gotas de suor sobre sua pele, que se aglomeravam e cresciam, até que a gravidade da Terra ou a gravidade do momento as compelissem ao chão. Ficava na calçada o rastro corpóreo da delirante bailarina.
Foi quando, à minha frente, quase a ponto de ser atropelado, cruzou a rua Cimarron, o louco. Seguia do bar à prefeitura, com seus olhos fixos na sacada da casa pública. Depois fui saber que naquele beiral, em  demonstrações grotescas, era comum debruçar-se o Prefeito Chyntos, com seus comensais satânicos. Lá, ele afrontava a cidade em suas  comemorações, degradando os bucólicos finais de tarde de Flordeliz. Que bonitinho: a cada um de seus golpes baixos, ele promovia uma comemoração, regada a aguardente e champanhe, bem lá na varanda da sede do município, à vista de todos.
O louco discursava ininterruptamente para um prefeito invisível, pois, naquela hora, ninguém havia ali. Falava do pesar que sentia por, mais uma vez, ter faltado a uma das festas do prefeito. Desculpava-se de tão terrível falta, pelo atraso de seu hidroavião nas Ilhas Malvinas. A tragédia da escassez do óleo de mamona. Usava um chapéu Panamá esfarrapado,  paletó de linho marrom, calças largas e chinelos de dedo. Ele falava rápido e nada fazia sentido, mas era engraçado.
A seguir, a mulher que vi, e que me viu, absorveu-me. Helena tomou conta de mim com uma força que não compreendi. Ela estava distante de mim e a brisa do mar soprava forte contra meu rosto. Porém, nem a grande distância, nem o vento no rosto me protegeram de seu feitiço. Além de bestificado por sua beleza não descoberta, fui tragado por seu aroma e por sua voz, que apenas imaginei. Ou talvez eu tenha adivinhado. Pisei  violentamente no freio e meu Mustang deslizou pelo adro da igreja. O carro estancou paralelo ao passeio, em frente ao bar da esquerda, sob uma cortina de poeira. A cena poderia lembrar James Dean chegando a um diner, no deserto de Nevada. Quem dera.
Saltei do carro sem abrir a porta, agora não para imitar James Dean, mas porque aquela mulher me desnorteou tanto que não encontrei a maçaneta. Ou porque tivesse areia no meu olho, da poeira que levantei com a freada do carro, sei lá. Olhei em volta, buscando a irreparável fêmea, que se foi como veio. Ao ver aquela cena inusitada – carro esporte, fora de linha, homem esporte, igualmente fora de linha, atitude esporte, totalmente fora de linha havia anos – emergiu Euclides, de dentro do bar. Foi meu primeiro amigo em Flordeliz. Faço amigos com facilidade.
Foi ele a quem descrevi minhas primeiras impressões e visões em plongée e contre-plongée do vilarejo, enquanto tomávamos cerveja e uísque do Tennessee. Contei o que relatei acima, mais ou menos. Foi ele quem me  revelou a identidade de Helena. Foi ele quem me sugeriu a ocupação de cronista do pouco que acontecia ali. Me emprestaria sua gráfica, há muito fechada, seu ajudante Temístocles, há muito à toa, venderíamos anúncios e dividiríamos o lucro. Pouco ou nenhum dinheiro, mas compromisso quase nulo, como me convém.
Ao entrar no bar, eu ainda buscava, ao longe, a silhueta da desnorteante garota. Ao invés dela, eu avistava somente os saltos da bailarina iludida, que atraía os olhares de todos. Ela tinha uma combinação bizarra de cores, tamanho e atitude. Um braço me envolveu pelos ombros, apoiando-se em mim. Era Euclides.
‘Decifrando Penélope ou perseguindo Helena?’
‘Como?’, perguntei e ri da pergunta, ao olhar pela primeira vez para meu futuro amigo.
‘Penélope é a bailarina…’
‘Já a decifrei, não há muito. Só imagens e o que ela mesma acha que as suas imagens representam. Mas são ilusões’
‘Você está falando dela ou da espécie humana?’, retrucou Euclides, enquanto também observava a volumosa figura, ao longe.
Gostei da rápida percepção dele e, embora eu quisesse ainda manter-me oculto, ele mereceu minha sinceridade. Eu desprezava as imagens ilusórias que criamos para nós mesmos, enquanto Euclides era mais vivido e já aceitava que ilusão é parte da condição dos homens.
‘Merecemos um trago, pela sua digestão do que eu disse. O desfile de máscaras vale para toda a espécie, claro. Mas para ela, sua bailarina, cai como uma luva. Ela é um estudo de caso, coisa de livro. A propósito, meu nome é Ícaro, muito prazer’
‘Vamos lá… É verdade para todos. Euclides, seu servo, nesta cidade inventada por Deus e entregue a você-sabe-quem’
‘É, não posso discordar, vale para todos. Mas há casos em que é mais verdade, como há casos em que é mais mentira’
‘Casos difíceis. Tons de branco e de preto são iguais’
‘Apenas aos olhos. Apenas aos olhos’, adverti amigavelmente. ‘Tem bebida aqui?’
‘Aí, Nico. Nosso jovem quer bebida. Bebida e Helena’
‘Senta no balcão, para a bebida’, convidou Nico.
‘E a garota?’, perguntei.
‘Entre na fila’, respondeu Euclides.
‘Ela é ofuscante. Helena, não é? Um Jack Daniel’s, por favor’
‘Dois. Você vai precisar de mim’
‘Não sei, mas é um prazer. Pretendo ficar um tempo’
‘Vai precisar, sim. Ela é ofuscante’
O dia da chegada de Ícaro a Flordeliz marcou o início do futuro da cidade. Como Flordeliz havia caído em uma armadilha, seria também uma armadilha a resgatá-la.

II. Euclides

Entre os frequentadores do Bar do Nico, Euclides escondia-se por trás de uma representação do que gostaria de ser. A época que Flordeliz vivia era grave e levaria um bom tempo ainda até que a vida pudesse ser leve, como ele almejava. À espera de seu momento, Euclides travestia-se de botequeiro, uma figura pitoresca da cidade, com teorias improváveis (algumas impossíveis) sobre todos os assuntos. O nome ajudava. Euclides. Algo assim, digamos, grego. O resto atrapalhava, mas nada ao ponto que uma cerveja não pudesse resolver.
Euclides não fundamentava seus argumentos. Afinal, ele não estava escrevendo nenhum livro, ele era apenas um velho advogado em um boteco do interior. Elaborava o suficiente para completar algumas frases sobre o assunto, quando os demais habitués do local, dados os seus estados alcoólicos, não conseguiam sequer articular um pedido. Nem que o pedido fosse para o Euclides calar a boca.
Euclides tinha vereditos de bolso para vida e morte, o que lhe era conveniente, por não ter que pensar. Tinha seus tiros filosóficos, e deles lançava mão, quando não estava inspirado ou tinha bebido pouco – situações estas equivalentes, para efeitos práticos. Em um bom dia, após o adequado número de doses, podia ampliar sua lista de assuntos. Podia falar sobre numismática, mulheres fanhas, futebol de botão, entomologia, ocultismo, controle de pragas e remédio para gota, sem entender de nada disto.
Desgostoso com o presente, Euclides doía por nosso país que, como qualquer país, tem, em uma pequena cidade, sua seção reta, que o decifra.  Então decifre a cidade e decifre o país, ou ambos te devoram. Segundo ele, nossa pátria tem uma maneira diferente e equivocada para tratar todas as coisas. Euclides era um inconformado. Mostrava-se de bom humor, mas era um inconformado. ‘Dever do filósofo’, dizia, fingindo brincar.
Euclides, por muitos anos, disfarçou-se com suas teorias “sólidas como o Rio Alma”, em suas próprias palavras. Como causa das mazelas da humanidade, Euclides sentenciava: ‘É excesso de abstinência’, ninguém prestava atenção e seguia a discussão, ‘É excesso de abstinência’, repetia Euclides, em voz mais alta. E continuava: ‘Falta de bebida cria muito mais problema que o seu consumo imoderado…’
Pronto, ganhava a plateia. Nada camufla mais um fingidor, do que dizer o que os demais querem ouvir. Pouco importa se está certo. Isto é política, é a essência da política. E Euclides se considerava um político. Depois de velho, pensava ele, todo homem deveria virar político. Com a condição de nunca fazer da política uma profissão. Hipocrisia tem limite.
O papo de Euclides era um ruído de fundo, que substituía a jukebox, que Nicodemos não quis comprar. Mas não nos enganemos, Euclides era uma pessoa que não partiria sem seu legado. Ele, enfim, sendo homem de percepção superior, disfarçava-se entre os homens comuns.

Não conheci de pronto o Euclides do bar, mas o Doutor Euclides. Talvez porque fosse ainda cedo e mal começara a beber, talvez porque não me conhecesse e ainda preferisse ouvir, talvez porque ali fosse, para ele, um primeiro passo, como foi para mim. Prosseguimos nossa conversa.
‘Diga-me, então, meu caro Ícaro, o que te trouxe aqui?’
‘Meu carro’
‘Eu vi. Mustang preto, conversível. Todo o mundo viu. Mas achei que era você quem o havia trazido’, disse Euclides, zombando de minha brincadeira sem graça.
‘Está bem, você está certo. Um brinde’, brindamos e demos um trago. ‘Não posso, ao mesmo tempo, aceitar sua cortesia e te responder com tolices. Por mais divertido que seja’, tentei brincar.
‘Muito grato, forasteiro. Já sabemos que você precisa de mim, mas não vou ajudá-lo se não souber a razão de você estar aqui, embora eu já tenha oferecido’
‘Não tenho motivo para ficar com evasivas, a não ser que eu queira manter uma fama que não tenho. Vim para começar algo’
‘O quê, se me permite?’
‘Não sei ainda, mas não posso continuar o mesmo’
‘O que você é, ou era, afinal?’
‘Não sei ainda’
‘Você realmente precisa de ajuda. Mas alguma coisa você deve saber, pare de enrolar’, insistiu Euclides, quando percebi que outros clientes começavam a se aproximar.
Alguns bêbados que estavam lá, desde muito cedo, encostaram-se no balcão ao nosso lado, fingindo conversar com Nicodemos, para bisbilhotar. Mesmo de longe, começavam outros a prestar atenção. Havia, ao fundo, um homem de pernas cruzadas, com botas sobre a mesa e chapéu quebrado na testa. Só o percebi, quando ele levantou a aba do chapéu para nos observar.
‘Vim da capital, mas o que já fiz não me define’
‘Muito arrogante de sua parte, meu jovem. Muito pretensioso…’
‘Eu sei que parece assim, mas não sei por que fiz o que quer que tenha feito. Além do mais, não fiz grande coisa. Não tenho talento’
‘Você estudou, certamente’
‘Tenho vagas noções de arquitetura e de filosofia.. Não busquei o diploma de um e mal comecei o outro’
‘É, você realmente está confuso. Eu sou advogado. Ponto. Assumo que não sei nada sobre assunto nenhum e dou palpite em todos’
‘E eu achando que o senhor poderia me ajudar…’
‘Em Arquitetura e Filosofia, não, mas em Flordeliz não há ocupação para arquiteto e, no mundo, não há remuneração para filósofo’
‘Vamos beber a isto’
‘A qualquer coisa, meu jovem, a qualquer coisa. Receio que você tenha que seguir caminho, pois aqui não há nada para você’
Demos um segundo trago e os demais no bar brindaram juntos. Era ainda o meio da tarde e o bar estava povoado de nativos. De todos, apenas Clint, o homem sentado ao fundo, com as botas sobre a mesa, se manifestou.
‘Um brinde à sua partida’, disse ele, tomou um trago, levantou-se e saiu.
‘Não espante o rapaz, Clint’, disse Nicodemos. ‘É meu freguês. Você tem como pagar, certo?’, continuou ele, agora olhando para mim.
‘Pelo que eu beber, sim, mas isto é tudo o que bebo’
‘Não se assuste com Clint. Como ele, alguns aqui poderão reagir a você, mas você já terá partido. Seu pingente no pescoço, seu carro, seu jeito. Tudo muito bem visto em turista, mas impensável em um morador. Gente do interior, você sabe’
‘Não terei partido de Flordeliz. Vim começar algo, como já disse’
‘Claro. Muito bem vindo! Mas começar algo novo em Flordeliz?! Flordeliz não quer o novo’, provocou Euclides, ao pressentir chegar seu momento.
‘Em Flordeliz, sim’, respondi, e então expeli um discurso que não sei de onde veio, nem tampouco para onde foi: ‘Aqui eu vi as casas que lembram quem somos nós, aqui eu vi um boticário que não existe mais, aqui eu vi um chafariz com anjos, aqui eu vi um louco pregando para uma sacada vazia, aqui as gotas de suor parecem diamantes, aqui a brisa do mar e o vento com cheiro de ervas da montanha me prenderam em uma rua calçada de pedra, aqui uma mulher que posso amar me imprimiu seus gestos e seus aromas para sempre, aqui você me ouviu e me entendeu e aqui tem Jack Daniel’s…’
Euclides me olhou profundamente, deu um suspiro e disparou. ‘Você quer um emprego? Uma sociedade? Um negócio?’
Depois de anos esperando, chegaram finalmente suas instruções. A lista estava
em suas mãos, datilografada. Seguiu passo a passo. Lia-se:
Lista de Instruções
1. Antes de tudo, preparar o estilete, como te mostrei.

III. As Casas da Cidade

Ao fim do primeiro dia, segui para a Pensão do Chileno. Como em quase toda cidade litorânea, Flordeliz também tem um argentino dono de hospedaria. Os nativos apelidaram sua hospedaria de Pensão do Chileno, porque descobriram que ele não gostava de ser confundido com outros latino-americanos, e que com os chilenos tinha uma implicância especial.
Das janelas do meu quarto na pensão, via-se toda a cidade. Antes de acomodar-me, examinei cada aposento disponível e escolhi o do terceiro andar, na mansarda. Aquele edifício era o único da cidade que alcança oterceiro andar. Tem janela em todas as paredes, o que é uma droga para pendurar quadro e para trocar de roupa, mas é ótimo para indiscrição.
Primeiro, falarei da paisagem, que está lá para todo o mundo ver e não vai mudar. Depois, continuo a revelar as pessoas.
Janela norte. Sei lá se é norte mesmo, mas é para você ter uma referência. Atrás das portentosas palmeiras, usadas como balizas do campo de futebol, que é a praça central da cidade, há o Bar do Nico, a Igreja Matriz com seu campanário e o Bar da Vênus. Atrás do Bar da Vênus, talvez de maneira adequada para alguns fregueses, podem ser vistas algumas lápides do fundo do cemitério. Indo em direção ao mar, há as barracas do
mercado de peixes, uma pequena falésia, jangadas na praia de areia fina, barcos, o mar. Janela leste. Vegetação de restinga, pequena falésia, mais restinga, praia e o mar. Alguém pode sentir falta da minha descrição do mar de Flordeliz, mas mar é água com onda. Ponto.
Janela sul. Uma ponta de telhado em duas águas, com uma janela, coberta por uma cortina branca e quase transparente, que enevoa um quarto jamais visitado. Um pouco à esquerda, a barra do Rio Alma pode também ser vista, para além da ponta do telhado do quarto oculto. Bem ao longe, em direção ao continente, fica a Pedra do Trovão, cortada pela estrada que me trouxe.
Janela – de fato, janelas – oeste, dando para tudo o que se abre à frente da Pensão do Chileno. A Rua Calçada, com este nome por razões óbvias, seguidas de motivos obscuros, como é normal a todas as coisas óbvias, é uma rua de duas mãos, separadas pelo campo de futebol. A prefeitura fica na outra mão da rua, vizinha à casa da Helena. Helena, desavisada, tem sua casa diretamente oposta à pensão, condenada a me ver e tentada a me torturar. Atrás de todas as casas daquele lado, corre um braço do tortuoso Rio Alma.
Atravessando uma estreita ponte suspensa, temos a Ponte de Balanço. Ao se cruzar por ela o Rio Alma chega-se a pé à cidade de vielas ou às vielas da cidade, no Cafezal. Esta vizinhança amontoada tem seus barracos à sombra das poderosas e opressoras montanhas da Serra do Espinho. De lá, do alto da serra, vê-se descerem as cascatas de água virgem, que banham incontáveis orquídeas do campo, com forma de flor de liz. Daí o nome da cidade. No topo da serra, quase nunca visto, por estar sempre encoberto pelas nuvens de relevo, esconde-se o Monte Alma, branco como as almas, com suas neves indizíveis, com suas rochas inescaláveis.
Do meu lado da rua, vindo da entrada da cidade, que não tem saída, temos uma fileira de sobrados e casas térreas, todos geminados, salvo no Chafariz dos Anjos. Aqui, temos a Typographia, os Correios, uma agência bancária sem bancários e um alfaiate, Seu Nicanor, o ex-maçon, que também é o delegado de polícia. Na delegacia sem mando, planejada assim, pelo comando frouxo do delegado, há um efetivo total, juntando todos os subordinados, em todas as funções, de, vamos ver… Um! E tinha que ser o Otacílio!
Do lado oposto, além da prefeitura e de Helena, há a câmara municipal e a padaria do Balthazar, um português gordo. O chamam de Magrão, para confundi-lo. Não preciso dizer que ele nunca entendeu: “Não estás a ver cá minha pança, ó pá!?” Ao longe, no pé da Pedra do Trovão, a primeira grande lápide que se cruza ao sair da cidade, ou ao entrar, fica a Escola do Padre. É um refúgio aberto pelo Padre Nikos, um padre que há muito quisera abandonar o hábito por um rabo de saia, mas que manteve a batina por
uma comodidade tropical.
As traves dos gols dos dois lados do campo são palmeiras imperiais colossais, com mais de 50 metros de altura. Nasceram naquelas posições, exatamente com as dimensões oficiais. Dizem os nativos que as palmeiras estavam lá muito antes da invenção do futebol, daí o campo. Certamente é mentira. Historicamente, acreditando-se nas mentiras, temos, primeiro, as palmeiras, depois, a grama para o campo de futebol e, por fim, a migração de toda a montanhosa cidade vizinha, Vila Negra, outrora encravada em
um grotão da serra.
A modorrenta Vila Negra suspirou e faleceu em torno de seu cemitério sem defuntos. A cidade, enfiada em um abismo escuro, nasceu motivada por uma falsa corrida de ouro. Sumiu sem jamais ter um de seus filhos com paciência ou persistência, para esperar ali parado, por uma riqueza que nunca viria. Todos morreram longe. Até algumas construções de lá foram desmontadas e reconstruídas em Flordeliz. Morreu um tronco seco e nasceu uma flor de seus restos. Resultaram os edifícios barrocos, em volta de um campo de futebol a beira-mar.
O Rio Alma nasce longe, nas grotas da Serra do Espinho, com as águas de degelo do Monte Alma, e desce revoltoso por suas bordas calcárias. O rio envolve os pés da cadeia de montanhas, como se os lavasse sempre. Em seu caminho, ele forma as corredeiras dos canoeiros, as cavernas dos espeleólogos, a vida dos pastos e a morte dos despreparados. Em seu caminho, há também a função de muitos rios, que é a de marcar fronteiras. No caso do Rio Alma, não entre municípios ou fazendas, mas entre Flordeliz e o Cafezal.
O rio é a barreira que separa a cidade planejada pelos pioneiros, descendentes de gregos, de seu bairro caótico, brotado da oportunidade e da mescla. Ainda que sendo uma mesma cidade, ficaram dois nomes, para nativos dali. Para eles, havia Flordeliz, o vilarejo histórico, e o Cafezal, seu povoado adolescente, indigno de fazer parte da cidade. As pessoas atravessavam a Ponte de Balanço, como se saltassem entre dois mundos distintos. Talvez fossem mundos distintos, pensando bem.
O centro de Flordeliz banha-se entre o mar e o rio, enquanto a favela do Cafezal espreme-se no sopé da montanha, para não ser levada pela correnteza. Lá, só gente humilde, feliz com a dor que não sabe que sente. Mas Flordeliz também, gente humilde, feliz com a dor que não sabe que sente. E como em quase todo o mundo, são todos humildes, salvo os canalhas que sempre há, como alguns que esta história narra. Os crápulas nascem dos pobres e dos ricos, nascem dos ignorantes e dos letrados (tenho que tomar cuidado com estas frases, pois um ressentido, sem ter nada mais útil a fazer, pode entender um “respectivamente” em algum lugar, mesmo sem existir) e, certamente, alguns aportaram em Flordeliz, lá nascidos, ou não. Perdão, desviei-me.
Em resumo, Flordeliz é linda. Mar, falésia, rio, montanha e orquídeas emoldurando suas ruas. Se Flordeliz não estivesse lá, o lugar seria lindo também. Provavelmente até mais.
O Rio Alma vem do Norte, separa Flordeliz das montanhas e desemboca no mar, formando o calado para o cais. Este tem as casas de um lado e um granito cravado de cactáceas do outro, a Pedra do Surf. Violentas ondas marcam o limite Sul da cidade. Para além daquela pedra, descansa a Enseada Viva. Viva, porque lá é cheio de água-viva e não dá para nadar. A não ser que se queira ficar em carne viva. A Enseada Viva bem poderia ter o nome oposto, com o tanto de hippie que desapareceu por lá, depois de fumar um baseado.
Diz a lenda que, para além da Enseada Viva, ninguém nunca foi. Por isso é que não passa de uma lenda. Mas a ideia dessa falácia é inibir que desavisados vão até lá, pois a beleza da enseada é fatal, como tudo o que é belo demais.
Saí do Bar do Nico já indicado por Euclides para seguir para a Pensão do Chileno, a melhor hospedaria da cidade. Ser a única, ajudava. Ao chegar, no entanto, dei com as portas fechadas. Olhei para trás. Euclides e Seu Nicodemos acenavam e gritavam: ‘Pode esperar aí, o Chileno já chega’.
Sentei-me em um banco de ripas de madeira e estrutura de ferro fundido. Parecia um banco de trem antigo, esquecido na varanda da pousada. De ambos os lados do banco, havia pequenos vasos de flores do campo, ajeitados no leito de queijeiras de madeira. A sombra da varanda, a brisa de mar e montanha no meio da tarde e a dose que eu acabara de tomar me embalaram em um cochilo manso.
Eu já saía do corpo, flutuava em direção ao céu e via a mim mesmo de olhos fechados, naquela varanda dócil, aberta para um pequeno paraíso. As pessoas andavam calmas, alguns homens seguiam para pescar, mulheres debruçavam-se nas janelas para me ver dormir. Clint me vigiava de longe. Euclides e Seu Nico começaram a rir da porta do bar, quando um vulto, de chapéu Panamá esfarrapado, caminhou em direção a mim.
‘Ei! Playboy! Ei!’, ouvi um berro e senti um forte solavanco em meu braço, simultâneo a um forte odor me corroendo as narinas.
Caí vertiginosamente de volta em meu corpo e abri os olhos, com taquicardia e pânico, daqueles de ressaca, quando a gente não sabe onde está. Vi Cimarron praticamente em cima de mim, com os olhos arregalados e um bafo infernal. Tentei desviar-me dele e virei de lado, ainda assustado. Notei, bem perto, um moleque rindo, assentado na beira do campo. Na porta do bar, Euclides e Nico estavam às gargalhadas. As mulheres das sacadas, sem nada melhor para fazer, se divertiam às minhas custas. Acalmei-me e afastei-me daquela proximidade incômoda do rosto do maluco, da maneira menos abrupta possível. Ele insistiu e sentou-se junto a mim no banco, para estender-me a mão de maneira formal.
‘Playboy?’
‘De modo algum. Não sou playboy. Meu nome é Ícaro, ao seu inteiro dispor’, falei, com cautela, estendendo-lhe também a mão, com receio.
‘Ícaro?’
‘Ícaro, sim. Tudo bem?’
‘Playboy! Me dá sua bota, Playboy?’
‘Dou, claro. Outro dia eu te dou’
‘Dá nada’
‘Está bem…’
‘Você não é daqui’
‘Não’, continuei respondendo curto. “Ai, ai, ai”, pensei, “esta conversa vai longe…”
Em conversa com doido, que, para meu azar, costuma cismar comigo, tento responder da maneira mais lacônica possível. Naquele caso, a necessidade de frases curtas era mais grave ainda, pois ao falar eu corria o risco de sufocar no bafo ou afogar nos perdigotos.
‘De onde você é?’
‘De Belo Horizonte’
‘Eu sou da Europa. Como é seu nome?’
‘Ícaro. E o seu?’
‘Érico Alithis, mas pode me chamar de Cimarron’
‘Ah, sim. Muito prazer’
‘Fascinado. Viu meu iate?’
‘Não, ainda não’, continuei lacônico.
O último perdigoto caiu no meu lábio, do lado de dentro. O anterior pegou no meu olho. ‘Tava foda!’
Euclides e Nico trouxeram uma mesa para fora, serviram uma cerveja para si e racharam de rir das minhas manobras fracassadas de esquiva. Eu era pego, ora pelo bafo, ora pelo cuspe. Escapar dos dois era impossível. Procurei alternar. O bafo era tão desgraçado, que quase optei pelos perdigotos, mas estes vinham com algumas migalhas sólidas. Não gosto de me lembrar disto. Sério.
Não conversei com Cimarron, deixei ele falar coisas de que sequer me lembro e treinei minhas manobras de evasão. Até inventei algumas manobras novas, eu acho. Consegui, por fim, evitar que ele surtasse e eu fosse constrangido irremediavelmente, na frente de todos da cidade, logo no primeiro dia. Consegui fazer-me descolado, na única situação em que normalmente não consigo, que é quando não posso argumentar. Os loucos têm a fortuna de serem vacinados contra argumentos. Mas aí Cimarron chamou-me a atenção, ao dar uma gravidade à expressão de seu rosto que não dera em seus delírios anteriores, para então cuspir as palavras abaixo.
‘Então você não viu nada. Então você não viu quando comprei o iate de um gringo morto. Então você não viu a cidade descer sem ouro. Então você não viu o ouro nascer de novo. Então você não viu o povo contra Teodoro. Então você não viu o povo carregar Chyntos para ser seu dono. Então você não viu o novo médico chegar. Então você não viu a Nova Auschwitz. Então você não viu o suor do homem secar. Então você não viu o corpo virar ouro. Então você não viu as almas fugindo’
Ouvi com atenção e memorizei o que ele disse, que apenas muito depois vim a decifrar.
Lista de Instruções
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2. Escrever o bilhete à mão.

IV. Vênus

‘O que posso fazer pelo senhor?’, perguntou-me Vênus, ao ver-me entrar em seu bar.
‘Você não pode imaginar…’
Ganhei o dia e, com tempo, ganharia um monte de coisas, que nem eu mesmo podia imaginar, embora eu suspeite que Vênus imaginasse. Uma só frase nunca abre a porta na vida real, mas Flordeliz é um pouco fantástica, acredite. Um pouco fantástica, mas não completamente, porque Vênus foi um jogo de xadrez. No meu percurso até o xeque-mate, eu descobriria que, no fundo de seus olhos verdes, havia muito a ser revelado.
Naquele primeiro dia em Flordeliz, após me registrar na pensão do Chileno, recostei-me um pouco em meu quarto. Acordei assustado, já em noite alta, com a fraca luz da rua, que entrava pelas muitas janelas. O brilho fazia sombras vivas, sobre o papel de parede barroco. Os motivos que cobriam as paredes eram rebuscados na forma, em um sóbrio tom de cinza esverdeado. No Chileno não havia restaurante e ele próprio me recomendou o Bar da Vênus, que, ao chegar à cidade, eu julguei não ser mais que um covil de bêbados.
‘Es facíssimo de encuentrar’, explicou Chileno, em seu portunhol de 30 anos de Brasil, ‘es o bar opuesto ao que você fuê, do lado da iglesia’
‘É melhor que o Bar do Nico? Gostei dos petiscos de lá. Parece que é a esposa quem faz’
‘La comida no Bar da Vênus es la misma. Dona Nicéia, mujer de Seu Nicodemos cocina para os dos. Mas el Bar da Vênus tiene mais cosas’, insistiu Chileno, alongando o “o” do cosas, com um pequeno sorriso sugestivo.
‘Papai…’, disse sua filha Sol ao ouvi-lo, em tom de reprovação.
Até ver a reação da jovem, eu não estava convencido. Não havia porque eu ir a um bar que servia comida de outro. Mas a repreensão da garota me indicou que valeria a pena.
Saí pela Rua Calçada à noite. Jeans, bota, camisa branca e óculos escuros de aviador. É possível que isto baste para entender como eu era, nos meus 27 anos. Ou como eu sou, tanto faz. A mesma roupa de quase sempre, mas os óculos apenas em função da areia, que entrou em meus olhos na freada de meu carro, ao chegar à cidade, e que os deixou irritados por todo o dia. Larguei o carro em frente à pensão e andei menos de cem metros até a igreja. À esquerda, com ar já melancólico de poucos fregueses, o Bar do Nico. À direita, entre a igreja e o mar, uma casa com tons que eu não notara durante o dia.
O Bar da Vênus era um sobrado de quatro portas altas, no seu piso térreo. A primeira era aberta para a entrada dos fregueses, ladeada por dois fortes homens de sorriso afável – certamente um disfarce. As três outras portas, também abertas, davam para uma área reservada e arejavam o interior da casa, com a brisa do mar. À frente dessas portas, na calçada, descansavam mesinhas. Elas ficavam cercadas por uma grossa corrente de âncora, presa em quatro pontos a pedras de cantaria, de formato cônico, com uma esfera no topo. Lá na calçada, homens jovens e velhos bebericavam e fumavam, com os olhos atentos ao interior do bar. Os primeiros usavam camisas estampadas de flores e frutas, enquanto os últimos trajavam chapéu Panamá e sapatos bicolores, como se estivessem no começo do século. Um contraste legal.
Passei pelos leões de chácara sem olhá-los no rosto – eu não estava em um dia inteligente. Dei dois passos e fui imobilizado, me seguraram pelos ombros. Fiquei preso por um dos trogloditas, até que uma morena estonteante, de cabelos cacheados jogados de um lado, e olhos verdes combinando com seu vestido, acenou positivamente com a cabeça. Caminhei até ela, que me olhava fixamente.
‘O que posso fazer pelo senhor?’
‘Você não pode imaginar…’
Realmente eu não estava em um dia muito inteligente. Pensei comigo.
Para minha surpresa, ela sorriu. Não deveria ter feito isso comigo, pois sua boca era também deslumbrante. “Vou ter que me desdobrar se quiser pegar esta”, pensei. Ou delirei, eu acho. Mas eu não me importava de delirar, muito pelo contrário.
‘Eles te machucaram?’, perguntou-me a morena.
‘Se é com você que devo tratar, certamente me machucaram’, falei, sorri e tirei os óculos, porque eu não estava enxergando nada com aquelas lentes escuras. Não sei de onde tirei esta ideia idiota de usar Ray-Ban à noite. ‘Perdoe a casa pelos dois. Cowboy e Índio são muito rígidos. Pessoas de toda a região vêm para cá e algumas delas são problema. Eu tenho que decidir quem entra’
‘Que pena que eu não sou problema’
‘Como assim?! Você quer ser problema?’
‘Não quero, mas sou romântico. O cara que é problema tem mais prestígio. Qual o seu nome, mesmo?’
‘Eu não disse’
‘Pois é…’, falei, sorri e levantei uma sobrancelha – muito canastrão. Ela comprou.
‘Vênus’, respondeu ela, virou-se para mim e fitou-me longamente, até  que o canastrão em mim fosse sufocado e eu engolisse seco.
Engoli seco, para ela ver que engoli seco.
‘Isto é covardia…’, falei de instinto. Mas ela entendeu o que senti. ‘Posso te oferecer um drink?’
‘A casa é minha. Eu ofereço o drink’
‘Eu sei que a casa é sua, mas eu convidei’, levantei a sobrancelha de novo, mas sorri amigavelmente e deixei a imitação de Humphrey Bogart na gaveta.
Pedimos nossos drinks. Pedi um Extra Dry Martini com gelo e azeitona: ‘Mas não o Dry Martini do coquetel com vodka. Quero o extra seco, da garrafa verde’, tenho que explicar toda vez. Stirred or shaken, não interessa. Vênus não pediu nada, mas a bartender lhe trouxe um Bloody Mary. ‘Fuck! Combina com os lábios dela. Tá fazendo de propósito’, pensei, com a cabeça baixa, enfiada entre os braços no balcão.
Achei que tinha pensado, mas falei alto. Ouvi gargalhadas deliciosas. Vênus e sua bartender riram de mim. “Oba”, pensei. Desta vez, pensei baixo.
Sorri para Vênus, lhe pedi desculpas e estendi minha mão. Ela pousou seus longos dedos sobre a palma de minha mão e a apertou, acariciando–me. Olhamo-nos. Apertei minha língua entre os dentes, franzindo as sobrancelhas. Achei que ela entenderia uma expressão sacana. Não adiantava esconder.
‘Uma mesa?’, perguntei.
‘Tenho a minha, mais discreta’
Só então reparei no salão. Aquele primeiro andar tinha muitas mesas, para uma casa em uma cidade tão insuspeita. E o mais surpreendente era estarem todas ocupadas. No grande salão, com mesas de madeira e cortinas cor de sangue, sentavam-se alguns senhores vetustos, de bigode, chapéu e sapato bicolor, os mesmos lá de fora. Eles fumavam charutos e jogavam baralho. Encostados atrás deles, ficavam alguns homens fortes, de pé, sem beber, certamente armados, imaginei. Na turma de camisa colorida, vi montanhistas, com suas mochilas encostadas às mesas, e mergulhadores, com suas garrafas de ar. Em algumas mesas havia estrangeiros, talvez árabes, alemães, chineses, africanos ou israelitas, não sei, não sou bom nisso, a não ser que estejam com roupas típicas, o que não era o caso. Espalhados pelas mesas e pelo balcão, estavam algumas das figuras que vi mais cedo, no Bar do Nico.
Em um palco alto, cantava uma loira esguia. Ela tinha um aspecto frágil, em contraste com sua voz aguda e rouca. Lembrava Billie Holiday, a sua voz. A acompanhava, ao violão, um negro de ar maneiro, que também cantava, com voz gutural. Fitei-os longamente, enquanto cantavam algo de Cartola. Perdi-me um pouco e respirei fundo.
‘Tácia e Bill…’, disse Vênus.
‘Exóticos pra caramba. E com vozes um pouco hipnóticas. Vou fugir daqui’
Vênus riu e me puxou pela mão, decidida, conduzindo-nos à mesa. Sentou- se e me indicou a cadeira a seu lado. Acomodei-me, jogando o corpo para trás, como se eu fosse o dono do bar. Pousei a mão sobre sua coxa e ela a retirou, leve. Continuei com o ar de dono, para não aumentar o vexame.
‘Sou um cara de sorte’, disse a ela. ‘Mas não sei a razão’
‘Se soubesse, não seria sorte’
‘A sorte acha que é livre e eu acho que ela trabalha para o destino. Sou contra’
‘Boa ou má sorte, se soubesse a razão, não seria sorte. Destino é coisa séria, se você o levar a sério’
‘Não levo o meu muito a sério. Teria que fazer por onde, antes’
Autocrítica diverte. Confessei como era, para não ter que confessar o medo que tive dela, de sua sedução. Não adiantou, logo me entreguei. Sou meio boçal para estas matérias.
‘Francamente, não estou preparado para esta conversa. Além de ser estonteante, você é inteligente. Um perigo, mulher assim’
‘Não sou perigo para ninguém. Decidi ficar só’
‘Pelo amor de Deus! Estonteante, inteligente e intocável. Você é praticamente napalm’, falei e tomei meu Martini de um trago.
Sem saber o que fazer, acho que esbocei algum sorriso ensaiado. Teria que esperar para ver como ela reagiria à minha indecisão. Ela tirou a taça de minha mão, a colocou na mesa e se ajeitou, como se oferecendo um beijo.
‘Agora você merece me conhecer’, disse Vênus, dando-me sua face, ‘Ficou um bom tempo sem dizer bobagem’, continuou.
Aproximei-me dela, como quem tudo quer. Como eu já não estava em noite lá das mais racionais, segurei-a pela nuca e beijei sua boca, com a língua e com os dentes. Ela correspondeu e entregou-se ao beijo com um frenesi selvagem, com a respiração ofegante.
‘Seu nome mesmo?’, perguntou-me ela, ao me afastar, vermelha de seu calor.
‘Eu não disse’
‘Pois é…’, replicou Vênus, sorrindo.
‘Depois te conto’, respondi.
Sem querer papo, beijei-a novamente, agora com a mão em sua coxa. Depois de sentir cada canto de sua boca, e ela da minha, ela me afastou para mais longe desta vez.
‘Não! Não seja canastrão’
‘Não posso evitar, babe’, falei, buscando outro beijo, que não veio. Acho que eu levantei a sobrancelha errada e fiquei com cara de idiota. “Para consertar, comece do zero!”, pensei.
‘Ícaro, ao seu inteiro dispor’
‘Eu já sabia, mas achei com jeito de nome inventado. Queria ouvir você dizendo’
‘Mas você se chama Vênus! Ninguém se chama Vênus!’
‘Vênus… Encantada!’, disse ela, com um sorriso que me encheu a boca d’água.
“Mulher inteligente é foda! Mas dane-se”, pensei. Resolvi insistir na libido e levei a mão ao seu joelho. Acho que tentei subir por baixo de seu vestido. Acho, não. Tentei, com certeza! Era dona de bar, seus quase 30 anos, dando mole…
‘É até onde vamos. Estou sozinha!’, disse ela, ao afastar-me arrependida, com as mãos em meu rosto.
‘Mas?! Mas?!’, foi o que consegui articular. Gênio das palavras.
Ela riu e lançou seus olhos à nossa volta. De repente, o salão começou a se esvaziar, com todos seguindo para uma escada ao lado do palco. Era uma escada estreita, coberta por um tapete de veludo vermelho, preso ao pinho-de-riga, em cada degrau, por hastes metálicas. O corrimão de bronze brilhava à luz de luminárias, em forma de vela.
‘Para onde vamos?’, perguntei a Vênus.
‘Não vamos, você vai. Irá se surpreender’
‘Suba comigo, ou ficamos aqui. Quero conhecer você, o resto não me interessa’, dei de ombros.
‘Sou sozinha, já lhe disse. Você invadiu o deserto. Dê-se por satisfeito e suba’
‘Não vou’, respondi e recostei-me na cadeira, jogando os pés sobre a mesa.
‘Peço-lhe que vá. Seu deserto é meu oásis’, disse Vênus, já de pé, um pouco suplicante, ‘Além do mais, tenho também compromissos com a casa aqui embaixo, no escritório’
Olhei fundo em seus olhos e perdi a batalha. Acenei que sim com a cabeça, sem nada dizer. Levantei-me, aproximei-me dela e beijei-a no rosto.
‘Me leve um dia’, pedi.
‘Um dia’, respondeu Vênus, ‘Quem sabe se sua missão não será fazer o impossível?’
Dirigi-me à escada, sem olhar para trás. Vênus decidira ficar só. Porém, mais que isto, Vênus revelou-me sua solidão. Ficar só, na intimidade, pode ser uma escolha, mas sentir solidão é uma maldição da alma. Para alguns, um labirinto inescapável, para mim, como qualquer labirinto, certamente com alguma saída. Vênus me intrigou. Eu voltaria.
Lista de Instruções
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3. Esperar o cair da tarde e deixar o bilhete preso por durex à
parte interna da maçaneta do motorista.

