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Tendências, debates e contribuições
A Revista Ouro Preto Cultural publicará uma série de artigos, aqui nesta coluna, com fulcro no futuro de Ouro Preto. Acreditamos que o planejamento e a criatividade na elaboração de projetos, aliado ao trabalho persistente, podem trazer resultados consistentes para a cidade, principalmente com a participação de todos os cidadãos interessados no bem comum.
Por isso abrimos este espaço para que os interessados em realmente contribuir para o enriquecimento das discussões sobre um futuro melhor para todos  em Ouro Preto opinem, apresentem sugestões e ideias.
O que será do trânsito no centro histórico de Ouro Preto em 10 anos? O que será das estreitas ruas e calçadas, já com excesso de tráfego? Da falta de água, não só na sede, mas também em todos os distritos? O que será de Lavras Novas que já está no limite da saturação, em datas especiais? Os problemas urbanos de Cachoeira do Campo já são problemas de uma cidade de pequeno porte, como estarão daqui a 10 anos? Miguel Burnier, Antonio Pereira estão hoje gritando por ajuda para solucionar problemas de toda ordem, e daqui a 10 anos como estarão? Questões como essas estão aí para serem resolvidas, com planejamento e projetos.
Para resolvê-las as soluções passam pela discussão agora, com a participação de todos.
A falta de recursos não pode ser arguida como justificativa para a falta de planejamento e proposição de projetos  de médio e longo prazo.  O levantamento das questões e problemas atuais mais importantes, e colocados em perspectiva, a criação de projetos para solucioná-los, tem de ser buscados com afinco e de forma imediata, por toda a comunidade.
O espaço está aberto, aqui! A qualquer hora, qualquer pessoa pode enviar suas contribuições  em textos, pois a forma eletrônica permite que todos contribuam de forma  educada,honesta e cidadã com suas ideias e sugestões.
O primeiro artigo vem do Jornalista Mauro Werkema que abre o espaço para  refletir o futuro de Ouro Preto. Textos podem ser enviados para: ouropretocultural.opc@gmail.com

Ouro Preto e o risco de incêndio

                                                                                                     Mauro Werkema
As chamas que destruíram o valioso acervo do Museu Nacional  despertam um alerta que precisa ser urgentemente considerado em Ouro Preto: a velha cidade está preparada para prevenir e enfrentar qualquer ocorrência de incêndio? A indagação é fundamental e urgente e requer respostas objetivas, derivadas da realização de levantamento técnico absolutamente verdadeiro e minucioso sobre a realidade encontrada.
A cidade já teve algumas ocorrências que vale a pena lembrar: a destruição do antigo hotel e restaurante Pilão, na Praça Tiradentes; uma casa na rua São José e, há mais tempo, o antigo Forum, também na Praça Tiradentes, hoje transformado em restaurante universitário. É fundamental que o levantamento indique deficiências, carências, riscos potenciais e encaminhe relatório aos setores responsáveis, inclusive determinando providências aos proprietários particulares dos imóveis indicados, além dos públicos.
É notório que Ouro Preto, pelo tipo das construções, especialmente do seu núcleo histórico, algumas ainda da típica arquitetura colonial luso-brasileira de feição setecentista, é suscetível a incêndios. São edificações com o uso abundante de madeira, não só nas armações de sustentação mas nos telhados, no uso de esteiras, no “pau a pique” ou na “taipa de pilão”. E com um agravante: as casas são conturbadas, ou seja, ligadas e, às vezes, pelo mesmo telhado, o que favorece a extensão e propagação de fogo.
É preciso inspecionar a fiação elétrica e ver suas condições. Identificar gambiarras e ligações perigosas.  É preciso evitar o uso de determinados aparelhos elétricos em mau estado e com demandas de energia acima da exigência técnica da fiação, com risco de curtos.  É essencial que moradores estejam advertidos de perigos e riscos e até que tenham meios caseiros de evitar incêndios. Seria recomendável até uma campanha de esclarecimento e de advertência a todos quanto aos riscos e procedimentos de segurança e que tomem providências para garantir maior segurança, incluindo práticas perigosas com o fogo.
É preciso saber como está o Corpo de Bombeiros local. Está equipado para combater, com rapidez e recursos humanos e técnicos, qualquer incêndio: possui viaturas e equipamentos necessários, realiza ações contínuas e regulares de fiscalização e inspeção, mantém postura rigorosa com os alvarás? A cidade possui hidrómetros em pontos estratégicos do conjunto urbano? E o deslocamento urgente de viaturas é possível, especialmente no caso de grandes festas populares?
Em 1994, em decorrência de um convênio entre a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, o Corpo de Bombeiros e o Departamento de Eletrotécnica da Escola de Minas foi realizado um levantamento de 52 imóveis quanto à fiação elétrica: apenas oito tinham as condições consideradas seguras pelo Corpo de Bombeiros. E hoje: qual a situação.
Seria muito oportuno que fosse realizada nova verificação, para a segurança de todos e deste valioso Patrimônio Cultural da Humanidade.

Um novo carnaval para Ouro Preto

                                                                                                     Mauro Werkema
O extraordinário crescimento do Carnaval de Belo Horizonte, a partir de 2014, tirou grande parte do público que vinha para Ouro Preto. E tornou possível que o Carnaval volte aos tempos em que permitia maior participação e convivência dos ouro-pretanos, com maior segurança pessoal e menor risco para a cidade e possibilitando a adoção de iniciativas criativas que valorizem ainda mais a grande festa.  Sem perder a alegria e a espontaneidade, é hora de se voltar ao que se chamou, há alguns anos, de “Carnaval Cultural”, compatível com a tricentenária cidade e seu acervo   patrimonial, atraindo novos foliões dispostos a ter um Carnaval valorizado pela convivência com o cenário colonial e acolhedor que a cidade histórica e cultural propicia.
Festa eminentemente popular, em que todos, de maneira democrática e espontânea, em surpreendente e explosão de alegria e de convivência, saem às ruas e se   manifestam, em clima de liberdade e compreensão, o Carnaval é a maior festa brasileira e que alcança todo o território nacional. O Carnaval de Ouro Preto tem fama que ultrapassa os limites regionais e atrai milhares de foliões das mais diversas origens e que curtem o clima excepcional da cidade histórica, acolhedora com seu cenário colonial e intimista, que incentiva a convivência e estimula   uma contagiante alegria e descontração. Mas o Carnaval não é só o momento em que a população e os visitantes liberam   emoções: gera receitas para a cidade turística, para seus hotéis, bares e restaurantes e outros prestadores de serviços.
A grande festa, no entanto, exige planejamento amplo e rigoroso para que ocorra sem risco à cidade, ao seu patrimônio histórico, aos foliões e garanta a prestação de serviços públicos essenciais, segurança, limpeza, trânsito, assistência hospitalar, boas informações, garantia de desfiles e até mesmo o apoio às escolas de samba, blocos e agremiações carnavalescas. A festa interessa a todos, ouro-pretanos, visitantes, estudantes, comerciantes, mas o planejamento é fundamental para garantir que tudo ocorra bem, levando-se em conta a peculiaridades da cidade, certa carência de serviços públicos, o bom uso dos espaços, horários de desfiles, ornamentação e muitos outros detalhes. E que impere uma acolhedora alegria, herança histórica da tricentenária cidade, que é também centro universitário, com os estudantes e suas repúblicas dando um colorido especial à festa.
A partir de 1994, por ação da Prefeitura e com apoio da imprensa, o Carnaval de Ouro Preto ganhou fama e dimensão extraordinárias. Atraiu multidões que a cidade não comportava, colocando em risco o seu patrimônio arquitetônico e a própria segurança das pessoas. As ruas estreitas, típicas do seu traçado colonial, eram ocupadas por multidão que impedia qualquer controle para o trânsito emergencial e para a própria segurança. Ocorreram conflitos diversos e constatou-se a precariedade dos serviços públicos. A Polícia Militar chegou a elaborar relatório alertando para os riscos de uma festa de tal dimensão em cidade histórica e a impossibilidade de garantir a plena segurança patrimonial e dos próprios foliões.  Os riscos, no entanto, persistiram por muitos anos.
E que haja espaço para o desfile dos antigos blocos, o mais antigo, com 150 anos, que é o Zé Pereira do Clube dos Lacaios, o Banjo de Prata, o Balanço da Cobra, o Vermelho e Branco, a Bandalheira, o Bloco do Caixão e os vários do Carnaval das repúblicas estudantis. E as antigas escolas de samba.  E que a rua São José volte a ter um Carnaval de famílias ouro-pretanas, em convívio harmonioso com os foliões de toda tipo e origem. E que as repúblicas estudantis, com ação mais enérgica da Reitoria da UFOP, também sejam contidas nos seus excessos que acabam por tornar a festa mais difícil para eles e toda a cidade. Mas sem perder a alegria.
É o momento de corrigir distorções, evitar excessos, criar condições para que a festa transcorra sem os incômodos da multidão incontida, nem sempre a mais desejável, criando novas condições para que o Carnaval seja de todos, visitantes e ouro-pretanos, para o bem da alegria e no interesse da cidade.  É hora, portanto, de iniciar o planejamento, com a convocação de todos os segmentos, escolas de samba, blocos, empresários, repúblicas estudantis, serviços públicos, policiamento, em diálogo amplo e produtivo.