V. Atena

O segundo andar da casa era outro mundo e tinha seu próprio nome, Cage. O nome em inglês era influência da mineradora canadense, que ali esteve e dali partiu. Assim também se deu com os nomes das pessoas, de modo que os nomes gregos, lentamente, atravessaram o continente e o Canal da Mancha.
A música era instrumental. Bill recitava palavras poéticas e tocava sua Fender. Tácia fazia curtos vocais e conduzia sua bateria negra, com a inscrição II dourada. Eram flores vocais, decorando os instrumentos. O número dois em algarismos romanos era o nome da banda. Dois elementos preenchiam completamente o espaço – “Jimi e Mitch”, associei, lembrando-me de Jimi Hendrix e seu baterista. Bill e Tácia faziam bem o seu trabalho.
Todo o andar era ocupado por sofás em L, com mesinhas pouco iluminadas. No bar, Índio servia bebidas, ajudado pelas garotas que serviam as mesas. Cada uma vestia um tomara-que-caia de uma cor, aberto em uma das pernas. “Excepcional”, pensei. Tinham coques de cabelo, presos por longas penas de pássaros, da mesma cor do vestido. Eram os pequenos pássaros criados na gaiola, a Cage. Os clientes as chamavam de Periquitas, em parte em razão de suas vestes, mas principalmente pelo que as vestes cobriam. Tudo era bacana, mas o apelido era vulgar para caralho – ótimo, também.
Aquelas cores se repetiam nas cores dos sofás, de maneira que as garçonetes eram identificadas com suas áreas. Duas garotas por cor. Em cada um dos cantos escuros do salão, sentados em bancos altos e quase invisíveis, havia um homem de smoking. Em frente a cada mesinha, uma grande gaiola com uma garota dançando em seu interior, as Cage Girls.
Fiquei alucinado com a sensualidade do lugar. Gosto de sacanagem. Eu não imaginaria algo assim em Flordeliz. Acho que eu não imaginaria algo assim em lugar algum. De cara, a primeira coisa que distinguia a Cage era o papel central das gaiolas com as Cage Girls. Normalmente, pelo mundo, garotas sensuais dançando entre grades são decoração. Na Cage, elas são palco central. Seis Cage Girls, ou Cages, uma para cada cor, uma para cada sofá, em frente a ele. Na Cage, as celas das garotas não eram os tradicionais cubículos (que também têm seu valor), mas palcos descomunalmente
grandes, com um trapézio em seu centro. Para cada Cage Girl havia uma grande gaiola, com poleiro. Muito bem bolado.
Encostei-me no balcão e observei as garotas fazendo acrobacias em seus poleiros, em perfeita sincronia. Havia grandes espaços entre as grades das gaiolas e, por eles, as Gages saltavam de uma gaiola a outra. As aves fatais voavam sobre as cabeças dos clientes. Passavam quase invisíveis, com toda luz focalizada nos centros das gaiolas. O resto do ambiente deitava-se na penumbra, no desejo. Aquelas meninas magnetizavam, com colants apertados, com as marcas vistas de suas ancas, com as sombras de seus mamilos, com os volumes de suas bundas. (Perdão, mas era isso o que eu via naquela
noite – entendam que eu havia chegado de viagem…) Não consegui sequer me virar para o balcão e pedir uma bebida. Fui tocado gentilmente no ombro e só então me voltei para trás. Era Índio.
‘Deseja beber algo?’, perguntou-me, afável, ‘Posso servir-lhe mais um Martini?’
‘Ah, sim. Obrigado meu chapa. Mas agora quero um Jack Daniel’s, por favor’
‘Silver, shot puro?’
‘Número 7, copo curto e gelo até o topo’
‘Raro’
‘Tá’. Não expliquei. Com pouca grana e barman forte eu só bebo o que posso pagar. E com gelo dura mais.
‘Aí vai’
‘Chore aí, amigo’
‘Não me faltam motivos’, respondeu o cínico, sem chorar uma gota.
Fiquei calado e me virei de novo para o show das Cages. Veio em minha direção uma ruiva deslumbrante, vestido negro com rendas, ombros de fora, longas luvas de seda. Era uma pin-up girl, magistralmente desenhada. Os saltos de seus sapatos, altos à beira do meretrício – já do lado de lá da beira –, não faziam dela uma mulher alta, como Vênus, mas revelavam como ela se sentia imponente e decidida. Achei que fosse passar direto por mim, mas estancou bem em minha frente. Seus olhos azuis de abismo tinham as bordas realçadas por lápis negro, que os estendiam como nas orientais. Aquilo contrastava com sua figura mortalmente francesa, mas ficava bom demais. Ela deu-me sua mão e descarregou a voz rouca, dentro de meu ouvido, com uma única palavra.
‘Atena’
‘No mínimo’, respondi, rápido. Depois me curvei, beijando-lhe a mão, de maneira teatral. Ela sorriu e mordeu o lábio inferior, o que achei covardia.
Eu estava muito sensível no dia.
‘Bom, já cumprimentei. Vou ficar com minhas amigas’, disse Atena, virando-se, para se afastar. Segurei-a pela mão, ao que ela voltou-se para mim de pronto.
Gosto de tratar a fuga de uma mulher como um ‘não’ disfarçado, que significa o ‘sim’ absoluto. Normalmente estou errado, mas não naquele dia.
‘Não vá. Ainda não conversamos. Tenha compaixão!’, disse  eu, de maneira dramática, postando minha mão em cálice em frente ao peito, como os italianos em gesto de indignação. Arranquei outro sorriso com mordida no lábio. Mais uma facada, mais um bom sinal. ‘E, por favor, não sorria mordendo os lábios. É praticamente uma punhalada!’ Agora ela riu muito e relaxou o corpo, como se estivesse se entregando a mim. Mas não estava. Ainda.
‘Tá bom, mas tenho que voltar logo. Elas estão me olhando…’
‘So?’, perguntei em inglês, não sei a razão. ‘Elas também estão vestidas para matar’, comentei, ao vê-las também com modelos de pin-up, longas luvas, uma de vestido branco, outra de uma cor estranha. Sei não.
‘We are married, honey’
‘Nós?’, brinquei
‘As três amigas. Estamos aqui de férias, na fazenda de meu pai. Pegamos uma mesa para ver as Cages. O ambiente pede as roupas. Uma brincadeira’
‘Posso participar?’, perguntei, colocando as mãos postas e fazendo olhar de súplica, novamente. Cachorro com fome.
‘Já está participando. Sorteamos para ver quem falaria com o único homem sozinho na casa’
‘As mesas estão cheias de homens desacompanhados. Aliás, homens demais, para meu gosto. Mulheres, somente as da casa e vocês três. É por isto a roupa, para se misturarem?’
‘Um pouco, mas é mais uma lembrança de quando éramos adolescentes. Diversão. Mas traz um probleminha, que é os fregueses nos tomarem por putas. E eles não estão sozinhos, estão acompanhados de seus amigos, o que implica em termos que ouvir piadinhas infames todo o tempo. Por isso, escolhemos você’, disse Atena, olhando ao redor, com expressão de enfado.
‘Vou ser um escudo? Um peão no jogo adolescente das três amigas? Nada mais que uma peça descartável? Tá bom, vamos lá’, respondi e já me levantei.
‘Vamos então’, disse Atena, dando-me a mão para me conduzir à sua mesa, agora satisfeita comigo.
‘Não sei seu nome’, disse Atena, ao virar-se e estancar abruptamente.
Ali ela me fez colar contra seu corpo, deixando seu rosto sobre meu peito. Abaixei meu olhar para observá-la e reativei minha sobrancelha arqueada.
‘Escravo não tem nome, babe’
Ela sorriu e continuou a caminhar, novamente de costas para mim, mas agora me dando as duas mãos, para estabelecer sua posse. Sentamo-nos à mesa púrpura. Em frente a ela, a dança exuberante da Gage Negra. Talvez a mais jovem de todas as Cages, uma garota linda, de baixa estatura, olhos muito negros, todo o cabelo em finas tranças, levadas ao lado de seu rosto, onde formavam uma grande flor. Quando me sentei, ela estava de cabeça para baixo, fazendo piruetas em seu trapézio, dentro de seu colant púrpura como o nosso sofá, mas brilhante como metal.
‘Blrrrbzzdrirrbz…’, alguém disse, enquanto eu estava hipnotizado, pela proximidade daquela Cage.
‘Ei, preste atenção, estou te apresentando minhas amigas’, insistiu Atena e me empurrou com força, como se fôssemos íntimos.
‘Tô prestando, garota. Calma. Estou em fase de aclimatação’, respondi, apontando para a Cage, com um gesto de minha cabeça.
As duas amigas riram, mas Atena me deu um soco ciumento. Não entendi, mas gostei. Naquele momento, Atena já havia tomado sua decisão a meu respeito, mas não atinei.
‘Então está bem. Como elas se chamam, as minhas amigas, que acabei de apresentar?’, perguntou-me Atena, desafiadora.
Sorri e aproximei meu rosto de cada uma delas, para dar-lhes beijos de bochecha, aqueles que querem apenas dizer “Muito prazer e tchau”. Quis ser cordato com minhas novas companheiras de bar, mas não consegui tirar os olhos da Cage. Não respondi sobre os nomes delas, porque realmente não havia prestado atenção. Elas falaram entre si.
‘Qual o nome dele?’, uma das amigas perguntou a Atena, ciente que eu não prestaria atenção.
‘Ícaro’, respondi alto e sem virar-me, antes que Atena me perguntasse. Eu já estava atento a elas, mas queria saber o quanto Atena estava interessada.
‘Ícaro’, ela repetiu para suas amigas, como se já soubesse.
Atena pousou suas mãos sobre meu ombro e se aconchegou, como se estivéssemos juntos. Finalmente, voltei-me para elas e a envolvi com meus braços. Começamos a conversar e Atena se afastou um pouco, possivelmente lembrando-se de que era casada. Ou de que suas amigas estavam ali, à espreita.
‘Ele adorou a Milla’, disse Atena.
‘Quem é Milla?’, perguntei.
‘Ela ali, ora. A Cage Negra’, respondeu uma amiga.
‘Vocês a conhecem? Intimamente? Posso imaginar a cena? E as outras?’, perguntei, com alguma maldade.
‘Não as conheceeemos, mas sabemos quem são. A cidade é pequena e Milla nasceu na nossa fazenda. E, por favor, pare com seus delírios de intimidade. É uma boate de vanguarda, mas ainda é uma boate de interior, em que as pessoas nem sabem que o muro de Berlim está para cair. Aliás, as pessoas daqui tampouco sabem que há um muro em Berlim’, disse Atena, para meu desencanto.
‘Valorizando o talento local, com a garota da fazenda. Way to go!’, ironizei e avancei, ‘Você me apresenta?’
‘Não, mas te conto sobre elas todas. Acho que algumas coisas as meninas não sabem ainda. Milla é a mais jovem. Foi modelo fotográfico na capital, mas voltou rápido, não sei por que. Parece que veio para a cozinha, mas Vênus a selecionou para esses ritos de dança. Quanto às outras Cages, deixe-me ver. Tem Mona, a Cage Loira, uma menina doce, e Lace é a Ruiva, o oposto dela, abrupta. Mina, a Cage Branca, tem cabelos super negros e pele transparente, incrível. Parece a Mortícia, da Família Adams. Nikki, a Cage Cobre, é uma mulata estilo passista de escola de samba, e Yuki, a Cage Oriental, sabe até lutar caratê. É isto’, completou Atena, contando nos dedos.
‘Dentro das gaiolas parece bem mais que isto. Estou sufocando, com elas…’, comentei.
‘Sem vergonha’, comentou alguma, enquanto eu ainda olhava atento o balé de todas, mas me concentrava em achar um ângulo mais favorável da Milla, que estava mais perto.
‘Você ainda não viu nada’, disse Atena. ‘O show ainda tem surpresas. Mas não sei se você merece ver’
‘Nem quero. Quero olhar para você, se tiver uma chance’, respondi, enquanto as amigas saíam, para ir ao toilette.
‘Agora pode’, respondeu Atena. Puxei-lhe pela cintura e nos beijamos uma única vez, vorazmente. Quando as amigas voltaram, ficamos os quatro de conversa, com a perna de Atena entrelaçada à minha. Ela o fez de uma maneira ridiculamente mal oculta, de modo que todos percebiam. Combinamos para o dia seguinte. O show continuou.
Lista de Instruções
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4. Esperar por 15 minutos após a entrada dele, para depois segui-lo.

VI. Cage Girls

Em certo momento, as garçonetes vieram a todas as mesas e recolheram um envelope de cada. Um de cada cor. Amarelo para a Loira, vermelho para a Ruiva, branco para a Branca, marrom para a Cobre, púrpura para a Negra e azul para a Oriental. As mesmas cores das poltronas. As mesmas cores dos colants. As mesmas cores das luzes.
Ao comando da casa, os homens de Índio e Cowboy revelavam o primeiro segredo. Partiram dos cantos onde ficavam à espreita e cercaram a Cage bem à nossa frente, com uma cortina que vinha do teto negro. Tudo escureceu por um momento.
Uma luz surgiu ao fundo, vindo do interior das cortinas, e transformou a gaiola. O pano esticado formava um cubo em seu redor. Ele funcionava como uma tela translúcida, através da qual se viam as sombras das grades verticais. Ao som das primeiras notas de Bill e Tácia, se esgueira, pelo canto da tela, o vulto projetado da Cage Negra, a incalculável Milla – não sei de onde tirei este ‘incalculável’, mas, naquele momento, pareceu-me assim. Sua coreografia era mais do que a sensualidade inocente de antes. A coisa ficou ardente, explícita, se sombras podem ser assim. Em seu teatro, via-se a sombra de Milla despindo-se de seu colant – sou favorável a que o movimento de soltar os botões íntimos do colant permita abatimento no imposto de renda, a cada vez que for feito. Oricom Shohatsu sensual. “Bom demais”, pensei comigo, quando Bill começava a
cantar o blues da Cage Negra.
‘Nêga, Nêga
Me deixe entrar
Em tua pele brown
Na tua hora
De dormir
Ouve Nêga, Nêga
Como te ouvi
Na tua hora down
Quanto te vi
Se esconder
Hoje o céu mudou de cor
Hoje a vida se extinguiu
Cada passo que evitei
Foi como um sonho
Mau
Nêga, Nêga
Eu tô aqui
Fazendo meu sound
Pra tirar você
Pra dançar
Eu digo Nêga, Nêga
Tudo o que vi
No back underground
Não bastou
Não bastou
Hoje o mar virou vapor
Hoje o ar se despediu
Cada word que falei
Perdeu-se
Escuridão
Suplico Nêga, Nêga
O seu perdão
Ao fugir brutal
Explodi
Um coração
Ao fugir brutal
Perdi’
Era uma Cage, em teatro de sombras, acompanhada de Georgia on my Mind, com uma nova letra em português. O strip-tease como arte, que toda stripper sonha, mas nenhuma faz. Sem falar nos botões do colant! Eu não estava particularmente interessado na arte. Eu queria mesmo era vê-la nua, mas a aura artística é uma justificativa importante para a sacanagem. Tem o cara que compra sua revista masculina para ‘Ler os artigos. Os editoriais são ótimos’, ou a atriz que posa para aquela revista e diz: ‘Desde que seja de bom gosto, não tenho preconceito…’. Não tem nada disso, ela tem que ser bem paga, para fazer o trabalho, e tem que aparecer gostosa nas fotos, para ele comprar. É isso. ‘Ela tem cada editorial…’, pensa o cara, por fim – ela, a mulher, não a revista, naturalmente. Não sou dado a tanta hipocrisia.
‘Muito legal, gostei mesmo. Mas o que eu quero é vê-la nua’, confessei a Atena e suas amigas, sem o menor constrangimento. Atena me chutou por baixo da mesa e ordenou.
‘Se quer vê-la nua, feche os olhos. É o único jeito’
‘Se eu fechar os olhos, não será ela que verei’, brinquei, para não ficar calado e para abrir sua porta.
‘Então feche os olhos e veja o que quiser’, respondeu Atena, maliciosa, esperando que eu pensasse o que ela queria que eu pensasse e que eu, naturalmente, pensei. A esta altura, Atena já não deixava suas amigas se dirigirem a mim, queria exclusividade. Bom sinal.
‘Sou bom nisso, de fantasiar, mas espero não ficar só nisso’, disse a Atena e olhei seu corpo de cima a baixo, inclusive atrás, razão pela qual uma das amigas me repreendeu. Atena nem tanto.
‘Tire o olho dela e preste atenção no show. É um teatro de sombras. Um Oricom Shohatsu’, disse a amiga.
‘Tem marionete?’, perguntei irônico, pois certamente não teria.
‘Tem!!!’, responderam as três, para meu deleite, mais que para minha surpresa..
‘E por que só acontece aqui, em nossa mesa?’
‘Pagamos pouco, pelo jeito’
‘Quem paga menos, leva? Vou levar todas. Estou em Marte, êba!’, comentei satisfeito.
‘Só em Marte mesmo. E você está na Terra ainda, meu querido. Pagamos menos e levamos menos’, respondeu Atena, que havia pagado sozinha.
‘Se isto é menos’, arregalei os olhos e estiquei os lábios em direção à Cage.
‘Espere…’, deu-me um tapinha nas costas, uma das amigas.
De repente, sob o comando da Cage Negra, em sua silhueta nua, apareceram sombras de cordas vindas do teto. As amarras buscaram uma das garçonetes, dentre as que nos atendiam, pela lateral do cubo. Ela desapareceu do salão e reapareceu em sombra na tela, controlada por hastes que a Cage manipulava. No Bar da Vênus não havia garçonetes, havia marionetes. As periquitas eram marionetes. “Talvez uma alegoria interessante da profissão, dedicada a servir”, pensei brevemente, para logo me concentrar no jogo sensual entre Milla e seu brinquedo. Ideia besta essa de filosofar na boate.
A música de Bill e Tácia se estendeu por toda a coreografia, com longas notas que decoram a dança, com repetições da canção da Cage Negra. Em certos momentos, ditados pelo enredo das garotas, Bill apenas recitou alguns trechos, em um lento hip-hop, acompanhado pela bateria de Tácia. Tácia, não sei se ensaiada ou em um improviso compelido pela cena, sussurrou sua voz em gemidos, que se confundiam com os da Puppeteer e da sua boneca.
A coreografia se encerrou com ambas extenuadas e a tela do cubo em um fade to black. Os sussurros, então, foram de toda a plateia, que parecia mais extenuada que as garotas. Alguns se recostaram e sorveram de um único gole seus whiskies. Outros riam e comemoravam. Outros acenderam seus cigarros, como se tivessem participado da cena. Eu, por minha vez, avancei minhas mãos sobre e sob Atena, que não se preocupou em me conter.
As outras gaiolas se clarearam e o salão voltou ao que era. Todas as Cages, que aplaudiram e assoviaram ao final do espetáculo de Milla, retomaram suas danças, ao som da Banda II. Voltou o burburinho das conversas e dos pedidos, agora mais frenéticos, pois todos decidiram que queriam ficar mais. Milla desceu do palco e não era mais uma Cage Girl, mas uma garçonete, que nos atendeu em nossa mesa e também circulou pelas demais. De perto, ela não impressionava tanto, mas isto é normal. O palco amplia as pessoas, no que elas têm de melhor e no que têm de pior. No caso de Milla,
o melhor.
‘É só isso?’, perguntei a Milla, enquanto ela me servia mais um Jack.
‘Que você pode ver, é’
‘Temos que sair antes do segundo ato’, completou uma das amigas.
‘Como assim?!’, espantei-me.
‘É como eu disse, nossa oferta foi a menor. Podemos ver somente o primeiro ato’, explicou Atena.
‘Mas eu não quero sair’, reclamei. ‘Logo agora que comecei a entender a vida, o significado das coisas, os mistérios das mulheres…’
‘Como assim?’, perguntaram todas.
‘3ª dose’, respondi. Elas riram um pouco, por educação. Meu humor já estava cansando. Fiquei mais sério. ‘De todo modo, acabei de pedir. Vou ter que sair?’
‘Descemos para o andar de baixo. Continua aberto e com comida ótima’, disse alguma delas. ‘Tô morta de fome’
‘Eu, de curiosidade. Que arranjo mais inusitado este aqui. E parece que funciona’
‘uem der o maior lance vê todos os atos e fica até depois do último. Os demais têm que descer e imaginar…’
‘E quem vai nos servir lá? Está todo mundo aqui’
‘As garçonetes de Milla descem’
‘Ela fica?’
‘Participa dos próximos atos. Cada ato tem uma participante a mais, até o último’, disse Atena, com um olhar maroto.
‘Meu Deus do céu!’, disse eu, salivando. ‘Quem bolou isso é um gênio!’
‘Vênus’
‘Deusa do amor…’, conformei-me.
Tomei meu drink lentamente, mais atento à minha nova amiga, que aos shows das Cages. Agora só era interessante para quem podia esperar o próximo. Sem expectativa, mesmo as auras mais sedutoras se dispersam. É como olhar um quadro de um mestre da pintura. No museu ele quase te oprime, de tão espetacular, mas quando ele está em sua casa, passa a ser decoração, que nem se nota.
Ao sinal de Índio, após algo como meia hora, fechou-se a segunda tela, formando um novo cubo sobre a Cage Loira, Mona. Descemos para jantar e, do andar de baixo, ainda pude ouvir a música, que embalou aquela mulher longilínea, de rosto meigo, que me despertou a imaginação. Era uma adaptação livre sobre a melodia de My Funny Valentine.
‘Ela vivia só
No fundo
Estava sempre só
Mesmo no Carnaval
Quando os olhos a percorrem
Subindo dos pés
Pelo calcanhar
Da coxa ao colo quente
Desde que você foi
No fundo
Ela vivia só
Mesmo no quarto escuro
Beijada em cada canto
Ela via você
Que não estava lá
Portanto estava só
Suave e tão só
No fundo
Ela estava feliz
Pois ao partir pra sempre
De seus cabelos loiros
Você guardou uns fios
Com lágrimas nos olhos
E disse ‘voltarei’
Foi a primeira vez que ouvi algo já cantado antes por Chet Baker que se comparasse à interpretação dele. Não em semelhança, certamente. Mas bom o suficiente. Aliás, quando tentam fazer semelhante, normalmente fazem lambança, ressalva feita a João Gilberto. De novo, assunto que não interessa. Vindo das mesas de fora, Euclides aproximou-se de nós, acompanhado de um homem grande, forte e de sobrancelhas grossas, mas com feições curiosamente inofensivas. Parecia um urso.
‘Caro Ícaro, você encontrou o lugar’, disse Euclides, enfatizando o “o”. ‘E encontrou amigas também. Atena, senhoras…’, dirigiu-se a elas, fazendo uma reverência setecentista.
‘Olá Euclides, bom te ver. Padre Nikos, há quanto tempo! Estas são minhas amigas, que comentei que viriam. O Ícaro, pelo jeito, vocês já conhecem’, respondeu Atena, efusiva, beijando-lhes no rosto.
‘Ainda não’, respondeu Padre Nikos, estendendo-me a mão. O cumprimentei.
‘Prazer e bênção’. Riram todos.
‘Deus te abençoe, mas agora não sou padre de verdade’
‘Talvez seja melhor assim. Sua bênção, Padre Nikos’, repeti de brincadeira.
‘Aqui não preciso ser padre. Estão todos salvos. Momentaneamente…’
‘Vamos jantar?’, perguntou uma voz suave, vindo por trás de todos.
Era Vênus.
Sentamo-nos todos e jantamos juntos, um cardápio que não escolhemos. Veio, para cada um, uma taça de vinho branco, para acompanhar um misterioso e delicioso patê de entrada. Depois serviram vinho tinto com costeletas de algum ovino, que estava muito bom, um licor de jabuticaba e um café, que não tomei. Ali terminou minha primeira noite no Bar da Vênus, em uma conversa de banalidades. No dia seguinte, iria ter com Euclides, que me buscaria na pensão e, mal podia esperar, me encontraria com Atena, ao seu sinal.
Lista de Instruções
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5. Esperar que aconteça, recolher o bilhete e voltar pela
praia do rio.

VII. O Furo

Às 10 da manhã, fui chamado em meu quarto. Ao abrir a porta, Sol disse-me que já me chamara às 9, quando Euclides primeiro veio para me buscar. Era a hora que havíamos marcado, para estudarmos como transformar sua tipografia antiga em sede de um jornaleco. Como eu não acordava, ele voltaria às 11.
‘O senhor me desculpe, mas o Doutor Euclides disse-me que havia combinado de chamá-lo’, explicou a doce menina Sol.
‘Não tem problema, minha cara. Combinamos, sim. É que eu estava muito cansado para acordar’
‘O senhor chegou ontem. Viagem cansa’
‘Demais. E não precisa me chamar de senhor. Seu nome é Solana, certo? Sou Ícaro, me chame por você’
‘Está bem, senhor Ícaro. Ícaro. Pode me chamar de Sol’
‘Claro, combina com você. Ainda tem café?’
‘Aqui não tiramos a mesa’
‘Esta cidade é genial’
‘Como?’, disse Sol, mostrando não entender.
‘Nada, nada… Já desço. Vou tomar uma rápida ducha. Caso o Doutor Euclides chegue antes, me avise imediatamente’
‘Pode deixar, aviso sim. Bom dia!’
‘Bom dia para você também’
Desci para o café e lá me esperava Euclides. Tomamos café juntos e lhe perguntei sobre a noite passada. Mais informações do que pude processar.
‘Bom dia, meu caro’, disse Euclides, ao ver-me, ‘Madrugador?’, comentou, irônico.
‘Levanto-me às sete da manhã. No meu relógio biológico, são sete da manhã sempre que eu acordo…’, repeti esta frase, que me descrevia, embora parecesse brincadeira.
‘Você é um afortunado. Esta cidade não me deixa dormir’, disse Euclides, desolado.
‘Mas o senhor parece bem hoje, Doutor Euclides. Perdoe minha indiscrição, mas seu aspecto é de quem teve uma boa noite e terá um bom dia, porque um não acontece sem o outro. Para mim sua vinda já é sinal de um bom dia e agradeço muito sua disposição em me ajudar a ter uma colocação’
‘É do interesse de nós dois, você enxerga Flordeliz’
‘Assim como o senhor, porém muito menos.Tudo que lhe relatei no bar já era de seu conhecimento, eu sei. Percebi, de ontem para hoje, que sua oferta é pura generosidade, nenhuma necessidade’
‘Não diga algo assim. Não combina com você, dizer algo que não está pensando. Pergunte logo o que quer saber’
‘Por que o senhor precisa de um cronista? Por que eu? Por que agora? Por que não o senhor mesmo?’, fiz uma breve pausa. ‘São coisas que não se perguntam em um bar e que eu, talvez, não devesse perguntar, já que a oportunidade me vem no momento mais oportuno’
‘Se não me perguntasse, talvez não seguíssemos adiante. O que não quer dizer que lhe darei todas as respostas’
‘Preciso de todas’
‘Te darei as que bastam’
‘Farei meu julgamento. Vamos tomar café?’
‘Naturalmente. Chileno, mais uma xícara, por favor’
‘O señor vai tomá el café compréto?’, perguntou o dono da hospedaria, em espaguês.
‘Solo café, gracias. Sin empanadas o pan’, e agora voltou-se para mim. ‘O trabalho deve ser feito. Escolhi você pelo que você me relatou ter visto. Coisas que já vi, mas que, de tanto ver, não percebo mais. Decidi ser agora, porque você chegou agora, e já está atrasado. Respondi tudo?’
‘Quase. Depois do que vi no Bar da Vênus, concordo que o trabalho deve ser feito. Porque eu, o senhor não quer responder completamente, mas o que respondeu faz sentido. Porque não o senhor, sinceramente, ainda não estou satisfeito. Certamente, o senhor me quer como sua voz para algo, mas preciso saber por que não pode ser o dono de sua própria voz’
‘Se é você, não posso ser eu, obviamente. E me chame de você’
‘O senhor entendeu…’
‘Ok, há mais coisas, claro, mas precisamos nos conhecer. De toda forma, mesmo que eu quisesse fazê-lo eu mesmo, não teria como. Tenho, em meu escritório, muitas causas, que não me permito perder. Pelo menos, não antes de debater-me muito, na ponta do anzol, que me fisgou para cada uma delas’
‘Em uma cidade tão pequena? Muito surpreendente ter tantas causas assim. Enfim, se sou adequado ao senhor, a você, tanto melhor para mim. E se há tantas causas, então há notícia…’
‘Sim, em uma cidade tão pequena, que não me deixa dormir. Você já a percebeu, no entanto. A cidade, digo. Além do mais, tenho meu nêmesis’
‘Todos temos, mesmo sem saber’
‘Conheço o meu muito bem’
‘Sorte’
‘E azar. Para conhecê-lo, fiz-me conhecer. O duelo é parelho’
‘Sem vantagem alguma?’
‘Sou do bem’
‘Não estou certo de ser sempre vantagem’
‘Estou certo de que nunca é!’, exclamou Doutor Euclides, fazendo cara de desanimado.
Continuamos nosso café, com alguns momentos frugais, quando, de repente, pela rua à nossa frente, vimos uma grande movimentação de pessoas, seguindo em uma mesma direção. Não demos muita atenção e prosseguimos nossa conversa.
‘E Flordeliz?’, perguntei.
‘Como todas as cidades, Flordeliz são as pessoas’
‘Então estamos bem… e Flordeliz está encrencada’, emendei.
‘Me explique, se não se importa. Mais para te entender do que para entender o que você disse’
‘Estamos muito bem, para nossas crônicas. Se não estou fantasiando demais, temos material pra burro! Mas a cidade, pelo pouco que vi, tem variáveis demais, para seu próprio bem…’
‘Aqui nada acontece fora do script. Por outro lado, o script é misterioso’
‘Não estou certo de que nada aconteça. Talvez tudo esteja encoberto. O Bar da Vênus, por exemplo, é uma fachada para a Cage. Dá notícia nacional’
Eu disse isso e parecia adivinhar que algo aconteceria. Chegou à porta da pousada, que ficava de frente ao salão de café, onde nos sentávamos, o jovem Homero. Com uma voz firme e gestos bem estudados, um pouco dissonantes de seu aspecto de menino-criado-por-vó, Homero deu a notícia e convocou-nos, seguindo firme de volta para onde veio, sem olhar quem o acompanharia.
‘Senhores, precisaremos de seu auxílio na prefeitura. O Secretário Heinrich foi encontrado morto’
‘Quem é Heinrich?’, perguntei.
‘É o secretário de Administração do prefeito, seu braço direito. Mas o mais importante para você é que se trata do pai da Helena’
‘Vamos imediatamente’
‘Não sei se devemos…’
‘Como assim?! O rapaz acaba de nos chamar’
‘Ele não nos chamou. Ele é o escrivão da delegacia. Foi recentemente contratado. Veio dar o recado a eles’, disse Euclides, dando de sobrancelhas para as mesas atrás de nós.
Com poucos movimentos, largaram seus jornais lentamente, afastaram as xícaras que haviam usado, reuniram seus apetrechos pessoais com gestos quase ritualísticos e, por fim, levantaram-se dois homens. Do mais velho, em seus 50 anos, muito magro e de nariz adunco, vi os movimentos por um espelho inclinado próximo ao teto. Do mais jovem, em seus 40, alto e com olhos de rapina, vi apenas as expressões graves, pois se levantara atrás de mim, em uma mesa muito próxima, passando por nós, em passos largos e estudados.
‘O de camisa xadrez é Clint, que você já conheceu. O senhor mais velho, de preto, é o Doutor Creonte. Trabalham com os endinheirados e poderosos da cidade, mas não se comportam como empregados. Todos os temem’
‘Todos? Os endinheirados e poderosos também?’
‘Principalmente eles. O Heinrich, esse que morreu, inclusive’
‘Vamos logo ver o que aconteceu. Talvez não seja nada, mas vou pegar uma câmera no meu quarto’
‘Vá, porque, certamente, algo obscuro aconteceu. Não chamariam Clint e Doutor Creonte à toa’
Nisso, passava, por nossa mesa, Clint. Olhava diretamente para a porta, com olhos semicerrados e passos resolutos. Muito alto, magro e compenetrado.
Seus grandes passos ecoavam no piso de madeira do salão, com um tilintar de esporas. Cheguei a olhar, mas não havia esporas. Não sei de onde vinha o barulho. Talvez eu o tenha imaginado. Ao passar ao nosso lado, segurou a aba de seu chapéu e cumprimentou Doutor Euclides com um breve movimento de sua cabeça. Seguiu direto, sem nada dizer.
Mais sereno, talvez até com um leve sorriso, Doutor Creonte ainda se aprontava para levantar. Tirou do bolso do colete um relógio, preso por uma corrente, olhou calmamente as horas e anotou em uma pequena caderneta, que guardou no bolso interno de seu paletó. Disse algo ao Chileno, levantou-se e passou por trás de nós, enquanto eu ainda o observava se afastando, pelo espelho do teto. Ao chegar à porta, voltou-se para nós, sorriu com o canto da boca e nos autorizou.
‘Venham também, senhores. Direi que estão comigo’, afirmou Doutor Creonte e saiu.
‘Vá rápido, busque sua câmera, vamos ver no que dá. Vou seguir na frente, para garantir que entremos’, disse Euclides, apressado.
‘Tô indo. Me espere na porta. Pedirei alguém para me mostrar onde é’
‘É do outro lado do campo, mais acima na rua. Menos de cem metros. Não tem erro’
‘Ok. Vou com a câmera e um caderno de anotações. Mas só tenho mais meia dúzia de fotos. Onde compro filme?’
‘Em outra cidade’, disse Euclides, já saindo, enquanto eu me abalava escada acima.
Subi as escadas e já imaginava a primeira edição do nosso jornal. “Sim, começando com um furo, podia muito bem tornar-se um jornal. E um furo na prefeitura, mesmo o mais modesto furo, atrairia a atenção de todos. Talvez até fora da cidade. Precisávamos de um nome. Flordeliz Herald. O Arauto de Flordeliz. Ninguém fala arauto… O Mensageiro de Flordeliz. E se expandíssemos para toda a região? O Mensageiro, sem Flordeliz. Muito vago. Qualquer um pode ser mensageiro. Temos que ser, pelo menos, o primeiro mensageiro. Mensageiro da Manhã. É isso. Isso nada, depende do Doutor Euclides. Mas direi a ele. Rápido, tenho que ir rápido”
Peguei a câmera e desci as escadas, com saltos de 3 em 3 degraus. Subi de novo, com os mesmos saltos de 3 em 3 degraus, para pegar o bloco de cabeceira da pousada e uma caneta, que eu havia esquecido. Desci e alcancei a rua, de onde já avistei a entrada da prefeitura, atulhada de pessoas na porta.
Pensei em correr até lá, mas me lembrei da frase de um combatente de fogo, que conheci: “No incêndio, alguém tem que chegar andando”. Além do mais, já passava das 11 e meia da manhã. Nada era mais tão novo. E não havia outros jornais na cidade. Ajustei um passo calmo e encontrei Euclides me esperando, logo antes do aglomerado de curiosos.
‘Por que você não se apressou?’, perguntou-me Euclides. ‘Estou aqui a sua espera há bem uns cinco minutos’
‘O defunto não vai a lugar nenhum. Acabou a pressa para ele. Além do mais, a multidão à porta também é notícia. Vi muito, caminhando até aqui. Acho que podemos ter mais de uma história na primeira edição do Mensageiro da Manhã’
‘O Furo’
‘Sim, já começaremos com um furo de reportagem. O que já sabemos, até agora?’
‘O Furo será o nome do jornaleco. Não sabemos nada. Como disse, estava te aguardando’

VIII. Heinrich

Ainda distantes das escadarias da prefeitura, separados dela pela multidão agitada que se aglomerava à sua frente, fomos impedidos de prosseguir. Euclides acenou para Doutor Creonte, que estava sob o grande portal da prefeitura, em um patamar no topo da escada piramidal e guardava para que ninguém passasse. Funcionava, mesmo que ele nada fizesse. À sua simples visão, toda a multidão, a patuleia que tem impulsos de entrar à força em todo lugar onde não é chamada, se manteve a seguros passos da porta, ainda nos degraus baixos da escadaria. Ninguém ousou pisar o patamar de entrada, que leva ao portal. Doutor Creonte parecia uma pastilha de antibiótico eficiente, em uma placa de Petri – as bactérias se proliferam em todas as direções, mas ao redor da pílula desenvolve-se uma zona morta, uma área estéril, um círculo de no man’s land. Muito eficiente, observei. Há várias situações onde se pode usar um homem como esse, desde morte de político até entrada de show de rock.
O pistoleiro nos acenou para nos aproximarmos. Sim, Doutor Creonte lembrava um pistoleiro, com um chapéu negro elegante e assustador. Ao seu gesto, a multidão se voltou para nós e o mar de pessoas abriu-se como o Mar Vermelho, com ondas de olhares curiosos observando-nos. Escrutinavam o Doutor Euclides, que todos conheciam, e o forasteiro, eu. Subimos determinados a escadaria, passamos por no man’s land e paramos diante do Doutor Creonte. Silenciosos, esperamos suas instruções.
‘Subam até o segundo andar’, ordenou Creonte, ao que correspondemos imediatamente. Afinal, temos juízo. ‘Dona Pilar iria querer o senhor aqui’, continuou ele, agora se dirigindo ao Doutor Euclides.
Subimos pela escada, que se iniciava com um lance largo central e se dividia em duas, pelas laterais do saguão. No segundo andar, chegamos a uma grande antessala, que dava para várias portas, todas abertas de par em par, à exceção de uma. Esta se encontrava semicerrada, com Clint recostado em sua lateral, fumando uma cigarrilha.
A antessala era uma imensa sala de espera e ao mesmo tempo uma secretaria, com pé direito alto, ladeada por estantes altas e com sofás e mesinhas baixas, formando pequenas áreas de estar. Ao fundo, a grande mesa da secretária assistente, Dona Pilar, que era quem fazia todo o serviço administrativo dos secretários de Governo. Sua mesa estava vazia, naquele momento. Nessa antessala, havia dois grupos de homens que eu não conhecia, todos conversavam em pé, um grupo no centro do cômodo, outro em um canto.
Euclides me descreveu os presentes, notando a principal ausência, justamente a de Dona Pilar que, além de secretária assistente, era esposa de Heinrich. Naturalmente, não havia razão para que ela lá estivesse, exercendo suas funções. O homem de paletó branco era o Prefeito Chyntos, que conversava freneticamente com o promotor, Doutor Basto, por acaso, o nêmesis de Doutor Euclides. Junto deles estava também outro secretário de governo, o tal Menon. Creonte subira e recostava-se do outro lado da porta semicerrada, certamente onde se encontrava o falecido. O Delegado Nicanor conversava com o Soldado Otacílio, ambos próximos à porta do crime, sob os olhares incrédulos de Clint e Doutor Creonte. Homero, o que dera o alerta na Pensão do Chileno, não estava à vista. Por uma fresta, vi que se movimentava dentro da sala protegida.
‘Irei ter com o prefeito. Apresente-se ao delegado como repórter d’O Furo e veja que informações obtém’, instruiu-me Euclides.
‘Certo, conversarei com ele e verei se também posso tirar fotos’, respondi.
Euclides se aproximou da roda de conversa do prefeito, sem nada dizer. Eu, por outro lado, fiz-me de desentendido e segui em direção à porta do crime, passando direto pelo delegado e sem pedir permissão alguma. Escrevi IMPRENSA em uma folha que arranquei do bloco de anotações, coloquei no bolso da camisa e firmei o passo. Fui parado por Clint, que estancou em minha frente, sem nada dizer. O cara cismou comigo, desde o bar, no dia anterior.
‘Doutor Euclides me pediu para falar diretamente com Homero, para dar satisfação a Dona Pilar’, inventei.
‘Certo, mas sem fotos’, respondeu Clint, tirando a câmera de minhas mãos.
Fiquei surpreso com a facilidade que tive para entrar, mas pude ainda entreouvir um curto diálogo entre Clint e Doutor Creonte.
‘Ele está mentindo’
‘Eu sei’
Naquela sala escura, aproximei-me por trás de Homero. O jovem estava inclinado sobre a grande escrivaninha do Secretário Heinrich, olhando fixamente para o topo de sua cabeça calva.
‘Anote aí, Otacílio’, ordenou Homero, sem se voltar, ‘O objeto perfurante, longo e pontiagudo, entrou por baixo do queixo da vítima, atravessou todo seu crânio e saiu pelo topo da cabeça. Morte instantânea’.
Anotei o que disse e repliquei. ‘Como você sabe que não foi um tiro de arma de fogo?’
‘Você não é o Otacílio’
‘Disso eu sei’
‘Tanto melhor, anote aí’, continuou o jovem Homero. ‘O objeto perfurante apresenta seção reta circular, é pontiagudo, de ponta pouco afiada. Tem a forma de um longo cone. Não há sinal de luta na sala, logo, a vítima deve ter sido antes imobilizada. Vamos agora acender a luz’
‘Por que você não a acendeu antes?’
‘É básico de investigação. Devemos, primeiro, ver a cena como a viu o criminoso. Não faça perguntas tolas, apenas anote o que lhe digo’
‘A luz podia estar acesa na hora do crime…’
‘Bem pensado’, respondeu Homero humildemente, feliz com minha resposta, e continuou, ‘De todo modo, temos que ver a cena com todas as iluminações possíveis e a visão definitiva será com claridade plena. Acenda a luz’
‘Não posso abrir a janela?’
‘Isso não, você alteraria a cena e, além do mais, o vento pode levar alguma pista real e trazer alguma falsa. Aliás, não acenda a luz. Não toque em nada, a não ser sua caneta e caderneta. Tenho aqui um lenço, para acender a luz sem deixar digitais’
‘Você é leitor de Sir Doyle, não é?’
‘Todo detetive é. Eu não seria diferente, embora não seja oficialmente detetive’
‘Eu sei, você é o escrivão. Como é, então, que está fazendo este trabalho?’
‘Você viu mais alguém interessado?’
‘De fato…’
Acompanhei Homero na análise de toda a cena do crime e fiz as anotações que pediu. Ele me tomava a caderneta das mãos de tempos em tempos, para certificar-se de que eu havia anotado corretamente. Bem chato o Homero, com esta coisa de não confiar em mim. Fiquei puto da vida, mas não falei nada. Em resumo, já se concluiu ali que não havia sinal de arrombamento, de maneira que Heinrich, possivelmente, permitiu a entrada do assassino. Talvez até o conhecesse bem.
Claramente, as evidências sugeriam assassinato. A morte resultou de um objeto perfurante, que não se encontrava na cena do evento. Normal, o assassino levou a arma embora, para dar sumiço. Por outro lado, como tampouco havia sinal de luta, as circunstâncias permaneciam misteriosas. Homero buscou minha câmera junto a Clint e tirei as seis fotos que eu ainda tinha de resto, com o compromisso de não usá-las n’O Furo até que nos fosse dada permissão. Eu havia explicado a ele que inauguraríamos o jornal com aquela notícia. Acontece que a delegacia sequer tinha câmera e o Homero precisava de mim. “Se a delegacia não tinha uma máquina fotográfica, que dirá armas. O delegado inútil tinha uma delegacia inútil. Só me faltava o Homero ser também um inútil e me deixar na mão, com aquela investigação”, pensei, ainda meio puto da vida.
‘Agora, por último, anote aí: Grande poça de um líquido verde, transparente, doce e ralo sobre a mesa e respingado no chão, misturado à grande poça de sangue. Sabor hortelã’
‘Como você sabe que é sabor hortelã?’
‘Provei’
‘Como? Eu ouvi bem? Sério, você colocou isto na boca?’’
‘Você tem outra maneira de saber se é sabor hortelã?’
O Homero podia até ter se revelado capaz de grandes sacrifícios, se o objetivo era solucionar o caso. Mas fiquei com nojo dele, por ter provado aquela meleca. Nojo pra caramba.
Continuamos por um bom tempo as anotações das posições de tudo na sala, sem que fosse conclusiva a forma da morte. Parecia um assassinato de emboscada. Comentamos há tipos menos prováveis de assassinato, para então determinarmos que não foi suicídio ou acidente. Aí entrou na sala o delegado, seguido por todos os demais, e declarou seu veredito.
‘Prezados, uma lástima o suicídio de nosso compadre Heinrich. Ninguém podia prever. Vamos remover o corpo e preparar a cerimônia. Dona Pilar e a menina Helena devem estar devastadas. Faremos de tudo para poupá-las’, concluiu.
Estas palavras trouxeram sorrisos aliviados aos rostos do prefeito, de seu advogado e de seu puxa-saco, Menon, mas causaram forte constrangimento nos demais. Já eu, que àquela altura já esperava ver de tudo em Flordeliz, não esperava ver tamanha cretinice.
Naquela madrugada, muito antes do dia clarear, Heinrich saiu de sua casa, em direção ao seu gabinete, na prefeitura. O pessoal chegaria para o trabalho às 11 horas, para iniciar o expediente ao meio-dia, o que lhe daria todo o tempo para resolver a questão. Na maçaneta de seu carro, no final do dia anterior, foi deixado um pequeno bilhete, com os dizeres: “Me encontre na prefeitura às 4 horas da manhã”. Heinrich reconheceu a letra. Seu corpanzil se agitou de maneira obscena, pensando nos jogos que estariam por vir.
Chegou à prefeitura pouco antes das 4 da manhã, já de terno. Deixou uma pequena nota para Pilar, sobre a mesa do café, onde lhe informou que iria cedo ao trabalho e, de lá, à Fazenda. Que Pilar não o esperasse para o almoço. Sentado em sua mesa, no escritório da prefeitura, Heinrich riu aliviado, quando a porta se abriu à sua frente, para entrar quem ele tanto esperara.
‘Pontual’, falou satisfeito.
‘Claro, meu anjo, para te ver aqui, finalmente’
‘Mas o que está em sua mão? O que é isto?’, perguntou agitado e sudorento.
‘É o que vai fazer nosso jogo ser inesquecível, embora eu nunca me esqueça’’, respondeu a figura e passou a língua por uma estalagmite de gelo com sabor hortelã, como se fosse um picolé, ‘Quer um pouco?’
‘Traga aqui, meu bem’, disse ele, ainda sentado, enquanto a arma de gelo era apoiada sobre a mesa. Após sua primeira lambida, quando o queixo passou logo acima da ponta, uma rápida carga puxou sua cabeça para baixo e o cone de gelo penetrou seu pescoço e vazou pelo topo de sua calvície obscena. Com o homem morto, a arma se derreteu e bastou retirar o bilhete do bolso do paletó do defunto, para que a caligrafia não denunciasse.
Foi algo assim que Homero imaginou no dia seguinte. Sem todos os detalhes, naturalmente. Mas chegou a deduzir a arma de gelo. No entanto, a única pessoa com quem podia dividir as suspeitas era Ícaro, que o incentivava. Ninguém mais queria saber, pelo menos entre os que lhe pagavam. No próprio dia do acontecido, saiu a primeira edição d’O Furo, com a chamada: “Morre o Secretário Heinrich”, em letras grandes, com o subtítulo “Suicídio em condições misteriosas”.
Nada demais foi dito, a não ser a descrição dos fatos, incluindo que a arma não fora encontrada, mas que também não houvera arrombamento ou luta. No entanto, escrito daquela maneira, com conclusões dúbias, O Furo enfureceu o prefeito e o Doutor Basto, que foram, na mesma noite, ao encontro do Doutor Euclides. Iriam preveni-lo das retaliações que viriam. Euclides foi prático.
‘Dane-se’, disse a eles e os empurrou para fora de seu escritório, sem mais palavras.
De lá, voltou para a tipografia, onde tinha estado com Ícaro mais cedo, para a redação da primeira edição. Chamara Homero por telefone e o levava consigo.

IX. A Typographia

Por volta das 3 da tarde, ao sair da cena do crime, segui Doutor Euclides até a tipografia. Era para lá que deveríamos ter ido logo pela manhã, se não fossem os acontecidos na prefeitura. A oficina ficava no primeiro andar do sobrado onde residia Euclides. Uma casa antiga, de paredes espessas, três sacadas no andar superior e duas janelas no térreo, com uma única porta. Mantida aberta durante todo o dia, a porta dava acesso à casa e à tipografia. De frente à porta, após um pequeno vestíbulo, uma longa e estreita escada
subia aos aposentos de Euclides, onde ele mantinha também seu escritório.
A oficina tipográfica ficava logo à direita, ao pé da escada. Era separada do vestíbulo por uma pequena grade de madeira à altura da cintura, fechada por uma pesada taramela de ferro. Os equipamentos ficavam em bancadas, espalhadas em vários pontos do amplo cômodo. Uma cozinha, um banheiro e um escritório com mesa de reunião davam para os fundos, onde repousava uma grande jabuticabeira sombreando o chalé de Temístocles, o
fiel funcionário de Euclides. Sua morada o ligava à tipografia, que ele amava, e separava a casa de Euclides do mar, como queria o velho advogado, não tão fã de água.
Logo ao chegarmos, Temístocles nos esperava à porta. Estava ansioso por iniciar o jornal. Havia anos que somente fazia obituários para pregar em poste. Com seu corpo atarracado, não se podia definir entre obeso e musculoso, até vê-lo com fardos de papel de cinquenta quilos, um em cada braço. O camarada era forte pra burro. Com um sorriso escancarado, Temístocles recebeu-nos sujo de tinta e de outras coisas que não quero pensar.
Havia arrumado e limpado toda a tipografia, já sabendo que chegaríamos. Após limpar as mãos em seu grosso avental cinza, sujando-as mais que limpando, Temístocles estendeu-me a mão direita para um cumprimento formal. Por fim, não se conteve e abraçou-me efusivamente, como se já nos conhecêssemos há tempos e eu voltasse de uma longa viagem.
‘Vamos ter um jornal, Seu Ícaro. Vamos ter um jornal. Ainda bem que o Seu Heinrich morreu, Deus o tenha. Não. Acho que Deus não o terá, mas enfim. Seu Euclides já acertou tudo comigo ontem. Fique tranquilo’, despejou de forma agitada e continuou, sem cumprimentar Euclides, que ria satisfeito atrás de mim. ‘Venha cá, venha cá. Aqui nesses armários temos os tipos móveis. Cada gavetão traz os tipos de um tamanho. Temos todo tipo de fonte. Todo tipo. Aqui ficam as placas de montagem. É menos coisa, mas tá bom. Aqui, olhe, a guilhotina. Esta é perigosa, não mexa sem mim.’ Deu uma pequena corridinha até o outro lado da sala. ‘Aqui fica nossa prensa. Stanhope, meu filho, Stanhope!’, disse Temístocles, orgulhoso, postando-se ao lado da prensa, com a mão sobre ela, como se posasse para uma foto.
‘É linda. Parece peça de museu…’, dizia eu, quando Euclides me cutucou.
‘Não diga isso, Seu Ícaro. Não diga isso! Está novinha. Não faz um barulho, faz música. Está novinha. Aqui, olhe. As tintas, os rolos, estamos usando tudo’
‘Ele está elogiando, Temístocles’, apressou-se Euclides em dizer. ‘Ele não conhece prensa…’
‘Não conhece mesmo. Mas vai conhecer, viu, Seu Ícaro? O senhor vai gostar dela’
De fato, a tipografia era linda e, não só a prensa, mas todos os móveis e equipamentos pareciam peças de museu. Já caminhando para o final do século XX, com o homem na Lua e a União Soviética acabando, Doutor Euclides se orgulhava de haver mantido uma tipografia com peças de museu, do século XIX. A prensa Stanhope, a menina dos olhos, era uma máquina de 1865, conforme anotado em sua etiqueta de fabricação, em uma placa de bronze, sob o nome Stanhope. Era uma prensa manual, em desuso havia um século, pois imprimia, no máximo, lá suas 400 páginas por hora, se tanto. Muito pouco, se comparada às modernas, porém mais do que Flordeliz demandava. Lá não se sabia do homem na Lua ou da Perestroika. Ou ninguém se importava, o que dá no mesmo.
Temístocles estava certo. Passei a gostar da prensa e de toda a tipografia. Desde o escritório, com sua grande mesa de reunião e imponente escrivaninha, até todas as bancadas da oficina, tudo era feito em uma marcenaria esmerada, em pinho-de-riga com acabamentos e marchetaria de jacarandá. As cadeiras eram de ferro, estofadas com um couro marrom craquelado e, por isso mesmo, mais bonito ainda, lembrando cadeiras de barbeiro. O pé direito alto dava leveza ao ambiente, que poderia ser soturno, com todos aqueles apetrechos antigos. Do alto do teto, pendia uma grande placa de metal esmaltado de branco, dizendo Typographia, em letras azuis.
‘A grafia antiga era mais bonita, com y e ph’, comentei, ao ver a placa.
‘É o nome da nossa oficina. Mas vamos ao que interessa’, disse Euclides.
‘Precisamos escrever o texto rapidamente. Vai em uma página, certo?’, sugeri.
‘Tem que ser, Seu Ícaro. Já está tarde. Minha menina é boa, mas só dá conta de fazer umas 600 páginas por hora’, exagerou Temístocles em cinquenta por cento.
‘Fazemos o texto, enquanto Temístocles faz o cabeçalho’
Já fiz vários cabeçalhos diferentes, Seu Euclides, para o senhor escolher. Basta a gente decidir qual é melhor’, disse Temístocles.
‘Você tem as fotos?’, perguntou-me Euclides. ‘Temístocles pode revelar’
‘Homero confiscou…’
‘Que merda! Para quê? O boçal do Nicanor já deu o resultado oficial da investigação’
‘Acho que Homero não vai desistir’, respondi.
‘Meu caçula não desiste’, disse Temístocles. ‘Nisso Seu Ícaro está certo’
‘Ora. Vocês são irmãos?’, perguntei.
‘Em Flordeliz, quase todo o mundo é parente, em algum grau’, retrucou Euclides.
‘Mas irmão é diferente, não é, Seu Euclides? Homero é meu caçula. Saiu
à inteligência da mãe’
‘Vocês não conheceram o pai’, brincou Euclides.
‘E quem conheceu?’, dizia Temístocles, quando uma pedra entrou pela janela de trás, quebrando um vidro da antiga janela de guilhotina e pousando sobre a mesa de reunião do escritório.
Corremos inicialmente para a porta, no intuito simplesmente de fugir de seja lá o que fosse, pois o estrondo foi grande. Depois, lentamente, seguimos para o escritório da tipografia. Não vimos sobre a mesa uma pedra, mas um embrulho. A pedra estava envolta em um papel que, ao ser desdobrado, revelava um desenho do morto. Estava desenhado em carvão preto, mas com uma mancha verde se destacando, onde deveria haver sangue.
‘Ao trabalho, Temístocles. Desenho é até melhor’, decretou Euclides.
‘Nós também, Ícaro’… ‘Ícaro?’
‘Sim. Já compus o texto’
‘Como assim? Onde está?’
‘Falta escrever o resto, mas dê uma olhada aqui, no que fiz’, mostrei-lhe e ele gostou com ressalvas.
Euclides e eu escolhemos o cabeçalho d’O Furo. Temístocles compôs a chapa. Incluiu, no canto, uma reprodução do desenho, que ele rapidamente esculpira em baixo relevo em um pedaço de madeira macia, deixando espaço à esquerda para o texto. Sua habilidade para esculpir era ridícula de boa.
‘Homero vai ficar furioso’, comentei, admirando a versão final.
‘Fica não. Ele tem solução para tudo’, interveio Temístocles.
‘Além do mais, ele sabia que você estava lá como imprensa’, completou Euclides. ‘Não vejo problema nisso tudo, mas não estou convencido do início de sua redação. Está muito rebuscado e com pouca informação do falecido’
‘O povo não gosta de leitura sem emoção e eu só sei escrever assim. Acho que podemos fazer um suspense e estender a história por mais algumas edições’
‘E o sangue verde? Quem fez o desenho, fez questão de destacar’
‘Não sei o que significa’, menti.
‘E a pedra com o desenho?’, perguntou Temístocles. ‘Não vai citar?’
‘É ligado, mas é outra história. Além do mais, quem lançou a pedra está querendo nos ajudar e é alguém fundamental no caso. Viu o crime. Teve tempo de desenhar. Arriscou-se vindo pela restinga, para lançar a pedra com o desenho. Qualquer um na praia poderia ter testemunhado’
‘Não foi tanto risco assim, porque, com este frio, não tem ninguém na praia. E a jabuticabeira do Temístocles marca a posição de uma corrente de retorno que já matou muita gente. Não se banha ali sem se afogar. Para receber segredos, a Typographia tem uma localização fantástica’, explicou Euclides, ‘Silêncio mortal. O ponto perigoso da praia nos dá silêncio mortal. Muito bom para a redação’
A primeira edição ficou assim:

X. Vino T

Após aprovarmos a primeira folha impressa, Temístocles iniciou sua vertiginosa empreitada com sua Stanhope. Apesar de eu me oferecer para ajudá-lo, Temístocles insistiu em fazer todo o trabalho sozinho. Já havia cortado o papel na guilhotina, para o tamanho da impressão. Deixou tudo o que precisava em uma mesa ao lado da prensa. Uma pilha de papel com 600 folhas, dois rolos para tingir as placas tipográficas, uma bandeja com uma fina camada de tinta e uma grande lâmina de papelão envolta em linho
branco, fazendo as vezes de uma almofada.
Achei tudo normal, até que acompanhei o processo de impressão. O trabalho na prensa Stanhope consiste em tingir uniformemente a placa de impressão com o rolo de tinta preta, ajustar uma folha branca sobre a placa, cobrir com a almofada de linho, deslizar a mesa com a placa tipográfica para debaixo do bloco da prensa, puxar a longa alavanca pressionando o bloco sobre a placa com o papel, voltar a alavanca, deslizar para fora a mesa tipográfica, remover a almofada de linho, cuidadosamente remover a folha já impressa e… recomeçar.
“Não vai dar tempo de imprimir muito…”, pensei, quando os movimentos inicialmente cuidadosos de Temístocles rapidamente transformaram-se em um balé frenético. Vi, em pouco tempo, desaparecer a pilha de folhas brancas e nascer a primeira tiragem de nosso jornal. Vi também como um insuspeito gráfico podia tornar-se uma máquina de força descomunal, bastando, para isso, que a prensa seja manual e que a tipografia não tenha estagiário para fazer o trabalho duro.
Eram já cinco da tarde, quando nos abalamos porta afora para distribuir o jornal. Naquele dia, o verso iria em branco, o que era ruim, por não haver núncios comerciais e, portanto, nenhum dinheiro para mim. Por outro lado, estávamos apenas começando e, sem material no verso, pudemos prender alguns exemplares a postes e troncos de árvore, o que aumentou a divulgação.
Fiquei com a distribuição do lado direito da Rua Calçada, o que é óbvio que depende de onde você está olhando. Cismei que o lado onde eu morava e onde também ficava a Typographia é o lado direito, simplesmente porque é o lado do mar. O outro lado, onde ficavam a prefeitura, a câmara municipal e a casa de minha doce Helena (àquela altura, sei lá de onde tirei isso, Helena já era minha), ficou com Euclides. Oquei, fiquei com o lado do mar da Rua Calçada, Euclides ficou com o lado da montanha. Temístocles seguiu para o Cafezal, para o amontoado de casas e barracos que eu mal vira ao chegar.
As casas do Cafezal espremiam-se entre a Serra do Espinho e o Rio Alma, que corre por trás das casas da Rua Calçada. Temístocles atravessou a Ponte de Balanço e, por onde passa uma única pessoa por vez, passou ele com o jornal para todas as pessoas. O prefeito sorvia as riquezas da cidade à beira-mar e, do Cafezal, sorvia os votos. Não custava tentar instruí-los. Instruí-los, sim, porque o texto foi sutil demais para revoltá-los.
Eu e Temístocles nos encontramos de volta no bar do Seu Nico. Ele, de dentro de seu balcão, nos cumprimentou satisfeito, quando leu a notícia d’O Furo. Terminamos ali a distribuição do jornal pela cidade e, de lá, voltamos à Typographia, para uma caneca de vinho. Ao entrarmos na oficina, Temístocles abriu as portas de um armário na parede lateral do escritório, do qual saltou um espectro vertiginoso.
Em Temístocles, tudo o que se imagina é bruto. Força bruta, palavras brutas, gestos brutos, aromas brutos, sabores brutos. O oposto do que saiu de seu armário. Os humores saltaram de dentro do armário para a amplidão da oficina. De dentro daquela estante antiga, explodiu um aroma indizível. Era a suavidade de um dia que termina em paz, ao lado da garota que te ama. Que nada, era mais do que isso.
Nada do que eu disser aqui poderá descrever o bem que me fez a essência do Vino T, como o batizou Temístocles. Talvez fosse o momento, talvez fosse o cansaço do dia, talvez fosse a ansiedade vencida e talvez, naquela hora, eu sentisse o mesmo com um copo de água gelada – embora eu duvide. Pouco importa. Pelo meu olfato experimentei ópio, ao invés de aroma. Posso falar de flor de parreira com lágrimas de cereja, suor de uma jovem com orvalho de morango, ou a lengalenga batida de notas de frutas vermelhas com retrogosto de chocolate amargo e raspas de tangerina. Porém, isso tudo pode ser aplicado a um Hermitage, a um Châteauneuf- du-Pape, a um Barolo ou a um Brunello. Não a um estado de espírito.
‘De onde saiu isso, Temístocles?’, perguntei a ele, mostrando-lhe meus arrepios na pele e inspirando fundo.
‘É o Vino T, dos meus barris’, respondeu ele, mostrando-me o interior do armário.
Dentro do armário, descansavam nove pequenos barris de madeira, três em cada prateleira. Tinham datas escritas em carvão, em suas faces. Quatro anos e meio do Vino T estavam ali, em pequenos barris de 40 litros. Temístocles tinha ainda mais 90 barris grandes descansando no porão da Typographia.
‘Que coisa espetacular!’, afirmei, espantado. ‘Dê-me um gole e me conte a história’
‘Já vai, seu Ícaro, já vai’, respondeu ele, enquanto abria uma grande gaveta da parte de baixo da estante, para pegar duas canecas de estanho. Ele as limpou com cuidado, com finas folhas de papel de seda, guardadas na mesma gaveta. Serviu-nos generosamente de vinho e veio até mim com as canecas, para contar seus segredos, que nem eram tão secretos assim. ‘Desde pequeno, minha mãe já plantava uvas…’, dizia ele, quando o interrompi.
‘Tudo bem, mas uva para vinho é diferente! E esses barris?! Que aroma!’
‘É isto. Pois é. Calma… A Typographia é um ritmo, o Vino T é outro. Aqui temos que respirar fundo’
‘Não estou fazendo outra coisa’, concordei.
Eu tinha o meu nariz mergulhado no vão de minha caneca, após agitá- a levemente. Não mencionei que deveríamos beber em taças, para melhor apreciar a bebida. Talvez fosse uma frescura dispensável, diante do desatinado prazer que senti com aquele vinho. Realmente não me incomodou.
‘Deveríamos beber em taças de cristal, para apreciarmos a cor, observarmos a densidade, concentrarmos o aroma’, comentou ele, o que eu não quis comentar. ‘Mas não combina com uma oficina. Lá em cima, na casa de Seu Euclides, ele tem umas taças que traz para cá, de vez em quando. Eu também tenho, aqui no porão, mas é só uma, para eu provar o caminho de cada barril’
‘Os barris deviam ficar no porão, não?!’
‘E ficam. Aqui eu mantenho os barris que estamos degustando. Tenho mais 90 lá. Veja que minha produção não é grande, mas é mais que um pé de vinha’
Temístocles, o bruto gráfico, era agora o delicado vinicultor, o sutil devoto de Baco.  Apropriadamente, ele sorveu cada gole de seu vinho, com o ar silvando pelos cantos da sua boca. Suas narinas dentro das bordas de sua caneca misturavam a inspiração profunda com os pequenos veios do vinho, que seguiam pelas laterais de sua língua. Ali ficam as papilas gustativas mais sensíveis ao toque encantado da bebida. Tudo como manda o figurino.
‘Então, não vai me contar?’
‘Das minhas uvas eu não sei muito, então lhe conto tudo. Dos meus barris, tenho alguns fatos e algumas suspeitas, então lhe conto o que posso. Dos meus segredos, sei tudo, então não lhe conto nada, por enquanto…’
‘Conte-me o que quiser. Vou concentrar-me na tarefa de beber seu vinho’
‘Agora é seu’
‘Sério?’
‘Só o que está em sua caneca’
‘Ahhh…’, suspirei, desapontado. ‘Já estava vendo um monte de vestido se abrindo para mim. Com isso aqui, meu amigo’, disse-lhe, girando a taça no ar, ‘basta trazer a mulher até o primeiro gole’. Vaidade idiota, aquela minha, de achar que pego quem eu quiser.
‘Que afirmação idiota’
‘Pois é. Eu vivo me superando’
‘Além do mais, é a mulher que nos traz ao primeiro gole’
‘Antes de encontrá-la’
‘Antes. Muito antes’
‘Mas me conte, então. Fale do Vino T, de Temístocles’
‘Não é T de Temístocles, mas dos mourões em T que dão suporte às videiras. Elas são assim para os galhos se abrirem e todos os cachos poderem tomar sol’, me explicou o insuspeito enólogo e continuou, ‘As uvas precisam de sol para amadurecer, fazer açúcar. E deixo um único galho para cada lado do T, para dar poucos cachos e o sabor ficar concentrado. Aí resta torcer para não chover muito, para não aguar a fruta’
‘Mas e a história da sua mãe?’
‘Não sei bem a origem, mas ela cuidava dessas videiras. Dizia terem sido de meu pai, que não conheci. Ela colhia muito e botava a gente, eu e meus irmãos, para vender na cidade. Ninguém comprava, porque era azeda e da casca grossa, aí ela abandonou. Há uns dez anos atrás, já aqui na oficina, achei este livro antigo em uma prateleira, Viticulture, de Paul Pacottet. Foi aí que eu entendi porque ninguém gostava da uva, já que era uva para vinho. Acabei descobrindo que era uva Syrah, ou alguma prima dela. Segui estudando, até fazer meus vinhos’
‘Você me surpreende. Parece outra pessoa’
‘E sou. Não dá para fazer vinho sendo gráfico ao mesmo tempo. Tenho que ser uma coisa de cada vez. Quando sou vinicultor, tenho que respirar fundo, fechar os olhos, sentir o que a uva fala comigo. A não ser na hora da colheita, que tenho que ser rápido’
‘Não me chame para ajudar nesta fase, mas na hora das degustações eu estou às ordens’
‘Para entrar na fila tem que ajudar antes. Até para fazer barril tem que ajudar’
‘Tem fila? Fazer barril? Achei que você comprasse’
‘A fila você verá daqui a pouco. Os barris são outra história. Vou comprar com que dinheiro? Barril de carvalho é uma fortuna e tem que vir dos Estados Unidos ou da Europa’
‘São de carvalho os seus barris então. Daí é que vem o aroma espetacular’
‘Em parte, não é mesmo, meu amigo? Sem o vinho, não tem bouquet’
‘Você então compra o carvalho e faz o barril’
‘Melhor. Tenho o carvalho de graça, vindo do mar’
‘Contrabando?’
‘Contrabando também tem que pagar e dinheiro eu não tenho. O caso é mais interessante. Preste atenção. Quando eu era ainda moleque, costumávamos ir, eu e meus irmãos, brincar no casco de um barco encalhado na Enseada Viva, atrás da Pedra do Surf. Está lá ainda e é um barco grande, de uns 100 pés. O casco é de metal e está perdido, mas todo o interior é de madeira. Quando fiquei sabendo que precisava de barris de carvalho para envelhecer meus vinhos, busquei informações sobre aquela madeira e acabei por perceber que todo o interior do barco é de carvalho americano. Normal, porque o barco era de um casal que veio da América há mais de 30 anos. O barco estava ancorado e encalhou com uma dessas tempestades, que temos por aqui’
‘Os americanos te deixaram usar?’
‘Sumiram há muito tempo. Ninguém sabe do paradeiro deles. Uma história estranha, da qual pouco sei’
‘O que você sabe?’
‘Na verdade, nada. Quanto aos barris, não é fácil fazê-los, por isso é que, para tomar meus vinhos, tem que ter ajudado a fazer barris, pelo menos’
‘Eu não ajudei’
‘Mas fez O Furo. Vale o mesmo tanto, senão mais’
‘Obrigado. Se eu não precisasse das famigeradas proteínas e das inevitáveis roupas, meu pagamento já estaria acertado agora. E muito bem acertado’
‘Agora eu é que agradeço’
‘E dos americanos, você realmente não sabe nada?’
‘Nunca fale sobre isso, Seu Ícaro. Nunca fale’, repetiu Temístocles, demonstrando alguma apreensão
‘Por que não? Afinal, parece que já tem muito tempo’
‘Não sei por quê. Mas já fui advertido. Vamos voltar ao vinho, porque daqui a pouco começa a chegar a patota. Você vai entender a fila’, falou ele, orgulhoso.
‘Pode dar uma história, essa coisa dos americanos’, aticei eu, tentando usar sua excitação com o jornal, ‘Para ter jornal, tem que ter coragem. Além do mais, a notícia nos protege. Quando está tudo revelado a todos, nós deixamos de ser alvo’
‘Nunca se deixa de ser alvo de vingança’, afirmou nebulosamente meu novo amigo, apontando-me o dedo indicador.
‘Pegue a caneta ou quebre a prensa, meu chapa. Se não vamos escrever sobre tudo, podemos logo fechar O Furo. Ao imprimir a primeira página de um jornal, o homem coloca uma aliança, casa-se com a verdade, entra na vida das pessoas. As exceções são os países em regime de exceção. Putz, perdão aí, por este trocadilho ridículo…’
‘Não fala, não. Este assunto me deixa puto’
‘Que assunto?’
‘Cuba’
‘Cuba? Eu não falei Cuba, mas entendo o que você quer dizer. Só não entendo porque te afeta’
‘Está tudo relacionado. O prefeito, o Cafezal, Cuba, o barco, tudo. Mas não faço ideia de como. Só sei que o prefeito era pobre e agora é rico. Chegou aqui com a conversa das maravilhas da igualdade em Cuba, que eu nunca entendi nem acreditei’
‘Cuba é simples. Foi transformada de ditadura em fazenda. Tiraram um ditador e puseram um latifundiário. Lá, todo mundo sabe ler, mas só pode ler o que o chefe manda. Tem igualdade sim. Todo mundo numa merda só, menos o chefe’, comentei em tom jocoso. ‘Grande arranjo. Negoção, se você for o fazendeiro! Eu queria…’, brinquei, quando devia ter ficado calado. Só percebi que não devia ter brincado, quando vi a irritação de Temístocles.
“Ele tem muito a me contar”, pensei comigo.
‘Não diga essas coisas de brincadeira. Não diga. Flordeliz não merece isso. Ninguém merece. Aí, estão mexendo na porta. O pessoal vai começar a chegar’
‘Nosso assunto não terminou’
‘Terminou, sim’, retrucou ele, secamente.
“É o que você pensa”, ruminei.
Temístocles levantou-se para buscar mais canecas, enquanto chegavam Doutor Euclides e Homero. Continuei sentado em uma das cadeiras de ferro, de tão cansado que estava. Cumprimentei os que chegavam com um aceno bem humorado, que não foi correspondido com o mesmo humor.
“Turma ranzinza. O Euclides só relaxa no boteco”, pensei. Euclides passou reto e chamou-nos ao escritório. Temístocles seguiu, levando canecas de vinho para todos, não sem antes deixar cair sorrateiramente uma foto aos pés de minha cadeira. Era uma foto preto e branco de um casal em um barco.
“Está começando”, pensei.