A atualidade de Tiradentes

                                                                                                     Mauro Werkema
Há 226 anos, a 21 de abril de 1792, subia ao cadafalso, no Rio, o alferez Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Herói popular, pagava com a vida, aos 46 anos, as ideias republicanas, anti-colonialistas e de autonomia política e econômica da Colônia. Contestado por uns mas exaltado pela História, o revolucionário mineiro, com seus companheiros inconfidentes,  poetas, padres, militares e  comerciantes, pregaram a liberdade pelos caminhos de Minas e do Rio de Janeiro e foram os precursores da Independência Brasileira alcançada em 1822. Por suas palavras e gestos, nos Autos da Devassa, Tiradentes não renegou suas ideias, assumiu responsabilidades e pregou, com firmeza, sua convicção de que “os brasileiros, se o desejassem, poderiam fazer deste País uma grande nação”.
A pesquisa histórica mais recente  valoriza a Inconfidência Mineira, sobretudo por seu ideário ideológico, como expressão de um avançado pensamento político nestas  longínquas e montanhosas terras, a  Vila Rica, vista hoje  como coroamento do excepcional surto  artístico e cultural que marcou o Século XVIII mineiro. Tal visão, atualizada e acompanhada por historiadores,   é sintetizada  pelo “brazianist” Kenneth Maxwell em “O livro de Tiradentes” (Companhia das Letras – 2013), uma coletânea do “Ato de Independência e das Leis constitutivas dos Estados Unidos da América”, de 1776, editado em Paris em 1778. Portado por Tiradentes, incluso nos Autos da Devassa,  comprova o  avançado caráter libertário e republicano dos Inconfidentes, sintonizado com o  pensamento político franco-americano iluminista, inspiração da Revolução Francesa de 1789, mesmo  ano em que, em Vila Rica, eram presos os inconfidentes.
O livro  fornece as bases históricas e ideológicas para o levante e a concepção da  nação desejada. Trazia o ideário perfeito para a aspiração de liberdade e de nacionalismo econômico dos inconfidentes, que viam na luta americana pela independência uma situação similar à que viviam em Minas Gerais: “Livre e republicano, como a América Inglesa, bem dotado pela natureza, o Brasil poderia ser ainda maior”, disse Tiradentes. O  livro  comprova, com outras publicações do iluminismo revolucionário presentes nas bibliotecas dos inconfidentes, que o movimento não era mera “restauração”, ou rebeldia de comerciantes, tolhidos nos negócios e oprimidos pelo jugo colonial português, notoriamente inepto e opressivo.
Sérgio Paulo Rouanet, estudioso do iluminismo, diz que “no tocante à Inconfidência Mineira, de qualquer maneira, não há quem negue a  influência das ideias.  Elas foram tudo – os fatos é que foram marginais”. E complementa: “Os fatos são a matéria morta da Inconfidência, as ideias do iluminismo franco-americano são a substância viva”. A Ilustração ensina a olhar para a razão, a natureza e a fé na dignidade e na liberdade do homem. Esta é a atualidade excepcional da Inconfidência, que os mineiros comemoram com orgulho e razão.