XI. A Reunião

Em torno da mesa, sentamo-nos eu, Doutor Euclides, Temístocles e Homero. Cada um com sua caneca de vinho. Vários exemplares da primeira edição d’O Furo sobre o grande tampo. Homero retirou dois envelopes de seu paletó e me entregou imediatamente o mais grosso. ‘São suas fotos, eu mesmo revelei’, disse-me ele. Eu as tomei e guardei. O segundo envelope, mais fino, ele deitou sobre a mesa, ainda fechado. Parecia ser também uma foto. Podia ser uma cópia de uma das minhas, pois estas eu havia recebido todas. Ele começou a falar.
‘Estão aí as fotos do defunto. Não ajudam muito, mas provam o que queremos’
‘Não estou bem certo do que queremos’, mencionei.
‘Queremos provar, primeiro, que eles estão mentindo’, disse Doutor Euclides.
“Coisa de advogado”, pensei.
‘Coisa de advogado’, adiantou-se Temístocles. ‘Todos sabem que eles estão mentindo. Todo o mundo gostaria de ter matado o Heinrich, aquele filho da puta, e todo o mundo sabe que somente alguém muito poderoso teria coragem. Todo o mundo sabe’
‘Não adianta saber, temos que provar. Temos que mostrar que eles estão mentindo quanto ao suicídio’, insistiu Euclides.
‘É mais que claro que estão mentindo quanto ao suicídio. Suicida não esconde arma do crime. Primeiro, porque o interesse do suicida é mostrar que se matou, seja por autopiedade, seja por um último lampejo de consciência. Naquela hora, o camarada exime todos à sua volta de qualquer culpa. Parece que deseja lavar seus pecados ou sua miséria’, observou Homero.
‘Aí vem a Igreja e diz que suicídio está entre os maiores pecados. Ô vida complicada’, ironizei. De novo sem repercussão. ‘Para a justiça, crime de poderosos aqui é o seguinte, se não fotografar com umas três câmeras e o cabra não confessar umas cinco vezes, então não foi ele. Se fizer isso tudo e negar depois, então também não foi ele. Se fizer isso tudo e não negar depois, aí se contrata mais um advogado’, explicou didática e pausadamente Euclides, entre goles generosos de vinho.
‘A não ser que o cara seja mesmo inocente. Aí ele está frito’, disse Bill, ao entrar no escritório, já com sua caneca na mão. Era mais um membro do grupo chegando. ‘Que que tá pegando?’, perguntou ele, com sua voz gutural.
‘Temos fotos da cena’
‘Do suicídio mágico?’
‘É’
‘E aí?’
‘Nada demais. Provam que, se foi suicídio, então foi mágico, mesmo’, replicou Homero.
‘Vamos pegar o cara desta vez?’, perguntou Bill, lambendo os beiços.
‘Que cara?’, indaguei.
‘O prefeito. Deixe de ser inocente’, respondeu Temístocles.
‘Cheguei ontem, pô’
‘Ninguém chegou ontem’, retrucou Euclides, olhando-me firmemente nos olhos. Calei-me, para depois pedir-lhe explicações. Mas ali eu percebi que meu olhar para o prefeito havia sido flagrado, naquela manhã.
‘Bom, não sei se vamos pegar o cara. Está mais fácil eu ser demitido’, ponderou Homero.
‘Já não está em suas mãos. Está no jornal’
‘Não quer dizer nada, que uma ajuda financeira não apague’
‘Pare com isto, Euclides, não estamos à venda’, disse Temístocles, sem entender.
‘Preste atenção no que estou dizendo, Temístocles. Quando eles usam o poder financeiro, o dinheiro não vem para nós. Não temos importância.
Vai para o Cafezal, vai para a Vila Mansa da Fazenda, e vai, finalmente, para os votos, ora bolas!’
‘Então não estamos, de todo, mal’ observou Atena, que entrou estonteante na sala e sentou-se a meu lado. ‘Você me serve um vinho, Temístocles?’
‘Claro, menina. Um da cor de seus cabelos. Em fogo’
‘Oi Atena, não esperava te ver aqui’, disse eu e me aproximei para, discretamente, beijá-la o rosto. Ela correspondeu de maneira recatada aos olhos de todos, mas, sob a mesa, segurou firmemente minha mão, com as pontas de seus dedos. Uma mulher decidida, a Atena. Continuei, ‘Mas voltando ao assunto, acho que estamos mal, sim, se o prefeito tem todos no bolso’
‘Tinha (!) todos no bolso, com os recursos controlados por Heinrich, o presuntinho alemão’, explicou um animado Bill, com uma piadinha macabra que gostei e resolvi continuar.
‘O secretário semiempalado’, emendei.
‘O espetinho de facínora’, completou Homero, sem que os demais entendessem o que nós dois dizíamos, pois não sabiam do cone de gelo.
‘Que história é esta de espetinho?’, perguntou alguém.
‘Nada!’, respondeu secamente Homero, olhou-me arrependido e completou, ‘É uma tentativa minha e do Seu Ícaro de atrapalhar as investigações’
‘Conte comigo para fazer bobagem!’, repliquei.
‘Não está mais aqui quem perguntou’, ecoou alguém.
Um grande burburinho veio da rua e eclodiu na entrada da Typographia.
Chegaram juntos Vênus, Otacílio e Clint. O burburinho era todo de Otacílio, que estava inconformado com as decisões do Delegado Nicanor. À chegada destes últimos, entendi que se reuniam em torno do vinho como uma desculpa para tratarem de seus interesses em comum. Depois pensei que seus interesses em comum podiam ser um pretexto para beberem vinho. Por fim, concluí que não importava o que havia causado aquele conveniente arranjo.
Dava prazer e dava mexerico, o que, para um jornal, é a fórmula ideal. Eu logo parei com esta mania idiota de analisar o que não é necessário.
Otacílio se debatia, falando sem limites. Sua agitação era motivo de deleite e provocação. Divertiam-se quando ele, às vezes, ao não perceber as brincadeiras, ficava revoltado e socava os pés no chão, como criança. Risada geral, sempre, com o menino de coração de ouro. Os três vieram diretamente do Bar da Vênus, onde bebericavam algo na varanda, desde o final da tarde.
Sob a brisa do mar e os últimos dourados do sol, eles deleitavam-se com Cimarron, que recitava, aos berros, o texto d’O Furo, repetidamente.
O lunático, ao pôr suas mãos no primeiro exemplar do jornaleco, subiu sobre uma cadeira, no alto da escada da Matriz e, de lá, o leu em voz alta. Ele estava imponente e exaltado, falando de frente para o campo de futebol vazio. Parecia que Cimarron via, abaixo dele, entre as altas palmeiras imperiais, uma grande plateia a assisti-lo. Durante as quinze ou vinte primeiras leituras, não havia ninguém.
Para vê-lo recitar a notícia única de nosso folhetim, formou-se uma pequena plateia. Cimarron já decorara todo o texto, de tal modo que seus olhos, agora, não estavam mais fixos no papel. Naquele final de tarde, mergulhado na magia do lusco-fusco violeta, entre o mar e a montanha, um maluco se transformava em emissário da justiça, juiz do desconhecido, arauto da vingança. Recitava o texto impecavelmente, como se fossem suas palavras. Ele alongava e pronunciava em vibrato os vocábulos que julgava mais marcantes, embora não conhecesse seus significados. ‘Inexoravelmeeente!’, ‘meticulooooso!’, ‘algooor mooortis!’, ‘centííííííígrados!’. Ao final de cada récita, Cimarron partia para suas acusações, que acabaram por exaltar seu pequeno público, finalmente.
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos quem matou o secretário!’
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos o que Doutor Basto esconde!’
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos que Menon te blindou!’
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos que a alma do humilde é a sua mercadoria!’
E até aí estava tudo bem. Embora ele, provavelmente, não soubesse de nada, parecia que acertava os fundamentos de tudo. Mas, então, ele emendava.
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos quem passou o camelo no buraco da agulha!’
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos com quantos paus se faz uma canoa!’
‘Senhor Prefeito! Nós sabemos com quantos paus se fazem duas canoas!’
‘Senhor Prefeito! É só multiplicar por dois!’
‘Senhor Prefeito! Áaaaai révadriiiiim!’… Com vibrato.
Doido pra caramba. Logo depois de suas acusações, Cimarron voltava a repetir todo o texto do jornal, sem errar nenhuma vírgula, sem trocar nenhuma palavra. Cimarron alongava os mesmos vocábulos, em entonações certamente inspiradas no tom do discurso de Martin Luther King, do qual ele escassamente conhecia o som do “I have a dream”. Depois vim saber que Cimarron dizia a todos que foi ele quem escreveu o discurso do Reverendo King. Doido pra caramba.
Porém, se, por um lado, o espetáculo atraiu vários, por outro lado, irritou outros tantos. Suas palavras ganharam força, depois que ele passou da leitura à declamação, da repetição à interpretação, dos pés no chão ao sobrevôo da fé absoluta. Aos olhos dos que assistiam, escornados no grande campo de futebol esculpido pela sorte, a figura de Cimarron se agigantava a cada vez que a récita se repetia. De algum modo, a impostação de voz de Cimarron transformou um texto insípido em uma pregação.
Na praça de grama, havia este pequeno grupo postado em forma de seta, apontando para a igreja. À frente deles, sentado com uma boina e bermuda com suspensório, ficava Oliver, um moleque que gargalhava e aplaudia, pedindo bis a Cimarron. Atrás dele, também sentados, estavam Penélope e Tódi, a bailarina de proporções impossíveis para seu contorcionismo e o técnico de futebol sem time. Ele passava o dia cuidando do campo e cortejando Penélope. O campo, por ser sobrenatural, dispensava cuidados. A bailarina, por ser hipnotizada pela dança, dispensava carinhos. Na terceira fileira, sentados em um banco, lá colocado para isso, estavam três velhinhos folclóricos. Eram Seu Chico, o pescador mais velho da cidade, Pelé, o melhor jogador de xadrez das redondezas, e Lisbon, um escultor mulato, que já não tinha forças para muito. Todos seguiam os aplausos de Oliver, sabendo que, assim, iriam aporrinhar os que observavam da sacada da prefeitura. A sabedoria dos pequenos e os seus pequenos prazeres.
‘Até o louco do Cimarron sabe que não foi suicídio. Seu Nicanor está de sacanagem’, exclamou o revoltado Otacílio, enquanto acomodava-se ao lado de Temístocles. ‘Pelo amor de Deus, me dêem vinho’, completou, ao bater a caneca vazia sobre a grossa madeira da mesa.
‘Vai pegar você, porra!’, gritou Temístocles, que fingia xingá-lo.
‘Não se assuste, são irmãos’, acalmou-me Euclides, que ria satisfeito.
‘Também?’
‘É, meu caro. Uma raridade, o que a mãe deles conseguiu. Saíram três ótimos meninos. Casa sem ovelha negra é raro’
‘Sem dúvida, muita sorte! A casa deles é o contrário da espécie humana. Entre nós, basta uma pequena distração e as ovelhas negras tomam conta. Estamos todo dia sendo expulsos do paraíso’, comentei.
‘Que bom isso, Senhor Ícaro! Na nossa conversa ontem, você não parecia conseguir falar sério’, lisonjeou-me Vênus, mas me repreendeu também.
O que fiz de errado ali foi revelar uma pontinha de amargura, de frustração. São coisas que não gosto de mostrar, principalmente, na frente de duas mulheres lindas. Desencanto é o ingrediente certo para afastar o sexo oposto. Minha declaração foi totalmente sem propósito. “Para quê?”, perguntei-me, revoltado com minha falta de discernimento. “A cada dia eu erro mais”
Temístocles serviu vinho a todos, que, simultaneamente, começaram a falar. A não ser Clint, que se sentou em uma poltrona no canto do grande cômodo e tomou, em silêncio, sua caneca de vinho, com os olhos cerrados e as botas apoiadas sobre a mesa de café. A postura era a mesma de sempre, com a aba de seu chapéu quebrada sobre a testa, tampando-lhe os olhos. Porra, o cara ficava na mesma posição, em qualquer lugar que ia.
‘A cadeia de recursos do Chyntos foi rompida. Pelo menos, ele não compra a próxima prefeitura’
‘Se foi ele quem eliminou o Heinrich – e somente ele teria acesso para eliminar o Heinrich –, então ele já tem plano B’
‘Ele acerta tudo com o Menon’
‘Não podemos esperar a próxima eleição. Contando só com a vila na fazenda dele, ele já tem muitos votos’
‘Se ele pagar. Se ele pagar… E tem ainda que continuar enganando o Cafezal todo’
‘Quem é Menon?’, perguntei, sem me importar com quem responderia.
‘Presidente da câmara e secretário de alguma coisa na prefeitura, Menon Synkalym. Não vale nada. É primo da Mnísi, aquela gorda ridícula, que é secretária também. Os secretários de Governo, há muitos anos, são sempre Heinrich, Mnísi e Menon. Gangue’
‘Poder, incompetência e poder, pelo jeito. Fórmula infalível para ficar por cima’, comentei.
‘É, mas quem ouve o discurso pensa o contrário. Eles têm pose de gente do povo, de trabalhadores. Fingem-se de simples e sem poder. Fingem-se de sempre dispostos a fazer algo, mas nunca fazem nada. Fica tudo no discurso. Heinrich era mais calado, obscuro, mas Chyntos, o líder da canalha, faz barulho por ele e por mais dez’
‘Para ele não voltar, temos que botá-lo na cadeia’
‘Ou algo mais definitivo’, falou a voz rouca, pausada e calma, do fundo da sala. Foi a única manifestação de Clint. Todos ficaram em silêncio por um instante, sem saber o que dizer. Até que Euclides voltou-se para ele.
‘Vamos subir um degrau de cada vez. Agora podemos prendê-lo’
‘E se não foi ele?’
‘Não importa. Todos acham que foi. Se não é culpado de matar Heinrich, é culpado de matar mais. Nós sabemos’
‘Vocês têm que me explicar tudo’, reclamei.
‘Meu caro. Muita gente desapareceu na fazenda. Muita gente desaparece ainda e nada sai de lá. Vamos te explicar, para você escrever. Veja lá sua estratégia’, e começaram a explicar-me tudo, com uma triste frase de Euclides.
‘Para viver, há duas coisas que o homem pode dar em troca, seu trabalho ou sua alma. Flordeliz não trabalha…’

XII. A Fazenda

Naquela noite, minha curiosidade deu lugar ao meu assombro, quando entendi o triste caminho de Flordeliz. Aprendi que até a cidade mais próspera pode deixar-se cobrir com o manto escuro dos pecados capitais e dali mergulhar na catástrofe. Para tanto, dê a ela um timoneiro das trevas e remadores cegos. Sua missão estará cumprida.
É um triste destino, quando um homem se torna um cupim. Cupins não fazem história e sobrevivem indefinidamente iguais, em suas colônias sem destino. Este inseto é assim, vive insignificante, para saciar uma rainha insaciável. E ela, em troca, nada mais que isso, dá mais escravos a si mesma. Uma merda. Não que eu tenha algo especial contra a ordem isoptera. Pelo contrário, a repulsa que eu tenho dedico a esta ordem é a mesma que tenho por qualquer ordem de insetos ou de homens.
Flordeliz, mergulhada nos problemas comuns dos países atrasados, vivia como, de resto, viviam todas as cidades. Toda a gente fazia suas lidas diárias para alimentar seus filhos e saciar o apetite da viúva. Ali se plantava café, plantava-se cana, plantava-se de tudo um pouco. Criava-se gado, porco e galinha, como em todo nosso interior. Garimpou-se ouro, até haver uma mineração canadense, com seus muitos empregados. Aí os nomes gregos, dos ancestrais, começaram a dar lugar aos nomes em inglês. Ficou mais divertido assim. Os chefes da mineração eram locais, mas os donos canadenses lá permaneceram por um bom tempo. Até que eles mesmos decidiram partir, quando confrontados com os problemas dos nativos, ou com os próprios nativos – acho esta última hipótese a mais viável. No mar, a sardinha pescada era lá mesmo, em Flordeliz, processada. A cidade construía seus barcos e as pessoas construíam suas casas.
Falando assim, para iniciar a história, parece que tudo ia bem em Flordeliz, anos antes. Mas não é bem esta a verdade. Onde há homens bons, há também homens maus, pois essa é a natureza dos homens. Onde há uma cidade, há também luta pelo poder, pois essa é a natureza das cidades. Por fim, onde há luta pelo poder, aquele que mente tem uma arma a mais. De modo que Flordeliz era governada por um homem que vinha de uma longa dinastia de usurpadores, o Prefeito Teodoro Vexiá.
Teodoro tinha uma maneira única de distribuir os recursos do município. Era mais ou menos assim. Um para Flordeliz, um para Teodoro, dois para Flordeliz, um dois para Teodoro, três para Flordeliz, um dois três para Teodoro… Inevitavelmente, a cidade pouco dava de volta aos seus filhos do muito que recebia deles. Mas o povo de Flordeliz é assim, pacífico, cordato, cordeiro.
Ia e vinha eleição e lá estava Teodoro de novo, com poder para não entregar o que nunca tinha entregado mesmo. Novidade nenhuma, como gostam as cidades do interior. A cidade nunca mudou e as pessoas não floresciam. Os filhos de Flordeliz são assim, com capacidade para serem humildes, sem serem infelizes, com habilidade para serem maiores, ao invés de ressentirem-se. Uma gente linda, com um grande defeito, linda demais. E tudo o que é demais é mais do que devia ser, então, às vezes, não funciona bem.
Um dia, chegou Chyntos para trabalhar na mineradora. Chyntos não era de Flordeliz, nem tampouco seu coração. Para ele, doía ir no ônibus dos operários, para trabalhar em uma cabine de operação, quando os engenheiros iam em seus carros. Para ele, doía ver os seus colegas de trabalho fazerem suas tarefas com mais prazer do que ele jamais teria ali, naquela empresa. Para ele, que não se encontrara, era insuportável a solidão de ser o único com tanto amargor. No começo, lhe parecia impossível, algum dia, dirigir um carro como o daquele engenheiro, seu chefe.
A miséria de sua alma era incurável e, para essa dor, Chyntos precisava encontrar uma saída. E seu plano não era curar sua alma, mas dizimar os inimigos dela. Tendo uma alma má, o bem seria seu inimigo e Chyntos imbuiu-se da missão de destruir tudo de bom que lhe perturbava. Talvez eu deva admitir que ele tinha uma virtude, a de ser determinado, o patife. Em seu primeiro ato, Chyntos semeou a cizânia entre seus colegas, para transformá-los em seres como ele mesmo era. Aí ele não seria mais só.
Não lhe importava tanto a miséria da alma, quanto a miséria do bolso. Para esta última, faltando-lhe qualquer capacidade de remediá-la com trabalho, restava-lhe conseguir favores. E tais favores deveriam vir, principalmente, dos donos da mina. De preferência, deveriam vir na forma de dinheiro.
Para os seus irmãos em armas, que inflamados por ele se debatiam a seu lado, Chyntos prometia fazer os gringos curvarem-se. Para os canadenses, já sem saída com a revolta crescente dos trabalhadores, Chyntos prometia amainar a cizânia que ele mesmo criara. Aí, como um pacífico mediador, teria as vantagens que os dois lados lhe deviam, por acalmar um conflito que ele mesmo inventou. Nada o impediria. Foi o que ele planejou e foi o que ele fez.
Em pouco tempo, saiu da cabine de controle da usina de ouro para os palanques da cidade. Prometeu às pessoas a justiça que elas jamais haviam visto e as recompensas que elas jamais imaginaram. Teriam tudo sem que nada fizessem, bastando, para isso, que o levassem ao poder. Prometeu na Terra, sem esforço algum, o que Jesus apenas ousou prometer nos céus e, mesmo assim, após uma vida inteira de dedicação. Chyntos mentiu e prometeu o impossível. Ou seja, Chyntos foi eleito. Aí começou a segunda transformação de Flordeliz.
Muito antes da chegada daquele usurpador, cem anos antes, deu-se a primeira transformação daquele povo, ao abandonar sua antiga cidade, Vila Negra. Aconteceu quando desistiram da promessa de um ouro que nunca existiu, naquela vila escura, cercada por montanhas. De lá, partiram os netos de distantes colonos gregos, ao encontro dos tesouros que iriam construir. Ao erigirem Flordeliz, os tesouros daquele lugar afloraram, não como descoberta, mas com o suor de sua gente, para prover a boa vida de seus filhos. Algo que deveria ser natural, mas que cada vez se vê menos, no Terceiro Mundo em que vivemos. Parece que estamos andando para trás, nesta parte do planeta.
Voltando a tempos mais recentes, a segunda metamorfose foi muito diferente. Esta se iniciou, quando Chyntos Anaís prometeu que a cidade poderia usufruir dos mesmos tesouros de outrora, porém agora aflorados sem suor. De cara, um péssimo negócio, porque simplesmente não acontece. O problema é simples. Tesouro não tem perna e, se você não anda até ele, você não o terá. Óbvio, não é? Pois bem, você dirá que sim, mas nem todos dirão. Eu simplesmente não consigo entender porque há tantas pessoas que insistem em acreditar nestas ideias estúpidas. O veneno da ilusão é seu poder de seduzir. As pessoas gostam de ser seduzidas, até por precipícios. Realidade não seduz, nem dá voto.
O resultado das manobras de Chyntos foi que, logo ao final do seu segundo ano na cidade, os canadenses entregaram seu controle na empresa ao sindicato dos funcionários, dirigido por Chyntos, na ocasião. Foi a saída que encontraram para se verem livres das armadilhas preparadas por aquele novo e ardiloso dirigente. Armadilha é isso, é algo que só se percebe quando se está dentro, e só se livra quando se bate em retirada. A arte da emboscada, sem sombra de dúvida, era algo que Chyntos dominava.
Em mais dois anos, sendo os funcionários antigos os novos donos, um grande batalhão de operários teve que ser contratado. Alguém tinha que fazer aquele serviço, que muitos dos antigos já desprezavam. Que beleza! Muitos proprietários e muitíssimos novos operários. E extraindo ouro!
Como os novos contratados não tinham o mesmo preparo dos antigos, foram contratados empregados em quantidades de três para um. “É o paraíso”, imaginou algum apressado ou mentecapto. Havia muito mais gente para pagar, muito mais proprietários e administradores para dividir e, ainda por cima, de todo quinhão, deveria ser reservada a justa cota de Chyntos. Ele nada faria sem garantir sua retirada, já que era ele quem havia possibilitado tudo aquilo. Aí o resultado que só um iludido de berço não perceberia: o dinheiro não dava.
Solução simples. ‘Precisamos fazer o que aquele menino disse. Como é mesmo o nome dele?’, pensou Chyntos, tentando lembrar-se das enfadonhas lições de Menon, ‘Isso! Marques! Cal Marques!’, lembrou-se, em uma reunião com o conselho da empresa. Dava uma baforada no charuto e tomava um golinho de pinga, ‘Para abrir o apetite’, dizia, às 10 horas da manhã. ‘É só dividir entre todos o que der no final. A empresa não pode ter lucro. Esse lucro é só para roubar o trabalhador’, afirmou Chyntos, entre aplausos.
Então, todos os recursos foram divididos entre os devidos pagamentos aos novos donos e a Chyntos, cortando algumas coisinhas, como equipamentos, óleo lubrificante, parafuso, ácido. “Pronto! A porra quebrou!”, deram-se conta, após mais um ano. Um bando de retardados, que nem sequer conseguia roubar competentemente, como fazia o Prefeito Teodoro.
Chyntos já tinha a solução. Agora que a mineradora e seus funcionários não mais tinham como comprar, as fazendas que os abasteciam não teriam para quem vender. Então ele, muito legal, muito bacana mesmo, ofereceu-se para comprar as fazendas. Transformou-as todas em uma só, fez lá uma vila para os que trabalhavam a terra e, a eles, prometeu, de mentirinha, uma vida de fartura. De novo, as pessoas caíram na dele. Fico até assustado com a ingenuidade da nossa gente. Mas, enfim, aí nasceu a Fazenda, com sua Vila Mansa.
A Fazenda era, desde então, fonte de todos os recursos e de boa parte dos votos de Chyntos. Porém o era de maneira misteriosa, sem produzir nada aparente. Tanto que a subsistência de todos de lá era comprada da Fazenda Tesoureiro, a única outra que sobrara, pertencente ao pai de Atena. O Seu Petrus Almada era um crápula inconsciente, muito doente havia muitos anos, mas fiel fornecedor para a Fazenda e aliado visceral de Chyntos.
Petrus era um fazendeiro tradicional, um homem do campo, de vida até então ilibada. Fazê-lo cúmplice de um esquema que ele não conhecia, em princípio, não seria fácil. Para fazer o que Chyntos precisava, sem entender o que Chyntos fazia, Petrus Almada deveria ter com ele uma aliança política. Mas o que é uma aliança política, com alguém que você não conhece? A resposta foi mais simples do que se poderia imaginar.
Petrus era do interior, mas não era estranho à política. Aliança política, isso ele sabia, não exige conhecer os aliados, exige apenas que haja interesses em comum. Explicou-se a aliança política a Petrus, mostrando-lhe que a Tesoureiro precisava da prefeitura para se manter. Não era Chyntos quem pagava, mas a prefeitura, sob a forma de um programa social. A mágica estava feita. Não era nada pessoal, era uma coisa entre a prefeitura e a
Tesoureiro.
Com aquele arranjo, a população de Vila Mansa comeria e os funcionários da Tesoureiro se manteriam, e o gado da Tesoureiro se manteria, e a Tesoureiro seria mais forte do que jamais fora. Chyntos era bom em seus ardis. Não tem como negar que o cara era bom em sepultar princípios, fossem eles seus ou de outros. “Osso duro”, pensei, ao ouvir a história, contada em várias vozes por aquele grupo de amigos, em torno de barris de vinho.
Inclusive Atena, para minha surpresa, participava do relato, detalhando as relações de seu pai com Menon Synkalym e Mnísi Íkakos. Estes ícones da hipocrisia eram as pessoas que tinham os mais fortes laços com o prefeito. Olhei para ela, com um olhar inquisidor, e ela me respondeu sem que eu chegasse a perguntar.
‘Meu pai foi levado a isso pela doença. Jamais precisou da prefeitura quando Flordeliz era uma cidade normal. A Tesoureiro abastecia todos e empregava muita gente. Hoje, como não há quem trabalhe, só vende para a prefeitura, mas isso acaba. Pergunte ao Euclides. Isto acaba’
‘Já está acabando. Mas, do mesmo jeito que tudo o que é bom acaba rápido, o fim de tudo o que é ruim é dolorosamente lento’, completou Euclides. ‘As pessoas se acostumam a serem cupins, desde que tenham qualquer madeira podre para alimentá-las. Os recursos estão acabando, mas não acabaram. Chyntos ainda tem o que tirou da mina’
‘Sem contar algo misterioso que vem da Fazenda’, comentou Otacílio. ‘O Delegado Nicanor sempre comenta que um dia vai lá, mas ele tem medo’
‘De quê? Capangas?’, perguntei.
‘Pior. Tem medo de ter que fazer alguma coisa e perder o emprego’, explicou Vênus. ‘Nenhum de nós tem medo de Chyntos. Embora ele tenha matado, ele prefere a sobrevivência por conchavos, que lhe dá mais dinheiro
e menos riscos. É um ordinário’
‘Chyntos escorrega entre os dedos. Por isso, temos que pegar antes seus asseclas. A Senhora Mnísi, por exemplo. Não passa de uma ressentida. Sente-se injustiçada pelo  destino. Acha-se um gênio não descoberto, acha-se dona de uma beleza oculta. E por não ser descoberta e por estar invisível, não encontrou seus talentos, nem se encontrou afetivamente. Então age com ódio de todos, pensando que não foram sensíveis para nela verem o que ela jamais mostrou. Nunca lhe ocorreu que jamais mostrou nada de bom, simplesmente por nada ter. Seu ódio está estampado até em sua voz, para quem tem ouvido. Como não é genuinamente amada, seu caráter patético debate-se pela admiração dos pequenos. Ela passa o tempo fingindo amá-los, fingindo fazer sacrifícios pelos pobres’, comentou Bill, revelando-se um puta psicólogo.
‘‘Pelo jeito ela aproveita que o humilde, muitas vezes, se rende à farsa, para não se render à fome’, disse eu e completei, ‘Mas como você sabe tanto sobre Mnísi? Eu a via mais como uma personagem plana’
‘Ninguém é plano. Quem parece plano está fingindo. Além do mais, ainda que eu tenha dó do humilde, ela também dá pena. Eu ia comer, para resolver o problema, mas na hora H não dei conta. Ruim demais’, riu-se Bill e, com ele, todos na sala, até Clint, que não ria muito.
‘E o Menon?’, indaguei.
‘Exatamente a mesma coisa, só que aí, obviamente, não cogitei comer.
Ficou com ódio de mim. Enrustido é foda’, gargalhada geral.
‘Então o Heinrich foi o gatilho’, comentei animado.
‘Não foi’, discordaram todos.
‘Heinrich é um resultado. As pessoas de Vila Mansa, o povoado da Fazenda, fartaram-se de pão e circo. As pessoas do Cafezal fartaram-se de pão e circo. As pessoas fartaram-se de circo’, explicou didaticamente Euclides, que era quem mais explicava.
‘A euforia da vida fácil desapareceu. Aqui chegam, a todo momento, pessoas de fora, pescadores, mergulhadores, aventureiros, e isso comove nossa gente’, completou Vênus.
‘Ninguém é insensível ao instinto humano de realizar algo’, comentei.
‘Por isso, os tiranos não se escondem do mundo. Eles preferem esconder o mundo dos olhos de seus filhos’
‘Cuba que o diga’, disse Temístocles. ‘Não gosto de quem proíbe a gente de rezar’
‘Podemos voltar ao ponto?’, perguntou Homero, que estava de saco cheio da obsessão de Temístocles com a ilha. ‘Não saímos do ponto’, respondeu Temístocles.
‘É, não saímos’, confirmou Bill, sem prestar atenção, quando Euclides resolveu continuar.
‘A languidez e a preguiça cobraram seu preço. As pessoas estão melancólicas. Elas sabem que não vão a lugar algum, especialmente em Vila Mansa e no Cafezal’
‘Digam o meu momento e acabo com o problema’, murmurou Clint.
‘Ainda não, meu amigo. Ainda não’, determinou Euclides. ‘Seu método é a última opção, agora o trabalho é d’O Furo. Vamos usar ao máximo esta primeira arma forte que temos, depois de anos sem nada’
‘Não queremos fazer de Chyntos um falso mártir. Mais um para a história.
Temos que mostrar quem ele é para salvarmos toda esta gente e a cidade’, expliquei. ‘Vou entrevistar Helena para a próxima matéria’
‘Por que Helena?’, perguntou Vênus, de reflexo.
‘É, por que não Pilar?’, concordou Atena, de forma veemente. As duas se entreolharam, com surpresa. Não respondi.
‘Outra rodada, Temístocles. Vamos, Homero, você vai contar para mim e para o Ícaro tudo o que você já tem’, chamou Euclides.
‘Ei! Nós queremos saber também’, gritou Otacílio.
‘Eu não quero saber mais do que já sei. Estou certo do que tenho de fazer’, comentou Clint, acendendo uma cigarrilha.
‘Fiquem tranquilos e comemorem esta nova era. Nossa conversa é de decisão editorial. E você, Otacílio, se queria mesmo saber, deveria ter entrado na sala para investigar’
‘Vocês sabem que eu não posso ver essas coisas’
‘Putamerda’, disse Clint. Todos riram e foram beber, confabulando para a derrocada de Chyntos, mesmo sabendo que a cidade poderia ficar contra eles, os burgueses. Antigamente, acumular dinheiro e não pensar era burguês. Agora, para ser chamado de burguês, basta que faça o contrário, basta que trabalhe e pense.
Recostados do lado de fora da porta do escritório, ainda na Typographia, ouvimos, eu e Euclides, o que Homero tinha a dizer. Arma de gelo. Método engenhoso, sem dúvida, para cometer um assassinato sem deixar pistas. Mas era também um método engenhoso para cometer um suicídio sem deixar pistas. Heinrich poderia ter, ele mesmo, congelado um cone de gelo e mergulhado sobre ele, forçando para baixo seu pescoço.
Estávamos certos de que não foi esse o caso, mas o argumento poderia aparecer se informássemos da hipótese de Homero com respeito à arma usada. Além do mais, naquele momento, o matador se sentia seguro. O fato de não haver arma do crime poderia baixar sua guarda. E mais, agora vendo de nosso ponto de vista. Se não há arma do crime, não se pode provar quem foi, mas também não se pode provar que não foi o prefeito, ou alguém por ele enviado.
O certo é que, se não há arma do crime ou qualquer objeto que tenha causado um acidente, então não foi suicídio nem acidente. Se não foi suicídio nem acidente, então foi assassinato. Se foi assassinato sem provas materiais, necessita-se encontrar o motivo. E ninguém mais propenso a ter um motivo do que o prefeito.
‘Por que seria ele o mais propenso a matar Heinrich? Não eram aliados?’, perguntei.
Foi Euclides quem respondeu, posto que Homero deu de ombros, deixando claro que não eram estes os aspectos que lhe interessavam.
‘Eram aliados com segredos. Ninguém mais suspeito de um assassinato do que um parceiro de segredos. Ainda mais os obscuros, que sabemos que eles tinham’
‘Quais?’, perguntei.
‘Meu filho’, respondeu o complacente Euclides, ‘Eram segredos e eram obscuros…’
‘Tá. Perdão pela pergunta estúpida. Vou me esforçar para ser menos obtuso da próxima vez. Que tal esta? Como sabemos que não foi suicídio? O que você viu que nós não vimos, Homero?’
‘Esta, sim, foi uma boa pergunta. E então, Homero?’, emendou Euclides.
‘Muito simples, muito certo, mas muito sutil, para preponderar neste caso, infelizmente’, respondeu Homero, orgulhoso de sua certeza, mas desapontado com nossa impotência.
‘Desembuche’, pedi, impaciente.
‘Simples mesmo. O cone de gelo tinha essência de hortelã, certo? Aliás muito boa essência, porque já comentei com você que eu provei o líquido verde’
‘Certo’, acompanhou Euclides, que completou enojado, ‘Como é que é? Você provou o líquido do defunto, para saber que era essência de hortelã?’
‘Perguntei a ele o mesmo, quando me contou’, disse eu.
‘Qual a outra opção, senhores? Mandar para a NASA?’
‘Tá, tá, continue’
‘Então, para cometer suicídio, o Heinrich teria que ter segurado ele mesmo o cone de gelo, já que não havia nada em que o cone estivesse embrulhado ou firmemente seguro. Então, como não havia vestígios de essência de hortelã nas mãos ou nos dedos de Heinrich, havia, então, outra pessoa o segurando. Simples’
‘Como você sabe que não havia essência de hortelã nas mãos ou nos dedos de Heinrich?’, perguntei.
‘Provei…’

XIII. Helena

Uma missão ficou clara. Deveríamos saber dos tais segredos obscuros entre Chyntos e Heinrich. Saímos da Typographia, todos nós, com esta missão. O primeiro passo seria minha entrevista com Helena. Perguntaram-me, agora todos, porque não com Pilar.
‘Pilar trabalha na prefeitura, certo?’, perguntei.
‘Certo’
‘Então ela sabe o que não dizer’
‘Mas ela deve saber muito mais que Helena, em compensação’
‘Só revelará o que sabe quando já soubermos muito. Quando não tiver mais saída. Para que ela não tenha saída, a porta de entrada é Helena’, convenci a mim e a todos. Bom, talvez não tenha convencido a todos.
‘Sei…’, disse Euclides.
Acordei muito cedo naquela minha segunda manhã em Flordeliz. Lá pelas 9 e meia. “Nenhuma ressaca do Vino T”, surpreendi-me. Eu estava ansioso por conhecer Helena, por falar com ela, por sentir seu aroma, que me embriagou só de imaginar. Eu queria olhar diretamente em seus olhos e mergulhar profundamente neles. Não me bastava mais mergulhar como antes, vendo-a de longe, em meu primeiro momento na cidade. Ah, sim. Isso tudo e também a entrevista.
Decidi ir de carro, embora bastasse eu atravessar o campo de futebol e as duas pistas da Rua Calçada, uma de cada lado do gramado, em uma suave diagonal. Acontece que carro me dá uma sensação de potência, que pode ser comparada à de uma arma. É uma arma ou, pelo menos, uma armadura. Ainda mais sendo um Mustang preto em cidade do interior. Mesmo sendo um Mustang velho. E, para ver Helena, eu precisava de uma armadura ou precisava achar que usava uma armadura.
Cheguei à casa de Helena sem avisar. Foi ela mesma quem veio rapidamente à porta, pois esperava a notícia de a que horas o corpo de seu pai voltaria da capital, onde estava no Instituto Médico Legal. Quando abriu a porta, sem saber ao certo quem eu era, quis se desculpar e me despachar para outras bandas.
‘Bom dia’, disse eu, ao ver seu rosto pela fresta que ela abriu.
‘O senhor tem notícias de meu pai?’
‘Tenho sim, mas não é somente sobre ele que venho falar’, resolvi ser sincero, como sempre sou, a não ser quando fico calado.
‘A que horas vocês o trarão?’
‘Como assim?’
‘Você não é da funerária que veio buscá-lo? Ele não está com vocês?’
‘Não, eu sou cronista. Meu nome é…’, ia me apresentar, quando ela me interrompeu.
‘Me desculpe, senhor, mas peço-lhe que vá agora’, rogou-me ela, sem convicção. Coloquei um pé na porta para que Helena não a fechasse.
‘Por favor, não estou aqui a trabalho. Quer dizer, estou sim, mas não queria estar aqui a trabalho’
‘É melhor que o senhor vá. Vou cuidar de minha mãe’
‘Eu te vi anteontem. Você me viu. Eu posso ajudar’
‘Não te conheço…’
‘Me dê um minuto e conhecerá. Acho que posso apressar as coisas com a polícia’, falei, imaginando que o Otacílio poderia ajudar em algo.
No entanto, ela sabia que eu não podia ser de mais auxílio do que a própria prefeitura, que já estava, certamente, acompanhando o caso. A despeito disso, deixou-me entrar, porque era o que ela também queria. Eu acho…
‘Está bem, senhor, mas só por um minuto’
‘Ícaro. Me chamo Ícaro. Estou feliz em conhecê-la’
‘Ninguém diz isso’, respondeu-me ela e continuou, apresentando-se, ‘Helena’
‘Eu sei’
‘Sabe meu nome?’
‘Sim, claro, mas não me referia a seu nome. Me referia a que eu sei que ninguém diz “estou feliz em conhecê-la”. Nem eu nunca disse antes’
‘Mas você disse agora’
‘Disse’
‘Entre, então’
‘Obrigado’, respondi, com o coração na boca.
Entrei e subi uma pequena escada, atrás de Helena, que me conduzia.
Tentei fazer-me de calmo, de descolado, mas a melhor maneira de revelar nervosismo e ansiedade é tentar escondê-los. Principalmente, de mulher. Bom, não dava mesmo para esconder.
Recordo-me de minha estranheza naquela hora, por ter de subir uma pequena escada, de uma meia dúzia de degraus, para entrar em uma casa de um só andar, em uma cidade plana. Imaginei que a casa era elevada, com respeito à rua, provavelmente pela existência de um porão.
No topo da escada, à esquerda, abria-se a porta de um escritório, com móveis antigos e apetrechos médicos. Helena conduziu-me para o outro lado, à direita, para uma sala de estar com três janelas frontais de sacada e uma janela lateral. Aquela quantidade de janelas não dava espaço para a acomodação usual dos móveis. O mesmo problema de meu quarto na pensão. Como o cômodo era grande, o sofá, as poltronas e a mesinha de centro ocupavam um retângulo no meio da sala, deixando corredores livres em torno, rentes às janelas. Atrás do sofá, dando para as janelas, havia um canapé de palhinha, mais confortável do que poderia parecer. Ali, Helena sentou-se e lançou seu olhar para fora, através das grades das sacadas, sem nada dizer, sem me olhar.
‘Posso sentar-me aqui?’, perguntei, apontando para o canto do canapé.
‘Ah, sim. Desculpe-me, divaguei’, respondeu ela, com olhar tão distante quanto o que lançou pelas janelas.
‘Eu não quero incomodar’
‘Então não escolheu um bom dia’
Aí, como não podia mais fugir, depois desta frase crua de minha ninfa, tive vontade de dizer todas as coisas que sabia que não poderia dizer. Tive vontade de dizer a ela que era um bom dia, sim, pois eu precisava de um pretexto para vê-la. Tive vontade de dizer que, desde que a vira, vi também muitas coisas, mas que ela não saía de meu pensamento. Precisava, desesperadamente, saber se ela estava bem. Queria ser o primeiro a estar ali, para aqueles duros momentos, mesmo sem ainda nos conhecermos. Tudo isso proibido de dizer, sob pena de arriscar-me a afugentá-la para sempre.
‘Sinto muito, mas foi um pretexto para vê-la’, pronto, falei. “Putzgrila”, pensei.
‘Como eu disse, o senhor não escolheu um bom dia, mas então seja direto’
‘Não me chame de senhor. Ícaro, por favor. E acontece que cheguei há dois dias. Te vi passar, ao entrar na cidade, e, desde então, vi muitas coisas que não esperava ver. Mas de tudo, tudo mesmo, apenas você ainda está em meus pensamentos’, falei outra bobagem. ‘Cacete’, pensei naquela hora, porém em voz alta e fazendo uma cara de dor. Ela, então, esboçou um leve sorriso ao perceber como eu me sentia para, logo depois, transmutar seu sorriso em uma expressão grave.
‘Ícaro’, falou Helena e tomou minha mão com as suas, para iniciar a despedida, ‘Meu pai faleceu e vou estar com minha mãe. Adeus’
‘Me desculpe. Me excedi. É meu trabalho estar aqui, para inquirir. Mas, antes, é meu desejo estar aqui, para ser o primeiro a te amparar, mesmo sem te conhecer. Você me pareceu só. Desculpe-me, de novo. Vou embora e, se não for incômodo, volto outro dia’
Ao dizer isso e tentar me levantar, Helena segurou firme minha mão e liberou um choro contido. Com a outra mão, recostou-me no canapé, para, então, trazer sua cabeça até meu ombro. Ali ela derramou suas primeiras lágrimas de dor em mim, que, infelizmente, não foram as últimas, como eu sonharia. Meu coração se descompassou, pois ela era o que eu não sabia existir. Descobri que Helena era incapaz de dissimular seus sentimentos mais profundos, como apenas são os personagens de contos de fadas. Esconder-se ela podia, claro, no seu silêncio, na sua solidão, mas dissimular, jamais. Ainda em lágrimas, ela continuou.
‘Você deve ir’
‘Diga o que precisa. Sou forasteiro e daqui não levo nada’
‘Você disse ser cronista’
‘Aqui, com você, sou cronista especificamente do que você revelar para as minhas crônicas, não do que você revelar para mim. Mas fique em silêncio, se quiser. Ou me pergunte o que desejar’
‘Foi você quem escreveu O Furo, não foi?’
‘Sim, por certo. Achei que foi por isso que você me deixou entrar’
‘Não. Te deixei entrar, porque você insistiu e hoje não sei o que fazer. Minha mãe tomou medicamentos e adormeceu’
‘Então ela está bem, por enquanto. Mas você, sei que não posso consolar pelo seu pai, mas posso ficar aqui, já que não há mais ninguém, por enquanto’
‘Não virá ninguém, mas não precisa me consolar pelo Heinrich. Ele não era meu pai de verdade’
‘Não?! Mas você gostava dele, não é verdade? Era seu padrasto então’
‘Sim, era meu padrasto, e não, ninguém gostava dele’
‘Mas você…’
‘Não, ninguém’
‘Sua mãe, então. Entendo que você esteja assim por sua mãe’
‘Não, não é isso. Estou chorando porque foi você, e somente você, um estranho, que veio nos ver. Estou chorando, porque Heinrich apagou uma parte de nossas vidas. Estou chorando, porque minha mãe fugiu do mundo para render-se a Heinrich’
‘Chore, então, seja lá qual for o motivo. Fico aqui. Não quero mais ser um estranho. Você tomou algum remédio? Parece que o boticário tem alguns chás’
‘O Doutor Mathias? Tem sim, mas o consultório do Heinrich tem mais coisas. Pelo menos agora posso entrar lá, mas não quero nada’
‘Eu reparei que há um consultório, mas havia entendido que Heinrich era um tesoureiro, ou contador, sei lá’
‘Ele chegou como médico. O Chyntos o trouxe da Argentina, logo depois que a mina fechou’
‘Ele não era alemão?’
‘Era, mas morava na Argentina. Para mim, estava escondido. O que eu sei é que Seu Teodoro, depois que perdeu a prefeitura, foi-se embora de Flordeliz e longe morreu. Ele era o antigo prefeito e único médico da cidade. Além do mais, era ele quem cuidava de minha mãe e de minha avó. Quando ele partiu, ele entregou minha mãe a Heinrich. Eu estava ainda para nascer quando isso aconteceu. Com a partida de Seu Teodoro, era importante trazer um novo médico. Heinrich ser médico era o pretexto necessário a Menon e Chyntos para trazê-lo para Flordeliz. Que foi?’
‘Meu suspiro? Nada. Percebi que, ao me contar estes eventos, você se acalmou. Já valeu minha vinda’
‘Preciso botar para fora. Me desculpe, não vou mais falar. É que, sem Heinrich aqui, eu estou aliviada, mas ainda não posso falar com ninguém da cidade. Não posso falar ainda, não tenho a quem falar’, disse Helena e voltou a chorar em meu ombro.
‘Ei, fale comigo. Desabafe, me conte, me explique. Quem sabe não posso ser eu o seu amigo. Vim a Flordeliz para recomeçar e você é o melhor começo que posso imaginar’
Ela interrompeu o choro e sorriu, afastando meu rosto com as mãos e olhando-me fundo.
‘Você quer saber o que sei? Você está me usando?’, perguntou-me Helena, em tom suplicante, como quem não pode fugir ao seu destino, mesmo que a resposta traga mais dor. Mas a minha resposta não trouxe.
‘Quero apenas saber quem é você. Quero apenas saber por que tanto quero saber quem é você desde que, pela primeira vez, te vi’
‘Mas e o que eu te contar?’
‘Se você sabe, outros sabem e saberei de qualquer forma. Fale o que quer e o assunto morre aqui ou onde você quiser’
‘Já estou mais calma, mas me faz bem te contar. Menon, aquela víbora, orientou Chyntos para trazer Heinrich. Pareceria que ele trazia um médico que a cidade necessitava, mas era, de fato, para organizar e controlar a Fazenda. Para criar a Vila Mansa, o povoado da Fazenda’
‘O que tem lá que parece este mistério?’
‘Justamente o mistério. Eu fui lá, com minha mãe, ainda pequena, e nunca mais voltei. Heinrich não permitia. Muita gente do Cafezal veio de lá. Vieram para o Cafezal quase todos os roceiros que trabalhavam a terra nas antigas propriedades. Heinrich deixou, na Fazenda, na maior parte, mulheres e crianças. Quem está lá, cresceu lá’
‘E o que fazem, então? Algo devem produzir’
‘Muito pouco. Algumas flores, alguns eventos de circo e de danças que fazem na cidade, nas poucas vezes em que aqui aparecem. A Vila Mansa é débil como seu nome. O apelido, na cidade, é Curral do Chyntos. Mas agora tudo vai mudar. Heinrich morreu, mas os segredos não morrem. Tenho que saber’
‘Sim, tudo bem, conte comigo, se precisar. Mas, agora, se recoste aqui, em meu ombro. Vamos apreciar a vista de suas janelas, pois lá fora tudo vai mudar’. Assim fizemos, enquanto eu pensava: “Putz, que frase piegas. Foda-se, agora já foi e estou feliz”

XIV. O Cortejo

Enquanto lá estávamos, eu e Helena, bateram à porta de sua casa. Ela cochilava em meu ombro e eu a amparava, inebriado. Para mim, meu corpo flutuava em uma lagoa de vodka, sob o céu dourado e as luas diurnas de outro planeta. Pensando bem, talvez eu também cochilasse e este fosse meu sonho. Com Helena, descobri meu lugar, como se, antes, o sabor da vida estivesse oculto. Naqueles breves minutos, eu não me importava de render-me, de perder minhas forças. Não há por que viajar quando se encontra o destino. Tudo bem, cochilei e as batidas na porta me despertaram. Acordei ali, para o dia e para o muito que estava por vir. Muito haveria a ser feito, antes que eu pudesse repousar, para sempre, no colo de minha Helena. Acordei-a suavemente.
‘Helena’, afaguei-a. ‘Acorde, Helena’
Não resisti e beijei-lhe a testa, longamente. Ela acordou lenta, lânguida e, ainda com os olhos semicerrados, levantou o rosto em minha direção e beijou-me com carinho. As bordas de nossos lábios tocaram-se, nossos narizes afagaram-se, nossas pálpebras debilmente roçaram-se. Nossas pálpebras e nosso beijo de borboleta, que eu dava em minhas amigas, nos tempos de colégio.
‘Já vou atender. Me espere’
‘Estou aqui’, respondi, em paz, realizado, orgulhoso, triunfante.
Não esperei e segui atrás dela. Enquanto ela desceu a escada, para atender ao chamado da rua, entrei no consultório do Heinrich, de onde pude ouvir a conversa. A janela do consultório dava para a frente da casa, bem ao lado da porta de entrada. Lá fiquei, para acompanhar o que se passava. O consultório era grande, maior do que eu imaginava, com uma grande estante escura que o rodeava pelas paredes. Havia uma escrivaninha em um nicho central da estante, um divã rente à porta e uma poltrona ao lado da janela. Tudo era escuro, inclusive o divã e a poltrona, ambos em couro marrom com capitonê, no mais clássico estilo inglês, Chesterfield, sei lá. Ironicamente, móveis ingleses parecem ser do gosto dos alemães. Sentei-me na poltrona e entreabri o janela com uma pequena sacada, que compunha a frente da casa. Era na porta, que Helena conversava.
‘Sim?’, exclamou Helena, ao abrir a porta. Era Oliver, o moleque figurinha carimbada da cidade, lá enviado para chamá-la.
‘Oi Dona Helena, sou eu’
‘Eu sei, Oliver. Como está você, meu lindinho?’
‘Eu estou bem, Dona Helena, mas estou chateado por causa da senhora e de Dona Pilar. A madrinha falou para falar “meus sentimentos” com a senhora’
‘Obrigada, Oliver. Agradeça também à Dona Nicéia. Você quer entrar, tomar uma Coca-Cola?’
‘Não, Dona Helena. Obrigado. Vim chamar a senhora e Dona Pilar lá para a casa paroquial. O caixão do Seu Heinrich já chegou lá e a madrinha está esperando a senhora. Daqui a pouco, o prefeito chega com o pessoal dele’
‘Está bem, Oliver. Sua madrinha está certa, é melhor chegarmos antes’
‘A madrinha está sempre certa’, confirmou o moleque, que atravessou a rua e saiu a pique através do campo de futebol, ajeitando seus suspensórios e segurando a boina, para não cair.
Helena fechou a porta atrás de si e subiu os seis degraus que levavam de volta ao patamar da casa. Encontrou-me à porta do consultório. À sua espera, eu media, com passos, o vestíbulo da casa. Arquitetura curiosa, a daquela casa.
‘Ouvi a conversa. Em que posso ajudar? Posso acompanhá-las?’
‘Não sei. Verei com minha mãe, mas talvez seja melhor, não’
‘Eu entendo. Mas chame-a e veja se precisa de algo. Caso contrário, posso seguir direto para o velório, para meu trabalho lá, se você não se importa’
‘Não me importo, é seu trabalho. Um minuto e chamo mamãe’
‘Tá’
Em poucos minutos, voltou Helena, com sua mãe ao lado, cambaleante, sonolenta. Provavelmente, havia exagerado nos medicamentos do consultório do Heinrich, seu novo território livre. Pelo que me disseram de Dona Pilar, o Valium que deve ter tomado veio a calhar, pois ela foi muito cordial comigo, o que é comum na dona de casa infeliz. Era a bela mulher que devia ser, como era necessário para gerar uma filha tão descomunal. E agora com a leveza da liberdade.
‘É este o seu amigo?’
‘É, sim, mãe’
‘Ícaro. Encantado em conhecê-la. Lamento muito as circunstâncias, mas ainda assim encantado’
‘Obrigada, meu querido. Pilar, mãe desta menina linda. Ai, quero me recostar’
‘Acho que ela está ainda entorpecida, Ícaro. Vou buscar um copo d’água e uma sombrinha, para ela atravessar neste sol’
‘Se você não se importar, eu posso levá-las no meu carro. Ela não está bem para caminhar’
‘Não sei se devemos…’
‘O que é isso, minha filha? Não podemos recusar a oferta do moço. A peste do Heinrich não está mais aqui para impedir’
‘Mamãe, é visita…’, repreendeu-a Helena, encabulada.
‘Não tem problema, Helena. Deixe-me ajudar a ampará-la, enquanto você busca a água’, falei, seguindo em ajuda a Dona Pilar.
Levei-as em meu carro. Dona Pilar ao meu lado e Helena no banco de trás. Tive que dar a volta em todo o campo de futebol e o calçamento irregular me forçou a seguir muito devagar. Então as mulheres das janelas, as crianças da rua e os homens da cidade começaram a nos cercar e a nos seguir. Era um cortejo fúnebre sem caixão, sem defunto e sem vela preta. A horda acompanhava um Mustang negro, dirigido por um forasteiro, que levava uma viúva cobiçada e uma jovem esplendorosa e inalcançável. Um cortejo fúnebre inaudito, pela ausência do caixão e do defunto, sim, mas muito mais pela ausência de pesar ou luto. Dentro e fora do carro, seguiam todos em um clima despojado
que, se não fosse pelo cuidado com a ocasião, eu tocaria uma música no carro e, fatalmente, todos dançariam uma música de Carnaval. Fatalmente.
Naquela mesma manhã, porém muito mais cedo, a última coisa em que pensavam na grande sala do prefeito era em Carnaval. Havia, naquela sala, verdadeiro luto, total consternação. Se tais sentimentos fossem pelo homem Heinrich, ele entraria o pós-morte acompanhado de muitas orações. Mas o desconsolo não era por ele e sim pelas amarras soltas que ele deixou. Estavam todos ali, sentados em torno de um cinzeiro cheio, no meio da mesa. O cinzeiro não incomodava, deve-se dizer, pois exalava um odor menos infectado que os odores das pessoas que o rodeavam. As pessoas, se prestamos atenção, no fundo, cheiram a seus pensamentos. Logo no começo da reunião, a coisa andou assim.
‘Vamos sentando, pessoal. Vamos sentando’, comandou o Secretário Menon Synkalym, líder do partido de Chyntos.
Com ele, estavam, ainda, Chyntos Anaís, o prefeito, Mnísi Íkakos, Doutor Basto e Malaquias, o capataz da Fazenda. Doutor Creonte, o disciplinário, o homem misterioso que Chyntos contratara como vigia da Fazenda, aguardava do lado de fora, para garantir que ninguém entraria.
‘Ô, Malaquias, meu chapa. Guarda a porta lá, com o Doutor Creonte’,  determinou Chyntos, indicando que aquela reunião não era para ele. Sentaram-se todos,
Chyntos na cabeceira da grande mesa, os demais próximos a ele e muitas cadeiras vazias em volta do grande tampo de madeira. ‘O Doutor Ildeu não vem?’, continuou ele, querendo saber do juiz.
‘Onde você está com a cabeça, meu amigo?’, perguntou Menon, ríspido.
‘Que é isso? O que é que há? Você está falando comigo neste tom? Comigo? Eu tenho todo o mundo aqui, meu camarada. Todo o mundo’, respondeu Chyntos com raiva, batendo a mão no bolso da calça, ‘Fique calmo agora, que você fica bem’, continuou, agora afagando o rosto de Menon, que estava ao seu lado. Menon afastou o rosto, mas abaixou a cabeça, em uma respiração funda, de ódio e receio daquele jeito manso e traiçoeiro.
A língua do medo é a que melhor entendem os canalhas. E a ameaça com afago é o maior bordão da língua do medo. Enfim, Menon abaixou a cabeça, pelo canalha que era e pelo medo que tinha.
‘Eu não estou entendendo. Por que é que estamos brigando?’, perguntou Mnísi Íkakos. ‘Aqui está tudo fácil de controlar, não é mesmo?’
‘Controlar o quê, madame? Controlar o quê?’, enfatizou Menon, desolado, enquanto todos acendiam cigarros e charutos.
‘Tudo, meu caro. O jornaleco desconfiou do suicídio. E daí? Resolvemos na porrada’, esbravejou a dissimulada senhora.
‘Querida’, chamou-a Doutor Basto, com voz bothrópica, ‘Não há porrada sem dinheiro. Não é este o problema, Doutor Menon?’
Mnísi não gostou da intervenção de Basto. Mnísi não gostava de Basto. Não por discordar de Basto, mas porque Basto sempre sabia mais do que ela. Era o mero advogado do partido e de seus membros, mas sabia mais do que ela. Jamais se filiou, chegou a promotor daquela cidade pelas mãos do partido, mas sabia mais do que ela. E não era só isso. Outra razão, para não suportar Basto, era que Mnísi não gostava de dividir sua entonação bothrópica. Aquele advogadozinho mignon, cheio de trejeitos, tinha a mesma marca registrada que ela. Para desqualificar os adversários, ele empregava a mesma voz maléfica, a mesma expressão irônica, de maneira a tirar vantagem até quando não tinha razão. Neste ponto, deve-se concordar que jararacuçu basta uma.
‘É, Chyntos! Cadê o dinheiro?’, perguntou um ansioso Menon ao prefeito.
‘Como assim, meus caros? O dinheiro está no banco. Está tudo lá. Esqueceram que sou eu quem assina com o Heinrich? Assinava…’, interrompeu Mnísi.
‘Ele está falando do nosso dinheiro, Mnísi. Do dinheiro nosso e do partido’, respondeu Chyntos.
‘Senhores. Calma. Sempre usamos o dinheiro da conta. O Heinrich não está mais, mas eu sei como se faz tudo. Sei fazer direitinho, podem ficar tranquilos’
‘Quanto tem lá, minha querida, na conta dois da prefeitura?’, perguntou Chyntos.
‘Não é muito. Uns 500 mil. Mas dá para uns dois meses’
Menon abaixou a cabeça sobre a mesa, escondendo o rosto, suspirou fundo e sussurrou ‘Putaquipariu’. Basto começou a rir contidamente e também cobriu o rosto. Chyntos abriu um leve sorriso e postou as mãos sobre os braços dos dois homens que o ladeavam, para refreá-los.
‘Minha querida, preste atenção. Isto não dá para nada’, falou Chintos, complacente.
‘Mas sempre foi o que tivemos, prefeito. Pagamos as contas e as despesas todas. É só ter uma nota para justificar. A compra do lote do Menon, no bairro novo da capital, mês passado. Viagem, carro… Vocês é que não sabem’
‘Você é que só sabe de uma pequena parte, minha querida. Você tem feito tudo certinho, sim. Acontece que estas coisas são caras. Muito mais caras do que carro, lote…’, explicou Chyntos, da maneira mais calma e condescendente que conseguiu fingir.
‘Quais coisas, gente?!’
‘Poder, minha cara. Poder’, completou Menon, que babaria ao falar a palavra se não se policiasse.
‘Mas quanto é isso? Onde está?’, perguntou a desolada víbora.
‘Poder de verdade é para sempre, minha cara. É infinito, é perpétuo, é imortal.
Dinheiro na mesma medida. Onde ele está, pergunte ao Chyntos’, respondeu Menon, ‘Ele deu cabo do Heinrich, deve saber’
Uma grande comoção tomou conta da sala naquele instante. Chyntos deu um murro na mesa, Basto afastou sua cadeira para trás, Mnísi falou nomes de santos, que ela nunca dizia. Menon postou-se sério e, impassível, mirou Chyntos nos olhos, que imediatamente reagiu.
‘Você ficou louco, porra? De onde você tirou isso?’, berrou o prefeito.
‘Vocês tinham segredos’, continuou Menon inquisidor e impassível.
‘Mas eu é que tinha medo dele. Afinal, ele era o Heinrich, pô. O nazista’
‘Por isso mesmo. O motivo é o seu medo’
‘Não fui eu! Não diga isso ou te arrebento’
‘Me prove, seu filho da puta’, falou Menon com os dentes cerrados, agora já sem controle, e partiu para cima do prefeito, contra a pouca força de Doutor Basto, que o segurava.
‘Você acha que eu teria coragem?’, suspendeu a crise Chintos, com esta calma frase chave.
Ali, Menon Synkalym, o líder do partido, o intocável articulador, o inabalável secretário, o indecifrável bajulador, o infalível crápula, deixou-se desmoronar sobre sua cadeira. Percebeu, naquele momento, que os eventos não estavam sob controle de nenhum dos seus. Por agir com a razão, ele jamais faria algo contra Heinrich. Por agir com medo, tampouco Chyntos o faria. Havia alguém por trás de tudo, mas agora não lhe adiantava saber quem. Restava saber do dinheiro. Precisava saber do dinheiro.
‘Vamos lá, vamos lá. Quem fez isto? Onde está o dinheiro guardado pelo nosso tesoureiro, nosso comerciante? Vamos lá, o que você me diz?’, perguntou Menon a um trêmulo Chyntos, que deu uma longa baforada em um charuto e tomou um gole de cachaça para se recompor.
‘O Heinrich levou com ele, mas vamos buscar de volta. Estava tudo em pedras e dinheiro vivo, ele me mostrou várias vezes e disse que estava seguro na casa dele, em um cofre, que ele me deu a senha. Eu o vigiei com meu pessoal. Levou para sua casa e, de lá, não saiu’
‘Onde está o cofre? A Pilar já pegou, com certeza’
‘Não pegou. Ela não sabe onde está, ele me garantiu. O cofre é secreto’
‘E você sabe onde ele está?’
‘Sei que está na casa dele. Não sei onde’
‘Por que ele não te disse? Que desculpa ele deu?’, perguntou Menon, agora nervoso, ‘Como é que você deixou isto passar?’
Chyntos riu ironicamente.
‘Ele disse que estava com ele. Perguntou se eu não confiava nele. E disse que, se contasse para mim, teria que contar para você também’, respondeu o prefeito, para deixar claro que abriu mão de saber onde estaria o cofre apenas para evitar que Menon também soubesse.
‘O canalha te chantageou. Ele te conhece. Te conhecia…’, comentou Menon, confirmando que sabia que Chyntos poderia confiar nele para tudo, menos para o dinheiro.
‘Pois é…’
Fez-se um silêncio podre, antes de Chyntos recomeçar.
‘Mas está na casa. Em um cofre grande. De lá não saiu’
‘Temos que buscar agora, pô. Vai que a Pilar acha? Ela é ardilosa’, afirmou Menon, em pânico.
‘Tenho tudo planejado. Chame o Malaquias’, ordenou Chyntos a Basto, que pensara em partir de fininho. Ao perceber que haviam perdido o dinheiro, Basto estava decidido a escapulir, já que, sem dinheiro, pouco daquilo lhe interessava. ‘E peça ao Doutor Creonte que espere’
Basto obedeceu, como uma gueixa resignada. Malaquias entrou e ficou de pé.
‘Sim, senhor, Seu Chyntos’, atendeu ao chamado, o capacho do Malaquias.
‘Garrido e Sarí estão aí?’, perguntou o prefeito, sobre os dois auxiliares do capataz.
‘Estão lá fora, na beira da praia. Estão em uma moita da restinga. Achei melhor não aparecerem’
‘Fez bem. Deixe os dois na moita e os chame quando a rua estiver vazia. Entendeu o que fazer?’
‘Nós vamos esperar o senhor fazer o comício para entrar na casa do seu Heinrich. Vamos do quintal ao telhado. Vamos revirar tudo, achar o cofre e voltar, para falar para o senhor’
‘Que comício?’, perguntou Mnísi, admirada com a esperteza de seus pares.
‘Doutor Basto, por favor. Chame o Doutor Creonte para nós. Ele vai buscar a turma do Cafezal para fazer volume no comício. Ele tem moral’, e agora, voltando-se para Malaquias, ‘E minha gente da Vila Mansa, estão todos lá?’
‘Estão muitos lá, na porta da casa paroquial. Eu trouxe até algumas crianças’
‘Excelente. Vou ficar no palanque umas quatro horas. Te dá tempo para achar o cofre’
Ao convocar a reunião, Chyntos já tinha tudo planejado, com seus lacaios. Ao sair da Fazenda, pela manhã, dera todas as instruções a Malaquias e já tinha de cabeça o discurso que faria. Era um comício orquestrado unicamente para desviar a atenção de toda a cidade. O comício e a agitação que planejara dariam a seus homens o tempo necessário para vasculharem a casa de Heinrich. Teriam que revirar tudo, até descobrirem o cofre, até descobrirem onde o velhaco do alemão escondera o dinheiro que lhe pertencia. Adiantar-se nas falcatruas era seu lema, “Se há um bom golpe a ser dado, desfira-o antes, Chyntos”, pensava ele, consigo mesmo. Certamente, em outras palavras.