No caminho de Minas, a Virgem Aparecida

Angelo Oswaldo de Araújo Santos
O rio Paraíba do Sul nasce na serra da Bocaina, em São Paulo, mas não desce a montanha rumo ao mar. Corre como uma flecha ao longo do grande maciço da Mantiqueira, por mais de 1.100 quilômetros, até chegar ao oceano Atlântico, no município fluminense de São João da Barra. Assinalando as fronteiras dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o Paraíba tem uma importância crucial na vida da região, registrada desde os primórdios da colonização portuguesa.
Os jesuítas fundaram um colégio para a catequese e proteção dos indígenas, junto ao rio Tietê, no planalto de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554, iniciativa que deu origem à cidade de São Paulo. Com a ocupação da área planaltina (arraiais de Santo Amaro, Santo André, São Caetano e São Bernardo), expandiram-se as atividades agrícolas e pastoris na direção que os paulistas chamavam de Norte, ou seja, o vale do Paraíba do Sul.
Nessas terras propícias ao cultivo, instalaram-se sucessivas sesmarias, com vistas à rápida exploração do solo, surgindo vários núcleos urbanos, como Taubaté, Guaratinguetá, Pindamonhangaba. Além dos bens de abastecimento, o vale do Norte oferecia outro atrativo aos paulistas, por evidenciar-se como a direção mais adequada à conquista dos sertões desconhecidos, para além da portentosa muralha da Mantiqueira (amant-kira, a chuva dormida ou lugar onde a chuva dorme, segundo os indígenas).
Pelas passagens estreitas por entre as encostas abruptas da Mantiqueira, os bandeirantes paulistas, tanto da vila de São Paulo quanto dos arraiais do vale do Paraíba, conseguiram atingir o território do Sul de Minas, enveredando no rumo do rio Grande, a Oeste, e do rio Paraopeba, a Leste. Foi acompanhando o Paraopeba que a bandeira de Fernão Dias Pais Leme, posta em marcha em 1674, logrou penetrar na região Norte de Minas Gerais, depois de o genro do sertanista, Manuel Borba Gato, haver encontrado ouro no Sabarabuçu (itaberaba-açu, a pedra brilhante grande) do rio das Velhas.
Os descobridores do ouro preto (recoberto por óxido de ferro), em 1698, foram o taubateano Antônio Dias de Oliveira e o padre açoriano João de Faria Fialho, que deixou a função de vigário de Pindamonhangaba para aderir à bandeira que fundou a antiga capital de Minas Gerais. Logo a zona aurífera recebeu milhares de pessoas, deslocadas de São Paulo e dos grupos nômades de garimpagem em trânsito ao Sul de Piratininga, ou do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, bem como do Norte de Portugal, cuja população, aos milhares, de imediato pretendeu atravessar o Atlântico e mergulhar nas profundezas do Brasil.
O rei Dom João IV, restaurador da monarquia portuguesa, em 1640, após 60 anos de domínio espanhol, havia prometido aos paulistas a governança das minas de ouro do Brasil. Considerando-os sertanistas experimentados na caça aos índios, escravizados para o trabalho nas lavouras canavieiras do Nordeste, o soberano quis incentivá-los a desbravar as terras ignotas visando a descoberta do eldorado que Deus havia seguramente reservado para seus fiéis lusitanos. Assim, os paulistas receberam cartas e títulos e puseram-se à frente das atividades mineradoras, rechaçando com violência a presença não só de portugueses, como de brasileiros de outras partes da colônia que afluíram às Minas Gerais, por considera-los “forasteiros”.
O primeiro rei da dinastia dos Bragança também entregou aos cuidados de Nossa Senhora da Conceição a sorte das bandeiras que se aventurassem pelo sertão brasileiro. Entre os inúmeros títulos da Virgem Maria, o da Conceição foi sempre o predileto dos portugueses. Dom João IV havia consagrado o reino a Nossa Senhora da Conceição, em busca de sua proteção à independência recuperada em 1640. Desde então, os monarcas passaram a deixar a coroa real sobre uma banqueta ao lado do trono, como sinal de pertencer à Conceição Imaculada. Não haveria melhor protetora para a descoberta do ouro que a Senhora à qual Portugal inteiro estava confiado. Daí o fato de as primeiras igrejas de Minas Gerais terem a Conceição como orago, tal como se vê em Ouro Preto, Mariana, Sabará, Piranga, Raposos, Serro, Congonhas, Conselheiro Lafaiete (Queluz), Conceição do Mato Dentro.
Em 1701, o desabastecimento provocado pelo abandono das roças de milho, em razão da obsessiva labuta no garimpo e na faiscagem, resultou na fome que traumatizou ainda mais a zona mineradora. Os embates entre pioneiros e forasteiros desembocaram na Guerra dos Emboabas, que se desenrolou nas duas primeiras décadas do século XVIII. Em nhangatu – variante tupi praticada pelos paulistas –, emboaba significa o pinto calçudo, um frango do mato cujas penugens nas coxas lembravam as botas de cano alto dos portugueses. Para fazer-se mais próximo do teatro de guerra, o governo metropolitano criou, em 1709, a Capitania de São Paulo e Distrito das Minas de Ouro, que seria desmembrada, em 1720, resultando nas Capitanias autônomas de São Paulo e de Minas Gerais.
O primeiro governador de São Paulo e Minas foi o governador do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, removido para o novo desafio. Após tomar posse na vila de São Paulo, ele seguiu para a região de Ouro Preto, onde se instalou, mandando comprar “huãs casas” do minerador Henrique Lopes para implantação de seu palácio, cujas ruínas são vistas, ainda hoje, na encosta da Encardideira. Cerca de dois anos depois, em 1711, Albuquerque criou as três primeiras vilas (municipalidades) em território mineiro: Mariana (Vila do Carmo), Ouro Preto (Vila Rica) e Sabará.  Em 1713, passou o governo de São Paulo e Minas a Dom Brás Baltazar da Silveira, que atuou a partir de Ouro Preto até 1717.
Foi exatamente no ano de 1717 que Lisboa enviou Dom Pedro de Almeida, o conde de Assumar, para exercer o governo de São Paulo e Minas, com recomendações expressas de pôr fim ao estado de beligerância em que se dilacerava o áureo distrito. Desembarcou no Rio de Janeiro, de onde saiu em 24 de julho e chegou a Vila Rica em 1º de dezembro, tendo permanecido em São Paulo durante o mês de setembro. Um companheiro de viagem escreveu o detalhado “Diário da jornada que fez o Exmo. Sr. Dom Pedro desde o Rio de Janeiro até a cidade de São Paulo, desta até as Minas Ano 1717”. As andanças foram marcadas pelas dificuldades alimentares. Do “Diário”, destaca Eduardo Frieiro em seu famoso livro sobre a comida mineira, um trecho curioso: “Penetrando no interior, com alguns dias de jornada, só encontraram para cear, no rancho dum paulista, meio macaco e umas poucas formigas, que era tudo quanto se achava. O conde agradeceu a oferta e indagou que sabor tinham aquelas iguarias. Respondeu o paulista que não havia naqueles matos circunvizinhos caça mais delicada e que as formigas eram tão saborosas, depois de cozidas, que nem a melhor manteiga de Flandres a igualava”.
Narrativas de época registram que, ao passar pelo termo de Guaratinguetá, em outubro, a caminho de Vila Rica de Ouro Preto, depois de empossado em São Paulo, o terceiro titular da Capitania quis comer peixe, pelo que houve ordem para que três competentes pescadores fossem logo ao Paraíba. O rio sempre fora farto em peixes, e a toponímia Pindamonhangaba significa, em tupi, lugar onde se fazem anzóis. Os pescadores Domingos Alves Garcia, seu filho João Alves e o cunhado Felipe Pedroso tentaram inutilmente achar peixes, até que retiraram das águas, em sua rede, um fragmento de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição para, logo em seguida, encontrarem a parte faltante da cabeça.
Trata-se de uma peça de terracota, modelada à maneira das cerâmicas cônicas da segunda metade do século XVII e inspirada nas estatuetas de marfim procedentes da Índia. A Virgem tem as mãos postas, na altura do seio, e traz os longos cabelos descobertos, descendo sobre as costas. Uma cabeça de anjo mostra-se na base, por entre nuvens atravessadas por uma lua em quarto crescente.
São Paulo teve destacada produção de peças sacras em cerâmica, desde o século XVII, chegando ao século XIX as famosas “paulistinhas”, imagens de pequeno porte de santos em terracota, além de obras de outros mestres em variada dimensão. Na origem dessa tradição está Frei Agostinho de Jesus, beneditino nascido no Rio de Janeiro em 1600 e falecido em São Paulo, em 1661, talvez discípulo de Frei Agostinho da Piedade, português que se radicou na Bahia. Agostinho de Jesus trabalhou em Santana do Parnaíba, nas proximidades da cidade de São Paulo. A ele tem-se atribuído a autoria da imagem resgatada pelos pescadores no rio Paraíba do Sul, já que a padroeira do Brasil ostenta características marcantes da fatura do escultor da Ordem de São Bento. Escurecida pela umidade, a Conceição aparecida no Paraíba conservou essa camada de limo que escondeu, para sempre, a pintura que devia recobri-la, como nas imagens congêneres contemporâneas. Consagrou-se, rapidamente, a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em cuja honra se edificou uma igreja, atual Basílica Velha, nas proximidades da qual veio a se erguer o colossal santuário anualmente visitado por milhões de peregrinos.