XV. O Comício Fúnebre

Eu nunca havia visto um troço daqueles. Um clima de festa de arromba durante um velório. As pessoas de Vila Mansa, a vila da Fazenda, por ordem de Chyntos, se amontoavam em frente à casa paroquial. Alguns deles remedavam uma trupe de circo, faziam acrobacias, jogavam malabares, vendiam pipoca, vendiam rifa e anunciavam o espetáculo de seus astros sem talento. Ouvi o som de um realejo e apareceu-me um macaquinho com uma caneca, subindo no retrovisor do carro, enquanto eu estacionava. Não me pareceu que os que ali estavam, ou os que seguiram meu carro, fizessem troça
do Heinrich, embora tristes também não estivessem. Pareceu-me que a cidade, carente de acontecimentos, aproveitava um evento raro. Isso é comum em cidades pequenas, mas a turma exagerou, naquele dia. Achei até bom demais.
Eu havia dado a volta em toda a praça para estacionar no adro lateral da igreja, entre o campanário e a varanda do Bar da Vênus. As pessoas que nos seguiam passaram direto, sem mais se importar com Pilar e Helena. Foram todos atraídos pela turba que se encontrava em frente à entrada da casa paroquial. Esta ficava atrás da igreja e tinha um grande pátio que a separava do cemitério. Joguei um amendoim para o macaquinho se afastar, porque tenho aflição de realejo e de palhaço. E era justamente um palhaço que tocava o realejo para o macaquinho vir encher o saco, ao som daquela música macabra. Saí do carro e escoltei Pilar e Helena até o velório. Estava Dona Nicéia sozinha, em vigília, na porta da casa paroquial, sem ninguém ao lado do caixão. Ela recebeu as enlutadas.
‘Venham, minhas filhas, já está tudo em ordem. Padre Nikos está a caminho’
‘Obrigada, Dona Nicéia. Acho que seremos apenas nós’, agradeceu Helena, enquanto Pilar beijava a senhora, de leve, no rosto e seguia direto para dentro do salão da casa paroquial.
‘Oh, minha filha, não diga isso. Mandei fechar o bar e Nicodemos virá com Vênus. Vamos rezar até que Padre Nikos chegue. Você sabe que ele sempre se atrasa’
‘Eu e mamãe temos que rezar por Heinrich, apesar de tudo. Não martirize sua família com isso, Dona Nicéia. Sei que a Vênus não se importa, mas Seu Nicodemos vai ficar contrariado de ter que rezar por ele. Seu Nico é piedoso, mas também sei que eles não se davam bem’
‘Ele que ouse ficar contrariado!’, retrucou Nicéia, bem humorada, ‘Aliás, ele quer vir’
‘Não precisa disso, Dona Nicéia, nós estamos bem e nós sabemos quem era o Heinrich. Pelo menos, sabemos o que ele nos deixava saber’
‘Por isso mesmo o Nico quer vir. Ele sabe que este tipo de gente, se a gente não rezar para ir, fica por aqui. Assombração é falta de reza’
‘Vamos rezar, então!’, disse Helena, fingindo pressa, já esquecida da solidão, já se sentindo amparada e sem medo.
Entraram no salão e lá repousava, isolado, o féretro do Doutor Heinrich Adolpho, secretário municipal vitalício, sombra de Chyntos Anaís, obsidiador de Menon Synkalym, tutor de Mnísi Íkakos, administrador da Fazenda, médico dos sãos, carrasco dos enfermos, tesoureiro de tudo, arquiteto das finanças, marido ausente de Pilar Massina Adolpho e padrasto soturno de Helena Massina, nesta ordem. A tampa do caixão permaneceu fechada, as cadeiras permaneceram vazias.
Do lado de fora, as pessoas das ruas do centro, que nos haviam seguido, misturaram-se ao grupo de Vila Mansa. Finalmente, respirou aliviada a trupe circense sem talento que, agora, começava a ter clientes. Uma pipoquinha aqui, um jogo de argola ali e as pessoas da cidade iam se divertindo às custas do famigerado defunto. Enquanto eu fotografava, o realejo tocava ininterruptamente. Putz, que saco.
Os moradores da Vila Mansa, os que passeavam e a mini trupe circense, eu conhecia naquela hora e partiram-me o coração. Era um pequeno grupo de fortes rapazes muito jovens, mas silenciosos. Eles acompanhavam belas mães, umas cinquenta, algo assim, que carregavam seus rebentos de colo ou seguravam firmemente as mãos de seus pequenos. Em alguns casos, os dois. Todos usavam roupas parecidas, meio largas, com umas estampas feias para caramba, vendendo uma alegria havaiana, que não se via nos rostos, só nos pés.
Os sorrisos alegres das crianças, absortos que estavam pelos voos dos malabares, ficavam encobertos pela melancolia nos olhares de suas mães e pelo desnorteio nos rostos dos jovens. Para aqueles jovens, a pequena praça com movimento tinha o efeito de um reveillon em Paris. Para eles, o realejo na praça do velório ressoava como os Rolling Stones no Hide Park. Para as mães, nada tinha sabor.
‘E aí, meu repórter?’, chegou Bill, com Tácia, ‘Tá gostando da parada?’
‘Oi Bill, oi Tácia, tudo bom? Podem procurar um palco, que a festa está boa. Aproveitem para animar este pessoal de roupa havaiana’
‘Ih, meu amigo. Essa é difícil. Nós temos que decifrar isso’
‘Eles não estão fazendo nada, não compram nada, ficam com olhar aéreo’
‘Comprar não tem jeito, não é, Ícaro? Ícaro, certo?’, disse Tácia.
‘Certo. Não nos apresentamos, perdão. Mas como já te vi tocando com
Bill e já tomei com ele um porre, me senti próximo. Perdão, de verdade’
‘Nada. Bill falou de você’
‘Tudo bem. Mas por que, não tem jeito?’
‘Hein? Ah, sim. Eles não têm bolso, reparou? Nem bolsa’
‘Até aí, vá lá. O foda é não ter dinheiro’, completou Bill.
‘Mas eles não trabalham na Fazenda?’
‘Trabalham? Não sei, olha só, eles não têm cara de quem trabalha no campo. Lá também eles não produzem nada. Mas, mesmo que trabalhassem, o truque é simples. Eles dependem da Fazenda para tudo, quando compram algo, compram do Chyntos, como favor. Estão sempre devendo’
‘Por que não saem de lá?’
Bill bateu em meu ombro, sorriu e saiu de costas para mim. Já andando, virou-se rapidamente e deu uma última mensagem.
‘Temos desconfianças. Seja repórter e traga os fatos’
‘Sou arquiteto! Detetive é o Homero’, gritei de volta.
Sequer vi se o Padre Nikos havia chegado, porque, de maneira súbita, apareceu Chyntos em pé, sobre uma caminhonete, com um megafone. Era seguido de perto por uma pequena multidão, os moradores do Cafezal, e de longe por Doutor Creonte, que parou a uma distância abútrea. Como ave de rapina, Doutor Creonte estacionou na varanda da Vênus, de onde via o pátio do velório, sem perder a visão de toda a praça do campo de futebol.
Parecia que Chyntos iniciaria um comício, o que não fazia o menor sentido, para mim. Ótimo. “Tudo o que não faz sentido é notícia”, comemorei. Mal sabia eu.
Chyntos era um mestre do discurso vazio, um regente das palavras de ordem, um embusteiro do verbo, um vigarista de frases feitas. Boa parte do povo adorava, claro. Soluções fáceis, promessas impossíveis, prazeres descabidos, tudo jurado em troca de nada, a não ser dar apoio a ele, um perseguido, coitadinho. As pessoas ali trocavam suas almas pela ilusão do prazer terreno e da fartura sem esforço. Achei que começava a entender as palavras de Cimarron.
Chyntos prometia – sem entregar, obviamente – a bonança na terra e, para isso, bastava que você se rendesse à preguiça e à inveja. Você teria, em contrapartida, a simples função de, às vezes, atacar verbalmente os adversários de Chyntos, com toda ferocidade. Para alcançarem os prêmios que cobiçavam, os protegidos de Chyntos acreditavam que lhes bastava liberar suas iras, de maneira a intimidar os adversários de seu benemérito. Preguiça, inveja, cobiça e ira eram as armas com as quais Chyntos abastecia seu exército de defensores. São, de cara, quatro dos sete pecados capitais. Acho que já dá um inferninho bom. O salafra falava sem parar. Uma mentira atrás da outra. Um porre!
‘Meu povo! Eu chamei aqui o circo de Vila Mansa e reuni todos vocês para atender a um desejo de meu amigo, o Secretário Heinrich, que nos Depois de mais de uma hora de algazarra, Chyntos começou a fazer improvisações. Ele trazia pessoas ao seu palanque, para darem testemunhos obre Heinrich. Chamou uns dez e dilapidou mais de uma hora de minha vida. “O defunto já vai feder”, pensei, pois o caixão estava preso no salão paroquial, pela caminhonete de Chyntos à porta e pelo aglomerado de pessoas. Eu não sabia sequer se o padre lá estava, mas enterro não tinha jeito. Nem ao cemitério dava para chegar, pois havia muita gente também de pé sobre as belas sepulturas do outro lado do pátio, em busca de melhor visão. Pensei em ir até Helena, mas estava tudo bloqueado e eu ainda tinha que acompanhar todos os acontecimentos do funeral. Tive que ficar atento, inclusive, ao que ocorria ali fora, para publicar nossa próxima edição d’O
Furo. Quanto aos entrevistados de Chyntos, os miseráveis que ele fazia de escada, ele os guiava, naturalmente.
‘E então, meu amigo, como vão seus pais?’
‘Tudo bom, sim, senhor’
‘E o seu tio, lá na venda do Cafezal?’
‘Ele não é meu tio, não, senhor’
‘Tio por afinidade meu filho. Tio por afinidade. Pelo tanto que ele gosta de você’
‘Ele não está vendendo para nós, lá de casa, não. Proibiu minha família toda de entrar na venda’
‘Agora vai vender. Você está com dinheiro’, falou Chyntos rindo muito alto e levantando a mão do infeliz, que segurava um maço de suas migalhas. Uma turma aplaudiu, mas Clint me explicou que era a turma de Malaquias. O rapaz sorriu sem graça.
‘Então, meu amigo, Heinrich era nosso benfeitor, ou não era?’
‘É…’
‘É isto, minha gente. Heinrich era nosso benfeitor. Meu amigo Heinrich.
Vamos todos orar por ele!’, gritou Chyntos, após aquele depoimento insosso, como gritou após todos os depoimentos.
Ele emprestava toda a sua efusividade à voz passiva dos que chamava a seu palco. Situação patética a que as pessoas se acostumaram. É comum ver isso em programas de auditório, como é comum ver isso em curandeiros charlatães. Tome emprestado o rosto de alguém comum e ponha em sua boca as palavras que você deseja. Faça isso e o engodo e estará feito. E assim foi, até meu saco estourar.
Quando pensei que já havia acabado, depois de mais de duas horas, ele convocou toda a turba e seguiu com o seu comício para o Cafezal. Achei estranho, porque imaginei que ele acompanharia o sepultamento do suposto amigo. Não importava, eu tinha de ficar, assim como Euclides. Além do mais, eu não aguentava mais ouvir a voz daquele mentecapto, que enganava os mais mentecaptos que ele. Temístocles acabara de se juntar a nós e pedi a ele que cobrisse o que aconteceria no Cafezal. O Soldado Otacílio o acompanhou. Foram lá os dois irmãos, seguindo o comício de Chyntos, através da Ponte de Balanço. Eu segui para a porta da casa paroquial, para acompanhar o enterro.
Quando cheguei à soleira da porta de entrada do velório, as mulheres preparavam-se para levantar o féretro. Não havia voluntários. Helena e Vênus iam por uma alça, Nico por outra, Pilar e Nicéia dividiam-se do outro lado. Atena pegava o pé do execrável caixão, para guiar-lhe em direção à porta. Ao ver que Heinrich seria transportado pelas mais angelicais pessoas de Flordeliz, mais preocupado com isso do que com o fato de serem mulheres e um idoso, tratei de remediar a situação. Acorri para fazer o serviço e chamei os demais que se aproximavam. Nico rezava igual a um desesperado. Aquela assombração não podia voltar. Carregamos o morto para fora, eguindo o Padre Nikos. Heinrich foi carregado por mim, Euclides, Nico, Bill, Homero e Clint. Ironia, de toda forma. O corpo do pústula que, por falta de voluntários, seria carregado por anjos, acabou sendo carregado por inimigos, pela mesma falta de voluntários.

XVI. Otacílio no Cafezal

O Cafezal nem sempre foi uma favela. O nome veio justamente do que era o lugar, um cafezal, no sopé da serra, logo do outro lado do Rio Alma. Flordeliz era uma cidade próspera e, além da pesca, além da usina de sardinha, além da mina de ouro, além das fazendas de carne, havia também a produção de café e uma torrefação. Não era uma grande plantação de café, a que rodeava a cidade. Havia, no entanto, alguns sítios de donos zelosos, que produziam um raro café híbrido, misto das variedades arábica e conilon. Os sitiantes, que, juntos, faziam o café de Flordeliz, se uniram também para criar e manter a pequena torrefação da cidade.
Todos os dias, a população era despertada pelo aroma delicioso, que saltava da chaminé da torrefação, do outro lado do rio. O aroma era carregado para as casas do centro, pela brisa da montanha. Junto do aroma do café de Flordeliz, que,  por si só, já era diferente de todos os aromas do mundo, a brisa da montanha trazia a névoa doce levantada da água, na correnteza do Rio Alma. Aquilo fazia bem para a alma, sem jogo de palavras. Fazia muito melhor ainda para o padeiro, Seu Balthazar.  Todos acordavam numa fome absurda.
Como acabou a história do café em Flordeliz? Bem, acabou como tudo o que é bom acaba. Mal! Os cafezais sucumbiram ao sindicato na mina, embora pareça não haver conexão. A partir do momento em que os antigos funcionários abandonaram o chão da fábrica, os novos contratados vieram em bando para seus postos. Eram oriundos de outras cidades, de maneira que não cabiam no centro de Flordeliz. Chyntos, justificado pelo desejo de muitos, trocou os possíveis votos de meia dúzia de sitiantes cafeeiros por votos certos de mais de duzentas famílias, a quem ele cedeu os terrenos desapropriados do café. “Eu, finalmente, estou trazendo o progresso para Flordeliz. Eu!”, repetia, usando enfaticamente a 1ª pessoa do singular, em uma modéstia de fazer inveja. Muitas choupanas, lá construídas, tiveram troncos de pé de café em sua estrutura de pau-a-pique. Tinham um cheiro bom, no início, mas cederam ao cheiro das pessoas e de suas necessidades.
Com o fechamento da mina, a região, já antes batizada de Cafezal, passou de plantações de café a amontoados de casas empobrecidas. Daí, passou de vizinhança
desordenada a favela, como efeito natural da falta de dinheiro e do desleixo. Como é também natural, aqueles que haviam ganho o terreno, não mais estavam gratos a Chyntos. “Sem esgoto, vá lá, agora, não ter o que jogar no esgoto é foda”, pensou alguém. Pensou e espalhou, para tentar minar a popularidade de Chyntos.
Para Chyntos, tudo em que, ao fim, veio se transformar o Cafezal, e que gerou a insatisfação indefinida dos seus moradores, não passava de um percalço frugal. Na sua mente embusteira, como a favela lhe devia a vida, a vida de cada um naquele gueto lhe pertencia. O prefeito sabia cobrar e manipular, como se viu naquela reunião da prefeitura, para tratar dos novos tempos. Lá estava reunido o berço do partido na cidade, àquela época, muitos anos atrás, ainda pouco depois do fechamento da mina.
Chyntos estava à cabeceira da mesa, baforando um charuto, que impregnava de fumaça sua densa barba. Estava de olhos fechados e ouvia Heinrich apresentar os resultados financeiros do mês. Para ele, era como estar em uma praia no Caribe. A beleza das ondas, o turquesa do mar, o horizonte límpido, o vento nos coqueiros, tudo isso desfilava diante de seus olhos a cada cifrão contabilizado pelo germânico. Pilar entreabriu a porta para anunciar a chegada de Menon e Mnísi, os militantes fortes do seu partido.
Heinrich rapidamente fechou seu livro de contas, à entrada dos companheiros, em um reflexo treinado. Ele sabia que Menon posava de ideológico, mas estava mesmo interessado era nas contas. Para Heinrich, Menon era uma ameaça e um adversário, pois não tinha como usar aquela ave de rapina.
Em sua experiência de anos, Heinrich sabia usar os ideológicos. Ele havia aprendido sobre as fortes crenças que tem o militante ideológico de verdade. Quem tem fortes crenças jamais questiona os que o fazem acreditar que estão do seu lado. Heinrich entendia que o militante ideológico já se casa com uma ideia pronta e a defende vorazmente. “Que beleza!”, concluía Heinrich, de si para si, “O militante ideológico não pensa, já que a ideia já está pronta”. “Ótimo”. Deve-se concordar que o próprio militante, por sua vez, sente-se aliviado e feliz de não precisar pensar. Ele sabe que suas experiências com tal atividade, a de pensar, nem sempre foram, lá, muito bem sucedidas.
Heinrich decifrara Menon e sabia bem que ele era diferente. Antes daquele velhaco do Menon ter acesso a qualquer número, Heinrich filtrava tudo. Ele entendia que Menon era ganancioso e onde Menon visse um, quereria dois, e onde Menon visse dois, quereria quatro. Se Heinrich não fizesse o que ele queria para arrecadar mais, mandaria Mnísi, a generala. Aí estaria tudo perdido. Nada pior para os negócios que a exposição e o atabalhoamento.
Para Chyntos, Heinrich mostrava cada página do livro, mas isto só porque Chyntos não se interessava nos detalhes, mesmo porque ele não era bom de conta. Chyntos queria ver o total. De todo modo, os detalhes dos números não eram para qualquer um, mas para o próprio Heinrich. O que estava ali era somente para seu deleite. Trabalhar no livro era seu momento de agente secreto. Agente secreto do mal, naturalmente, o que lhe dava um prazer ainda maior. A cada balanço financeiro que fazia, Heinrich sentia os mesmos arrepios de Chyntos, porém sem a visão do Caribe. Os cifrões lhe davam contentamento por si só e lhe abriam a mente para mais empreitadas audaciosas, facilmente perpetradas contra aquele povo de uma cordialidade imbecil.
‘Muito bem, senhores. Dona Mnísi… Estão sem serviço, no gabinete de vocês?’, questionou Chyntos, de maneira impaciente, para mostrar que não gostava de ter seus momentos de lazer interrompidos. E seus momentos de contabilidade eram  os mais fugazes e de maior lazer, pois dali ele amorosamente levava a memória de suas riquezas. Ele não colocava as mãos em nada. Heinrich fazia tudo por ele, do custeio das atividades oficiais à compra de seus bens e de seus prazeres carnais; de roupa a whisky, de carro a puta.
‘Vamos cuidar da casa. Vamos cuidar da casa, prefeito’, respondeu Menon, em tom preocupado.
‘Vamos! Vamos trabalhar. Mas aqui tem que chegar só coisa pronta, meu amigo. Só coisa pronta. Não me traga problema…’, advertiu o prefeito.
‘Eu não trouxe, nem Mnísi. O problema veio andando sozinho. O Malaquias, lá da fábrica de sardinha, está aqui, com os compadres que o Senhor Prefeito tem na mina. Com os compadres do senhor, do seu tempo de sindicato’
‘Mas, rapaz, não tem mais fábrica, nem mina. O que é que eles querem aqui?’
‘Estão representando o Cafezal’
‘Quem está representando? E com ordem de quem?’
‘É o Malaquias quem está falando’
‘Não vou falar com esse porra! Nunca fez nada! Vagabundo, esse Mula!’
‘Falavam isto da gente, Chyntos. Nos chamavam de vagabundos, quando estávamos do lado de lá. É o que falavam da gente. É melhor atendê-lo logo e acabar com isso’, argumentou Menon, que, na verdade, queria dizer que falavam aquilo era do Chyntos.
Ele mesmo, Menon, era chamado sempre de anarquista e maconheiro, coisas das quais se orgulhava. Não se lembrava de ter sido chamado de vagabundo, embora tampouco se lembrasse de si mesmo estudando ou trabalhando. De todo modo, achou melhor incluir-se no insulto, para amenizar a interpretação que Chyntos faria de seu argumento. Ele se preocupava em demonstrar empatia, embora ela não existisse.
‘Está bem. Está bem… Mas o que é que ele quer?’
‘O Cafezal está uma merda. Eles querem um monte de coisa. Eles querem tudo novo. Querem o que é normal todo o mundo querer. Querem tudo novo e de graça’
‘Não falei “eles”. Falei “ele”! Não dou a mínima para o que querem, preciso saber o que o Malaquias está pedindo. O negócio é saber o que ele quer e comprar barato. Se ele é líder mesmo, depois que o comprarmos, ele convence o resto. Eu sei. Eu já estive lá. Resta saber se é ele quem está no comando’
‘Mas e se não for?’
‘Vamos ver como ele é, para sabermos se podemos usar. Se valer a pena e ainda não for o lider, nós o convencemos de ser. Mande entrar o segundo da fila, lá fora, alguém da mina. Camarada meu’
‘E o Malaquias? Não mando ele entrar? Você acabou de dizer que a conversa é com ele’
‘Não. Chame alguém da mina. Se o Mula já tiver levado eles na lábia, ninguém vem sem ele. Aí ficamos sabendo se ele está no comando’
Relutante, mas sem querer deixar passar a oportunidade, Mnísi interrompeu o curso dos eventos. Era algo que usualmente evitava fazer, porque as artimanhas de Chyntos e as maldades de Menon sempre a deixavam estupefata, admirada. Porém, por toda a sua vida, ela esteve segura de que algo maior a esperava e aquela parecia ser a deixa.
‘Seu Chyntos, Senhor Prefeito. Meus amigos!’, falou Mnísi, com sua grossa voz, fingindo segurança, ‘Antes de chamar o Cafezal para a discussão, quero apresentar uma solução bem tranquila para nós. Podem dar-me um minuto?’, disse a senhorinha de meia idade, certa de que, dessa vez, se projetaria, junto ao prefeito. Talvez recebesse até uma fatia maior dos costumeiros espólios da cidade, ao final do mês. Talvez uma olhadinha naquele livro ali, nas mãos do Heinrich… Quem sabe?
‘Claro que sim, Dona Mnísi. Estão vendo aí, marmanjos? Vamos aprender com Dona Mnísi, que já vem com a solução. Deixem a turma esperar um pouco mais. Aliás, muito mais’, exclamou o prefeito, dando, a seguir, uma longa baforada e voltando-se para Heinrich, que permanecia calado, ‘O que acha, meu doutor?’
‘Clarrro. Vamos verrr. Cerrrto, señorrr Synkalymmm? É bom mesmo, non rresponderrmos muito rrápido esta gente. Pode parrrecerr que temos rreceio deles’, respondeu o alemão, com seu forte sotaque, em um bom português, trocando o pronome de tratamento pela versão em espanhol, como é comum aos europeus, que
aprendem, primeiro, a outra língua. Ou apenas a outra língua, melhor dizendo.
‘Claro. Sim. Mas você não comentou nada de suas ideias comigo, Mnísi. Conte-nos agora, divida conosco’, alfinetou Menon, que a avisava de ter tomado aquilo como traição, pois ele era o porta-voz. Ela não se importou, pois era traição, de fato, e isso ela queria deixar claro.
‘Sim, senhor, com prazer. Posso sentar?’
‘Fique à vontade, madame. Sente-se aí na outra cabeceira e mostre o plano. Quero conhecer mais suas ideias. Mostrar a força da mulher!’, bajulou-a Chyntos, mesmo com pouca esperança de ouvir algo útil.
‘Então’, começou ela, ‘O Seu Menon já havia me explicado a situação e me pediu para buscar as alternativas’, disse, com a precaução de incluir Menon como parte da solução, por medo de ficar sozinha e arrependida de ter sentado na outra cabeceira. “Se vier retaliação, estou fodida”, pensou a serpente.
‘Sim, sim, Dona Mnísi. Vamos, diga o que tem em mente’
‘Muito bem. Como eu ia dizendo, Seu Menon me contou que o pessoal do Cafezal está se organizando para reclamar. Quando nós mandamos eles para lá, eles acharam muito bom. Estavam recebendo de graça. Essa gente, vocês sabem como é. Além do mais, eles ainda tinham emprego, lá na mina e mais alguns na sardinha. Fizeram seus puxados, achavam a vida fácil. Agora não tem mais emprego, seu prefeito’
‘Eu sei, Dona Mnísi. Mas tem o cestão! O que mais que eles querem, além de comida de graça?’
‘Agora querem água, esgoto… Até luz! E o senhor sabe que os votos estão lá. Já tem umas duas mil pessoas morando naquele bairro’
‘Sim, Dona Mnísi. E a solução?’
‘Agora, sim. É simples, meus amigos. Vamos construir um bairro novo atrás, mais para cima na serra. Liberamos o terreno na beira do rio para nós e ficamos com os votos’
Os três homens começaram a rir descontroladamente. Chyntos foi por uma garrafa e serviu cachaça para todos, entre gargalhadas. Mnísi já sabia que isso aconteceria. Já esperava por isso e, pacientemente, aguardou que se acalmassem e fizessem a próxima pergunta, sobre o dinheiro. Certamente não iriam gastar, com um bando de favelados, o dinheiro que poderia ir para eles e para o partido. Ah, eles não a conheciam. Não contavam com sua agudeza, imagina-se que ela pensou. Ela os surpreenderia.
‘Dona Mnísi’, longa pausa, ‘Mimi!’, começou o prefeito, ‘De onde a senhora tirou esta ideia?’
‘Não vamos gastar nada, Seu Chyntos. Aí está meu segredo. Vai ser dinheiro e um fundo internacional para população carente’, respondeu ela, orgulhosa, sem se conter de ficar de pé e estalar um dedinho, em um movimento ridículo.
‘Não vamos gastar, mesmo. Nem nosso, nem desse tal fundo’
‘Como assim, Senhor Prefeito? O que está errado?’, reagiu a secretária de Governo, ainda mais ressentida do que já era de berço.
‘Está errado em tantos níveis, que nem sei por onde começar’, começou a falar Menon, impaciente, mas aliviado pela estupidez de Mnísi não tê-lo surpreendido. Com a mediocridade dela, ele podia sempre contar.
‘Ela é perrrigosa. Está pensando sozinha. Errrado, mas sozinha’, murmurou Heinrich. Ninguém ouviu.
‘Mas, Seu Chyntos, eu consigo trazer este dinheiro. Já liguei para a capital e sei o caminho das verbas. Além do mais, pode ainda sobrar dinheiro para o partido’, lançou ela a última carta que tinha na manga, certa de que isso os atrairia para sua iniciativa. Ela precisava disso. Respirou aliviada ao falar, pensando que agora cessariam os argumentos contrários.
‘Putamerda!’, bateu na mesa, Menon Synkalym.
‘Calma, meu amigo. Eu explico para ela’
‘Explicar o quê, Chyntos? Eu não tenho paciência!’
‘Está na horrra de explicarrr parrra ela como estes prrrocessos funcionam, Seu Synkalym. Parrra que a senhorrra Mnísi non atrropele nossas atividades’
‘Explicar o quê, meu Deus’, falou ela, rogando por um Deus, em que não acreditava.
‘Preste atenção, Dona Mnísi, porque não vou repetir’, começou Chyntos. ‘Se a senhora discordar de algo, tire sua dúvida, mas enquanto eu estiver falando, no máximo, acene com a cabeça, caso concorde com o que eu disser. Primeiro, se pegamos dinheiro estrangeiro, virão nos vigiar. Nós não queremos isso, certo?’, Mnísi assentiu com a cabeça. ‘Segundo, se lhes damos tudo o que podemos, não podemos
dar mais, certo?’
Mnísi assentiu de novo, mas, dessa vez, resolveu completar. Afinal não era tão tapada assim. Ou era? Pegando o gancho do que iniciara Chyntos, a obtusa secretária arriscou-se de novo, para a humilhação não ser total.
‘E se não podemos dar mais, eles não mais dependem de nós. E se não dependem de nós, não nos dão mais seus votos. Perdão, senhores. Vou sentar-me aqui e aprender. Não sei muito, mas posso ser boa aluna. O que faremos?’, tentou Mnísi, pateticamente, sair por cima. Pateticamente.
Chyntos, com toda a calma que lhe restava, explicou jocosamente que o certo é fazer com que os moradores do Cafezal tenham orgulho de morar na favela. O desejável é que acreditem que têm uma cultura sólida e bela na favela. O ideal é que parem de chamar de favela e passem a chamar de comunidade. O fundamental é que achem romântico buscar água no rio. É, por fim, essencial que se dediquem a sambar para esquecer. Se não for assim, as pessoas crescem, os indivíduos evoluem e começam a exigir que sejam gastos preciosos recursos, fazendo bairros, transportes, hospitais, para que eles conquistem suas casas com trabalho. Um absurdo!
Ao invés disso, resolve-se tudo com um posto de saúde e com um orelhão, em meio aos barracos. Chyntos ainda ressaltou que era importante botar lá uma rádio comunitária, sustentada pela prefeitura, enaltecendo a vida no Cafezal. Ah, talvez um campinho de futebol sem grama também ajude – tem espaço logo atrás do lixão da cidade. Último conselho do Chyntos:
‘Guarde tudo o que você quer na gaveta, não ofereça nada. Quando vierem reclamar de algo, desengavete seus planos mais ousados, como se fossem as soluções para o que pediram’
‘Qual o plano, então, prefeito, já que o senhor pensou em tudo?’, perguntou agora Menon, louco para acabar com a conversa.
‘Você não sabe, meu amigo? Mas foi você quem começou com isso’
‘Ah, que bom’, respondeu o homem do partido, com um sorriso aliviado.
‘O que é? O que faremos, então, para mantê-los do nosso lado?’, perguntou a ansiosa Mnísi.
‘Vamos dar apoio para que eles criem uma associação, que cuidará de organizar pedidos e soluções para cada necessidade. Temos apenas que garantir que controlamos a associação. Fácil, não é?’
Naquele momento, Heinrich desatou a rir uma risada malévola, daquelas que enchem a sala de sombras e o clima noir dos anos cinquenta se instala na alma de quem assiste. Mais ainda, muita sombra e suspense, do expressionismo de M, o Vampiro de Düsseldorf.
‘Sim, claro. Mas vamos fazer qual obra? Quanto vamos gastar?’
‘Nenhuma obra, minha cara. Não vamos gastar nada, a não ser as migalhas de Malaquias’
‘Malaquias? Esse, que está aí fora?’
‘Sim, minha cara, sim. O Mula, nosso novo líder comunitário. Está decidido, mesmo que meu teste não dê certo. Malaquias é barato. É capaz até de eu levá-lo para a Fazenda’
Gargalhadas ecoaram pela sala. Uma rodada de pinga, antes de chamar a peãozada lá de fora. Não entrou ninguém, até Malaquias ser autorizado a entrar junto. “Bom sinal”, pensou Chyntos, “Se o tiro não for no alvo, movemos o alvo”.
De volta para vinte anos depois, naquela manhã do funeral de Heinrich, ao chegar ao Cafezal, Chyntos já estava inebriado por seu próprio discurso. Para ele, inflamar o povo com palavras de ordem e promessas vãs era um fim em si mesmo. Aquilo lhe dava quase tanto prazer, quanto ouvir as contas do livro de Heinrich. “Onde diabos estará aquele livro?”, pensava ele, ao lembrar-se de seu único pesar com a morte do alemão: o sumiço do dinheiro.
Para o comício no Cafezal, se necessário alongá-lo, Chyntos teve o cuidado de guardar outra pequena sacola de trocados. Não gastou todas as suas reservas das valiosas notas de um, no comício do velório, para preencher o tempo lançando-as à choldra do Cafezal. Faria isso quando lhe faltasse inspiração para as palavras ou fôlego para os gritos. A euforia da plateia tinha que continuar, fosse como efeito dos delírios verbais de suas falas, fosse com o dinheiro que caía do céu, lançado pelas suas mãos.
Temístocles levou uma máquina fotográfica e um gravador, para não ter que anotar. Afinal, ele não era repórter e anotar o que Chyntos dizia lhe dava náuseas. Seus muitos anos lidando com letras e vinho o imprimiram uma intolerância insuperável às coisas de mau gosto. O tipógrafo, no entanto, como dever do ofício de repórter que ali fazia, segurou suas golfadas de enjôo e ficou bem de frente ao púlpito de Chyntos.
O prefeito subiu em nada mais que um caixote, que vinha a calhar, para reafirmar sua simplicidade, sua origem no povo. A percepção da importância isso lhe foi dada por Menon, que não conseguia se misturar e sequer foi ao Cafezal naquele dia. “Nunca deixe que eles saibam quem você é. E muito menos o que quer ser”, repetia Menon, incessantemente, “Mostre exclusivamente o que querem ver”, completava.
Otacílio seguiu até o Cafezal, mais para acompanhar Temístocles do que para cuidar do evento como policial. Naqueles dias estranhos, achou temerária a ida de Temístocles a um comício de Chyntos, após a publicação da primeira edição d’O Furo. Encostou-se em uma esquina e lá ficou. De onde vigiava, na entrada do único largo em todo o aglomerado de casas, tinha a visão de todos os que lá estavam, mas, principalmente, podia observar Doutor Creonte. Este guardava uma posição tão estratégica quanto a dele, porém do outro lado da turba, atrás de Chyntos.
Doutor Creonte, com suas roupas negras e olhar grave, estava lá para lembrar a todos que o prefeito era do povo. Era. Porque agora ele tinha a força, ao seu lado, representada por aquela sombra de aspecto cruel, impiedoso. Chyntos não gostava de se expor em lugar algum, sem a sombra de Doutor Creonte a guardá-lo. Ele se acostumara a isso, nos últimos anos. De sua posição, Doutor Creonte também observava Otacílio.
Aquele lugar era a segunda casa de Otacílio. Embora ele, Homero e Temístocles tenham sido criados em sua pequena chácara rio acima, ali eles trabalharam, ainda crianças, nos cafezais, nas épocas de colheita. Na verdade, brincavam de trabalhar, pois ajudavam sua mãe e se divertiam. Depois que os cafezais deram lugar às casas amontoadas, lá ele teve sua primeira namorada, Flor, agora sua noiva. Aliás, sua noiva há mais de cinco anos. “Preciso de um paraquedas, antes de saltar”, pensava ele, quando a sogra cobrava o casamento.
Mais do que sua vida com Flor, o Cafezal definiu suas escolhas. Otacílio era um obcecado por justiça e por honestidade. Esta obsessão fazia dele um policial quase exemplar. Quase, porque desmaiava à visão de sangue. Logo ao iniciarem o namoro, arrancaram do pescoço de Flor, no Cafezal, a corrente com medalha de Agnus Dei que Otacílio lhe dera. Ali ele ficou sabendo, pela primeira vez, que o crime chegara a Flordeliz. Ali ele ficou sabendo, pela primeira vez, que não mais seria médico, mas policial. Não poder ver sangue era um problema, em qualquer uma das duas profissões, mas, de olhos fechados, ele imaginava que ainda poderia atirar, enquanto segurar um bisturi seria demais.
Otacílio nunca disparou uma arma de olhos abertos. ‘Para treinar’, dizia ele. Otacílio nunca disparou sua arma em ação. Apesar disso, aquele jovem policial acabou com os pequenos delitos que havia em Flordeliz. Para isso, ele foi à casa de cada morador do Cafezal, insistentemente, e contou aos pais cada passo de seus filhos. Ele era um chato incansável, como devia ser. Para o desespero do Delegado Nicanor, que evitava qualquer atividade a mais de trinta centímetros de sua cadeira, Otacílio investigava tudo, de fuga de passarinho a sumiço de pé de couve. O Cafezal fez nascer o Soldado
Otacílio e ali ele estava seguro. Ali ele podia garantir que Temístocles, seu irmão com corpo de ogro e coração de poeta, estaria seguro.
Aqueles trocados lançados por Chyntos, à população do Cafezal, eram como um tapa na cara do Soldado Otacílio. Depois de anos de seu suor e risco para mostrar àqueles aflitos o valor de um dia íntegro, a preciosidade de um esforço, as recompensas da honradez, o prefeito lançava tudo por terra. Com poucos minutos de sua canalhice à solta, o prefeito elevava a pequena multidão a um êxtase fugaz, como é todo êxtase. “Paciência, amanhã será outro dia e começarei de novo. Este filho da puta não me vence”, matutava Otacílio, quando Malaquias chegou por trás e bateu em seu ombro. Eram amigos desde a infância de Otacílio, embora Malaquias fosse anos mais velho.
‘E aí, Taco, vendo o nosso prefeito ajudar a comunidade?’
‘E aí, Mula, tudo bem?’
‘Tudo. Tudo bem. Até com a morte de Seu Heinrich o prefeito consegue animar nosso povo’
‘Pare com isso, meu chapa. Pare com isso!’, interrompeu Otacílio, agora mostrando sua irritação.
‘No fundo, você sabe que nós estamos certos de comandar esta turma. Eles não sabem fazer nada, precisam do Seu Chyntos. Precisam de mim. É por isso que vocês têm raiva. Ficam inventando merda, nesse jornaleco seu. Jornaleco de pobre, de uma página só’, provocou Malaquias, rindo com os olhos enviesados, como o emissário do mal que, de fato, tornara-se.
‘Não precisam do Chyntos, Mula. Quem precisa do Chyntos é você e esta corja com quem você anda junto. Você virou um cara amargo, rapaz. Você era divertido, pô. Vagabundo, mas divertido. Agora você tem raiva de todo o mundo que discorda de você’
‘O povo está conosco, Taco. Isso é o que vocês não aceitam’
‘O povo está com quem tapa melhor seus olhos. Mas só até que alguém os descubra e deixe entrar luz’’
‘Ih, olha aí, frase do Euclides. Não quer dizer nada, rapaz. Fale alguma coisa sua. Nós estamos aqui, salvando o povo das garras de vocês’
‘Vocês, quem? Você está falando comigo, Malaquias. Pare de fingir que palavra de ordem é argumento. Eu te conheço, porra. Vocês estão tirando o futuro desta gente e dando de volta migalhas’
‘Vocês têm que assistir. Quietinhos…’, disse Malaquias, com um risinho irônico e colocando o dedo sobre a boca, mandando fazer silêncio.
‘Putamerda, Mula. Putamerda!’
Agora Malaquias despertara a verdadeira ira de Otacílio. Despertar a ira dos adversários é um atributo inequívoco de Chyntos e seus asseclas, que fazem uso disso sempre que podem. Tirar a pessoa do sério embota o raciocínio e é mais fácil vencer quem não está pensando. Nisso eles estão sempre em vantagem, pois não se comovem com nada e não se prendem a limites. Mentir lhes é natural, então não lhes ofende que os chamem de falsos. Enganar é sua primeira meta, então não importa que os chamem de safados. Esconder é sua sobrevivência, então pouco se lhes dá que os chamem de dissimulados.
Otacílio resolveu tomar a frente, ensinando-lhes com o único ente que entendiam, o medo. Iria blefar, Malaquias entraria em pânico, daria um passo em falso, seria pego e, acuado, entregaria os demais, no que quer que ele soubesse. O único risco era Malaquias não saber nada. Um risco até bem alto, já que não passava de peão no tabuleiro. Mas aí, pelo menos, o adversário perderia um peão. Não se chega ao xeque-mate sem eliminar o primeiro peão.
‘Tá nervoso, Taco? Ficou em silêncio… Relaxe, rapaz, e vá ajudar o Delegado Nicanor. Vá logo, porque ele não gosta de descansar sozinho’, riu de novo, o subalterno nato, o capacho de profissão.
‘Não, Mula. Não estou nervoso. Apenas decidi te dar uma chance’
‘Chance de quê? Não preciso de chance nenhuma’
‘Chance de não ser preso. Chance de ir embora’, disse isso e começou a caminhar lentamente de volta para a cidade. Otacílio afastou-se da multidão e seguiu para a Ponte de Balanço, para atravessar o Rio Alma, a caminho de Flordeliz. A isca estava lançada. Se Malaquias o acompanhasse, o peixeiro estaria fisgado. Seria uma boa reviravolta para os peixes.
Alguns fatos deram-se como ele rogava ou, pelo menos, esperava. Malaquias o seguiu. Tentou até impedi-lo de partir. Perdeu totalmente o controle e chegou mesmo a segurá-lo pelo braço, que ele liberou com um solavanco. Otacílio estava orgulhoso de sua estratégia, mas não havia ainda pensado no que dizer. Precisaria da ajuda dos demais para elaborar uma versão crível. Naquele momento, tudo o que precisava fazer era encenar fastio e afastar-se mais resolutamente. Malaquias o procuraria depois.
Porém não foi o que aconteceu. Malaquias seguiu-o e tentou, à força, impedir que partisse. Insistiu em que voltassem para o comício, até o último minuto, até chegarem à beira do Rio Alma. Lá, enquanto o Mula segurava seu braço, Otacílio percebeu um barco próximo da outra margem. Dois homens levavam no barco uma caixa, próximos à praia de lá do rio, em sua parte funda, nos fundos das construções da Rua Calçada. Eram os dois lacaios de Malaquias, Sarí e Garrido. Então, Otacílio voltou-se para seu colega de infância.
‘Ô Mula, aqueles lá não são seus puxa-sacos?’
‘Eu te falei para voltar para o comício’, disse Malaquias com os dentes cerrados, ao cravar um longo punhal entre as costelas de Otacílio.
‘Você me viu crescer, porra…’ Foram as últimas palavras de Otacílio, quando Malaquias girou o punhal e o mergulhou mais fundo, apontando-o para cima, até atingir o coração de nosso amigo. Malaquias jogou o corpo de Otacílio na ribanceira do Rio Alma e voltou rápido ao comício, ao tempo exato de acudir Dona Mnísi, que se sentira mal, e levá-la à sua casa.
Não foi como o Soldado Otacílio planejou, mas Malaquias deu seu passo em falso. Doutor Creonte o vira acompanhar o soldado.