Assumar conviveu por quatro anos com os distúrbios e conflitos que subverteram a vida nos morros de Ouro Preto. Combateu cruelmente os revoltosos de Vila Rica e instalou-se em Mariana, no palácio “construído em colina ainda sem arruamento”, segundo Diogo de Vasconcelos, casarão que se vê ao lado da igreja de São Francisco de Assis. Pouco abaixo, mandou construir em 1719 o imponente quartel de Vila do Carmo, depois demolido. Um ano mais tarde, de Mariana, o conde comandou a repressão à sedição de Vila Rica e orientou a erudita narrativa do episódio, por meio da qual é justificada a violência de sua ação. O governador mandou atear fogo no morro mais populoso de Vila Rica, por isso Morro da Queimada, e ordenou o esquartejamento de Felipe dos Santos, na praça hoje chamada Tiradentes.
A fim de justificar a execução sumária do português Felipe dos Santos e mais arbitrariedades, o “Discurso Histórico e Político sobre a Sublevação que nas Minas houve no ano de 1720” foi encaminhado às autoridades metropolitanas. É atribuído pelos melhores historiadores aos jesuítas Antônio Correia e José Mascarenhas, de acordo com a assertiva de Laura de Mello e Souza no estudo introdutório da edição promovida pela Coleção Mineiriana, da Fundação João Pinheiro. O códice original do Arquivo Público Mineiro foi adquirido em 1895 em leilão da biblioteca do Conde de Linhares, em Lisboa. Uma das frases famosas do “Discurso” sintetiza o ambiente turbulento em que se encontrou o conde governador: “O clima é a tumba da paz e berço da rebelião; a natureza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é como no inferno”.
“Santuário Mariano, e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora, e das milagrosamente aparecidas, que se veneram em todo o bispado do Rio de Janeiro & Minas, & em todas as ilhas do Oceano”, publicado em Lisboa, em 1723, integra a série de livros de Frei Agostinho de Santa Maria sobre o culto à Virgem em Portugal, na África, na Índia e no Brasil. Este décimo volume cuida do culto mariano no Sudeste e contempla as igrejas então existentes em Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Constata-se que, com cerca de um quarto de século de ocupação, o território das Minas já se achava pontilhado por capelas e matrizes consagradas a Maria.
Também no Setecentos, apareceu uma imagem da Virgem da Conceição, na pequena localidade de Córregos, nas imediações do arraial de Conceição do Mato Dentro, no termo da Vila do Príncipe do Serro Frio, hoje cidade de Serro. Caracterizou-se, desta forma, a Nossa Senhora Aparecida de Córregos, em honra da qual se ergueu uma pequena capela, até hoje centro de romarias. Tem o frontispício chanfrado e guarda um pequeno e curioso órgão de tubos, semelhante ao da igreja do Carmo de Diamantina.
Em Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro, aconteceu fenômeno semelhante, quatro anos após o achado no Paraíba do Sul. Um pescador chamado Domingos André Ribeiro, tendo portanto o mesmo prenome de um dos três pescadores da Aparecida paulista, exercia seu ofício no dia 24 de setembro de 1721, na passagem da ilha do Cabo, na parte denominada Taboleiro, quando alcançou uma grota de pedras no Focinho do Cabo. Era a grota dita “das Galhetas”, por onde entrava o mar bravo. Ali, o pescador viu uma imagem “feita de nogueira, do comprimento de um palmo e três dedos, desbotada de todas as tintas e somente com a encarnação ainda perfeita no rosto e nas mãos, que mostrava ser a Senhora da Conceição, por trazer uma lua sob os pés e as mãos levantadas”. Trata-se de escultura caracterizada pelo estilo das imagens da Conceição em madeira, no final do Seiscentos, início do Setecentos. O fato chegou ao conhecimento do governador da cidade, da Câmara, do vigário e do guardião do convento de Nossa Senhora dos Anjos, que resolveram fazer a pomposa trasladação da imagem para a igreja matriz de Cabo Frio.
Tendo recebido petição do povo de Cabo Frio para mandar construir um templo “para a Virgem Aparecida”, o rei Dom João V mandou fazer averiguações e acabou por ordenar ao provedor da Fazenda do Rio de Janeiro, em 18 de janeiro de 1731, que se levantasse a capela para “a Senhora Aparecida” dentro da igreja matriz, não despendendo com a obra mais que um conto de réis. Um altar em estilo nacional português, com colunas em arquivoltas, ricamente ornamentado, foi consagrado à Aparecida de Cabo Frio. O chamado estilo Dom João V ou joanino somente se expandiria no Brasil na década de 1740, quando apareceu nas matrizes do Pilar de Ouro Preto e de São João del Rei.
Os trabalhos na igreja paroquial de Cabo Frio consumiram recursos muito superiores, autorizados em seguida pelo rei, que doou também sinos para a matriz. Dom João V, obsessivamente religioso, escreveu ao bispo do Rio de Janeiro para dizer-lhe que nada faltasse ao esplendor da festa da “Senhora Aparecida”, conforme registrado em “Milagrosa Virgem Aparecida de Cabo Frio”, obra de Frei Cláudio Pierezan, publicada pela Imprensa Nacional, em 1946.
Em Guaratinguetá, cidade à qual está ligado Santo Frei Antônio Galvão, o primeiro brasileiro elevado à honra dos altares, a primeira capela dedicada à Conceição Aparecida ficou pronta em 1745. Vale assinalar que foi na Vila do Ribeirão do Carmo, então prestes a tornar-se Cidade de Mariana, que Dom Frei João da Cruz, bispo da diocese do Rio de Janeiro, que ainda abrangia toda a Capitania de São Paulo e quase toda a de Minas Gerais (separadas em 1720), assinou o decreto canônico, erigindo a capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Guaratinguetá. A assinatura data de 5 de maio de 1743. Coincidentemente, dois anos depois, achando-se de novo em Mariana, em preparativos para a instalação da diocese primaz de Minas, o mesmo bispo Dom Frei João da Cruz, ciente de haver sido edificada a capela da Aparecida, autorizou por provisão de 22 de maio de 1745 a sua bênção litúrgica e o culto divino, conforme registro histórico em obra publicada em 1968 pelo arcebispo Dom Oscar de Oliveira.
A Basílica velha começou a ser edificada em 1834 e foi consagrada em 1888. A atual Basílica, uma das maiores do mundo, teve início em 1955. Aparecida emancipou-se como município e suprimiu da toponímia a expressão “do Norte”, que se referia à primitiva denominação do Vale do Paraíba paulista.
Em março de 1822, o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, no curso de sua segunda viagem (a primeira foi em 1816) do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo, anotou interessante observação a respeito do culto à Aparecida e o sítio onde se construiu a sua primitiva igreja. Ele atesta o intenso fervor que, às vésperas da independência, cercava a imagem da futura padroeira do Brasil.
Escreveu Saint-Hilaire: “A uma légua de Guaratinguetá, passamos em frente da capela de N. Sra. da Aparecida. A imagem que ali se adora passa por milagrosa e goza de grande reputação, não só na região como nas partes mais longínquas do Brasil. Aqui vem gente de Minas, Goiás, Bahia cumprir promessas feitas a N. Sra. da Aparecida. A igreja está construída no alto de uma colina à extremidade de grande praça quadrada de rodeada de casas. Tem duas torres como campanário, mas seu interior nada apresenta de notável. O que é notável realmente é a vista encantadora desfrutada do alto da colina. Descortina-se região alegre, coberta de mata pouco elevada. O Paraíba ali descreve elegantes sinuosidades, e o horizonte é limitado pela alta cordilheira da Mantiqueira”.
O ituano Dom Antônio Joaquim de Melo (1791-1861) foi o sétimo bispo de São Paulo, cuja diocese fora instituída em 1745 pelo rei Dom João V e pelo papa Bento XIV, por meio da mesma bula (Candor Lucis Aeternae) que criou a diocese primaz de Mariana, em Minas Gerais.  Em seu governo, que transcorreu entre 1851 e 1861, o prelado decidiu proibir a caracterização de Nossa Senhora Aparecida como uma santa negra, alegando que a Virgem Maria não era preta e devia ser venerada com as feições de uma mulher branca. Foi assim que encomendou uma estampa, impressa em Paris, na qual se vê uma Senhora de cor branca, com o manto azul, à maneira das imagens da Virgem cultuadas em Copacabana, na Bolívia, e Lujan, na Argentina. A cor preta, decorrente do limo que envolveu a estatueta de terracota durante o tempo em que permaneceu no fundo das águas do rio Paraíba do Sul, desagradava o bispo ao ponto de ele conceder quarenta dias de indulgências plenárias a quem rezasse diante da gravura da Aparecida branca.
Os fiéis, no entanto, em esmagadora maioria, recusaram-se a aceitar a nova iconografia, de modo que a Conceição Aparecida continuou a ser venerada como a querida santa preta dos brasileiros. A princesa Isabel chegou a solicitar ao bispo de São Paulo que aceitasse a tradição da imagem enegrecida, o que somente voltou a ocorrer quando da sucessão de Dom Antônio Joaquim de Melo, no começo da década de 1860. Aparecida, a Conceição negra encontrada nas águas barrentas do Paraíba do Sul, ganhou uma coroa de ouro ofertada pela princesa Isabel, em 6 de novembro de 1888, um ano antes da queda da monarquia brasileira.
Quando de sua primeira visita a Aparecida, em 1868, a princesa Isabel havia oferecido um manto bordado à santa, o que lhe deu a configuração que se mantém até hoje. Sob autorização do papa Pio X, a imagem foi coroada solenemente em 1904, na presença do presidente da República, Rodrigues Alves. Em 16 de julho de 1930, por decisão do papa Pio XI, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada rainha e padroeira principal do Brasil. Aparecida batizou, apelidou e continua a nomear incontáveis brasileiras e brasileiros, além de ter-se transformado em motivo de design onipresente no país.

Ouro Preto celebra três datas

Mauro Werkema
Transcorrem este ano três datas importantes para Ouro Preto e para a História de Minas: são 320 anos da chegada do bandeirante Antônio Dias à região, quando  avista o Itacolomi  a 24 de julho de 1698  e inicia a  busca do ouro que deu origem a  Vila Rica; são  280 anos do nascimento de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, Patrono das Artes Plásticas Brasileiras, ocorrido em 1738, e 80 anos do tombamento de Ouro Preto,  em 1938, o primeiro realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que fora criado um ano antes pelo presidente Getúlio Vargas, por sugestão do mineiro Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde, e entregue à  gestão de outro mineiro, Rodrigo Melo Franco de Andrade.
Nos seus três séculos de história, Ouro Preto,  Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco/ONU desde  1980,  realizou uma singular trajetória na História do Brasil, na Colônia, no Império e na República. Legou-nos excepcional acervo artístico e cultural. Rebelde e libertária, foi pioneira no sentimento nativista brasileiro com a Inconfidência Mineira de 1789. Deu-nos a figura do Tiradentes, Patrono Cívico da Nação Brasileira em 1965. Legou-nos  poetas como Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, inspiradores, como o alferes Tiradentes, da campanha republicana que levou à Proclamação de 1889. Inspirou o Movimento Modernista que encontrou em Ouro Preto uma cidade “ histórica, artística e cívica”, perdida entre montanhas, mas onde ocorreu uma “arte autenticamente brasileira”.
Vila Rica, que  inicia o Ciclo do Ouro,  capítulo da História Brasileira,  representa também o início da  ocupação das terras interiores do Brasil-Colônia, até então restrita às margens do Oceano Atlântico. Mas será a sociedade inquieta, que se organiza velozmente na aventura e no risco, que produzirá Aleijadinho, o último gênio das artes plásticas do mundo ocidental depois do Século XVIII, no dizer de Germain Bazin, diretor do Louvre de Paris. Escultor e entalhador,  artista e mártir, nos ornatos das igrejas de Vila Rica, nos seus altares e púlpitos, na obra-prima da Capela de São Francisco de Assis, de que foi autor do “risco”,  Aleijadinho  confere ao barroco/rococó da Minas setecentista reconhecimento internacional. E coloca Ouro Preto lembrada e celebrada em todos os livros de História da Arte e da Arquitetura.
Preservada pela sua singular história e pela   exemplaridade da sua   arquitetura colonial  luso-brasileira setecentista, ainda bastante homogênea, Ouro Preto ainda  precisa encontrar caminhos que a promovam como destino turístico/cultural capaz de promover sua sustentabilidade patrimonial.  E gerar os recursos que permitam investimentos para  sua proteção e preservação, como também para a remoção  de desníveis sociais, que ainda tornam incerto seu  futuro como cidade que guarda parte importante da História de Minas e do Brasil.

A UFOP e o futuro  de Ouro Preto

Mauro Werkema
Pensar o futuro de Ouro Preto é tarefa que passa necessariamente pela UFOP.  Como também  quaisquer ações de planejamento ou elaboração de projetos que digam respeito ao encontro de soluções para  questões relativas ao ordenamento urbano, nos seus diversos aspectos. E não só porque a UFOP tem em Ouro Preto seu “campus urbano”,  no qual vive e depende  dos seus serviços públicos, o que implica em responsabilidades comuns,  mas porque detém hoje conhecimentos especializados nos campos da Arquitetura, vários ramos da  Engenharia, Economia, História, Direito,   Turismo, Medicina e Farmácia  e seus desdobramentos e aplicações fundamentais  ao moderno planejamento e organização  de conjuntos urbanos e a qualidade de vida das populações.  É bom lembrar que a UFOP tem  hoje 26 cursos superiores e cerca  de 12 mil alunos, além de duas dezenas de cursos de doutorado e mestrado.
A participação da UFOP na formulação na gestão ouro-pretana é um imperativo histórico, senão ético e de corresponsabilidade, que precisa ser resgatado com ações reais e concretas na vida atual e futura da velha cidade, sem mais perda de tempo. De resto, por sua importância histórica e cultural, mas também pelas excepcionais possibilidades de um grande aprendizado acadêmico, Ouro Preto é um campo de desenvolvimento técnico/científico para a Universidade. E, assim como em outros casos similares no mundo, poderia a UFOP encontrar-se com Ouro Preto na construção de um futuro muito promissor para ambos, população e comunidade acadêmica, em fértil e frutuoso convívio, em exemplar modelo de cidadania, solidariedade e visão de futuro.
Ouro Preto, nos seus 320 anos em 2018, é uma cidade “com traçado do Século XVIII e dinamismo do Século XX”. Cidade histórica, exemplar bastante homogêneo da herança colonial  luso-brasileira setecentista, tombada em 1938 em seu “conjunto urbanístico e paisagístico”,  destino turístico internacional e incluído pela UNESCO na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade, Ouro Preto  deveria ter na UFOP, com todas as suas áreas de  conhecimento, a principal parceria para seus problemas que, afinal, são comuns e que devem ser compartilhados no seu equacionamento e enfrentamento. Afinal, Ouro Preto  e a UFOP convivem no mesmo ambiente, e com os mesmos problemas,  e podem dividir preocupações e ações para um futuro melhor.
São muitos os campos deste compartilhamento: atualização do Plano Diretor, planejamento de expansões, assessoramento arquitetônico a edificações de menor qualidade ou expansões, legislação de uso e ocupação do solo, engenharia geológica de contenção de encostas e avaliação de riscos, melhoria da produção de água, programa econômico de atração de investimentos, estudo socioeconômico de Ouro  Preto, elaboração de projetos de busca de recursos no Brasil e no exterior,  assessoria na formulação de programas de computação e informatização de processos de gestão pública,   identificação de oportunidades de trabalho, assessoria na gestão de empresas e organizações, planejamento turístico, promoção de eventos, programas de saúde pública e de assistência médica, produção de medicamentos,  qualificação de recursos humanos. E muito mais.
Indaga-se por que a Prefeitura ainda não tem  com a UFOP uma parceria que muito acrescentaria a ambas as instituições?  O que impede? A  Prefeitura tem notórias dificuldades de recursos para contratação de consultorias. E necessita, indubitavelmente, de contar com mão de obra qualificada, a nível  superior e especializada, para seus inúmeros problemas. Ou até mesmo para buscar recursos, a partir de um exemplar,    modelar e grandioso projeto comum em favor de Ouro Preto.  É tempo e hora desta parceria, sem mais delongas, pois o mundo evolui e se transforma, em veloz corrida em que uns se perderão, estacionando-se no tempo e no espaço. Mas, sem diálogo, não há caminhos.