XVII. Os Pistoleiros

Por volta do meio da tarde, após o comício e o funeral, ou o contrário, não¨sei, chegam à Typographia, ao mesmo tempo, Helena e Flor. A correria de Helena assustou todos nós, que lá estávamos. Quanto a Flor, estranhamos um pouco, mas não demos atenção. Euclides adiantou-se.
‘Senhoras, podemos ajudá-las?’
‘Entraram em minha casa. Quebraram tudo. Me ajudem, porque eu e mamãe estamos apavoradas’, disse Helena, suplicante e trêmula.
‘Meu Deus! Esse povo está louco!’, interrompi, de um salto.
‘E você, Flor, o que foi?’, perguntou Homero.
‘Não. Nada. Otacílio marcou de almoçar comigo e não apareceu. Só isso. Cuidem da Helena e de Dona Pilar, coitadas’
‘Fique tranquila, menina, vamos resolver isso’
Ao dizer isso, Euclides já nos via aprontando-nos para sair, todos nós muito agitados. Clint empurrou a mesa de centro com os pés e se levantou de forma bruta. Bill largou seu violão, interrompeu alguns acordes desencontrados e dirigiu-se à porta. Temístocles parou de limpar as chapas, que preparava para a segunda edição d’O Furo. Eu já havia largado a máquina de escrever ao ver entrarem as garotas. Agora eu trazia Helena para junto de meus braços e caminhava lentamente com ela em direção à porta, tentando acalmá-la. Ela se desvencilhou de mim, tensa.
‘Não, Ícaro. Não ficarei calma! Vamos rápido, por favor!’, disse Helena, e saiu vertiginosa pela porta. Seguimos todos atrás, por alguns momentos, mas Clint pediu que refreássemos Helena e se adiantou para ter com Pilar e entrar primeiro na casa.
Temístocles foi à delegacia, buscar Homero e Otacílio. Se o delegado Nicanor estivesse lá, ele o chamaria também, com a condição de que o distrairia para que não atrapalhasse. Não foi o caso, pois o delegado estava de plantão, mas o cumpria em casa. É um tipo de plantão interessante, que existe em país tropical. É… Muito bom…
Nos reunimos à porta da casa de Helena, do lado de fora. Pilar estava abraçada a Clint. Ele tinha o braço sobre seus ombros e ela o envolvia pela cintura, com uma intimidade inesperada. As pessoas se aglomeravam próximas à casa de Heinrich, para bisbilhotar com qual novo evento aquele alemão safado lhes tinha brindado, além de sua própria morte. Dentre elas, muitas perguntaram-se como Pilar, a indizível balzaquiana, podia ter tal intimidade com Clint. Aquele homem esguio, de passos largos e olhar distante, chegara à cidade havia algo como meia dúzia de anos.  Parecia um pistoleiro examinando suas futuras presas e assim foi tido, até assumir a administração da Fazenda Tesoureiro. A bem da verdade, continuou sempre como pistoleiro, no inconsciente das pessoas. Jamais fôra visto com Pilar. Raramente estava com outras pessoas, a não ser nas suas idas silenciosas à Typographia. O que fazia Pilar abraçada a ele? Por que ele chegou antes dos demais?
Quando jovem, Pilar era a mais bela moça de Flordeliz, da mesma maneira que agora, dentre as mulheres maduras, continuava a mais bela. Era a sobrinha protegida do então Prefeito Teodoro Vexia. Coincidentemente, como se deu com sua filha, ela carregava somente o sobrenome da mãe, Massina. Havia dúvidas se era sobrinha ou filha do prefeito, mas não muito se falava sobre isso, porque o homem era feio para encardir e de seus traços ela nada tinha. Depois de crescer fora daquela cidade, Pilar era, então, a única professora laica de Flordeliz, tendo acabado de voltar de seu curso de normalista na capital. Imediatamente ao chegar, a bela jovem uniu-se aos monges da escola do Padre Nikos, na nobre tarefa de ensinar os filhos de Flordeliz. Naqueles tempos, já idos, ensinar era uma missão séria e árdua que produziu muitos jovens cultos e alguns até iluminados, para uma cidade tão insignificante em qualquer mapa.
Na primeira turma de alunos de Pilar, ainda no curso ginasial, o jovem Gregor destacava-se entre os demais estudantes, pela sua altura e pelo seu silêncio. Ele, que antes não se interessava pela escola, agora se dedicava incansavelmente às tarefas e a qualquer leitura. Sua adolescência transbordou sua infância de maneira definitiva e lançou-o rápido no apetite da idade adulta. No pandemônio que é a mente de qualquer jovem, para Gregor, aprender o que ensinava Pilar em suas aulas, impregnar-se de cada lição de Inglês ou Geografia, era como beber uma extensão dos lábios da mestra.
As grandes paixões da História, Gregor replicava em Pilar e em seu imaginário caso proibido. Ele sabia que não passava de um delírio, mas o cultivava. Ele tomava cada palavra de Pilar como uma mensagem cifrada, para seu amor impossível. Para Gregor, aprender era a maneira de prender a atenção de Pilar.
Pilar, que, com ele, dividira uma vida passada, uma outra existência, fugiu de seus sentimentos por um semestre inteiro. No reinício das aulas, após um mês sem ver aquele garoto, seu coração não resistiu e, apertado de solidão, escancarou-se. Ela teve a visão de uma cena que já vivera, um déjà vu inapelável. Era o final da aula e Gregor esperou que todos seus colegas saíssem. Pilar soube, imediatamente, que sucumbiria aos seus instintos, quando ele lhe estendeu uma ameixa desembrulhada sobre um papel celofane, aberto em sua mão.
‘Para a senhora, Dona Pilar’, ofereceu-lhe Gregor, com sua voz baixa e gutural.
‘Não, meu querido, muito obrigada. Isso é o seu lanche’, respondeu Pilar, sem conseguir se desviar do olhar de sua perdição. Era forte assim, o laço formado entre
os dois.
‘Eu como também. Veja, está boa’, respondeu Gregor, ao morder a ameixa e levá-la à boca de Pilar. Ela tomou a ameixa junto da mão de seu aluno, a mordeu e tocou seus lábios úmidos nos dedos do jovem. Gregor, absoluto que era, a puxou para si e a beijou. Aquele beijo nunca terminou. Durou mesmo quando estavam separados e ele se transmutou em Clint. Agora, que ela estava viúva, a história poderia ter um final feliz. Era uma chance que jamais tiveram.
Antes de ser traído por Chyntos, o velhaco do Teodoro, já de saída anunciada de Flordeliz, ainda tentara uma aliança com aquele novo político, que ele percebera ser mais safado que ele próprio. Para isso, Teodoro entregou Pilar a Heinrich, o novo homem de Chyntos, que viera para substituí-lo como médico. “Médico uma ova”, sabia o velho prefeito. Pilar esperava uma criança de uma criança e aquilo irritou Teodoro de uma maneira sem volta. Ele negociou tudo, de modo que, para ter o corpo da mulher mais bela de Flordeliz, Heinrich teria que criar o fruto daquela relação pervertida, entre a sobrinha do antigo prefeito e um jovem aluno. A criança obscena estaria segura em um lar poderoso. E ninguém mais poderoso que o homem que controlaria as finanças de Chyntos. Além do mais, Teodoro teria alguém de sua família do outro lado. “Isso é o principal”, imaginou.
Porém, ao final das contas, nada daquilo blindou Teodoro da fúria de Chyntos. Este o apunhalou como pôde e o expulsou de Flordeliz, para morrer distante e só. Quanto ao jovem e corajoso Gregor, o problema foi resolvido em um simples anúncio. Teodoro o advertiu de que somente sua partida para sempre poderia conservar a sua vida, a de sua amada e a da criança que estava por nascer.
O velho Teodoro reservou a Gregor uma fúria particular e o manteve vigiado, mesmo ambos estando já longe de Flordeliz. Anos depois, ao saber da morte de Teodoro, Gregor voltou a Flordeliz como Clint, como passaria a ser para sempre, para não mais ser o garoto que fugira. Nunca mais. Ali, oculto pelo novo nome e exposto pela nova fama, ele esperou seu momento, que finalmente chegara.
Chegamos até a frente da casa e paramos juntos de Clint e Pilar. Helena também parecia não entender a intimidade dos dois, mas aquilo não era importante naquela hora. Ela sabia da força de Clint, como todos na cidade sabiam, e era bom que ele estivesse ali. Para as duas, que sempre foram isoladas de todos em Flordeliz, era um alento ter tantas pessoas vindo agora em seu apoio.
‘As duas ficam aqui. Nós entramos’, disse Clint, ao entregar seu chapéu a Pilar. Euclides aquiesceu de imediato, pois há muito ele descobrira a história de Clint e Pilar. Fomos todos em frente, sem muito pensar, quando Bill se manifestou.
‘Espere aí, pessoal. Tem que haver uma autoridade policial junto’
‘Tem razão. Temístocles não foi buscar os três, lá na delegacia, Dr. Nicanor, Homero e Otacílio?’, perguntei.
‘Estão vindo ali, mas só Temístocles e Homero’, respondeu Flor. ‘O delegado nunca vem, mas onde está o Otacílio, numa hora dessas, meu Deus do céu?’
‘Depois olhamos, Flor. Agora, basta o Homero para entrarmos. Ele é autoridade’, disse Euclides e gritou: ‘Homero, rápido!’, enquanto Clint seguia na frente, sem dar muita bola para formalidades. Homero passou por nós correndo e tratou de entrar na casa antes dele, para evitar lambança.
‘Muito bem, senhores’, disse Homero, parado no vestíbulo da casa, ainda ao pé da pequena escada, ‘Vou permitir que os senhores entrem. Como o Soldado Otacílio e o delegado não estão aqui, vocês vêm comigo. Pode ainda haver riscos, embora eu não creia. Senhor Clint, venha ao meu lado. O senhor está armado e eu não. Senhor Ícaro, traga sua câmera. Temístocles, anote para mim. Senhor Euclides e Bill, fiquem com as senhoras aí fora, por favor’
Clint levantou a parte de trás de sua jaqueta de couro marrom e sacou de sua cintura uma pistola Colt 45 cromada. Eu sei que era uma Colt 45, porque perguntei. ‘Putz. Colt 45!’, exclamei, após ele matar minha curiosidade, ‘Tem quantos tiros, no pente?’
‘Sete’
‘É suficiente?’
‘Para sete pessoas, é’
Respirei aliviado, com aquela pistola do meu lado do time, e fomos entrando.
Vasculhamos cômodo por cômodo, sem tocar em nada. Não havia ninguém na casa. Tudo revirado, mas ninguém à vista. Atravessamos a casa por seus longos corredores, até chegarmos à porta da cozinha, que dava para o quintal. Lá, na parte de trás, estava Bill, que tinha dado a volta pelo corredor lateral.
‘Tem um monte de telha caída e umas marcas profundas aqui, Homero’, indicou Bill, apontando para o chão, ‘Elas seguem para o fundo do quintal e aparecem de novo na praia do rio, depois de descerem o muro de arrimo, ali embaixo’
‘Pô, Bill, eu não falei para você ficar com as senhoras? Tudo o que você achar, eu acho dobrado. Você vai é me atrapalhar’, censurou-lhe Homero.
‘Fique frio, rapaz. Não pus a mão em nada e não tem ninguém aqui’
‘Vigie, então, para que ninguém entre no quintal, aí por trás. Vamos voltar para dentro da casa, porque creio que subiram para o sótão. Olhem ali, no teto. Há um alçapão aberto do lado da coifa, no canto da cozinha’, observou Homero.
‘Ali vai ser difícil de vasculhar. Quem puser a cabeça, pode tomar um tiro’, comentei.
‘Me deem uma escada’, falou Clint.
‘Espere, Clint. Eu subo primeiro’, ordenou Homero, de maneira positiva.
De uma bolsa que levava a tiracolo, Homero tirou uma lanterna, encaixou-a em um suporte de madeira e, por fim, encaixou neste mesmo suporte um espelho semelhante ao de dentista, voltado para cima, em frente ao foco de luz. Subiu alguns degraus, inseriu o aparato na borda e o girou, olhando por baixo. Ele tinha lido muitos livros de detetive e seguia conforme os scripts que havia lido. “Um perigo esta turma que acredita em livro”, pensei. Mas ele era o que tínhamos e estava confiante. “Paciência…”, pensei.
‘Está limpo. Não é um sótão de uso frequente. É um vão do telhado. Vamos subir que lá tem alguma resposta. Depois voltamos’, disse Homero.
Uma parte do telhado, que dava para os fundos da casa, estava sem telhas e com as madeiras serradas. Começamos por lá. Tirei as fotos e Homero narrou o que viu, para as anotações de Temístocles. Clint ficou estático na beira da laje a observar as marcas no chão do quintal, apontadas por Bill.
‘Anote aí, Temístocles. Senhor Ícaro, por favor, fotografe as coisas que eu mencionar, na ordem que falo. Escreva o número da foto na cena do crime e deixe a caneta do lado, na hora da foto, para termos noção do tamanho. Telhas arrancadas, com parte delas empilhada na laje e parte lançada abaixo, no quintal. Rejuntes de cimento, das telhas do beiral, quebrados por objeto pontiagudo e afiado, não encontrado no local. Terças, caibros e ripas serrados. Serrote abandonado na cena, no piso do sótão. Objeto pesado, de base quadrada, arrastado de posição próxima à caixa d’água, até a borda, com vão destelhado. Marcas de ferrugem, deixadas em seu rastro, indicam que o objeto é de ferro ou aço. Aqui Ícaro, fotografe, por favor. É, provavelmente, algo semelhante a um cofre. Objeto lançado da borda da laje, na região do telhado arrancado, quebrando parte do cimento e formando marca profunda no piso de grama do quintal. Impressões digitais em praticamente todas as marcas de poeira. Ícaro, vou coletar estas impressões e você fotografe cada vez que eu coletar, de longe, para dar a localização, e, de perto, com o número da impressão’
Ficamos todos calados e sem tocar em nada, satisfeitos, enfim, com a determinação de Homero e suas ações precisas. Inclusive eu, estava satisfeito. Para as digitais, ele simplesmente sacou um largo rolo de fita adesiva de sua bolsa, do qual cortava os pedaços para coletar as digitais. Isto feito, prendia os pedaços de fita, com as digitais, em uma página do próprio bloco de notas de Temístocles, numerando-as. Nada faltava, para suas iniciativas. Todas as ações pareciam planejadas há tempos. De sua bolsa saíam lanterna, canetas, lupa, pó de grafite, blocos, durex, tesoura, sacos plásticos, canivete, barbante, tudo. Parecia bolso de avô, especialmente por carregar também um relógio de bolso. No caso, um relógio de bolsa.
‘Podemos descer, meus amigos. Aqui está tudo claro’, convocou-nos Homero.
‘Ok, vamos para os cômodos lá de baixo’, respondi.
‘Não. Voltamos depois com mais calma, se precisarmos, para examinar, tirar fotos e anotar. Pode haver algo dentro da casa e teremos que isolar tudo, mas, certamente, o principal ocorreu aqui no sótão e agora está lá fora. Os malfeitores saíram pelo quintal, pois tinham que levar o cofre ou seja lá o que for. As pistas lá fora estão mais frescas’
Seguimos Homero em silêncio, ouvindo suas instruções e anotações. Porém, como ele disse, tudo já estava claro. Entraram na casa, reviraram tudo, acharam um cofre no sótão e o levaram, jogando-o, de lá, no quintal, de onde o carregaram para a beira do Rio Alma, para escapar. Pelo menos achamos que era tudo, mas Homero queria mais. Queria saber quantos homens eram, o que rapidamente solucionou, com os três tipos de pegadas distintas e bem fundas na areia da beira do rio. Distinguiu-as de outras marcas, por estarem mais fundas e, portanto, sob o peso de carregar o cofre. Fotografamos as pegadas com uma régua ao lado, também saída da bolsa de Homero, para identificar os tamanhos. Fotografamos também as marcas deixadas pelo cofre. Estávamos agora, eu, Homero, Temístocles, Clint e Bill na beira do rio. Euclides ainda guardava as moças e a entrada da casa. ‘E daqui, para onde foram?’, perguntou Bill.
‘As marcas vão para a água. Entraram em um barco’, respondeu Homero.
‘E ninguém viu?’, perguntei.
‘Talvez, mas com a festa e o comício, é possível que não houvesse ninguém para ver. Vamos verificar’
‘Era esta a resposta que eu esperava. Este comício não aconteceu por acaso’
‘Brilhante’, comentou Homero, com uma ironia desnecessária, que me divertiu.
‘Tem algo ali’, disse Clint, que nos dava as costas e observava o rio, ‘Acho que é uma pessoa’
‘Tome meu binóculo’, disse Homero a Clint, entregando-lhe um pequeno binóculo dobrável, também tirado da bolsa sem fundo. Homero sequer se voltou para Clint e permaneceu agachado sobre as marcas no chão, compenetrado, sem desviar-se delas. Clint pegou o binóculo e olhou para a outra margem, em um ponto mais acima no rio, próximo à Ponte de Balanço.
‘Vamos rápido!’, disse Clint e saiu em disparada.
‘O que foi?’
‘É o Otacílio caído na outra margem. Não está se movendo’
Naquela mesma tarde, na Fazenda, Sarí e Garrido descarregaram o cofre e o levaram para a sede. Lá, os esperava Chyntos, acompanhado de Menon e Basto. Após o roubo, eles carregaram o cofre em um barco, deixaram Malaquias na outra margem e seguiram rio abaixo. Saíram pela barra, ao sul da cidade, e subiram pelo mar até o atracadouro da Fazenda, ao norte. Tardaram mais do que previam, pois tiveram o cuidado de passar longe no horizonte. Não queriam se arriscar a serem vistos pelas pessoas no funeral, que poderiam ainda estar no cemitério com vista para o mar. A empreitada demorou, pois foi grande a distância que navegaram, mas estavam seguros de não terem sido flagrados. Entraram na sede pela porta de trás, após cruzarem a passarela de madeira que a ligava diretamente ao atracadouro, vindo do mar até a varanda. Era uma grande varanda, que dava entrada para a sala em que Chyntos os reunia e para as portas de vários outros cômodos da casa. Levaram o cofre em um carro de mão e estavam muito contentes, com o inesperado sucesso de sua empreitada. Isto até entrarem na casa.
‘Seu Chyntos, com licença. Olhe aqui o que o Malaquias achou para o senhor’, anunciou Garrido, apontando para o cofre, que Sarí exibia com um sorriso orgulhoso,
enquanto o deitava no chão.
‘O que é isso? Por que vocês trouxeram esta porra para cá, seus merdas?’, reagiu Chyntos, apavorado. Basto saiu à francesa, ao ver a cagada.
‘Mas, Seu Prefeito, o Mula falou que era para trazer. Quebramos a casa do Seu Heinrich toda para achar o cofre’
‘Era para achar, mas não era para quebrar nada, nem para trazer. Vocês estão pondo minhas mãos onde eu não pus, porra. Esperem lá fora’, ordenou o trêmulo prefeito, ao que os dois capangas obedeceram com alívio. Sabiam que o prefeito era perigoso, quando perdia a cabeça.
‘Calma, Chyntos. Uma hora você ia ter que pôr as suas mãos no que é seu, no que é sua obra. Melhor agora, que é direto no nosso dinheiro’, disse Menon, divertindo-se com a covardia do chefe e contente por ter um trunfo sobre ele. Aquele babaca estava confortável demais, tendo sempre alguém para agir em seu benefício, pensava Menon.
‘Eu não ia pôr as mãos em nada. Ia mandar Dona Pilar em uma viagem com a menina dela. Acertei tudo para mandar o Doutor Creonte buscar o dinheiro e a papelada que o Heinrich tinha, lá na casa dela, logo que ela viajasse. Veja bem, não queremos só o dinheiro. Precisamos do livro e dos contatos. Mais importante que o dinheiro: o livro e os contatos’, mentiu Chyntos, neste último quesitozinho.
‘Agora não importa. Não dá para desfazer. De todo modo, deve estar tudo no cofre. Abra logo’
‘Abrir como, porra?’, respondeu Chyntos, cada vez mais irritado. Mas esta resposta, inesperada para Menon, deixou-o agora tão irritado como o prefeito.
‘Com o segredo, caralho! Você não disse que o Heinrich te deu o segredo?’
‘Segredo porra nenhuma!’
‘E aí, Seu Prefeito? E aí?’, falou Menon entre os dentes, segurando os braços de Chyntos e debruçando-se sobre seu rosto.
‘Senta ali e cala a boca. Não esqueça quem manda. Não esqueça!’
‘Tá, tá. Desculpa. Mas, e agora?’
‘Agora vai do jeito que está. O Malaquias está trazendo o Doutor Creonte, junto com a Mnísi. Eles foram à casa dela, porque a coroa passou mal no comício do Cafezal, que o senhor não foi’
‘E daí que o Doutor Creonte vem?’
‘Doutor Creonte abre o cofre. Já abriu outros para mim. Por isso, não me importei que Heinrich não me passasse o segredo, aquele canalha’
Foi quando bateram à porta os recém-chegados, já precavidos por Sarí e Garrido, da insatisfação com sua iniciativa. “Eles não fazem ideia”, pensou Malaquias, muito menos preocupado com a bronca de Chyntos e Menon, do que com a linha que cruzara. Já havia surrado, já havia prendido, já havia ameaçado, já havia mandado matar, mas jamais tivera que assassinar alguém, ele mesmo. Agora, que matara, imaginava que devia sentir-se mais homem, mas tudo o que sentiu foi vazio e pânico. Desespero por não poder voltar no tempo. Esperança vã de que fosse um pesadelo. Solidão.
‘Com licença, Chyntos’, veio à frente Mnísi, ‘O Sarí já nos informou da cagada que o Senhor Malaquias nos aprontou. O senhor planeja tudo e este Mula estraga para fazer justiça ao apelido’, continuou ela, para não perder a oportunidade de bajular.
‘Pode fazer o que o senhor quiser comigo, Seu Prefeito. O que eu queria era fazer mais ainda do que o senhor mandou. Me explique o problema que vou consertar’,
arriscou Malaquias, colocando-se nas mãos daquele homem traiçoeiro.
‘Agora, você pode sair com a Dona Mnísi e esperar lá fora, com Sarí e Garrido. Vigie para ninguém se aproximar da casa. Doutor Creonte, temos trabalho para o senhor’, disse ele, apontando para o cofre, ‘Onde está o Doutor Basto?’
‘Saiu. Quer poder fingir-se de santo’, riu-se Menon, ‘Aquele ali eu tenho no bolso, tanto quanto você. Mais que o bolso, tenho o cargo’. Fecharam a porta, à saída dos lacaios, e ficaram lá os três. Doutor Creonte deu as primeiras instruções.
‘Os senhores pretendem ficar aqui, enquanto abro o cofre?’
‘Claro. Queremos ver. Queremos ajudar’
‘Não há isto, neste ramo. Isto aqui é cofre e cofre tem dinheiro e poder. Há regras’
‘Tudo bem, vamos lá’
‘Perfeito. Primeiro, vou tirar minha arma e colocar sobre a mesa, distante de todos nós. Vocês farão o mesmo e tirarão a camisa e a calça’
‘O que é isto? Para quê? Que ideia louca’
‘Não tem nada de louca, a ideia. Quem vai ficar de quatro no chão, com o ouvido na porta do cofre, sou eu. Já estou desarmado e vou virar alvo fácil. De quatro! Então eu quero vocês limpos e à minha vista. Encostem-se na parede em posição que eu veja, quando eu colocar meu rosto sobre o cofre’
‘Você não confia em nós?’
Doutor Creonte apenas os olhou soturno e eles entenderam. Colocaram suas armas junto à do pistoleiro, ficaram de cueca e meia e se encostaram na parede, indicada pelo olhar ameaçador do empregado que temiam. Doutor Creonte deixou seu cinco tiros engatilhado no calcanhar, escondido dos olhos dos dois, que, de tão ansiosos pelo dinheiro, não pensaram em revistar o arrombador de cofre. Doutor Creonte já contava com isso e estava decidido. Ao constatar o dinheiro, que era a razão de todo aquele tempo em que aturara aquela laia, teria a possibilidade de, imediatamente, dedicar uma bala a Chyntos, uma a Menon, uma a Malaquias, uma a Sarí e uma a Garrido. Abriria a porteira da Fazenda, para quem quisesse entrar ou sair. Seria um mundo melhor, com a porteira da Fazenda aberta e aqueles merdas debaixo da terra.
O pensamento lhe agradava, mas não tinha certeza de ser o momento certo, pois não o tinha planejado. Aquela oportunidade era acidental, da maneira que se apresentava. Ele imaginava ter que abrir o cofre longe dos olhos de todos, no local onde fosse descoberto por Malaquias, ainda na casa de Dona Pilar. Afinal, era como havia combinado com Chyntos. Porém, o fato de não ter planejado com antecedência
não fazia menos interessante a oportunidade de ficar com o dinheiro e eliminar algumas pragas. Um dilema, este: matar ou não matar? Por outro lado, se matasse, teria que dar cabo de Mnísi e ele não poderia matar uma mulher, ainda que ninguém a visse como tal.
Para seu alívio, não foi o momento de matar as pestes. Ao abrir o cofre, ele deu um grande sorriso, que virou uma risada alta e, depois, soluços e lágrimas de gargalhada. Chyntos e Menon correram assustados para o cofre deitado no chão, vazio, a não ser por uma certidão escrita em alemão. Os dois sentaram-se de cueca na beira do cofre. Doutor Creonte riu ainda mais, deu-lhes as costas e seguiu de volta para Flordeliz.
Na beira do Rio Alma, em uma tarde sem volta, as pessoas do Cafezal aglomeraram-se na cabeceira da Ponte de Balanço. Observavam Clint à nossa frente, descendo pela ribanceira. Lá embaixo, à beira do Rio Alma, Clint examinava Otacílio, para constatar ser tarde demais. Bill, Euclides e eu nos juntamos para conter Temístocles e Homero. O mais velho chorava aos soluços e o caçula fechava os olhos e respirava fundo. Chegaram Vênus e Nicéia, para amparar Flor, com seus gritos desesperados. Ainda não sabiam que eles ecoariam para sempre, pois o amado de Flor não voltaria.
‘Chamem o delegado. Precisamos dele’, disse Clint, ‘Não há o que fazer aqui, sem uma autoridade’
‘Eu sou autoridade’, disse Homero, ao se desvencilhar de nós.
‘Vou com você’, prontifiquei-me.
Àquela altura, mesmo ele sendo ainda muito jovem, eu já sabia que Homero, embora abalado, seria a pessoa certa para analisar a cena. O Delegado Nicanor não ajudaria. Se era para não resolver, podiam contar com ele. Do contrário, podiam esquecer. Pior ainda, eu temia que Nicanor pudesse até ser favorável aos culpados. Afinal, ele acabara de fazer isso no dia anterior, com a conivência do juiz e do promotor. O cenário só não era desesperador, porque não sou dado a desespero. Ingrediente tinha de sobra.
‘Fico aqui’, sentou-se Temístocles e chorou, com a cabeça pousada sobre os joelhos.
Contra a luz do sol, que descia na mais triste tarde de Flordeliz, as gotas de água que saltavam do Rio Alma cruzavam-se no ar com as lágrimas silenciosas de Homero. Ali, a lente de minha câmera capturou a dança de cores na névoa da correnteza, quando meu espírito capturou uma memória negra. Homero, impassível em seu choro silencioso, fazia suas próprias anotações e me apontava onde fotografar. Lembrei-me de Helena, mas Dona Nicéia já havia tomado a frente de tudo. Enviou seu marido Nico pelo delegado e ordenou que Vênus deixasse Índio e Cowboy de guarda na casa
dela. As Cages se dividiram entre as cenas, quatro na casa de Helena e quatro na beira do rio. Postaram-se estranhamente, como se fossem guardas, e parecia que, na cidade, emergia um novo poder.
Depois de tudo registrado, chegou o Delegado Nicanor. Ele nada falou, mas seus olhos estavam vermelhos e sua mão repousava firme sobre seu revólver. Havia muito tempo que já não o colocava na cintura. Seguimos com o corpo de Otacílio para a delegacia, carregando-o pelos braços e pernas. Um homem morto pende como uma ave morta.
Repousamos o nosso amigo em um catre da cela vazia e o cobrimos, para esperar por Padre Nikos. Nos reunimos na sala da frente, como em uma operação de guerra. Ali aguardamos as impressões de Homero, para decidirmos o que fazer. Clint, que controlava a entrada na porta, depois que todos já estávamos lá, permitiu a entrada do Doutor Creonte. Antes, falou com ele por alguns minutos, em voz tão baixa, que nos deixou intrigados. O Delegado Nicanor foi o primeiro a contestar a entrada do pistoleiro de Chyntos.
‘Acabou a brincadeira, meu amigo. Pode voltar para a prefeitura’
‘Guarde sua arma, delegado. Clint me conhece e sabe o que vai acontecer’
‘Como é que é isso, Clint?’
‘Ele é tio dos meninos. Dona Nicéia também sabe’
‘Nós não temos tio. Nunca tivemos’, falou Homero, calmamente.
‘Zenon, o pai deles, foi criado por minha mãe. Ele era criança e eu já deixava minha casa. Dona Eurídice, mãe deles, minha cunhada, não me aturava e não a culpo. Nunca os conheci, mas nunca os perdi de vista’
‘Fique’, disse Temístocles, ‘Eu sei da história. Continue, Homero. O que sabemos?’
‘O punhal, que arrancou telhas na casa de Dona Pilar, foi o mesmo que arrancou Otacílio de nossas vidas. Sei tudo’