Qualidade, condição de sucesso

Mauro Werkema
Qualidade é cada vez mais uma condição buscada por todos os que prestam serviços, pessoas, comerciantes, empresas, serviços públicos, fabricantes dos mais diversos produtos e cidades.  E, a qualidade é, no mundo contemporâneo  em que as pessoas estão muito mais bem informadas e exigentes, uma condição essencial   à boa sobrevivência das instituições, dos negócios, dos produtos e serviços e até das relações humanas. Hoje  tamanha  é a sua importância que se tornou um capítulo especial da gestão moderna, denominada Marketing de Qualidade, ensinado em todos os cursos de administração e gestão. E que é continuamente estudada e busca em todas as organizações modernas.
Mas implantar qualidade ampla e sustentável não é fácil. Por isto, deve integrar os esforços de todas as instituições e pessoas e tornar-se um objetivo permanente, que se busca todo dia e em todas as ações. Qualidade é particularmente importante para uma cidade como Ouro Preto, destino turístico internacional, núcleo urbano de economia voltada para a prestação de serviços representada pela cadeia do turismo. A satisfação do cliente, no caso o turista, é essencial ao seu retorno, à  avaliação  que fará do serviço que recebeu e pelo qual pagou. E, ao final, diz respeito à reputação de Ouro Preto como destino turístico.
O desenvolvimento de Ouro Preto como cidade turística, com sua economia preponderantemente voltada para atender visitantes, deve integrar o planejamento da cidade e envolver não só o setor público como também o setor privado. A satisfação do cliente/turista  pode, nos nossos dias, ser medida por técnicas usuais e é o principal fator de  avaliação e conhecimento se  os serviços estão sendo prestados adequadamente. E hoje, em todo o mundo, a qualidade dos serviços prestados torna-se fator concorrencial decisivo e que, se insatisfatória, pode levar à falência  de qualquer empreendimento. A avaliação é, importante ainda lembrar, que permite otimizar processos e controles, na medida em que diagnostica pontos falhos.
A qualidade agrega valor, distingue, enaltece e valoriza o serviço ou o produto, gera preferências, estimula o retorno do cliente. Mas a qualidade é algo que passa por uma série de atributos nem sempre percebidos ou praticados  pelo prestador de serviços. Passa por um bom atendimento, pela educação e capacidade de relacionamento, formação que permita  boa informação ao cliente, por instalações adequadas, por qualidade do serviço ou produtos e que sejam honestos e com preços adequados, condições que o potencial cliente, bem informado, sabe distinguir e reconhecer. É claro que, neste conjunto de ações, é fundamental  o papel do atendente, que deve estar  bem treinado, seja cortês, capaz de prestar todas as informações e com boa capacidade de compreender e atender às demandas  e de solucionar problemas ou dificuldades.
Numa cidade turística, como Ouro Preto,  algumas condições são fundamentais, conforme várias pesquisas realizadas por órgãos nacionais e internacionais de turismo: boas condições de acesso, boas informações sobre os atrativos turísticos, folheteria com boa indicação e orientação,  sites etc, guias de turismo qualificados e não extorsivos, limpeza pública, segurança, orientação de trânsito, na locomoção e no estacionamento,  acesso facilitado aos atrativos, boa oferta de alimentação e de hospedagem. E particularmente nas cidades históricas, que os acervos artísticos e patrimoniais, estejam bem preservados e que possam ser visitados nos horários normais para os visitantes. O turista, sobretudo o do segmento cultural, espanta-se e recrimina se encontrar o patrimônio cultural mal cuidado, pois seu conceito é que aquele bem é da humanidade e por isto é que foi tombado para ser  socializado, devendo ser preservado para fruição de todos.
Ouro Preto pode e necessita   avançar muito na gestão da qualidade. É questão de planejamento, com identificação dos pontos  que precisam ser aprimorados, um diagnóstico que possa indicar o que deve ser feito e, por último, efetivas ações corretivas. Boa informação e treinamento de recursos humanos são indispensáveis. Há organizações especializadas nestes serviços e algumas iniciativas já foram feitas em Ouro Preto. Existem programas e plataformas já elaboradas e testadas em cidades turísticas. O Ministério do Turismo tem um programa especial de avaliação dos destinos turísticos. A Secretaria de Estado de Turismo é associada a este programa. Sebrae, Senac e outras entidades tem competências  consolidadas nesta área e até já trabalharam em Ouro  Preto. E a UFOP tem hoje um curso de turismo que poderia interessar-se em um projeto, como matéria essencial de formação e treinamento.   Mas é essencial que na sua execução  se envolvam todos os segmentos que tem participação na prestação de serviços, públicos e privados, sob liderança da Prefeitura e das entidades da sociedade, em especial as prestadoras de serviços.
E, finalmente, é bom ressaltar que é preciso que a qualidade seja atributo  que integre  todos em um esforço comum. Um visitante pode ser bem tratado no hotel, nas lojas, nos restaurantes, na visita aos atrativos culturais  mas um só fato ou momento negativo pode comprometer a  reputação da cidade como destino turístico. Um programa bem conduzido e bem sucedido pode representar para Ouro Preto um excepcional acréscimo no seu fluxo turístico.

Ouro Preto e a economia criativa

Mauro Werkema
O mundo em mutação traz novos paradigmas que vão remodelando o modo de vida contemporâneo.  Amplia-se a constatação de que cidades com vocação turística possam transformar-se em efetivas “economias criativas”, que são centros urbanos sofisticados de serviços, ofertantes de opções de cultura e turismo, de lazer, entretenimento, de conhecimento e locais de reuniões de negócios da rede do turismo de convenções e eventos. Este é o caminho contemporâneo para cidades com destacada vocação turística, qual seja aproveitar seu patrimônio cultural, histórico, artístico e os atrativos característicos e singulares, para tornarem-se destinos de turistas e suas diversas motivações de viagem. Ouro Preto é exemplo destacado nestes novos conceitos para as cidades históricas. O planejamento do futuro de Ouro Preto deverá, inevitavelmente, passar por estes novos conceitos, a exemplo de várias cidades em todo o mundo.
Impulsionam esta nova configuração a ampliada mobilidade humana, com as facilidades de deslocamentos em um mundo globalizado, a excepcional conectividade de pessoas e instituições pela Internet, a elevação da demanda por educação e cultura e a busca por conhecimento e a formação de uma nova sociedade do prazer e do lazer.  O conceito contemporâneo de qualidade de vida alimenta a busca de experiências vivenciais, permitidas em destinos com reconhecida vocação turística e com oferta de serviços adequados à receptividade do visitante. É neste contexto que se ampara o planejamento que adota a chamada “economia criativa”, ou “cidade criativa”, cidades com economia de serviços, onde são intercorrentes turismo e cultura.
Por sua topografia, pelas características do seu tecido urbano, pela imperiosa necessidade de preservação do seu conjunto urbanístico e arquitetônico e dos seus acervos artísticos, Ouro Preto só encontra opções de desenvolvimento pela economia de serviços, qualificando-se como destino turístico de alta competividade, pela exploração adequada desta sua vocação essencial. Ouro Preto, no seu território urbano e mesmo regional, não tem vocação para a atividade industrial ou mesmo espaços adequados, a não ser em dimensões e especificidades que não afrontem o meio ambiente e o patrimônio cultural.
É importante lembrar que uma cidade com vocação para a economia de serviços tem na imensa cadeia econômica do turismo a sua sustentabilidade. Esta cadeia de serviços está na hospitalidade, na oferta de hospedagem de qualidade, com moderna e internacional gestão hoteleira. Na gastronomia criativa, na oferta de meios de deslocamento confortáveis, na boa receptividade dadas pela orientação turística e acesso aos atrativos, na existência de informações e narrativas sobre história, cultura e acervos culturais locais. Na segurança urbana, nos serviços de guia, na limpeza dos espaços públicos, no deslocamento urbano compatível com o destino turístico, na existência de serviços médicos emergenciais, no trânsito receptivo para visitantes, na existência de centros de convenções com telecomunicações e outras exigências tecnológicas para as reuniões. E que o patrimônio artístico esteja bem cuidado, restaurado e protegido.
 É essencial à qualidade de vida contemporânea a participação em eventos culturais, artísticos, esportivos, classistas, técnico-científicos e muitos outros da economia criativa.  A crescente procura por espetáculos, de entretenimento e lazer, da boa gastronomia, das festas populares, de momentos de elevação do espírito e que permitem vivências emocionais e de conhecimento, representam uma oportunidade de um futuro melhor às cidades turísticas. Abre-se um novo tempo para estas cidades e de ganhos de renda, trabalho, emprego e melhoria das qualidades de vida. Não há outra opção de futuro para Ouro Preto, que já tem avançadas ofertas nestes campos e um programa de impulsionamento turístico não demandaria maiores investimentos.
O conceito de cidade de “economia criativa” baseia-se, nos nossos dias, na afirmação de que vivemos a época da “dream society”, ou seja, a sociedade do sonho. E também na época da economia dos sonhos.  Todos sonham em viajar, um dos maiores prazeres da vida contemporânea. E as cidades turísticas se transformam velozmente em economias que procuram atender sonhos e desejos. Cada vez mais criativas na competitividade para atrair turistas. Hoje, ao decidir viajar, as pessoas sonham com o que vão desfrutar, com as singularidades, exemplaridades ou raridades naturais ou culturais dos destinos, mas como também na cadeia de serviços. E a modernidade informativa permite escolha ampla também pela facilidade de acesso, preços e a boa propaganda.  Constata-se o quanto o planejamento do turismo se sofistica no mundo contemporâneo.
Ouro Preto, reconhecida internacionalmente, tem tudo para avançar como destino turístico forte. Tombada pelo IPHAN desde 1938, incluída na lista de Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1980, com acervo histórico, artístico e patrimonial raro, exemplar maior da arquitetura colonial luso-brasileira setecentista. Com localização competitiva no Sudeste Brasileiro, à uma hora de voo do eixo Rio-São Paulo, à uma hora de carro de Belo Horizonte. Cercado por opções de novas modalidades do turismo rural e de aventuras, já com boas ofertas de hospitalidade, tem um bom caminho para consolidar-se como “cidade criativa” do turismo e da cultura, com as opções de inovação e criatividade que suas condições permitem. Falta um planejamento que amplie e refine sua atratividade e suas ofertas de hospitalidade.