XVIII. O Porão de Segredos

Aqueles momentos na delegacia são minhas piores lembranças. Em todos nós, além da dor no espírito pela perda de um amigo, além dos corações fragmentados de Temístocles e Homero, além do arrependimento do delegado por não ser quem deveria, além de surdez pelos gritos sem eco de Flor, além da cegueira pela nuvem do morto, além da agonia do corpo que teme seu destino, além do terror da longa noite e da fraqueza, além do fel na boca e da lança na costela, além de tudo, havia ainda o cheiro doce do sangue de Otacílio. Nenhum dos sentidos foi poupado do flagelo.
Fico feliz de não termos nos resignado, como quem se ajoelha para tomar o tiro na nuca. Resistimos. As dores, naquela hora, não importavam. De uma correnteza mortal, só se sai com remadas invencíveis. Seguimos em frente e reunimos nossas forças, para planejar e agir. Ainda que buscássemos apenas a punição aos culpados, iríamos agir. Esta história de recuperar e corrigir está certa, mas a punição deve vir antes, quando há morte. Éramos eu, Euclides, Temístocles, Homero, Nicanor, Bill, Clint e Doutor Creonte, e estávamos prontos para a desforra.
‘Explique, então, meu filho’, instou o delegado, ‘Dê-me o veneno para matar minha indolência’. Ele suplicou a Homero, que devia dar-lhe elementos para fazer tudo que ele sempre evitara.
‘Por que agora, Nicanor? Por que vamos confiar em você?’, perguntou Doutor Euclides, esperançoso de ouvir a resposta de que precisavam.
‘Porque Otacílio não será um dos meus pecados’
‘Isso basta. Siga em frente, Homero. Diga o que sabe para acender o pavio. Talvez assim Flordeliz renasça’
Homero fez um resumo, para não ser verborrágico. Teve receio de ser inverossimilmente falante como Hercule Poirot, nas conclusões dos seus mistérios improváveis.
‘Três homens roubaram um cofre da casa de Dona Pilar. Um deles arrancou telhas com um punhal de lâmina dupla, que estou certo de ser do tipo que os pescadores daqui usam para abater peixe grande, quando é puxado ao barco, ainda se debatendo. O mesmo punhal feriu de morte meu irmão e deixou em sua camisa as marcas do barro, do limo e do cimento, os resíduos que se prenderam nele ao abrir caminho entre as telhas rejuntadas. Sei tudo e posso contar cada passo. Tudo, a não ser, quem’
‘Sabemos tudo então’, completou Doutor Creonte.
‘Calma lá. Vamos com calma. Dê todos os detalhes, porque vou colocar n’O Furo’, pedi.
‘Tudo bem, dou os detalhes que sei. Compartilhar entre nós é uma boa prática, mas não pode publicar. A investigação está em andamento’
‘Eu escrevo a notícia e depois você corta o que não puder sair. Tem que publicar, porque não podemos correr o risco de a história ser abafada’
‘Você está errado, meu filho’, disse o delegado, ‘O bandido também lê jornal. Ou alguém lê para ele. Ele pode limpar as pistas, se preparar…’
‘Na nossa terra, meu amigo, vale mais a versão do que o fato. Sou a favor de divulgarmos a versão verdadeira, antes que uma mentira a apague’, argumentou Doutor Euclides, ‘O que for mais delicado, nós guardamos para depois’, completou ele.
‘É uma boa medida, eu acho. Não podemos admitir outra versão de suicídio, Seu Nicanor’, manifestou-se Temístocles, repreendendo o delegado, por ele ter tramado a versão de suicídio de Heinrich.
‘Perdão, meu filho’, respondeu Nicanor, ao reconhecer seu erro.
‘Vamos seguir rápido com isso. O momento exige cuidados. Vou vigiar a porta, do lado de fora’, disse Clint.
‘Você não quer ouvir?’
‘Já sei o que preciso’
‘Vou explicar no papel, então’, iniciou Homero. Ele escrevia suas observações em uma folha branca, com papéis carbono e mais folhas por baixo, fazendo um sanduiche em multicamadas, ‘Vou deixar cópias com vocês. O que tiver F na frente é fato, S é suspeita e P é para o que suspeitamos, mas temos forte prova.’ Homero narrou tudo, da forma como já sabemos, e ficamos todos com cópias da folha abaixo.
F – Heinrich apareceu morto em seu gabinete, na prefeitura
F – A versão oficial atribuiu a morte de Heinrich a suicídio
P – Heinrich foi assassinado
S – Heinrich foi atraído à prefeitura, para lá ser morto
S – A prefeitura teve interesse em encobrir o assassinato
S – Heinrich e o prefeito não estavam mais em sintonia
F – O prefeito fez um comício durante o velório de Heinrich e o estendeu até o Cafezal, durando mais de três horas
F – Comício durante funeral é totalmente inadequado
S – O comício foi realizado com o intuito de distrair a atenção das pessoas
F – A casa de Dona Pilar foi invadida e saqueada
P – Uma caixa de ferro, talvez um cofre, pesando em torno de cem quilos, foi roubado
do sótão da casa de Heinrich, durante o comício, sendo lançado pelo beiral da laje, onde o telhado foi arrancado
S – Os bandidos estavam, desde o início, em busca de algo como um cofre, pois não abriram gavetas, que só cabem coisas pequenas, mas arrastaram móveis e esvaziaram guarda-roupas, onde um cofre poderia estar
P – Os facínoras estavam em três, conforme pegadas dos que carregavam o cofre
S – Um dos criminosos usou um punhal de pescador de duas lâminas, para arrancar o rejunte das telhas
S – Os marginais carregaram o cofre em um barco e um deles foi deixado na outra margem do Rio Alma, provavelmente o que portava a peixeira
S – Otacílio viu os homens no barco
F – Otacílio foi morto em emboscada, pois não há sinal de luta 
P – Otacílio recebeu um golpe do mesmo punhal que destelhou a casa, pois há vestígios
do cimento, do barro e do limo do telhado, em torno da ferida que o vitimou
S – O assassino é peixeiro, tem ajudantes, está a mando de alguém acima dele e foi encoberto pelo comício
S – Foi o M, se pudermos provar que ele estava lá
F – Precisamos do punhal do crime
F – Precisamos achar o item roubado, o suposto cofre
S – O punhal nos levará a M
‘Tome, Ícaro. Está autorizado a publicar o que está com F, na frente’
‘Combinado, mas é melhor rabiscar o M do Malaquias aí no papel. Pode extraviar’
‘M serve para Merda!’, disse Creonte, socando a mesa. ‘Escreva Malaquias, escreva Chyntos, escreva quem você quiser’
‘O que você tem para nós?’
‘Chamem o Clint’, pediu o doutor.
Os dois, Clint e Creonte, já moravam na Pensão do Chileno havia alguns anos. Homens com aquelas semelhanças, ou eliminam-se um ao outro, ou aliam-se. Eles não tinham porque se eliminarem, portanto, mesmo sem serem amigos, tornaram-se cúmplices. No que valesse a pena, eram cúmplices. Clint entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Recebeu uma folha com o carbono das anotações de Homero e correu os olhos por ela, sem nos dar atenção.
‘Sim’, disse Clint, intenso, ratificando as conclusões do nosso investigador, ‘Mas temos mais. Temos mais. Doutor Creonte vai falar’
‘Muito bem. De onde eu estava, durante o comício, vi Malaquias chegando.
Ele chegou muito depois de o comício ter começado e parou logo na entrada do largo. Lá, conversou com Otacílio por alguns minutos, que saiu de volta, em direção à cidade. Malaquias o seguiu e os dois desapareceram de minha vista. Pouco depois, Malaquias voltou sozinho. Foi ele. Ele é meu, agora’
‘Não vamos nos precipitar. Também acho que foi ele, mas temos que pegá-lo com o punhal. Não é isso, Homero?’, observou Euclides.
‘Não é necessário. Para prendê-lo, não é necessário. Foi o último a ser visto com o Soldado Otacílio. Vou buscá-lo’, disse o delegado, ‘Aqui nós damos porrada nele até ele entregar. Não vai gastar mais de um tapa na cara daquele filho da puta’
‘Ele não precisa confessar’, disse Doutor Creonte.
‘Mas vai’, afirmou um Temístocles exaltado, enquanto eu anotava tudo.
Bill permanecia cabisbaixo, dedilhando seu violão, e Clint dedicava-se a inspecionar sua arma, abrindo-a, soprando em seu cano, tirando e recolocando a munição no pente.
‘Eu disse que não precisa, porque sei que foi ele’, comentou Doutor Creonte.
‘Todos sabemos, mas precisamos de evidências’, disse Homero.
‘Eu tenho’, reafirmou o pistoleiro de negro.
‘Então você viu o que aconteceu, ou achou o punhal. Temos as digitais.
Um homem igual a Malaquias, um peão daqueles, não limpa as digitais’, emendou o delegado, ingenuamente.
‘Se o criminoso tiver o cuidado de se livrar da arma, a primeira reação é de limpá-la antes. É instintivo. É como se ele se limpasse também. Dá-lhe a sensação de afastar-se do que fez. Além do mais, está em muito filme, desde os antigos, de gangster. Para a arma ser útil, temos de achá-la com ele, escondida em algum lugar’, observei, um pouco sem paciência, com a pouca prática do homem da lei.
‘Quem apunhalou meu sobrinho foi a mesma pessoa que participou do roubo do cofre de Heinrich, certo?’, continuou Doutor Creonte, fazendo agora questão de ressaltar que era um assunto pessoal, um caso de família, ao dizer “meu sobrinho”, ao invés de falar o nome Otacílio, ‘Foi Malaquias quem liderou o roubo. Sarí e Garrido, aqueles dois imbecis, foram com ele’
‘É o que suponho também’, disse Homero.
‘Eu não suponho, eu sei. Eu vi. O cofre está na Fazenda. Foi levado para lá por Sarí e Garrido, de barco’
‘Você estava lá?’
‘Cheguei lá depois, com Malaquias e Dona Mnísi, para ela e ele se encontrarem com o prefeito. Eu os levei até lá em minha caminhonete, a pedido dele. Foi o seguinte: depois de haver seguido Otacílio, quando Malaquias
chegou de volta ao comício no Cafezal, Dona Mnísi estava passando mal. A levamos juntos até sua casa onde ela se refrescou e, de lá, seguimos para a Fazenda, para eles dois se encontrarem com Chyntos’
‘E você viu o cofre?’
‘Mais do que isso. Sarí e Garrido nos encontraram na porta e disseram que o prefeito estava puto por eles terem tirado o cofre da casa de Heirinch e o levado para a Fazenda. Entramos, os três, na sala de reunião da fazenda. Malaquias pediu desculpas por ter pego o cofre, já que era ele quem liderava a empreitada. Não era para pegar, pelo jeito. Ele deveria achá-lo e informar, mas, na sua ânsia de bajular e aproveitando a presença dos dois ajudantes, acabou por fazer a asneira. Eu não sabia do cofre, até aquele momento, mas eu sempre soube que, pelo menos, uma parte do dinheiro desviado por eles estava com Heinrich. Estou atrás deste dinheiro há um bom tempo’
‘Você os estava investigando? Quem é você? Para quem você trabalha?’, perguntou o delegado.
‘Para mim. Por isso, Eurídice não me aturava. Mas isso não importa agora.
Meu trabalho, neste ramo, acabou’
‘Eles estão com dinheiro, vão fugir’, comentou Bill, agitado, até de maneira surpreendente, para quem parecia absorto com o violão, para quem parecia estar em uma fuga interior, de toda aquela tragédia.
‘Não vão fugir. Chyntos e Menon querem mais, sempre mais’, comentei, descuidadamente. Por sorte, a conversa se desviou de mim e me safei de ter que dar explicações, de como sabia coisas que não tinha como saber.
‘Como é que você pode saber disso, Seu Ícaro? Podem fugir, sim’, interrompeu-me Temístocles, impaciente, e continuou, ‘De lá, depois de ver o cofre, você voltou direto para cá, Doutor? O Malaquias veio com você?’, perguntou Temístocles.
‘Malaquias ficou lá, mas talvez ele tente fugir, sim. Chyntos e Menon não fugirão, ainda mais porque eles não sabem de tudo. Se não sabiam que  o cofre havia sido pego, não vejo porque saberiam que Otacílio foi morto por uma ação deles’, resumiu Doutor Creonte.
‘Mas podem fugir com o dinheiro’
‘Não há dinheiro’
‘Como o senhor sabe? O que mais aconteceu?’
‘Chyntos despachou Malaquias e Mnísi para fora. Eu fiquei para abrir o cofre. Estava vazio, a não ser por este papel aqui, em alemão. Parece ser uma certidão’, completou Doutor Creonte, ao tirar uma folha dobrada do bolso de seu paletó.
Naquele momento, suspirei aliviado. Se eles estivessem com o dinheiro, tudo ficaria mais difícil. Agora, sem recursos, eles eventualmente estariam perdidos. Poderia demorar, mas eles estariam perdidos. O desaparecimento de Heinrich resultou no corte dos recursos da canalha, como principal efeito. Era o ideal para acontecer. Se eles o recuperassem, tudo poderia se perder. No entanto, aquele desfecho veio a calhar. Chyntos não somente não tinha os recursos, como também não sabia onde encontrá-los. Eu sabia. Ou, pelo menos, eu achava que sabia. Euclides pediu a folha de papel e Doutor Creonte a entregou.
‘Pode ficar com ela. Examine-a, pois pode conter alguma informação. Eu não sei alemão, mas não parece ser nada’
‘Receio que você esteja certo, se você se refere diretamente ao nosso caso. Quanto à relação de Heinrich com Chyntos, não parece haver nada de relevante. No entanto, por outra perspectiva, pode ser importante para conseguirmos auxílios preciosos’, comentou Doutor Euclides, com um sorriso malicioso.
‘Diga logo’
‘É uma comenda. Um Eiserne Kreuz Zertifikat para o oficial SS Heinrich Adolph. Os oficiais SS, invariavelmente, faziam jus à suas famas demoníacas, que de resto adquiriram todos daquelas tropas. E se ele recebeu uma cruz de ferro, Heinrich era uma escória ainda pior do que imaginávamos. Ainda mais sendo médico’
‘E em que isso pode nos ser útil?’
‘Há organizações atrás de pistas sobre o paradeiro desta corja e das pessoas a quem eles se associaram. São organizações de gente poderosa e em busca de justiça. Não sei se precisaremos, mas é um trunfo’
‘Deixe-me ver’, pedi-lhe, recebendo a folha de suas mãos e examinando-a.
Era mais interessante do que parecia. Nas costas da folha, marcados levemente por um débil lápis, havia alguns números e letras. Podia não ser nada, mas podia ser tudo.
‘É, concordo com Doutor Euclides. Talvez possamos usar. Posso ficar com ela para examinar melhor? Verei isso depois, pois acho que tenho um caminho importante para nós. Acho que dei muita sorte em minha visita a Helena’, comentei, desviando o assunto e colocando a folha em meu bolso.
‘Tudo bem, fique e examine. Você fala alemão?’
‘Leio um pouco’, menti, ‘Mas tenho algo melhor. Suspeito que sei onde o dinheiro pode estar’
‘Se não está na casa do Heinrich, só pode estar na prefeitura’
‘Não creio. Ainda acho que está na casa do Heinrich. E tenho quase certeza de que sei onde. A não ser que Flordeliz tenha mestres de obras ruins pra burro’
‘Não é impossível. Mas de que você está falando?’
‘Pela manhã, quando fui entrevistar Helena, percebi que as medidas internas do consultório de Heinrich, logo na entrada da casa, não coincidem com as medidas dos corredores. Estudei Arquitetura, porque tenho estas noções boas de dimensões. Não tenho muita percepção das dimensões do ser humano, das facetas de seu espírito, mas, do espaço, eu tenho. Tem algo escondido lá’
‘É bem possível que tenhamos que lidar com estas coisas bizarras, de nichos escondidos e passagens secretas. Nazista é paranóico’, emendou Bill, ‘Qual nosso próximo passo?’
‘Acho que o óbvio. Vamos verificar isso, antes que Chyntos volte lá com seus capangas. Alguém mais conhece a casa?’, perguntou Euclides, ao que todos se entreolharam sem respostas, ‘Então é simples. Ícaro e Clint entram e verificam o que podem achar. Parecem ser os mais chegados a elas, agora’
‘Eu posso ajudar lá’, disse Homero.
‘Não, meu irmão. O carro virá por Otacílio agora, para levá-lo ao instituto médico. Padre Nikos deve vir junto e benzer nosso irmão. Nós vamos junto com o corpo. Vai ser uma segunda morte, mas você terá que acompanhar os exames. Você pode apressar a liberação do corpo de nosso Otacílio e ainda pode haver mais informações. Não vamos deixar passar nada’, determinou Temístocles, agora mais forte.
‘Deixe conosco, Homero. O que houver na casa de Heinrich, para você, vai te esperar. Ninguém passa por nós’, disse Clint, enquanto abria a porta, para sair.
‘Vamos guardar o lado de fora’, completou Doutor Creonte, batendo o salto da bota no chão, ao levantar-se.
‘Creonte, acho melhor você voltar para a pensão. Vigie do seu quarto. Podemos precisar de alguém dentro da prefeitura e da Fazenda. Chyntos não sabe de você’, argumentou Clint.
‘E nem vai saber, certo, delegado?’, ameaçou Doutor Creonte, sombrio, como era sempre.
‘Otacílio era o filho que não tive. Ele não se orgulhava de mim, porque não tinha do que se orgulhar. Mas ele era o filho que não tive’, replicou o delegado, sem relutância. Bastou.
O rabecão chegou para levar os três irmãos ao seu último passeio juntos. Padre Nikos, que mal chegava de volta à sua antiga escola, voltara a tempo de rezar por Otacílio. Fez suas preces na escada de entrada da delegacia, mas em voz tão baixa que apenas os mais próximos, nós que carregávamos Otacílio, ouvíamos. Aquela não era a missa de corpo presente. Ele recitava o Salmo 90 e, portanto, rezava por todos nós. Rezava também para que tivesse forças, para o que estava por vir. Ao declamar a passagem que diz “contemplarás o castigo dos pecadores”, seus dentes estavam cerrados, sua voz tinha um tom mais forte e mais doloroso, seus olhos expressavam sua firmeza. Até do padre, algo estava por vir. Finalmente.
Acompanhamos o caminho do carro fúnebre pela praça. As pessoas que, mais cedo, seguiram descontraídas atrás de meu Mustang, quando levei Pilar e Helena ao velório do famigerado, eram as mesmas que, agora, choravam à passagem de Otacílio, o amigo de todos. Da sacada da prefeitura, o prefeito e seus asseclas observavam, ainda sem saber o que se passara. Estou certo de que já tremiam, pois os acontecimentos não estavam a seu favor.
Aquela sacada, que tantas vezes abrigara os festins do prefeito e seus comparsas, naquele momento, abrigava o medo. Não que o medo não estivesse lá todo o tempo, pois onde estão os sete pecados, antes está o primeiro ancestral. Naquela tarde, naquela sacada, o medo era soberano, acompanhado de ninguém, um rei sem nenhum de seus súditos. O temor tinha domínio absoluto, como sempre sonhou e sonha. Os dias claros pareciam estar no passado e, à frente de Chyntos e Menon, caía uma longa noite. Era como se sentiam, diferentemente das outras tardes em que Cimarron monologava com os comensais da sacada da prefeitura. Foram-se os tempos em que podiam se fazer de surdos na
pândega, aqueles putos.
Na tarde marrom da morte de Otacílio, os convidados do prefeito não compareceram
à sacada de festas da prefeitura, tanto porque não foram chamados, quanto porque não iriam, se houvesse convite. O Promotor Basto, o velho Juiz Ildeu, os colegas do sindicato, o infiltrados do clero, os vereadores aliados, os políticos da capital, as acompanhantes profissionais, fossem esposas deles ou não, a partir daquele dia, negariam ter, em alguma ocasião, estado no alpendre de Chyntos. Lá estava isolado o núcleo duro, fingindo luto por Otacílio e Heinrich, quando, na verdade, estavam em luto por si mesmos. O Prefeito Chyntos, o Secretário Menon, a Secretária Mnísi e o Capataz Malaquias formavam um politburo em dor, que Sarí e Garrido, recostados nos extremos da balaustrada, protegiam de ainda não sabiam quem.
‘Sua turma é atrapalhada, Chyntos. Sua turma é atrapalhada. Que merda é esta, de o Otacílio aparecer morto?’, reclamou Menon, pelo canto da boca.
Ali na sacada, Menon tentava manter uma aparência inalterada. Preocupava-se em não despertar a desconfiança das pessoas que passavam abaixo de si, seguindo o carro com Otacílio. O rabecão, que levava o corpo de Otacílio ao IML, já desaparecia na curva da Pedra do Trovão, após cruzar a Ponte de Tábua, por onde se saía da cidade. Logo as pessoas voltariam seus olhos para a prefeitura.
‘Chame o Malaquias aí no canto para ele me explicar. Isso não é serviço desse banana, porque ele é covarde, e o sindicato não faz sem eu saber. Vai entender’, comentou Chyntos, ‘Deus ajude que seja uma coisa lá do Cafezal, acerto de contas, rabo de saia, sei lá’
Menon chamou Malaquias à balaustrada da varanda e achou estranho ele se encostar ao fundo, longe dos olhares dos que passavam. Logo ele, que tinha tanto orgulho de estar perto do poder.
‘Sim, senhor, Seu Chyntos’, atendeu Malaquias, ao caminhar para a frente da varanda sem tirar os olhos do horizonte, por sobre a multidão. Tentava disfarçar a conversa, do mesmo modo que faziam seus chefes.
‘Você fez bem de acabar com a raça desse soldado filho da puta. Ele estava trabalhando para nos prejudicar. Até o Delegado Nicanor reclamou dele’, blefou Chyntos, para soltar a língua do Mula e acostumado que estava a nunca falar nada diretamente.
‘Que é isso, Seu Prefeito? Não sei nada disso, não. Otacílio era meu amigo, eu o vi crescer’, respondeu rápido Malaquias, talvez até querendo acreditar no que dizia, mas matreiro. Antes de tudo, estava atento às armadilhas de Chyntos.
‘Pode falar, rapaz. Para mim, você pode se abrir. Tem até um prêmio para você, pelo bom serviço’, insistiu Chyntos, imaginando que o prêmio seria um aniquilamento lento, como somente seus colegas do sindicato sabiam fazer. Dáctilo e
seus meninos teriam serviço.
‘De jeito nenhum, Seu Prefeito. De jeito nenhum’, reforçou Malaquias, que, àquela altura, percebeu que sua vida estava em risco.
‘Você acredita nele, Dona Mnísi? Neste meu querido safado aqui?’, perguntou Chyntos, retoricamente, ao que a energúmena não perdeu a oportunidade de responder, simulando saber mais do que, de fato, sabia. Era uma chata.
‘Deixe-me olhar nos olhos dele’, disse ela, ao tomar Malaquias pelo rosto, ‘Ele está sendo sincero. Seria demais para ele’
‘Sou sincero, sim, senhora. Até quando assumi que decidi trazer o cofre’, falou ele, enojado por ter sido o único a levar aquele traste de mulher para a cama.
‘Mas isso não diminui sua falha. Cofre inútil, ainda por cima’, replicou Mnísi, sem perceber a indiscrição que cometia ao dar-lhe a pista de que o cofre estaria vazio.
‘De todo modo, ficou tudo mal resolvido. Vamos ter que tomar alguns cuidados.
Procure Dáctilo e fale que ele deve reunir seu pessoal do sindicato. Prepare também alguns quartos na Fazenda, porque vamos trazer uma ajuda da capital’, intercedeu, finalmente, Menon, fazendo o que achava que fazia melhor, que era botar ordem na casa.
‘Tudo bem, Seu Menon. É isso mesmo, Seu Chyntos? Vou lá para a Fazenda para preparar tudo. Mas o pessoal da capital, eu posso buscar na Kombi da Fazenda, se tiver urgência’, apostou o assassino, em uma sorte na qual ele mesmo não acreditava, que era a de fugir ileso.
Malaquias não acreditava, mas esperava uma resposta afirmativa. Assim, ele poderia partir para a capital, entregar o carro para os homens do partido e não mais voltar a Flordeliz. Nunca mais.
‘Está certo. É melhor assim. Você vai buscar os correligionários da capital, que, assim, eles percebem a emergência’, determinou Chyntos, quando viu um movimento na rua e continuou, ‘Olha, lá. Não estou falando? O delegado está indo para a casa de Heinrich de novo, junto com a raposa do Euclides e os amiguinhos dele. Vamos ter que ir lá, Menon, para saber o que está acontecendo. Chame o Doutor Basto e vamos. Esses três aí voltam para a Fazenda, para ficar longe do barulho. Malaquias, você chega lá, pega a Kombi e vai para a capital, imediatamente’
Assim foi feito. Malaquias estava aliviado. Iria sumir no mapa e deixar os problemas para quem iniciou tudo, aqueles que nunca lhe iriam recompensar pelos sacrifícios que fez, aqueles que poderiam até lhe imolar para livrarem seus nomes de qualquer acusação. Ainda mais que havia entendido, pelo que disse Dona Mnísi, que o cofre estava vazio. Sem dinheiro, para ele, só restaria castigo.
Chegamos de volta à casa de Helena, eu e Clint, seguidos pelo delegado, por Doutor Euclides e por Bill. Quando estávamos já à porta, guardada por Cowboy e Índio, aproximaram-se Doutor Basto, o prefeito e seus dois secretários de governo, vindos da prefeitura. Solenemente, desconsideraram nossa presença. Esta é sempre a estratégia de advogados, a de desconsiderar todos os que não podem usar. Foram direto ao Delegado Nicanor, que julgavam estar dentre os seus e, ademais, a única autoridade presente entre nós. O delegado nos fez sinal para seguirmos e parou diante deles. Ouvimos, à distância.
‘Boa tarde, Delegado Nicanor’, cumprimentou-o Doutor Basto, chamando o seu grupo para perto de si. Grupo este que julgava ainda ser-lhe de valia, pois não sabia do cofre vazio.
‘De modo algum, Basto. Não é uma boa tarde. O que você quer?’, respondeu o delegado de maneira ríspida, omitindo propositalmente o título de doutor, para a surpresa do advogado.
‘Entendo, Delegado. Entendo…’, capitulou imediatamente o advogado, ao dolorosamente deixar de lado sua costumeira arrogância, ‘Queremos apenas saber em que podemos ajudar Dona Pilar. Afinal, ela trabalha na prefeitura’
‘Vocês podem trancar a sala de Dona Pilar para que ninguém adultere o que está lá. Pode conter o que Heinrich escondia. Aqui eu tenho tudo sob controle. Foi um roubo ordinário’
‘Mas e o Soldado Otacílio?’, perguntava Doutor Basto quando o prefeito o chamou.
‘Vamos, Doutor Basto, o delegado tem razão’, insistiu Chyntos.
‘Isso, senhores. Obrigado. Quanto a Otacílio, não sabemos nada. Deve ter sido uma briga, nesta confusão de comício fora de hora que os senhores
aprontaram’
‘Certo, delegado. O senhor tem razão. Deixamos tudo em suas mãos’, disse Chyntos, com óbvia pressa de voltar à prefeitura.
A estratégia do Delegado Nicanor foi brilhante. Já desconfiado de que nada havia na prefeitura, apostou na minha hipótese de que teríamos sucesso na casa de Heinrich. Com isso, decidiu mandar o prefeito e sua corja de volta para a prefeitura, para onde nada achariam. Foi o que fez ao convencê-los de que lá encontrariam uma pista do que não acharam na casa de Helena. Como decerto já teriam olhado tudo no gabinete de Heinrich na prefeitura, logo após sua morte, agora lhes restava olhar entre as pastas de Dona Pilar.
Tivemos paz por todo o resto da tarde e até o dia seguinte, já que Chyntos e os seus teriam que revirar os vastos arquivos de Dona Pilar. Ela era a secretária assistente do prefeito e de todas as secretarias da prefeitura. Sua sala era uma floresta de armários que iam até o teto, com centenas de pastas de arquivos de todos os tipos e de todos os tempos. O vasto número de arquivos foi sorte e a estratégia foi irretocável. O Delegado Nicanor foi tão brilhante, que senti um pesar furtivo, por ele ter passado tantos anos sem nada fazer. Um desperdício de talento, um pecado grego.
Ao chegarmos à porta da casa de Helena, Cowboy, que guardava a porta, entrou veloz e trouxe de dentro Atena, para nos acolher. Clint enviou Cowboy e Índio à cena da morte de Otacílio, para acompanhar as Cage Girls, que vigiavam o local. Para lá, onde já estavam Nikky, Milla e Yuki, eles seguiram sem pestanejar. Parecia tudo coordenado com antecedência. Aquilo me tranquilizou. Apesar do desastre, as coisas andavam bem.
A casa de Helena estava cheia de mulheres e Seu Nico era o único homem a acompanhá-las. Lá, ele não tinha o papel de líder, ou protetor, ou qualquer coisa parecida. Ele servia petiscos de seu bar, sob o comando de Dona Nicéia, que, de resto, comandava tudo. Vênus tomava chá com Helena e Dona Pilar, enquanto três Cage Girls, Mona, Lace, e Mina, encostavam-se às portas dos cômodos, com pequenas armas de mão, de quatro canos. Mulheres da noite têm armas. Atena começou a contar-nos como examinaram tudo com cuidado e garantiu-nos que os bandidos nada levaram. Garantiu-nos também que não precisávamos nos preocupar, pois elas não haviam tocado em nada e nem deixaram que ninguém tocasse.
Atena veio até mim e, ao segurar minhas mãos, puxei-a a um canto. Falei baixo, para que ela percebesse a gravidade do pedido. Pedi que me ajudasse a explicar a Helena e a Dona Pilar que eu e Clint, e só nós dois, deveríamos ter acesso reservado ao escritório de Heinrich. Ela foi direta ao dizer-me que tanta autoridade era um atributo que unicamente Dona Nicéia possuía, o que, de fato, já sabíamos. Obedecemos ao ritual e Atena explicou a Vênus, que explicou a Dona Nicéia, que explicou a Dona Pilar e a Helena. Elas, naturalmente, concordaram, mas Helena levantou-se do sofá, dirigiu-se a nós e chamou-nos até o escritório de Heinrich. Entramos os três e ela fechou a porta às nossas costas.
‘Como vocês sabiam? Nem minha mãe sabe’, perguntou-nos Helena.
‘Eu não sabia, nem sei ainda, minha menina. Mas o jovem Ícaro sabe de algo. E parece que você também’, respondeu Clint.
‘Então?’, inquiriu-me Helena, mais com os olhos que com as palavras.
‘Está no porão’, respondi.
‘Que porão?’
‘O que se desce a ele por detrás desta estante’
‘Se há um porão, você sabe mais do que eu. Não há porão. Como seria possível?’
‘Primeiro, diga-me o que você sabe, para que eu tenha certeza do que eu sei’
‘Sei que Heinrich tinha um cofre no sótão, mas que jamais ia lá. Portanto, o cofre não era importante. Sei também que sempre que voltava com uma pasta cheia, estufada, da fazenda, da capital ou da prefeitura, ele se trancava no escritório até tarde. Na manhã seguinte, saía de casa com a mesma pasta, só que vazia’
‘Isso é tudo?’
‘Sei que ele arredou o centro da estante e entrou lá’, continuou ela, ‘Escondi-me em um armário no fundo do escritório uma vez, ainda pequena, quando o vi arredar a estante. Nunca mais me envolvi, nunca mais me escondi no escritório, mas sempre soube. Soube da estante, quero dizer, não de porão algum. Que porão é este? De onde você tirou isso?’
‘Deduzi das medidas. Percebi, hoje, ao estar aqui com você, que há um espaço atrás do armário, mas o espaço é pequeno. Pelo tamanho dos corredores, dá meio metro, mais ou menos. É suficiente para uma escada e sua casa é a única levantada acima do nível da rua’
‘É muita aposta’
‘É uma única aposta. Já apostei mais do que isto, antes’
‘Perfeito, crianças. Já entendemos tudo. Vamos derrubar o armário’, disse Clint, já empurrando os móveis ao lado com sua bota.
‘Deve haver uma maneira mais fácil, não é Helena? Você viu como Heinrich abriu?’, perguntei.
‘Vi que ele mexeu em alguns livros e uma trava soltou. Ouvi o barulho. Aí ele puxou o centro da estante, que deslizou suave. Quando ele entrou atrás do móvel, eu saí escondida. Nunca mais voltei. Sempre tive pavor daquele homem’
‘Deixem-me testar uma coisa. Helena, por favor, tranque a porta’, pedi a eles que se postassem de frente da estante e retirei o certificado da cruz de ferro, do bolso de minha jaqueta. Olhei os números atrás da folha, afastei-me da estante, para ter a vista de tudo, e requisitei a ela que me ajudasse novamente, ‘Helena, empurre o nono livro da primeira prateleira, aí embaixo’
Helena obedeceu, mas nada aconteceu. O livro ficou imóvel. Pedi agora a ajuda de Clint, esguio e alto. ‘O nono livro da prateleira de cima, por favor.’ Ele empurrou e o livro afundou-se, fazendo um pequeno click.
‘Ok. P1 é a primeira prateleira, contando de cima para baixo. L9 é o nono livro da esquerda para a direita. Temos mais quatro livros pela frente. Está fácil. É igual a código de xadrez. Ou batalha naval, tanto faz’
‘Vamos logo’, ordenou Clint.
‘Claro. P2 L12… Click; P3 L21… Click; P4 L3… Click; P5 L24… Click Clang’
A estante moveu-se um pouco. Clint puxou levemente e o centro dela veio para a frente, levantando-se do chão, sem marcá-lo. Engenhoca muito bem feita. Atrás dela, revelou-se uma escada de barras de metal presas à parede.
Por ela, podia-se descer através do vão no piso. Com a porta do escritório trancada, verificamos que a janela estivesse bem travada e descemos os três. Clint foi na frente, com um isqueiro aceso. A besta do Heinrich teve o cuidado de fazer a passagem secreta para esconder seus segredos. Escondeu, sim, mas escondeu tudo dentro de casa. Eh, nazista burro, pô.
Encontramos um interruptor e acendemos a luz tênue, que mal iluminava todo o cômodo. Era um porão inesperadamente grande, que media algo em torno de trinta metros quadrados. As paredes e o piso eram de uma pedra clara, um quartzito, e o teto era de madeira, rebaixado, de modo a ter um bom espaço entre ele e piso da casa acima. Era pintado com cal, o que clareava o ambiente um pouco. No centro do porão, bem debaixo do lustre de metal com uma lâmpada incandescente, ficava uma grande mesa de jacarandá e, sobre ela, repousava um livro. “Ali está o verdadeiro tesouro”, pensei, como decerto pensaram também Clint e Helena. Havia uma só cadeira, encostada à mesa, e três conjuntos de prateleiras, presas diretamente nas paredes de pedra. Apenas ficava livre a parede com a escada de vergalhões de aço, por onde entramos.
Aquela cadeira única, no centro do grande porão, com uma só lâmpada, indicava que Heinrich trabalhava sozinho naquele bunker. Cada ação que fazia, cada pasta que retirava de uma prateleira, ele levava para o centro de sua grande mesa, para realizar o seu trabalho, ou sua tramóia. Havia conjuntos de oito prateleiras cada, um ficava na parede do fundo, oposta à escada, e os outros em cada parede lateral. Nas prateleiras, sempre uma pasta ao lado de uma caixa, doze de cada, por prateleira.
‘Creio que ali, sobre a mesa, esteja o verdadeiro tesouro’, revelei aos meus parceiros.
‘Tudo isso deve ser o tesouro. Sobre a mesa está a lápide de Chyntos, se for o livro de Heinrich’, comentou Clint.
‘É sim, o livro de Heinrich. Mas por que é o senhor diz que é a lápide de Chyntos?’, disse Helena, que conhecia bem o livro.
‘Porque ali deve estar o nome dele, que ele faz questão de não estar em lugar nenhum. É uma arma para pegá-lo, mas não é o tesouro que Heinrich escondia’, respondeu Clint.
‘É um tesouro’, murmurei.