Turismo: A vocação maior de Ouro Preto

Mauro Werkema
O Turismo, nos seus diversos segmentos e a imensa cadeia de negócios que aglutina, é o maior negócio do mundo. A Organização Mundial do Turismo (OMT), já há alguns anos, vem divulgando estatísticas de que o setor é hoje 8% do PIB mundial. E mantém-se em constante crescimento, com alguns poucos momentos de retração devido a ocorrências regionais. E é o grande gerador de trabalho e renda.  É ambientalmente limpo, pode ser implementado a baixo custo.  Todos os diagnósticos sobre o futuro de Ouro Preto apontaram a inequívoca vocação da cidade para o Turismo, a partir de vários vetores que conferem à tricentenária cidade qualidade e condições competitivas singulares, capazes de promover um expressivo salto nos fluxos turísticos.  Depende de planejamento, de visão de futuro, de união de esforços e da vontade coletiva, das instituições públicas e privadas. Vejamos estes vetores:
Patrimônio Cultural da Humanidade (título concedido em 1980, pela UNESCO), Ouro Preto é conhecida em todo o mundo, abrigando rico e raro acervo artístico e histórico do Século XVIII e XIX. É considerado um “Destino Ouro” do Ministério do Turismo, colocando-se entre os mais famosos do Brasil. É tombado pelo IPHAN desde 1938. Recebe de Getúlio Vargas em 1933 o título de “Patrimônio Nacional”.  Possui acervo arquitetônico ainda bastante íntegro e homogêneo, exemplar da arquitetura luso-brasileira setecentista e considerado uma das maiores expressões da cultura portuguesa de todo o mundo.  E, não só por sua exemplaridade arquitetônica e urbanística, mas também pelos acervos artísticos de suas igrejas e alguns palácios e residências, atrai visitantes de todo o mundo.
Um planejamento turístico para Ouro Preto já conta com algumas vantagens diferenciais. Em primeiro lugar o investimento não será alto quanto a imobilizações, uma vez que a hotelaria já oferece boas condições de hospitalidade e tem elevada capacidade. O setor de alimentação também oferece condições muito qualificadas, com cozinha típica, regional e até com variedades capazes de satisfazer preferências internacionais.  A acessibilidade, hoje item fundamental de competitividade turística, é outro fator favorável a Ouro Preto.  Está localizado na Região Sudeste, que abriga 45% da economia brasileira, emissora de metade das demandas turísticas, por suas agências e empresas de promoção de eventos, está próximo de grandes centros emissores de turistas, como Belo Horizonte, Rio e São Paulo, e possui rodovia de razoável condição. Está a duas horas do Aeroporto de Confins, cada vez mais um hub internacional e a pouco mais de uma hora da Pampulha.
 Além do segmento de turismo cultural, Ouro Preto possui hoje o Centro de Convenções que lhe permite usufruir do Turismo de Eventos e Negócios. Em 1994, ao propor à UFOP a implantação de um Centro de Convenções, no antigo Parque Metalúrgico, então desativado, a Prefeitura atendia a um diagnóstico sócio-econômico que indicava a necessidade de qualificar o público visitante de Ouro Preto através do turismo de reuniões e negócios, considerado o mais rentável de todos os segmentos. O turista de reuniões e negócios gasta cinco vezes mais, vence a sazonalidade, fornece a escala necessária à garantia da rentabilidade da cadeia de serviços do setor. É hoje o mais cobiçado e a Organização Mundial do Turismo estima que é responsável por 30% dos fluxos turísticos mundiais.
Eis, portanto, a vocação de Ouro Preto e seus diferenciais de competitividade. E é bom lembrar que abriga uma universidade, hoje de grande porte. Suas áreas técnico-científicas podem ser geradoras de eventos, congressos, convenções, reuniões, indispensáveis à atualização e à cooperação entre professores, pesquisadores e mesmo alunos. O Centro de Convenções surgiu desta preocupação e possui grande viabilidade, porque alia sua capacidade para receber reuniões médias, com espaços e salas adequadas, à atração natural, de ordem cultural e de lazer, fornecida por Ouro Preto. O que não pode acontecer, e este era o grande temor inicial quanto ao Centro de Convenções, é que se transformasse em auditório e espaço para casamentos, formaturas e outras reuniões locais, sem caráter turístico, ou seja, que não atraísse visitantes e, portanto, não gerasse investimentos na cadeia econômica do turismo.
Passados tantos anos do Centro, é fundamental que a UFOP e a rede de prestadores de serviços, hotelaria, restaurantes, lojistas, prefeitura, agências e operadoras de turismo, realizassem uma avaliação do desempenho e do impacto no turismo ouro-pretano. E que indicassem questões e posturas a corrigir com o objetivo não só de o Centro alcançar sua sustentabilidade como consolidar-se como uma alavanca forte para o turismo de Ouro Preto. É preciso dizer, no entanto, que o Turismo de Eventos e Negócios não se resume no Centro de Convenções. Sua viabilidade depende de todo um conjunto de prestadores de serviços, como a hotelaria, alimentação, informações qualificadas, receptivo adequado, limpeza pública, segurança, promoção e marketing e, sobretudo, gestão de captação de eventos, o que é essencial em um setor altamente competitivo.
O turismo, em todo o mundo, funciona como negócio moderno, competitivo, que disputa clientes com vantagens preferenciais. As ofertas estão representadas em “pacotes”, em clubes de produtos e serviços, com a cadeia econômica parceirada, em Arranjos Produtivos Locais, os chamados “clusters”. Há, em Ouro Preto, algum Arranjo Produtivo entre pelo menos três destes integrantes da cadeia econômica do turismo? É o que se torna imperativo pensar desde logo, por iniciativa do setor privado com o imprescindível apoio da Prefeitura.
Além do patrimônio cultural, Ouro Preto pode elaborar um rico programa de festas e eventos, com um calendário anual cultural, cívico, religioso, recreativo, de lazer e entretenimento, festivais, em uma imensa criatividade, como já ocorreu, bastando lembrar o famoso Festival de Inverno que era realizado pela UFMG.  O planejamento, do ponto de vista de definição de objetivos, indicação de meios, públicos, entre outros aspectos de um bom projeto, é de fácil elaboração. O que é essencial neste tipo de iniciativa é a ação integrada dos diversos atores, públicos e privados, agentes e coadjuvantes. Ouro Preto, que tem faculdades de Turismo e de Economia, tem recursos humanos capacitados a conduzir este planejamento. Depende de vontade e não mais apenas da demonstração de que é importante, viável e necessário. São necessários projetos viáveis e exequíveis.
Ouro Preto tem história, cultura e arte, títulos e fama, mas não será pelo acaso ou pela espontaneidade que poderá transformar esta vocação em efetivas riquezas econômicas e sociais para sua população.

Ouro Preto: tempo de crise é  também  de pensar o futuro 

Mauro Werekma
Tempo de crise e de recessão econômica é momento para reflexão, para repensar, reorganizar e planejar. É hora, portanto, de Ouro Preto, que vive as dificuldades da grande maioria dos municípios mineiros,  abrir uma discussão sobre seu futuro.  Poucas cidades tem, como Ouro Preto, tantas publicações sobre sua tricentenária história, na Colônia, no Império e na República, abrangendo os mais variados aspectos, de sua história, suas lutas de afirmação, o surto artístico-cultural do Século XVIII, sua preservação.  Mas nada conhecido sobre o seu futuro, sobre o planejamento do desejável e do possível, a partir de suas potencialidades, vocações, oportunidades.
Sabemos todos, no entanto, os governos federal,  estadual e municipal, os órgãos de patrimônio cultural, as instituições acadêmicas, os empresários e, de resto, todos os que têm um mínimo de preocupação com a cidade tricentenária, que é fundamental pensar no futuro. E planejar ações e iniciativas que possam, se transformadas em projetos viáveis, possibilitar a busca de recursos. Sem planejamento não há visão de futuro, não há como evitar ou sair do imobilismo. É resignar-se à estagnação, perder oportunidades e condenar a que se repitam os erros e omissões.
Pensar em planejamento para Ouro Preto  começa, inevitavelmente,  pela indagação: quais as vocações da cidade  e quais são condições diferenciais ou facilidades para pensar seu futuro? O que impede que se tornem em efetivas fontes de riqueza, trabalho e renda? E, é claro, preservem o patrimônio histórico e cultural? São, obviamente, o turismo, nas suas diversas modalidades,   e a educação,  duas riquezas de Ouro Preto e que são  excepcionais atividades do mundo contemporâneo.  Ambas oferecem amplas perspectivas de expansão e desenvolvimento de atividades integradas ou complementares. Estas duas vocações já foram apontadas por diagnósticos em diferentes ocasiões como também pela opinião de especialistas em planejamento urbano e desenvolvimento econômico e tanto a Prefeitura, como todas as outras instituições públicas e privadas de Ouro Preto o sabem. Só que não estão colocadas em um planejamento efetivo, com indicação de ações objetivas, viabilizadoras  de novas oportunidades de negócios e geração de renda.
O turismo se distingue positivamente como a atividade que mais estimula o consumo de bens e serviços e  a  giro rápido. É hoje atividade cobiçada por todo o mundo.  E é ambientalmente limpo,  gerador de trabalho e  distribuidor de renda, com boa capacidade de integração social. E, no caso de Ouro Preto, não exige grandes investimentos porque a cidade já possui bons e  variados equipamentos turísticos na hotelaria, na gastronomia, no transporte e muito mais.   Conhecida internacionalmente abriga acervo raro patrimonial, de história e arte, atrativo cada vez mais cobiçado em todo o mundo por visitantes. O  fluxo de turistas  cresce em torno de  5% a cada ano,  mundialmente, segundo a Organização Mundial de Turismo (OMT),  proporcionalmente ao crescimento da educação,  da demanda de  ofertas culturais, a busca de lazer e entretenimento e pelas facilidades de deslocamento.  Em Ouro Preto o turismo ainda é sazonal e não elevou a qualidade dos visitantes. O Centro de Convenções, criado para incentivar o Turismo de Eventos e Negócios, o segmento mais rico, não revela competitividade na atração  de eventos.
Existem no Brasil vários exemplos de cidades que reorganizaram seu turismo e hoje se tornaram destinos conhecidos e visitados. O mundo é cheio de exemplos. A metodologia de planejamento e gestão do turismo é conhecida e sem mistérios. A prática é outra coisa. Exige ação integrada entre o setor público e o privado. Exige a preparação da cidade  para o  acolhimento do visitante,  com recepção adequada, organização e  qualificação dos equipamentos turísticos, qualificação de recursos humanos, boa oferta cultural e promoção do destino não só por sua divulgação, mas pela realização de atividades culturais, como também congressos, convenções, reuniões diversas nos ramos de eventos e negócios gerais. É preciso ter presença nas redes internacionais a que estão  ligados operadores e agências de turismo, instituições que organizam eventos. Infelizmente não é a realidade de Ouro Preto onde, ao contrário, só surgem notícias negativas que não precisamos lembrar.
Ouro Preto abriga uma universidade que cresceu muito nos últimos anos. E que hoje possui cursos que poderiam ter papel importante no planejamento ou variados  campos de intervenção, como Engenharia, Arquitetura, Economia, Comunicação Social, Museologia, História.  A UFOP se beneficia da cidade,  seus serviços públicos, seus espaços. Além dos empregos que oferece, ou dos recursos que entram na cidade,  a UFOP pode fazer  muito mais por Ouro Preto. Os exemplos são fartos também em todo o mundo. Universidades se tornaram estimuladoras não só de crescimento econômico, mas de atração de iniciativas que caracterizam as  sociedades modernas. São amplas as perspectivas, na atração de investimentos, como incubadora de iniciativas empresariais, na prestação de serviços básicos e muito mais também sobejamente discutidos e  conhecidos. Um seminário sobre o que a UFOP poderia fazer mais por Ouro Preto e  traria importantes e surpreendentes ideias até para reduzir as dificuldades da convivência entre o campus universitário aberto e a cidade cultural e turística, com organização urbanística e arquitetônica excepcional, originária do Século XVIII. Convivência que às vezes se torna difícil e até antagônica. Ao que eu saiba, nunca houve o desenho de uma colaboração ampla e persistente, de ações imediatas e de ajudar a pensar o futuro.
Qualquer agenda positiva sobre Ouro Preto  teria que começar por estas duas vocações. O royalty do minério de ferro, que agora  dobrará com a alíquota de 3,5% sobre o faturamento bruto,   foi constituído para isto, ou seja, busca de atividades alternativas para a mineração, que é finita.    Ouro Preto, com a reputação que tem, mundial, tendo bons projetos, legitimados pelo apoio da sociedade e por uma instituição universitária, pode conseguir apoio e mesmo recursos com muito maior facilidade. Ouro Preto é preocupação constante de todos, de todas as instituições e governos, capaz de despertar solidariedades,  mas precisa vencer o imobilismo, a falta de visão, a inexistência de gestão qualificada capaz de diagnósticos, de elaborar projetos e buscar recursos.
Mauro Werkema | Jornalista
mauro.werkema@gmail.com